O Preço do Pecado
22 O Preço da Infiltração
Uma reunião de emergência com os chefes de Nova York exigiu a presença imediata de Heitor e Romeu. A viagem de negócios duraria cerca de dois dias, o que deixou Heitor com o estômago embrulhado. Desde a descoberta de que Viktor Petrov assumira o clã russo, o Don de Chicago andava com os nervos à flor da pele.
— Você não precisa se preocupar tanto, Heitor — Vanessa disse, sorrindo enquanto descia as escadas da mansão carregando uma pequena mala de mão. — Eu vou ficar aqui com a Natasha. Nós vamos tomar vinho, assistir a filmes e fofocar. A mansão é uma fortaleza.
Natasha aproximou-se, envolvendo a cintura de Heitor com os braços. Ela sentia a rigidez nos músculos dele. — Ela tem razão, meu amor. Enzo e os homens estão por toda parte. Vá resolver os negócios e volte para mim.
Heitor segurou o rosto de Natasha com as duas mãos, ignorando a presença de Romeu e Vanessa por um instante. O olhar castanho dele era uma mistura de posse e uma preocupação sufocante.
— Se acontecer qualquer coisa... qualquer detalhe fora do comum, você corre para o quarto de pânico com a Vanessa. Entendeu, boneca? — ele ordenou, a voz grossa e ríspida pela tensão. Heitor a beijou com voracidade, um beijo de despedida que parecia um aviso. — Eu te amo. Não se esqueça disso.
— Eu também te amo, seu rústico. Vá em paz — ela sussurrou, sorrindo.
Romeu despediu-se de Vanessa com um beijo carinhoso na barriga e na boca, e os dois irmãos caminharam até a Land Rover preta. Natasha e Vanessa ficaram paradas na imensa porta da frente, acenando até que o carro cruzasse os portões de ferro e sumisse pela estrada de concreto.
Escondido na guarita do portão lateral, Felipe observou o veículo sumir. Ele puxou um celular descartável do bolso e discou o número gravado em sua mente.
— Viktor? O lobo e o irmão saíram da toca. Estão na estrada para o aeroporto particular — Felipe sussurrou, os olhos atentos ao pátio. — Só ficaram as duas mulheres e o segundo escalão da segurança. Tem que ser hoje. À meia-noite, eu desligo os disjuntores da cerca elétrica e abro o portão dos fundos.
Do outro lado da linha, a risada gélida de Viktor Petrov ecoou. — Excelente, rato. Esteja pronto. Hoje nós quebramos o coração do Laurentis.
Invasão e Sangue
A noite caiu fria e silenciosa. Por volta das vinte e três horas, Natasha e Vanessa estavam sentadas na imensa varanda do segundo andar, que tinha vista para os jardins e para o lago. Elas dividiam uma garrafa de vinho tinto, rindo e conversando sobre como a vida de ambas havia mudado drasticamente ao se casarem com os Laurentis.
De repente, as luzes externas da mansão se apagaram de uma vez. O silêncio foi cortado pelo som seco de disparos com silenciador vindos do jardim da frente.
Taf! Taf! Taf!
Vanessa estancou com a taça no ar, os olhos arregalados. — Natasha... esses tiros foram dentro do perímetro.
— O quarto de pânico! Vamos! — Natasha gritou, levantando-se e puxando Vanessa pelo braço.
As duas correram para o corredor interno, mas o caos já havia se instalado. Homens encapuzados e armados com submetralhadoras invadiram o andar térreo. O som de passos pesados subindo as escadas fez o estômago de Natasha revirar. Enzo gritava ordens no andar de baixo, o som de fuzilaria ecoando pelas paredes de mármore.
No meio do corredor do segundo andar, dois homens armados surgiram em uma das bifurcações.
— Ali estão elas! Peguem a mulher do Don! — um deles gritou.
— Corre, Vanessa! — Natasha berrou, empurrando a cunhada em direção à suíte principal.
BUM! BUM!
Os russos dispararam. Natasha sentiu o impacto de um corpo caindo ao seu lado. Ela olhou para trás e soltou um grito de puro horror: Vanessa havia sido atingida na lateral do abdômen, o sangue vermelho-vivo tingindo rapidamente sua blusa clara. Ela desabou no tapete, gemendo de dor.
Antes que Natasha pudesse se ajoelhar para ajudar a cunhada, um par de braços fortes a agarrou por trás, prendendo-a. Ela olhou de relance e viu o rosto tenso de Felipe, o segurança da mansão.
— Me solta! Felipe, o que você está fazendo?! Ajuda a Vanessa! — ela gritou, debatendo-se.
— A vadia já era, dona Natasha. Você vem comigo. O Viktor está te esperando — Felipe sibilou, a ignorância de traidor estampada no rosto.
Natasha, lembrando-se de cada segundo do treino de defesa pessoal que Heitor lhe dera, não hesitou. Em vez de tentar puxar os braços, ela jogou o quadril para o alto, desferindo uma pisada violenta com o calcanhar de sua bota direto no peito do pé de Felipe. O homem urrou de dor, afrouxando a pegada.
