O Preço da Traição.
1 O Suave Tom da Suspeita.
Notas iniciais
Meus pensamentos vagavam ao longe quando acordei com os chamados de minha secretária. A próxima paciente era um de meus casos mais delicados. Eu a tratava desde muito nova, mas mesmo tendo seguido todos os procedimentos necessários para controlar a endometriose, já era tarde demais e sua fertilidade havia sido comprometida. Mostrei para ela todas as opções possíveis, todos os métodos para ter um filho que iam além de gerá-lo. Ela chorava e em meio aos soluços dizia-me que sua vida já não possuía mais um propósito, um rumo pelo qual seguir. Isso me fez pensar no quanto limitamos nossos horizontes dentro de ideias. Embora ela não possa, de fato, gerar uma criança, isso não a tornou menos mulher ou a impossibilitou de ser mãe. Não nego que o peso seja forte, porque realmente é, porém sempre há uma esperança de seguir em frente, talvez alternando um pouco seus planos e mudando o rumo original, mas ainda assim, seguir em frente.
As pessoas sempre planejam tanto as coisas, eu sou um exemplo genuíno disso. O maior inimigo do ser humano é sua rotina. Nosso hábito de fazer as mesmas tarefas, nos mesmos horários, com as mesmas pessoas. Agora mesmo, eu observava uma mulher que há certo tempo havia se tornado o alvo dos meus olhares. Todos os dias ela entrava no Four Seansons, que se encontrava à frente de meu consultório, pontualmente às 17 horas, exceto aos sábados, quando ela chega às 15 horas. Ela pedia para o táxi parar um pouco antes da porta do hotel e eu sabia que ela pedia, pois o mesmo taxista que a atendia sempre, também trazia algumas outras pessoas e sempre parava exatamente na entrada do local. A moça loira tinha o hábito de olhar para os dois lados antes de entrar e isso me fazia cogitar o motivo. Será que alguém não poderia saber que ela estava ali? Se quisesse realmente esconder sua presença eu diria para alternar mais os horários. Ela passava as noites ali dentro. Saía todos os dias às 7 horas da manhã, que era quando eu chegava ao consultório. O que ela fazia lá durante sua permanência era o real mistério para mim. Assim como seu cronograma, suas roupas também haviam se tornado previsíveis depois de algum tempo a observando. Botas, calça jeans, regata branca e sua jaqueta. Ah, as jaquetas, a vermelha era usada com mais frequência, mas de vez em quando alternava entre uma de cor preta ou azul. Ela desceu do táxi graciosamente, olhou para os lados e, por um segundo, eu podia jurar que seus olhos se encontraram com os meus, porém, me convenci de que aquilo não passava de uma ilusão, causada por um desgaste mental.
O relógio tocou, avisando-me que já era hora de voltar para casa. Hoje era aniversário de Daniel e eu planejara algo íntimo, na esperança de que isso nos aproximasse, uma vez que, aparentemente, nos tornamos tão divergentes nos últimos anos. Eu amava meu marido, com todo o meu coração e essa distância que se tornava cada vez mais evidente entre nós, me feria de forma profunda. No entanto, essa noite seria diferente. Eu daria a ele tudo o que quisesse de mim, não só meu corpo, mas também meu coração, ou simplesmente tentaria lembrá-lo de que já o pertencia. Depois de um tempo em que a mesa já estava posta e o jantar pronto, comecei a andar impacientemente de um lado para o outro, tentando encontrar motivos plausíveis para o atraso de Daniel. Assustei-me com o toque do celular ecoando pela casa vazia.
― Querida? ― uma música alta tocava e tive que me esforçar para ouvi-lo.
― Olá, amor. Onde você está?
― Eu perdi meu voo e, infelizmente, só chegarei amanhã cedo.
Ele estava mentindo e eu não precisava estar lá para saber disso. Lembrei-me de respirar fundo.
― Tudo bem. Até amanhã, então. Eu te amo, querido.
― Eu também.
A ligação foi finalizada.
Eu estava profundamente chateada com Daniel. A pior parte daquilo tudo era imaginar os motivos que o fizeram perder o voo. Caminhei pela casa vazia com o barulho de meus passos ecoando pelo piso de madeira. Lily e Henry estavam fora, na companhia de amigos e eu me encontrava sozinha e frustrada. Diante de toda a decepção, recolhi-me em minha cama e entreguei-me ao sono que não demorou a se manifestar.
