O Preço da liberdade livro 2

26 O Fantasma das Uvas e do Sangue


O frio da varanda cortava a pele, mas Diana nem sequer estremecia. O gelo dentro dela era mais forte. O som das botas de Lucca na pedra foi o aviso de que a solidão dela havia acabado. Ele parou a poucos passos, a luz que vinha do salão desenhando sua silhueta imponente contra a neve que caía.


​— Eu me lembro de cada detalhe, Diana — começou Lucca, a voz baixa, carregada de uma nostalgia que parecia um insulto. — Lembro da jovem que quase caiu daquela árvore para salvar um gatinho. Lembro do gosto das uvas que colhíamos no jardim e de como você ria quando o suco manchava seus lábios.

​Diana não se virou. Suas mãos apertaram o parapeito de mármore até os nós dos dedos ficarem brancos.

— Essa menina morreu, Lucca. Você a enterrou na masmorra dez anos atrás. Não tente desenterrá-la com palavras bonitas.

​Lucca deu um passo à frente, ignorando a frieza dela. A voz dele tornou-se mais rouca, descendo para um tom perigosamente íntimo.

— Eu lembro de coisas que a masmorra não conseguiu apagar. Lembro do jeito que você mordia o lábio inferior quando eu te tocava... de como você gemia o meu nome — o nome que você achava que era meu — quando estávamos nos amando. Lembro do seu corpo tremendo, daquela vibração incontrolável quando você chegava ao ápice nos meus braços.

​Diana virou-se bruscamente, o rosto transfigurado por um escárnio letal.

— Como você ousa? — ela sibilou, os olhos brilhando com uma fúria selvagem. — Você fala de prazer como se fosse um direito seu, quando cada toque seu foi uma violação da minha confiança. Cada gemido meu foi para um homem que não existia. Você não me amou, Lucca. Você me possuiu sob um pseudônimo, como um ladrão que rouba o que não pode comprar.

​— O prazer foi real, Diana! O tremor foi real! — ele rebateu, tentando segurar o braço dela, mas ela recuou como se ele fosse uma serpente. — Eu posso ter escondido meu nome, mas nunca escondi o que sentia quando estava dentro de você.

​— Sinta o que quiser, Lâfrer — ela cuspiu o sobrenome dele como se fosse veneno. — Para mim, aquelas memórias são como vômito. Eu olho para o meu passado e sinto nojo de cada vez que permiti que um espião me tocasse. Você fala de uvas e gatinhos? Eu falo de dez anos de uma vida estraçalhada.

​Lucca tentou suavizar o olhar, buscando a Diana que ele conhecia.

— Você se tornou essa mulher amarga para se proteger, mas eu sei que aquela chama ainda está aí. Eu vi hoje, no jantar. Eu vi no seu beijo no quarto.

​— O que você viu no quarto foi o meu erro de um momento e o meu acerto logo depois — ela soltou uma risada ríspida, ajeitando o decote com um deboche soberano. — Se meu corpo tremeu, foi de ódio. Se eu gemi, foi de nojo. Não confunda a luxúria que eu distribuo para qualquer nobre nesta corte com o amor que você acha que ainda pode ter de mim.

​Ela se aproximou dele, o dedo apontado para o peito dele, onde o coração dele batia acelerado.

— Você é um fantasma, Lucca. E fantasmas não tocam os vivos. Fique com suas uvas e suas memórias de cama. Eu vou voltar para o baile, escolher um homem que não saiba o meu nome, e garantir que ele me faça esquecer que você sequer respira o mesmo ar que eu.

​Diana passou por ele, o ombro batendo propositalmente no dele. Ela não olhou para trás, deixando-o sozinho sob a neve. Lucca ficou parado, o cheiro de jasmim dela ainda impregnado em suas narinas, sabendo que, embora ela fosse irredutível, a fúria dela era a prova de que ele ainda era o único homem capaz de fazê-la quebrar o próprio gelo.