Notas iniciais
Olá Cupcakes! Chegamos ao final. É difícil aceitar que esse será o último capítulo desta história. É difícil aceitar que Regina e seus devaneios filosóficos já não estarão mais presentes. É difícil, mas é real. No entanto... Acredito que nesse capítulo, mais do que em qualquer outro, teremos uma nova perspectiva do que é real. Quem sabe isso também não se aplique a esse fim. Eu agradeço a todos que me acompanharam até aqui, que aguentaram os meus longos períodos sem sinais de vida. Eu sinto muito pelas demoras, mas eu agradeço aos que sobreviveram a elas. O capítulo de hoje está maior (muito maior). Não só por ser o último, mas porque eu não consegui imaginar tudo o que está nele sendo contado de forma separada. Obrigada a Malu, por todas as revisões e as ligações em que você me deixava falar sem parar, enquanto mais uma reflexão de Regina era construída. Elas são tão reais para mim quanto o negro que toma o céu todas as noites. Soulmate. Faela, você chegou no finalzinho da história, mas foi uma peça realmente importante para mim. Obrigada pelos debates, obrigada por me acusar de manipuladora. Eu sou e você sabe disso. Enfim, todos saberão. Eu acredito em destino e eu acredito que por algum motivo estava te esperando para findar tudo isso. Obrigada. Tainá, meu amor. Eu prometi que o capítulo mais importante de O Preço da Traição seria dedicado a você. Talvez esse não seja o mais importante para você, mas a história só existe por causa dele. Ele é dedicado a você. Por fim, saibam que muito além de SwanQueen, esta sempre foi uma história sobre Regina Mills. Sem mais delongas, boa leitura!

É curiosa a forma como banalizamos o termo “bem e mal”, “luzes e trevas”. A utilização de ambos sempre me incomodou. Eu não acredito na ideia de pessoas más e pessoas boas, como se o mundo fosse dividido em duas vertentes e você tivesse de escolher de qual lado irá agir. Creio que essa noção seja uma consequência dos princípios religiosos e, até mesmo, do meio no qual estamos inseridos. Somos sempre influenciados a buscar um vilão e um herói, ainda que não o encontremos de vez, inconscientemente, atribuímos características às pessoas que as colocam no quadro. O grande problema da utilização desses termos é que eles, além de não caracterizarem as pessoas de forma fiel, geram conflitos muito grandes e reações demasiadamente fortes para que se mantenha qualquer discussão plausível. Como já dizia Shakespeare, não há bem nem mal. O pensamento é que faz o bem e o mal. Sim, pois somos nós que aplicamos as ideias. Somos nós que condenamos pessoas. Somos nós que usamos os conhecimentos para caminhar em um dos lados. Somos nós, que ao fazer isso, optamos por nos cegar. Acreditamos em dois polos distintos, quando, na verdade, o mundo é uma mescla. Uma terceira vertente. Afinal, entre o preto e o branco, há o cinza.

Eu sempre optei por acreditar em escolhas. Você faz suas escolhas e elas, por sua vez, fazem você. Como já dito, as escolhas trazem consigo uma grande carga, elas são a decisão e nem sempre são fáceis. Uma escolha, na maioria das vezes, leva a outra escolha, que se apresenta como uma consequência da primeira. Ah, as consequências. Elas estão ai e sempre estarão. Algumas culturas a vêem como carma, que nos afirma a sujeição humana à causalidade moral. Toda ação, boa ou má, irá gerar uma reação que retorna com a mesma qualidade ou intensidade de quem a gerou. Malfeitos, feitos, ações, reações, causas, enfim, consequências.

— Meu amor! — a voz de Emma fez com que eu saísse dos meus devaneios e me voltasse para ela.

Ela caminhava pela grande varanda da casa que estávamos visitando. A verdade é que iríamos ver a casa ao lado, mas Emma se apaixonou por esta e fui obrigada a segui-la até aqui. Ela era enorme, muito maior do que o planejado, mas era inegável sua beleza. Emma fez-me andar pelos três andares e, agora, estávamos na varanda do terceiro andar, que nos presenteava com uma bela visão do pôr do sol e seria, sem sombra de dúvidas, um ótimo lugar para leitura.

— Eu acho incrivelmente belo quando você simplesmente se perde em meio aos seus pensamentos. — Emma pegou minha mão, puxando-me em direção a ela. — O seu olhar muda e, geralmente, você morde o lábio inferior, como se estivesse em um tipo de batalha mental, ou algo assim.

— Eu só estava pensando sobre algumas coisas banais. — beijei seus lábios e andamos até a sacada da varanda. — Como, por exemplo, o muro dessa sacada ser muito baixo. — apontei para o mesmo e pude ver Emma revirar os olhos.

— Ele não é baixo, Regina, está em um bom tamanho e, além do mais, podemos sentar aqui e colocar as pernas para fora. Isso não é maravilhoso? Sentir o vento batendo contra o seu corpo, a liberdade de uma possível queda. — ela me encarou com o olhar inocente e eu ergui uma das sobrancelhas, em um claro desafio.

— A liberdade de uma possível queda, Swan? — cruzei os braços e ela apenas assentiu.

— Sim, é magnifico. Como andar em uma montanha-russa, sem saber se vai ou não chegar viva ao final. — neguei com a cabeça e pude ouvir seu gargalhar. — Eu estou brincando, Regina. Mas eu realmente acho que a varanda é incrível e, de qualquer forma, este quarto seria nosso. Nós temos noção do perigo, não é mesmo? — o verde dos seus olhos ganhou um tom mais escuro, que denotava a malicia em sua última frase.

— Nós temos? — Emma aproximou seu corpo do meu, guiando-me até uma das paredes.