Acordei com som de passos. Daniel já havia chegado. Sua maleta e casaco jogados ao canto confirmavam isso. Levantei para procurá-lo e não demorou muito para que o encontrasse na cozinha. Uma centelha de raiva pela noite passada ainda existia em mim, tão nítida quanto à claridade da manhã, mas Daniel pareceu não notar. Deu-me seu sorriso mais sínico e tocou-me os lábios.
― Não se esqueça do jantar com Sidney.
Ele não me deu chances de responder e saiu pela porta. Nosso relacionamento se tornava cada vez mais vazio e só eu parecia notar isso. O celular de meu marido apitou, pensei em ignorar, mas a curiosidade foi mais forte. Desbloqueei a tela, abrindo em seguida a mensagem, que trazia em si uma foto. Nela ele estava abraçado a uma mulher mais jovem. Desci meus olhos para ler a legenda.
“Obrigada pela noite.”
A raiva se acendeu dentro de mim, tomando proporções inimagináveis. Procurei Daniel, a fim de confrontá-lo, mas ele já havia saído. Fui me arrumar para o trabalho. O insuportável foi que, em momento algum, a imagem dele com outra garota, que aparentemente havia sido o motivo de seu atraso, deixou de habitar minha mente.
Quando cheguei ao consultório, parei alguns segundos na porta, somente para ver o táxi parar e a loira sair dele. Ela logo entrou no hotel e eu fiz o mesmo em meu prédio. Minha paciente já esperava e decidi esquecer meus problemas e dedicar-me ao que eu sabia fazer de melhor.
― Você está tomando algum contraceptivo? ― a mulher olhou-me confusa.
― Eu acho que não sei o que é fazer sexo ― seu tom carregava constrangimento ― eu nunca tive um orgasmo.
― O orgasmo é só uma série de contrações musculares, querida ― sua expressão entregava sua falta de entendimento ― não é tudo isso o que dizem. Não tem nada de maravilhoso e nem mágico nisso.
A mulher não parecia convencida, mas guardou para si mesma seus questionamentos. Passei o dia concentrada em meus pacientes e, quando dei por mim, já estava na hora de ir embora. Fui para casa aprontar-me. Escolhi um vestido preto, que ressaltasse minhas curvas, porém não de maneira vulgar. Os cabelos foram presos em um coque desfiado, que deixava a atenção voltada para os meus lábios cobertos por um batom vermelho. Calcei um scarpin também preto, que completou o visual, deixando-me satisfeita. Daniel logo chegou. Trocamos poucas palavras, pois eu sabia que não iria me conter, caso começássemos uma discussão.
Ao chegarmos ao restaurante, Sidney já nos aguardava, acompanhado de uma mulher que eu desconhecia. Seus olhos pararam em meus cabelos e ele sorriu, enquanto vinha me cumprimentar.
― Adorei o penteado ― sussurrou em meu ouvido.
― Que bom que gostou. Daniel nem ao menos notou ― não me importei em esconder a chateação.
― Não ligue. Os homens preferem sempre os cabelos soltos ― tentou consolar-me, sem obter sucesso.
Eu iria questioná-lo sobre o motivo de tal preferência masculina, quando uma mulher chegou à mesa perguntando o que iriamos beber. Tentei ignorar, mas foi quase impossível não notar os flertes que Daniel lançava para ela, enquanto a questionava sobre qual seria a melhor bebida. Olhei para Sidney, que tentou tranquilizar-me com o olhar.
― Vou ao toalete ― levantei-me bruscamente, não aguentando mais tal situação.
Eu me olhava ao espelho, tentando entender em qual momento meu marido havia parado de sentir atração por mim. Sempre fomos tão apaixonados, tão entregues um ao outro, mas isso parecia ter se dissipado. Eu me arrumava, sempre procurava manter a forma, usar as melhores joias, o que era notado por todos, porém não por ele. E com o tempo a sua falta de interesse só aumentava, tornando-se quase palpável. Sentia-me como um boneco de exibição, sendo levada para jantares e eventos. Ou como um prêmio, pelo qual ele era sempre elogiado. No entanto, eu não me sentia como sua mulher. Levei as mãos até o cabelo, com a clara intenção de soltá-los, tendo em mento o que Sidney havia me dito.
― Não os solte ― ergui a cabeça de sobressalto e avistei o reflexo no espelho.
Eu a reconheci imediatamente. Era a loira do hotel, que eu observava todos os dias, quem estava ali encostada em um dos banheiros. Seus olhos, que eu notara serem de um verde intenso, observavam-me com deleite, em uma análise minuciosa. Geralmente eu ficaria envergonhada com a situação, mas não fiquei, pelo contrário. Eu confesso que ser olhada daquela forma, cativou-me. Concedi a mim mesma a permissão de observar seu corpo. Ela usava um vestido vermelho, que deixava suas curvas delineadas e apertava-se em um decote V, ressaltando os seios. A pele clara em contraste com o vermelho vivo era uma bela visão a ser admirada.