Aproveitando a abertura, Natasha girou o corpo com velocidade, desferindo uma cotovelada brutal com o braço esquerdo bem no meio da boca do estômago de Felipe. O traidor perdeu o ar, cambaleando para trás. Natasha avançou, usando a palma da mão direita para desferir um golpe seco de baixo para cima no nariz dele, ouvindo o estalo do osso se quebrando.
— Sua puta! — Felipe rugiu, o sangue escorrendo pelo seu rosto. Ele avançou com fúria, segurando Natasha pelos cabelos e jogando-a contra a parede do corredor. A cabeça dela bateu no gesso, deixando-a tonta por um segundo. Felipe sacou a pistola da cintura, apontando para a cabeça dela. — Acabou a brincadeira. Eu te levo arrastada, mas te levo.
No chão, a poucos metros dali, Vanessa, segurando o ferimento na barriga com uma das mãos, usou as forças que lhe restavam. Ela esticou o braço e alcançou a arma de um dos russos que Enzo havia abatido na escada. Com as mãos trêmulas, ela mirou na nuca de Felipe no exato momento em que ele deu um passo para trás, afastando-se milimetricamente de Natasha.
BUM!
O tiro de Vanessa foi certeiro. A bala perfurou o crânio de Felipe, que desabou para a frente como um saco de batatas, o sangue sujando os pés de Natasha. Enzo surgiu no corredor logo em seguida com mais três capangas, abatendo os últimos invasores.
— Dona Natasha! Dona Vanessa! — Enzo gritou, ajoelhando-se ao lado de Vanessa, que estava pálida. — Levem as duas para o carro blindado agora! Vamos para o hospital da família!
O Alívio no Hospital
O hospital particular controlado pelos Laurentis foi cercado por mais de trinta homens armados em minutos. No salão de espera, Natasha andava de um lado para o outro, as roupas sujas de sangue de Felipe e de Vanessa, as mãos trêmulas.
As portas duplas da recepção foram arrombadas com violência. Heitor e Romeu entraram como dois demônios saídos do inferno. Eles haviam retornado da estrada em velocidade máxima assim que Enzo os alertou pelo rádio. O rosto de Romeu estava desfigurado pelo pânico; o de Heitor, por um ódio assassino.
— Natasha! — Heitor rugiu, correndo até ela e agarrando-a pelos ombros, inspecionando cada centímetro do corpo dela. — Você está sangrando? Onde te machucaram? Eu vou matar cada um daqueles bastardos!
— Eu estou bem, Heitor! O sangue não é meu! — ela explicou rápido, as lágrimas finalmente descendo. Ela olhou para Romeu, que parecia prestes a desmaiar de angústia. — Romeu... a Vanessa levou um tiro na barriga. Ela salvou a minha vida... Ela matou o infiltrado. Ela está no centro cirúrgico.
Romeu não disse uma palavra. Ele passou as mãos pelos cabelos, o peito subindo e descendo, e sentou-se em uma das cadeiras, desabado pela dor.
Meia hora depois, as portas do corredor médico se abriram e o cirurgião-chefe caminhou até eles, tirando a máscara cirúrgica. Romeu levantou-se em um salto.
— Como está a minha mulher, doutor? Fala de uma vez ou eu acabo com este hospital! — Romeu esbravejou, a ignorância dos Laurentis estalando na voz.
O médico manteve a calma, exibindo um sorriso brando. — Acalme-se, senhor Laurentis. A bala entrou de raspão pela lateral do abdômen. Não atingiu nenhum órgão vital e a hemorragia foi controlada. Foi apenas um grande susto. Ela e o bebê estão perfeitamente bem e fora de perigo.
Romeu estancou no meio do salão, a expressão de fúria sendo substituída por uma confusão total. — O... o bebê? Que bebê, doutor? Do que você está falando?
Natasha e Heitor se olharam, também surpresos.
— O senhor não sabia? — o médico sorriu mais abertamente. — A sua esposa está grávida de seis semanas. Os exames de sangue confirmaram. O estresse foi grande, mas o feto está forte. Ela já está no quarto de recuperação e quer ver o senhor.
Romeu nem sequer olhou para trás. Ele correu pelo corredor como um louco, empurrando as portas até encontrar o quarto de Vanessa. Ao entrar, viu a esposa pálida, mas sorridente, deitada na maca com o soro no braço.
— Vanessa... — ele sussurrou, aproximando-se da cama e caindo de joelhos ao lado dela, chorando como uma criança enquanto enterrava o rosto nas mãos dela. — Um bebê... Nós tentamos por três anos... Por que você não me contou?
— Eu ia te contar no fim de semana, meu amor — Vanessa sussurrou, os olhos cheios de lágrimas, acariciando os cabelos do marido. — O nosso pequeno milagre finalmente veio. Nós conseguimos, Romeu.