Suas mãos prenderam as minhas, enquanto distribuía beijos por minha mandíbula, queixo e pescoço. Adentrei a jaqueta vermelha que ela vestia, erguendo a camiseta branca e sentindo a textura de sua pele contra minhas mãos. Emma mordeu meu pescoço e, ainda que eu tenha tentando reprimi-lo, um gemido ecoou pelo cômodo vazio. Segurei firmemente seus cabelos, puxando seu rosto para trás. Ela trazia um sorriso malicioso nos lábios e o desejo refletido nos olhos.

— Senhoras? — a voz masculina fez com que nos afastássemos em um pulo, para logo encontrarmos o corretor na porta, olhando-nos com um sorriso no rosto.

— Sim? — olhei-o séria, o que fez com que o sorriso desaparecesse, dando lugar a uma expressão um tanto quanto amedrontada.

— Desculpe atrapalhar, mas... — ele gaguejou, com seus olhos presos aos meus.

— Mas...? — meu tom era frio, o que não passou despercebido por ele, que engoliu seco antes de prosseguir.

— Eu pretendia mostrar os outros cômodos, mas posso aguardar se quiserem. — ele movimentava o tablet em suas mãos, denotando seu nervosismo.

— Nós vamos daqui a pouco. — Emma respondeu por mim, de maneira doce e cordial. Ele apenas assentiu e entrou novamente. — Regina Mills, eu vi o que você fez!

— Do que está falando, querida? — ela me olhava séria, mas foi traída pelo sorriso que lhe ganhou os lábios.

— Você estava o assustando de propósito! — seu indicador tocou-me o peito, acompanhando a acusação verbal. — Com toda essa sua pose, sua voz ameaçadora e esse seu olhar! Eu vi!

— Pois saiba que eu não fiz nada. — ajeitei o sobretudo em meu corpo e caminhei em direção a grande porta, que dava acesso a suíte principal.

— Você gosta disso, não é? — pude notar que Emma parou logo atrás de mim e me virei para ela, deixando claro que não havia entendido aonde ela queria chegar. — Toda essa coisa de controle e dominação. Você gosta disso, é algo que te dá prazer. Eu posso notar. — um calafrio percorreu-me o corpo e me aproximei dela.

— Isso é um problema? — ela segurou meu queixo entre dois dedos e tocou-me os lábios. O semblante brincalhão que sempre carregava consigo desapareceu, dando lugar aquela feição sensual já tão conhecida por mim.

— Não... — os seus lábios se aproximaram de meu ouvido e pude sentir sua respiração quente. — Desde que concorde em perder o controle para mim, ao menos algumas vezes. — ela se afastou, com o lábio inferior preso entre dentes.

— Podemos conversar sobre isso. — ela assentiu e eu concordei, beijando-lhe os lábios, o que fez com que soltasse uma gostosa gargalhada.

Descemos para o segundo andar, onde o corretor, agora com um ar mais profissional, detalhou os cômodos, ressaltando a boa divisão. Eles eram amplos e me pareciam aconchegantes. Eu conseguia fechar os olhos e ver um lar ali, isso tornava tudo incrível. Emma apreciava cada detalhe, como um músico aprecia uma boa melodia, seus olhos brilhavam a cada nova informação e eu me deleitava com a imagem de vê-la divagar em meio a planos.

— Olha, esse espaço é incrível. Henry vai adorar ter uma sala de tevê aqui, ele estava comentando sobre isso comigo e...

— Ele estava comentando sobre isso com você? — ela se virou para mim e pude ver suas bochechas corarem de forma adorável.

— Bom... Eu e ele... Nós... — sua mão foi levada até a nuca, como sempre fazia quando estava nervosa.

— Fale logo, Emma. — ela engoliu a seco e fixou seu olhar em um ponto qualquer.

— Nós dois estávamos conversando e seu querido filho me questionou sobre quais eram as minhas intenções com você. — Emma segurou as bordas da jaqueta e balançou o corpo, enquanto alternava o olhar em diferentes pontos, mas sem nunca, de fato, me encarar. — Como você sabe, eu planejava te chamar para morar comigo, antes de concordarmos em ver essa casa. Então eu disse a ele que os meus planos eram esses e eu fiquei com medo de assustá-lo, ou de ele dizer que não queria isso. — ela limpou a garganta e pude perceber seus olhos marejados. — Mas ele amou. Ele amou a ideia e me disse que queria muito uma grande sala de televisão, onde pudéssemos passar o dia vendo filmes, porque vocês nunca fizeram isso e ele... — eu pude, enfim, encarar a imensidão verde oferecida por ela, que, ainda que marejada, carregava uma felicidade genuína. — Ele queria fazer isso. Queria fazer com você e... Comigo. — Emma respirou fundo e secou uma lágrima solitária que lhe corria pela face.

— Ei, está tudo bem. — eu a abracei, beijando seu rosto, que logo fora escondido em meu pescoço. — Henry é incrível, Emma. Dói-me só ter notado isso a pouco, mas ele sempre esteve ali. Tão aberto e tão compreensivo. Tão diferente de Lily. — Emma ergueu o rosto, mas mantendo seu corpo próximo ao meu.

— Afinal, qual é o problema dela com você? — eu dei de ombros, sem encontrar uma resposta para aquilo.

— Em algum momento, Lily decidiu que me odiaria. Ela realmente acha que tentei contra a vida de sua mãe biológica e, sinceramente, eu já suportei muitos de seus desaforos. Não o farei mais, Emma. Ela não é nenhuma criança, pelo contrário. Já é grande o bastante para tomar decisões e ela já se decidiu. Ela decidiu não me querer em sua vida. — Emma assentiu, aos poucos o rubor deixava seu rosto e ela voltava ao normal.

— Vamos lá? — o corretor nos interrompeu novamente e eu revirei os olhos, mas antes que pudesse responder, Emma me puxou.

— Vamos sim, claro! Venha, Regina. — ela me guiou pela mão, enquanto repreendia minha falta de simpatia.