― Um amigo me disse que homens preferem as mulheres com os cabelos soltos ― ela sorriu como se eu tivesse acabado de contar uma piada.
― Homens são idiotas ― piscou com o olho esquerdo para mim.
Sem dar espaço para mais conversa, ela entrou em um dos banheiros, deixando-me com um sorriso que nem ao menos eu entendia nos lábios. Decidi seguir seu conselho em não soltar os cabelos e caminhei de volta para a mesa.
A noite seguiu de forma tranquila. Embora a conversa fluísse em minha mesa, eu pouco dava atenção a ela, pois meus olhos, eventualmente, encontravam os verdes. A loira estava sentada a uma mesa não tão afastada da minha, com um homem que, em minha opinião, não fazia jus à sua beleza. Ele a tocava e ela o correspondia, mas para uma boa observadora era notável que o retorno vindo dela era feito por obrigação. Para um homem, aquilo era mais que suficiente. Só que uma mulher sabe reconhecer gestos e ler nas entrelinhas. Existe uma grande diferença entre o prazer e o dever, e era isso o que eu via ali. Ela o correspondia porque tinha que fazer isso, não porque era de sua vontade. Por um segundo eu cogitei uma relação abusiva, contudo os pontos se ligaram em minha mente. A mulher estava sendo paga para aquilo e no final, a fama do prédio, em que eu a via entrar todos os dias, era verossímil.
Entrei no carro com Daniel e soube que uma briga iria acontecer, já que era evidente que meu marido estava relativamente alto em consequência da bebida. Ele colocou a mão em minha coxa e eu a tirei.
― Qual o seu problema? ― questionou-me incrédulo.
― Você, Daniel. Você é o meu problema. Acha mesmo que eu não sei o motivo que o fez perder o avião? Pareço ser tão idiota assim? ― seu semblante foi abalado por minhas palavras e ele recuou.
― Eu não sei do que está falando ― ajeitou-se no banco e deu partida.
― Eu não vou discutir com você agora ― meu tom foi frio, finalizando a conversa.
Eu tinha quase certeza de que Daniel me traía, mas não tinha nada que comprovasse aquilo. Uma ideia chegou aos meus pensamentos e de imediato fui levada a ignorá-la, mas ainda naquela noite, após nos deitarmos, enquanto carregava dúvidas sobre o homem que dormia ao meu lado, decidi que considera-la não seria de todo mal e que qualquer confirmação, sendo boa ou não, era melhor do que não saber de nada e caminhar pelo desconhecido.
Acordei e me arrumei para trabalhar, como em todos os outros dias, mas diferentemente do costume, dessa vez eu não caminhei para o meu escritório. Passei pelo hall de entrada do Four Seasons, indo direto para o bar que ficava ao fundo. Eu não sabia ao certo o que estava fazendo ali e me mantinha desprovida de qualquer certeza sobre meus atos. Olhei para o relógio que marcava 6:59hs. Sentei-me em um banco que me dava visão da porta do hotel.
― Deseja beber algo, senhora? ― a voz do barman me assustou e ele sorriu.
― Um vinho branco… seco, por favor ― ele assentiu.
― Me paga uma bebida? ― sorri mentalmente, reconhecendo de imediato a voz.
― O que deseja? ― não deixei meu tom se abalar com a surpresa.
― O mesmo que está bebendo.
Sinalizei para o barman que, segundos depois, colocou duas taças à nossa frente. Observei a mulher, sem saber ao certo como proceder. Eu não tinha certeza alguma sobre sua profissão, mas minha intuição raramente falhava.
― Qual é o seu nome? ― perguntei enquanto observava ela bebendo o vinho, passando a língua pelo lábio inferior em seguida.
― Emma Swan ― seus olhos não abandonavam os meus ― e você?
― Regina Mills.
― Olá Regina ― ela sorriu e eu retribui.
Decidi que ser direta era a melhor forma de acabar com aquilo. Endireitei-me na cadeira, tendo conhecimento dos olhos verdes que me observavam a cada segundo, gravando cada mínima ação efetuada por mim. Abaixei meus olhos para minhas mãos e tomei ar. Ergui meu olhar novamente, encontrando aquela imensidão esverdeada.
― Quero contratar seus serviços, Srta. Swan.
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