O Preço de Amar
1 O dinheiro ganha
Notas iniciais
“Por que colocar um preço para se amar, se nem todos podem pagar?”
Ele me olhava e eu o olhava. Estávamos separados por uma fina vitrine. Eu queria tocá-lo e algo me dizia que consentiria meu toque. Seus movimentos eram calmos e quase nulos, por vezes parecia paralisado. Não possui aquela agitação excessiva ao ver humanos. Em resumo, era um gato. Sua pelagem branquinha como as nuvens era um convite para sentir sua textura. Seus olhinhos verde escuros tinham a magia curiosa e mística dos felinos.
Sorri. Tentei falar com ele através da vitrine. Mesmo que ele não me entendesse e vice e versa, colocou sua pequena patinha no vidro. Era um meio de comunicação. Algo se ascendeu em mim. Uma vontade de brincar com aquele novo amiguinho. Chamar sua atenção jogando um pauzinho; pegar um fio e o obrigar a pegar; sentir o ruído de seu ronronar suave; ser obrigado a compartilhar meu espaço com ele.
Miau.
Eu me perguntava o que o bichano queria. Comida? Mas ele já tinha uma tigela de ração e água ali.
Miaau.
Será que queria brincar?
Miiiaau.
Na verdade acho que é desespero de estar numa jaula transparente. Ou será que ele gostou de mim? Não. Difícil acreditar que um gatinho tão branco ia querer ficar perto de um menino sujinho como eu. Que também não tem nada de especial.
Queria entrar na loja e fazer carinho em seu pêlo. O medo dos olhares me paralisou. Estava farto deles. Mas eu sempre fui um garoto teimoso e determinado, diz mamãe. Então mesmo com receio, entrei.
A cara do dono não era muito amigável, parecia mais como se quisesse que eu não estivesse ali. Isso é bem normal. Todos que me olham, têm essa expressão. Demorou um bocadinho até ele falar.
— Quer algo?
O medo de ser enxotado e levar bronca quase me fez abrir a porta e sair correndo.
— O gato. Está pra do — Fui cortado cruelmente.
— Ele custa 5.000. E não está para adoção.
Mamãe jamais teria essa quantia de dinheiro. E mesmo se tivesse, não compraria um gato e sim a despesa para nós.
Fiquei triste. Mas talvez eu possa somente acariciar.
— Posso tocar nele? — Perguntei com uma voz fininha. Me senti tão diminuído, tão pequeno. Como se fosse um crime somente estar na loja.
— Desculpe. Ele já tem dono e acabamos de dar banho nele. — Disse o homem. Mesmo sendo criança eu fui capaz de entender o queria dizer. Não queria que eu sujava ele com minhas mãos de mendigo.
Eu poderia pegar qualquer bichinho abandonado na rua. Mas aquele pareceu me adotar em seu coração.
Novamente o dinheiro falou mais alto e isso só me faz odiá-lo. Fui obrigado a sair aprendendo que para amar nesse mundo, você precisa pagar.
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