Depois de um enorme passeio pela casa, que me parecia grande demais, chegamos, enfim, a varanda dos fundos, que podia ser vista pela sacada da suíte, no terceiro andar. O piso de madeira se estendia por todo o local, salvo na lateral esquerda, onde um belo jardim de rosas vermelhas se fazia presente, com uma beleza única. Era notável que os antigos moradores abandonaram a casa antes de estar definitivamente pronta, já que os resíduos de obras se espalhavam por alguns cômodos e ali podia-se ver um emaranhado de vergalhões e blocos de concreto.

— Emma, nós podíamos escolher uma casa que já estivesse pronta e que não fosse tão grande! — tentei argumentar, mesmo sabendo que aquela guerra já estava perdida. — Veja só, ainda há coisas a arrumar por aqui e eu não estou disposta a entrar em uma rotina de obras, logo agora que quero tranquilidade e descanso. — o corretor se sentou em um dos bancos, fingindo estar concentrado em seu tablet e Emma se dirigiu a mim.

— Ah Regina, por favor! — ela segurou minhas mãos, levando-as até os lábios. — Veja o lado bom em começar uma pequena obra. Podemos colocar uma piscina aqui nos fundos, tenho certeza que Henry irá adorar! Além disso, é uma ótima oportunidade para dar alguns retoques na casa e deixá-la do seu jeitinho, com todos os detalhes que gosta. Não há muito que se fazer, são poucas coisas. — minha expressão se manteve impassível e Emma se limitou a abrir mais o seu sorriso. Aquele maldito sorriso. — Eu prometo ficar responsável pela obra, por contratar a empresa que irá trabalhar e decidir os detalhes. Garanto que você não irá se estressar com nada! Por favor! — tentei manter minha expressão séria, mas o semblante pidão de Emma, que em muito me lembrava Henry, fez com que um pequeno sorriso brincasse em meus lábios, o que bastou para ela.

— Eu vou pensar sobre isso. — limitei-me a responder.

— Isso é um sim? Eu sei que é um sim. — beijou-me a bochecha e sinalizou para o corretor, que não tardou a se aproximar. — Nós ficaremos com a casa.

Então, nós ficamos com a casa. Decidimos que a obra a se fazer seria pequena, apenas alguns detalhes seriam modificados, além da varanda dos fundos, onde Emma insistiu que deveria ter uma piscina. Enquanto eu dirigia em direção ao consultório para pegar alguns papéis, Emma estava ao meu lado, concentrada em algo no seu celular. Do lado de fora, pelas ruas de Toronto, o inverno nos presenteava com uma bela paisagem. As árvores caducifólias¹ se desprendiam de suas folhas, formando um grande tapete vermelho. A brisa fria da noite fazia com que elas se espalhassem, pairando levemente antes de ir ao chão novamente. Aproveitei a parada em um sinal para tirar o sobretudo, pois não estava tão frio dentro do carro. Olhei de relance para o lado e pude ver Emma me observar. Os seus olhos se mantinham atentos em meu rosto. Ela soltou seu cinto e se sentou de lado, senti sua mão tocar-me a coxa, apertando-a logo em seguida. Encarei-a completamente descrente do que estava fazendo, mas ela ordenou, com o indicador sobre os lábios, que eu deveria ficar em silêncio, portanto, eu entrei em seu jogo.

Ela se aproximou e seus lábios tocaram-me a mandíbula. Os meus olhos fraquejaram, mas mantive-me atenta a estrada. Emma apertou-me o seio e eu arfei. No entanto, o meu celular tocou, chamando nossa atenção e fazendo com que ela parasse.

— Você pode atender, por favor? — ela assentiu, pegando o aparelho.

— Sim? — Emma colocou novamente o seu cinto e eu prestei atenção no que era dito. — Sim, esse celular pertence a ela, mas, infelizmente, ela não pode atender agora. — eu vi a expressão de Emma perder o brilho, ela se manteve séria. — Sim, claro. Certo. — ela desligou o celular e seus olhos se fixaram em mim. — A Lily foi presa.

Eu virei o carro. Virei-o tão rápido que Emma se assustou e grudou suas mãos ao painel. Lily fora presa. A minha filha estava em uma cadeia. Por mais que você se esforce e lute para educar os filhos, por mais que dê bons exemplos e tente mostrar os melhores caminhos, nem sempre isso dá certo. Lily era uma prova do meu fracasso. Ainda que minha cabeça gritasse em revolta, o meu coração batia por ajudá-la, por tirá-la daquele lugar horrível. Então, eu corri até lá. Dirigi sem me importar com os sinais ultrapassados, ou com as multas que, com certeza, chegariam dali a alguns dias. Emma insistia para que eu me acalmasse, ela repetia que tudo ficaria bem, mas eu a ignorava. Lily precisava de mim. Estacionei o carro e respirei fundo. Emma me olhava um tanto quanto assustada, mas eu podia ver entendimento em sua feição.

— Você quer que eu fique te esperando aqui dentro? — sua mão se prendeu a minha e pude sentir quando acariciou-me a pele.

— Na verdade, eu ficaria muito feliz se você viesse comigo. — eu notei a surpresa em seu olhar. Um sorriso tremeu em seus lábios, mas ela se manteve séria. Talvez pela tensão do momento.

— Regina, mas a Lily... Ela...

— Emma, Lily é minha filha. Ainda que eu esteja travando uma guerra com ela nesses últimos tempos, ela vai continuar sendo minha filha, a menos que queira se desligar de mim. Então eu não terei como impedi-la. — suspirei e ela assentiu. — Ela vai saber sobre você e eu quero que saiba por mim. Eu não vou te esconder, pelo contrário.

— Certo, então vamos logo. — ela abriu a porta do carro e eu fiz o mesmo.

Entramos lado a lado pelas portas da delegacia. Alguns guardas me encararam com a expressão fechada, mas nada é tão relevante quanto se ter um nome de peso. E eu tinha. Não tardou para que me colocassem em uma sala junto a Lily.

— Lily, o que aconteceu? — eu estava irritada, mas tentei ser dócil. Talvez aquela fosse uma oportunidade para nos entendermos.