O Alvo nas Sombras
De volta à mansão, o cenário era de guerra. Paredes perfuradas por balas, vidros quebrados e o cheiro de pólvora ainda no ar. Heitor caminhava pelo corredor do segundo andar, onde os capangas recolhiam os corpos dos russos. A fúria dele era assustadora; ele chutava os estilhaços e gritava com os homens, a ignorância mafiosa em seu nível mais destrutivo.
— Vocês são um bando de incompetentes! — Heitor rugiu para Enzo e Marco, que mantinham as cabeças baixas. — Trinta homens armados e deixam um bando de russos entrar até o segundo andar da minha casa? Se a minha mulher ou a minha cunhada tivessem morrido, eu mesmo colocaria uma bala na cabeça de cada um de vocês!
— Heitor, chega! — Natasha interveio, aproximando-se com passos firmes, segurando o braço dele. — Eles não têm culpa. Havia um infiltrado que desligou a energia e abriu os portões.
— Quem era o rato? — Heitor sibilou, os olhos castanhos injetados de ódio.
Natasha o conduziu pelo corredor até onde o corpo de Felipe ainda estava estirado no chão, coberto por um lençol plástico. Ela puxou a cobertura, revelando o rosto do traidor com o buraco de bala na nuca e o nariz quebrado.
— O Felipe — ela disse, a voz firme. — Ele tentou me levar. Disse que o Viktor Petrov estava me esperando.
Heitor ajoelhou-se ao lado do cadáver. Ele enfiou a mão no bolso do paletó de Felipe e puxou o celular descartável que o traidor usava. Ele desbloqueou a tela e viu o registro de chamadas: havia apenas um único número discado recentemente, o mesmo que Felipe ligara antes do ataque.
Com as mãos tremendo de pura fúria, Heitor pegou o seu próprio celular, digitou o número do russo e colocou o aparelho no ouvido, esperando a linha chamar.
No segundo toque, a voz mansa e debochada de Viktor Petrov atendeu. — Felipe? Já está com a mercadoria? Me diga que a boneca do Laurentis está no banco de trás.
— O Felipe está morto, seu bastardo de merda — Heitor jogou as palavras na linha, a voz grossa e cortante como uma serra elétrica, o ódio vibrando em cada letra. — Escuta bem o que eu vou te falar, Petrov. Você mexeu na minha casa. Atirou na mulher do meu irmão e tentou tocar na minha esposa. Eu vou caçar você até nos quintos do inferno. Eu vou quebrar cada osso do seu corpo e vou te ver implorar pela morte igualzinho o seu pai fez naquele porto. Só me espera, seu filho da puta.
Do outro lado da linha, Viktor Petrov soltou uma gargalhada ruidosa, desprovida de qualquer medo.
— Ah, o grande Don finalmente ligou — Viktor ironizou, o tom caindo para uma provocação asquerosa e vulgar. — Pode vir, Laurentis. Eu vou adorar acabar com o resto do seu império. Mas antes de você me matar... eu vou pegar essa sua Natasha e vou comer ela bem gostoso, do jeito que uma mulher de verdade gosta. Ela logo vai ser minha, e você vai assistir a tudo de joelhos antes de morrer.
Heitor soltou um rugido de puro ódigo animal e t接触ou o celular contra a parede do corredor, despedaçando o aparelho em mil pedaços de plástico e vidro.
Sem dizer uma única palavra a Natasha ou aos capangas, Heitor deu as costas e subiu as escadas em direção à suíte principal a passos largos. Natasha o seguiu, o coração apertado pelo desespero na voz do marido.
Ao entrar no quarto, Heitor caminhou até a parede ao lado da janela e desferiu um soco violento contra o gesso, abrindo um buraco na estrutura. Depois outro, e mais um, os nós dos seus dedos sangrando enquanto ele tentava extravasar a fúria que o consumia por dentro.
— Heitor, para com isso! Me fala o que está acontecendo! — Natasha gritou, correndo até ele e segurando suas mãos ensanguentadas, forçando-o a olhar para ela. — O que aquele monstro te disse no telefone? Me fala!
Heitor parou, a respiração sôfrega, o peito subindo e descendo. Ele olhou para os olhos verdes de Natasha, e pela primeira vez, ela viu uma névoa de puro pavor misturada ao ódio nos olhos do chefe da máfia. Ele a puxou para um abraço apertado, quase sufocante, enterrando o rosto no pescoço dela.
— O alvo é você, Natasha... — ele sussurrou, a voz rouca e trêmula, a ignorância dando lugar a uma necessidade desesperada de proteção. — Aquele desgraçado não quer o porto, ele não quer o dinheiro... Ele quer você para me destruir. Ele quer te machucar para me ver sangrar. Eu preciso te proteger, boneca... Eu prefiro ver o mundo queimar do que deixar aquele maldito encostar um único dedo na sua pele. Você é a minha vida agora, porra. Você é a minha vida.
Natasha o abraçou de volta com a mesma intensidade, sentindo o peso do mundo da máfia esmagar os ombros do seu marido, sabendo que a guerra definitiva de Chicago havia começado, e ela era o prêmio principal.
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