— Você sabe que deveria estar aqui, não é? Pelo o que você fez com a minha mãe. — ela tamborilou com os dedos a mesa de ferro.

— Lily. — falei novamente e ela ergueu a cabeça, encarando-me. — O que aconteceu?

— Você já sabe o que aconteceu, por que está me perguntando? — ela mordeu o lábio inferior e desviou o olhar. Exatamente como fazia quando era criança e eu a pegava fazendo coisas erradas.

— O que eu sei é que você foi pega invadindo uma casa com o seu namoradinho marginal. — segurei seu queixo levemente e fiz com que me olhasse. — Isso foi o que um policial me contou. Eu quero saber a sua versão, quero saber o que a minha filha tem a dizer.

— Eu não sou sua filha, Regina Mills. Coloque isso na sua cabeça. — ela limpou a garganta. — Você vai me tirar daqui ou veio só fazer a pose de boa mãe? Porque se for a segunda opção, você já pode ir embora. Eu dispenso. — Lily me encarou por alguns instantes e eu esperei. Esperei que mudasse de ideia, que pedisse a minha ajuda, que me deixasse ser sua mãe.

— Vá pegar suas coisas, sua fiança já está paga. Vou te esperar do lado de fora. — eu me levantei e deixei a sala.

Emma me esperava sentada em uma das cadeiras. Ela se levantou e veio até mim. Seus braços me envolveram em um abraço confortável, que me dava certa paz. Uma paz que era-me retirada por todos, mas que residia nela. Isso, esses pequenos gestos, faziam com que eu não me arrependesse de tudo o que fiz para estar com ela. Ficamos assim por longos minutos, até que eu perdesse a noção do tempo. No entanto, o som de uma tosse forçada fez com que nos separássemos. Lily estava ali.

— Lily. — eu me aproximei e ela se afastou. — Essa é...

— Emma Swan. — Lily sorriu, eu podia ver o quanto era forçado. — A prostituta. Eu sei.

— Lily... — eu me coloquei a frente de Emma.

— Regina, está tudo bem, sério. — Emma apertou meu braço, passando-me certa segurança. — Lily não teve um dia fácil.

— Eu espero que você tenha tempo o bastante ao lado dessa mulher para ver quem ela realmente é, Emma. — Lily se aproximou, ficando a centímetros do meu rosto. — Controladora, manipuladora, egoísta. É isso o que ela é.

— Lily, já chega! — minha voz saiu baixa, mas fria o bastante para que ela se afastasse. — Venha, eu vou te levar para casa.

— Eu não vou ir a lugar algum com você. — ela passou por nós, saindo pelas portas e eu a segui. — Faça o favor de não agir como minha mãe, sabemos que você não é.

Uma moto parou, no exato momento em que descemos as últimas escadas. Ela subiu em sua garupa e encarou-me enquanto colocava o capacete sobre a cabeça.

— Regina, você está bem? — Emma abraçou-me a cintura e eu assenti.

Eu estava bem. Por dentro, eu estava muito bem. No fundo, eu sempre soube a visão que Lily guardava de mim. Heróis e vilões, a divisão feita mentalmente por todos, também era feita em sua mente. Para ela, eu era uma vilã. Talvez eu realmente fosse. Afinal, diversas são as pinturas de uma realidade.

***

— Você já notou como algumas pessoas se deixam levar? — Archie encarou-me sem entender. De fato, seria exigir muito que entendesse. — As pessoas, na condição de seres humanos, se deixam levar. Acreditam no que é mostrado e se esquecem que toda história possuí dois ou mais lados. Se você só dá uma versão a eles, é óbvio que irão acreditar nela. Criamos ilusões, lutamos por apenas um lado e não vemos outros, ainda que se saiba o quanto uma história muda quando contada por outra pessoa.

— Aonde você quer chegar com isso, querida? — Archie olhou sua caneca, eu sabia que ela estava vazia. Os cinco goles já haviam sido dados.

— O que eu quero dizer é que nós nos deixamos manipular, nos deixamos iludir. Ainda que a verdade esteja em baixo dos nossos narizes. Acredito que isso se dê por nossa constante tendência a dividir bem e mal, muitas vezes ignorando que eles também podem trabalhar juntos. — encarei o relógio.

— Você quer falar sobre o que aconteceu com Lily? — Archie se sentou e eu notei seu olhar sobre o gravador em cima da mesa, certificando-se de que ele ainda rodava.

— Não, não há o que falar sobre isso, acredito. — eu me levantei, pegando minha bolsa no instante em que seu alarme tocou, finalizando a sessão. — Até a próxima sessão, doutor.

Histórias são contadas e nós compramos o que está ali dentro. Muitas vezes planta-se um suave tom de suspeita, que ignoramos, pois já temos uma conclusão pronta. Nós nos deixamos iludir, repito. Repetimos tanto uma mentira em nossa mente, que ela se torna verdade. Uma mudança dos fatos? Não. Ela muda por pura insistência. Ela muda por que a escolhemos. Ainda assim, sabemos sobre as mudanças, sabemos o quanto são inevitáveis. Nós escolhemos acreditar em uma verdade concreta. Uma verdade sem mudanças, uma verdade sem mais lados. No entanto, é imutável o fato de que mudanças acontecem. Nós cedemos a desejos, porque escolhemos isso. No final das contas tudo se resume a escolhas. Escolhemos no que acreditar, escolhemos qual verdade defender, escolhemos a que desejos ceder. Escolhas e consequências. Tudo gira em torno disso, no final das contas.

— Olá, meu amor! — Emma beijou-me os lábios quando entrei no carro.

— Oi, mãe! — Henry, que estava no banco de trás, esticou-se para beijar meu rosto. — Como você está? Tudo bem? — os dois me encaravam com expectativa e eu senti que algo ali não estava certo.

— Tudo bem, me diga o que querem. — Emma desviou seu olhar e encarou Henry, que assentiu, como se conversassem sem palavras.

— Henry quer ver a nova casa. — ela falou, por fim. Eu ergui uma sobrancelha e ela adiantou-se em explicar. — Regina, eu tentei esconder dele. Sei que combinamos de esperar, mas é impossível esconder as coisas desse menino. Ele parece você! Arrancando as coisas da gente, sem nem nos darmos conta disso. — ela ligou o carro e saiu do acostamento. — Então, indiretamente, a culpa é sua por tê-lo criado assim, tão igual a você. Concluímos então que ele só sabe por sua causa.

— Ah é mesmo, Swan? — tentei me manter séria, mas acabei sorrindo.

— Mãe, eu realmente adorei a ideia! Por favor, me deixe ir até lá! Emma disse que podemos tomar milkshake depois! — ele sorriu e eu encarei Emma.

— Emma disse? — ela olhou pelo retrovisor, enquanto Henry gargalhava.

— Garoto! Isso não era um segredo nosso? — Henry revirou os olhos.

— Ela descobriria de qualquer jeito, Ems. — ele se apoiou entre os dois bancos, mas se encostou novamente diante do meu olhar de reprovação. — Mãe, nós votamos e você perdeu.

***

— Emma, onde você está me levando? — ela me guiava com as mãos presas a minha cintura, enquanto meus olhos se mantinham vendados.

— Bom, eu disse que cuidaria de tudo e você não precisaria se preocupar. Hoje eu liguei para um dos rapazes que estava responsável pela obra e decoração. Então... — ela retirou a faixa e a baixa luz ganhou minha visão. — Eu queria te mostrar isso. A casa já está toda pronta e mobiliada. — ela me abraçou, beijando-me o pescoço. — Eu tentei colocar tudo o que você me pediu, espero que realmente goste. Só está faltando a varanda de trás, ainda não tiraram aqueles restos de obra que estavam lá, mas prometeram que o fariam essa semana ainda. Até o final do mês a casa será totalmente nossa. — a sua voz se mantinha baixa, um sussurro que causava-me arrepios por todo o corpo.

— E eu adorei... — virei-me para ela e selei seus lábios. — Mas me diga, senhorita Swan, se a casa está quase toda pronta, salvo a varanda, porque estamos na suíte? — ela sorriu e fechou os olhos, negando com a cabeça.

— Oh, Deus! Você descobriu os meus planos. — seus olhos se abriram novamente, oferecendo-me uma bela visão do paraíso esverdeado. — Você pode ver o resto da casa depois. No momento é só esse cômodo que me interessa. — os seus lábios se uniram aos meus, enquanto guiava-me de costas. — Além disso, hoje o Henry está na casa do Josh, podemos aproveitar todo esse tempo.

— Certo, acho que estou de acordo com isso. — o seu sorriso se abriu ainda mais e sua boca ganhou a minha novamente.

— Espero que goste da sua nova cama, senhorita Mills. — ela empurrou-me o corpo, fazendo com que eu caísse sobre os lençóis brancos.

— É como dizem, — puxei-a com os pés e ela se colocou sobre mim, erguendo minha blusa e beijando-me o abdômen. — a primeira impressão é a que fica.

Os seus beijos tocaram-me a pele, até que foram impedidos pela barra da calça. Ela sorriu. Desabotoava-a, com seus olhos presos aos meus. Aqueles olhos que me mostravam muito mais do que palavras jamais iriam dizer. Eu via inúmeros sentimentos, eu via amor. Emma tocava-me e as reações do meu corpo firmavam a certeza de que eu sempre iria me entregar a ela. Eu sempre escolheria me entregar a ela. Eu a escolhi, no final das contas. Eu a queria. Os seus lábios desvendavam-me o ser, como se decorasse cada detalhe do meu corpo, como se conhecesse o caminho certo a percorrer. Ela conhecia. Ela retirou a calça por completo e ergueu uma de minhas pernas, beijando-a por toda sua extensão, até que percorresse a parte interna de minha coxa. Eu arfei. Todavia os planos de Emma me pareciam um tanto quanto tortuosos, pois ela se afastou e passou a beijar minha outra perna, espelhando o caminho feito anteriormente.

— Me fale como foi o seu dia. — ela sussurrou contra minha pele. Mordiscou-me a virilha, prendendo a borda da minha calcinha entre dentes.

— Isso é sério? — as palavras saíram arrastadas, entregando a mescla de emoções que se mantinha em meu interior.

— Claro, meu amor. — os botões da minha blusa começaram ser abertos. Um por um, ela me expôs. Não somente o corpo, como meu interior por completo. Meus desejos, minhas fraquezas. Estavam ali, postos a frente de Emma Swan.

— Eu atendi uma das minhas pacientes preferidas e... — Emma sugou-me a pele do pescoço e minha fala foi interrompida por um gemido. — Foi muito bom. Incrivelmente bom.

— E você está cansada, doutora Mills? — o seu corpo pesou sobre o meu.

Os meus olhos se mantiveram fechados. As sensações que me atingiam eram inúmeras. Os dedos de Emma se arrastavam por minha pele, subindo até a lateral de meu sutiã, para descerem novamente até minhas coxas, em um carinho que arrepiava-me. Segurei seus cabelos, beijando seus lábios. Aqueles lábios que eram, para mim, tão familiares, ao tempo em que eram tão novos. Beijar Emma se equiparava a descobrir mais do mesmo. Eu nunca me cansaria, de fato. Inverti nossas posições e pude ouvir sua gargalhada baixa.

— Eu jamais estive tão disposta quanto estou agora, senhorita Swan. — apoiei minhas mãos no colchão, uma de cada lado da sua cabeça e sustentei meu corpo sobre o seu.

Suas mãos se arrastavam pelo meu corpo, em um caricia tortuosa. Sentei-me sobre o seu ventre e ela me encarou. Seu lábio inferior foi mordido. Ah aquele gesto. Destruía-me por completo. Contudo, o que, em Emma Swan, não me destruía? Uma intensa destruição. Maravilhosa, para ser mais exata. Retirei meu sutiã e seus olhos brilharam. O seu desejo era palpável e o meu não divergia disso. A camiseta branca que vestia lhe marcava o corpo. Os seus braços fortes se tornavam sutis na pele clara. Eu me coloquei de joelhos sobre a cama e ela fez o mesmo. Segurei a borda de sua camiseta e Emma ergueu os braços, permitindo que eu a retirasse. Os seus seios estavam desnudos, nada os cobria, nada os impedia de tocar-me. Emma me olhava, como se analisasse minhas reações, como se aquela fosse a primeira vez em que nos tocávamos. Sempre seria como a primeira vez.

Eu sentia sua pele tocar a minha, sentia sua respiração pesada. Beijei seu pescoço e pude ouvir um gemido sôfrego lhe abandonar os lábios. Minhas mãos tatearam a borda da sua calça, em busca dos botões que a libertariam do tecido que, para mim, apresentava-se como uma barreira. Eu não queria ter Emma essa noite, eu queria pertencer a ela. Ela se deitou sobre mim, os seus olhos se mantinham presos aos meus, compartilhando de um diálogo silencioso. O lençol gelado tocou-me a pele, que já fervia, tal como meu interior. Ela me levava à ebulição. Uma ebulição de desejos, sentimentos, prazeres. Os seus lábios se arrastavam pela minha mandíbula, trilhando um caminho de beijos até meu pescoço e descendo aos seios. Permiti que meus olhos se fechassem e entreguei-me a escuridão repleta de sensações. Entreguei-me a Emma. Ela rodeou-me os seios, levando-me ao êxtase com seus lábios e suas mãos. Não tardou até seguir um novo destino, livrando-me de minha calcinha. Livrando-nos das barreiras. Ela me invadiu, em todos os sentidos possíveis.

Emma sempre me invadia e eu adorava. Adorava os detalhes. O brilho que lhe cobria a pele, as bochechas coradas, a respiração pesada, a forma como se movia e como, pouco a pouco, levava-me ao mais belo dos paraísos. O paraíso residia nela. A minha boca se abriu, mas nenhum som foi emitido. Os meus olhos se fecharam e meu peito se encheu de ar. Um ar que ficou preso, enquanto o meu interior se rasgava. Eu busquei por apoio. Por qualquer coisa que me prendesse ali e me impedisse de flutuar. Eu estava flutuando. Os meus olhos se abriram e encontraram o seu sorriso. A minha boca encontrou a sua e eu encontrei o meu lugar dentro de si.

— Você é ótima em primeiras impressões... — as palavras ditas em forma de sussurro abandonaram meus lábios sendo acompanhadas de um suspiro.

— Toma banho comigo? — Emma arrastou seu indicador por meu rosto, contornando-me os lábios.

— Mais primeiras impressões? — beijei seu queixo e ela sorriu, assentindo.

— Temos uma casa toda para primeiras impressões, meu amor. — ela se levantou, oferecendo-me a mão.

Eu sentia os braços de Emma envolta do meu corpo, separados da minha pele apenas pelo fino hobby que vestia. Ela dormia e sua respiração leve denotava seu sono tranquilo. Uma brisa fria entrava pela porta que dava acesso à varanda, fazendo com que alguns calafrios tomassem-me o corpo. Eu me virei para Emma, que ajeitou-se ao meu lado. Seu cabelo loiro se espalhava pelo travesseiro, formando belas cascatas douradas. Beijei sua bochecha e juntei-me ao seu corpo, fechando os olhos.

— Então foi por ela que você me trocou? — a voz masculina que era tão conhecida por mim fez-me despertar bruscamente. Eu pisquei algumas vezes antes de compreender o que via. Eu via Daniel.

Existem momentos em que você não sabe o que fazer. Ainda que queira reagir, ainda que seu cérebro grite para que uma ação seja executada, você não consegue. É como uma chamada não respondida. Uma cena perversa lhe causa a sensação do estático. Você não se move, você não reage. Você simplesmente olha. Enquanto isso, parte de você tenta encontrar pontos que provem que aquilo não é realmente verdade. O choque lhe toma o corpo, a impotência lhe derruba. Você olha e não acredita. O seu consciente inicia uma busca por falhas que entreguem a ilusão. Você espera que seja uma ilusão.

Não é uma ilusão.

De repente, respirar se torna uma tarefa difícil e você precisa se concentrar para executá-la. A ideia de ilusão é descartada. A verdade é clara, é nítida. A realidade lhe cobra uma ação, mas você ainda não está pronto. Seus pensamentos se tornam uma extensão grande demais e, contraposto a isso, o seu corpo se torna uma massa inútil que não tem sentido, pois não tem uso. Ainda assim, você se esforça. Você fecha os olhos e os abre de novo. Você enxerga. Você luta contra o estático e busca maneiras. Você encontra a voz. O desespero encontra você.

— Daniel. — a minha afirmativa foi dada, enfim. Ele sorriu e apontou para Emma, que ainda dormia ao meu lado, alheia a tudo o que nos cercava.

— Não me ignore, mãe. — a luz foi acesa e meus olhos reagiram à claridade. Lily estava ali.

— Lily... — alternei o olhar entre eles. — O que vocês estão fazendo aqui? — o olhar de Daniel me parecia frustrado, enquanto Lily possuía um sorriso brincando no canto dos seus lábios.

— Regina, o que você... — Emma procurou-me com a mão e moveu seu corpo em busca do meu, segundos antes de abrir os olhos e se deparar com os dois ali. — O que...

— Emma, não é? — Daniel a encarou com repúdio no olhar. — Então era isso o que você queria quando me procurou com aquela desculpa esfarrapada? Você queria a minha mulher?

— Ela não é a sua mulher! — antes que eu pudesse me dar conta, Emma estava em pé. Seu corpo estava a poucos centímetros de Daniel e ela lhe apontava o indicador.

— Regina é minha! — ele esbravejou, avançando em direção à ela. Atirei-me entre os dois, impedindo que Daniel machucasse Emma, ou que ela decidisse enfrenta-lo.

— Não, Daniel! Eu não sou sua, eu nunca fui! — minha mão se espalmou em seu peito e eu o empurrei. O cheiro de álcool estava impregnado em suas roupas e se tornava mais forte a cada suspiro dado por ele. — Saia daqui! Antes que eu chame os seguranças.

— Regina... Eu... — ele deu alguns passos para trás, com seus olhos presos aos meus. — Você não pode me deixar, Regina. Eu amo você. Nós... — ele desviou seu olhar para Lily, que nos observava em silêncio. — Nós somos uma família.

— Não, Daniel, nós não somos uma família. Nós nunca fomos e você sabe disso. — ele negou com a cabeça e sorriu.

Os seus olhos ganharam um tom mais forte e pude ouvir o grito surpreso de Emma e até mesmo o de Lily quando ele se aproximou. Sua mão se prendeu ao meu pescoço e o ar me faltou, fazendo com que tentasse amenizar o aperto dado por ele. Um ato inútil. Daniel era muito mais forte do que eu.

Ele caminhou, empurrando-me enquanto eu tropeçava em meus pés. Eu encarava os seus olhos e ele mantinha os seus fixos aos meus. A brisa gelada tocou-me o rosto e eu soube que estávamos na varanda. O maldito muro da varanda. Sua mão se desprendeu de meu pescoço e eu puxei o ar, mas não ousei me mexer.

— Daniel! — a voz de Emma fez-se presente. Eu podia vê-la se aproximar.

— Emma, fique ai onde está. — eu ergui minha mão, sinalizando para que parasse.

Daniel não se moveu. Algo me dizia que ele nem ao menos se deu conta da presença de Emma logo atrás de si, ou do quão perto estávamos de uma queda fatal. Do quão perto eu estava desta queda. Pelo canto dos olhos eu vi os resíduos de obra que ainda estavam por ali. Bem abaixo de onde estávamos. O destino e suas malditas façanhas.

— Daniel, me escuta. — espalmei minhas mãos sobre o seu peito de forma leve. O gesto que podia ser visto como afeto, na verdade, era uma busca por algo que me desse a mínima segurança. Uma possível queda. — Nós fomos uma família linda, durante muitos anos, mas nós não somos mais, querido. Você sabe disso, há muito tempo nós já não somos uma família. O divórcio apenas oficializou o que já era real. — uma lágrima lhe marcou o rosto e eu respirei fundo. Escolhendo com cuidado as palavras que deveriam ser ditas.

— Mas eu te amo, Regina. — ele soluçou. O cheiro de álcool invadiu minhas narinas e eu vi nisso uma oportunidade.

— Você não me ama, Daniel. Não mais. Não vale a pena. Nada disso vale. — ele tocou meu rosto, colando sua testa a minha. O peso de seu corpo fez com que eu desse alguns passos para trás, sentindo o muro bater contra a parte de trás dos meus joelhos. Eu lutei para não me desequilibrar.

— Eu não consigo imaginar a minha vida sem você. — as palavras saíram entre soluços, enquanto suas mãos alisavam os meus cabelos. Daniel sempre fora patético.

— O que você quer que eu faça? — o vazio presente atrás de mim faz com que minhas mãos se agarrassem aos punhos de Daniel, ainda que sua embriaguez comprometesse o seu equilíbrio.

Ele encarou os meus olhos antes de puxar-me para um beijo. Um beijo vazio, que não me trazia nada além do desgosto por mantê-lo. Ainda assim, eu o mantive. Segurei sua cintura, enquanto suas mãos ainda se perdiam em meus cabelos. Um vazio me consumia por dentro e eu o alimentava a cada movimento feito por meus lábios. O gosto de álcool que estava em sua boca se espalhava pela minha. Aos poucos os meus pés se moveram em busca de apoio, em busca de uma fuga que tirasse-me da queda livre que estava logo atrás de mim. Eu me movi em uma lentidão absurda. Os passos sendo contados enquanto o beijo se mantinha. Enquanto Daniel mergulhava seus lábios em uma esperança de reconciliação, eu buscava meios de assegurar minha vida. Quando os seus olhos se abriram, as posições estavam trocadas. Ele nem ao menos se dera conta disso.

— Você me ama... — ele sussurrou. — Você ainda me ama e você ainda me beija como antes.

— Eu não te amo, Daniel! Eu não sinto absolutamente nada por você, nada que não seja desprezo. — esbravejei, sem mais me importar em medir o que era dito. O sorriso que estava em seus lábios se dissipou. O som das sirenes se fez presente. Alguém ligara para a polícia.

Daniel negou com a cabeça. Ele ainda encarava os meus olhos quando dois passos foram dados para trás.

Dois passos.

Dois passos foram o bastante para que o muro lhe roubasse o equilíbrio. Suas mãos buscaram as minhas, mas já era tarde.

Ele caiu.

Os seu corpo se chocou contra os escombros e o brilho deixou seus olhos. Antes mesmo que fosse confirmado, eu sabia.

Daniel estava morto.

***

Cinco meses depois.

— Você se lembra de quando nos conhecemos, Archie? — arrastei o dedo pelo couro da poltrona e ele sorriu. — Você me perguntou porquê eu iria me consultar com você, já que poderia ter um profissional muito mais conhecido me atendendo. Bom, hoje é nossa última sessão e, depois de anos, você vai descobrir a real resposta. — ele se levantou para encher sua caneca de café. Eu via dúvida em seu olhar, eu via questionamentos, mas ele se manteve calado. — Vamos começar pela minha fraqueza, que você insistia ser culpa do casamento no qual eu estava presa. Saiba, querido Archie, que eu nunca estive presa. — ele se sentou e me encarou. Eu esperei.

— Regina, eu não estou te compreendendo. Aonde quer chegar com isso? — ele bebeu um gole de seu café.

— À verdade, é claro. Aquela que você não foi capaz de enxergar, após anos de terapia. — respirei fundo, certa de que aquela seria a melhor das consultas. Seria a única verdadeira consulta. — Você acreditou que eu estava presa a um casamento, querido. Você acreditou em minha fragilidade, em minha inocência. Você acreditou porque eu quis que acreditasse. Veja bem, os seres humanos são extremamente curiosos nesse ponto e, nem mesmo você, um homem instruído para compreender a mente foi capaz de divergir desse seguimento. Você acreditou no que lhe parecia mais certo. Transformou-me em uma mulher frágil, Daniel em um vilão e Emma em uma salvadora. — eu vi seus olhos perderem o brilho e, aos poucos, a verdade entrou em sua mente.

— Você está querendo dizer que todas as suas sessões, toda aquela bela evolução em busca de uma liberdade, tudo isso era mentira? — ele apoiou sua caneca sobre a mesa esquerda. Ele nunca a colocava ali, ele sempre a colocava na direita. O choque o fez quebrar a própria rotina.

— Não, eu me libertei, de fato. Apenas quando eu quis, apenas quando me foi propício. Eu poderia acabar o casamento com Daniel a qualquer instante, não acha? Eu poderia ter terminado tudo há anos, eu não dependia dele para nada, pelo contrário. Ele dependia de mim. Eu sempre soube de suas traições, sempre soube de suas amantes e de suas escapadas noturnas. Enquanto Daniel acreditava me enganar, eu lhe usava. Usava o status que me era dado pelo casamento, usava a comodidade. Era uma zona de conforto, pouco me afetava. Daniel era indiferente, tal como sua fidelidade. — girei o anel que rodeava-me o dedo. — Daniel foi uma peça que tive o prazer de manipular enquanto me foi útil. No entanto, algo aconteceu. Alguém aconteceu. Durante meses eu observei Emma, sua rotina, a forma como andava, suas roupas e até mesmo o jeito como prendia seu cabeço. Emma roubou-me a atenção e desde o primeiro instante, eu a quis para mim.

— Regina, isso não tem sentido algum! — ele limpou a garganta. — Você me disse ter contratado Emma para desmascarar a traição de Daniel. Uma traição que, até então, você dizia não saber.

— Sim, claro. Esta foi uma bela desculpa, não acha? — eu sorri e ele piscou freneticamente. — Eu nunca precisei desmascarar Daniel, eu sempre soube de suas traições. Qualquer advogado acreditaria em mim, não nele. Eu queria Emma. Eu queria me aproximar dela, eu queria seduzi-la. Daniel foi a desculpa perfeita, após anos, ele deveria servir para algo.

— Espere, espere! — Archie ergueu a mão e se manteve em silêncio, com o indicador erguido. — Você queria seduzi-la? Regina, como isso pode ser possível? Durante dias eu ouvi você relatar o quanto Emma a seduzia e o quanto isso te perturbava.

— Não, Archie. Durante dias você ouviu o que eu quis que ouvisse. Você acreditou na verdade que eu quis mostrar, tal como todos aqueles que a viram. — a minha pintura da realidade, afinal. — Eu quis Emma, então, eu a trouxe para mim. Junto a isso, uma consequência do plano inicial, eu teria Daniel sendo ridicularizado. Um brinde, nada a mais. Emma seria minha, Emma é minha.

— Então, você manipulou toda a situação desde o primeiro instante? Desde o momento em que contratou Emma, até o ponto em que se separou de Daniel? O que você sente por ela é real, Regina, ou é apenas mais um detalhe desse jogo de controle feito por você? Como isso pode ser possível? — ele estava se exaltando e eu me segurava para não sorrir.

— Eu a amo, talvez essa seja a única grande verdade. Eu me apaixonei por Emma, porque eu quis me apaixonar. Eu quis me libertar, eu quis mergulhar no abismo oferecido por ela. — ele apoiou seus ombros nos joelhos. Pela primeira vez, ele não bebericava seu café. — É claro que isso é possível, querido. Você tinha apenas a minha versão e eu quis contá-la da melhor maneira. Eu quis jogar da melhor forma.

— Isso nunca foi sobre ela, não é? Nunca foi sobre Emma, sobre Daniel, Lily ou Henry. Sempre foi sobre você. — seus dedos se moviam de forma frenética, ele estava nervoso. Eu quase podia ouvir seus neurônios funcionarem. — Quando você me dizia estar perdendo o controle, você não estava. Você nunca perdeu o controle e, mesmo que tenha perdido, foi apenas porque você quis. — ele suspirou, antes de erguer a cabeça. O seus olhos haviam ganhado um novo tom. Archie entendeu. — Regina, me fale sobre a morte de Daniel.

— Ah sim, esta é uma das minhas partes preferidas. — inverti a posição de minhas pernas, preparando-se para o que viria. — Veja bem, Daniel, de fato, me surpreendeu aquela noite. Até mesmo Lily. Eu já esperava alguma ação de sua parte, Daniel sempre fora um tanto quanto dissimulado. O tipo de homem que não admite uma perda. Então, ele foi até lá. — permiti-me sorrir ao me recordar dos acontecimentos. — Ele me levou para a varanda e sua mão estava em meu pescoço. Eu pude sentir a morte, eu até mesmo a aceitei. No entanto, eu ainda não estava pronta para morrer. Foi quando aproveite-me de sua distração. Daniel me pediu para voltar, ele me deu um beijo. Aquele beijo foi sua ruína, sem dúvidas. O tempo foi essencial para que nossas posições se invertessem. Eu podia ouvir o som das sirenes da polícia, eu poderia segurá-lo ali até que eles chegassem. Contudo, eu tinha o controle de decidir. — fechei minhas mãos em punho e encarei seu rosto. — Sabe como é prazeroso ter o poder de decidir o destino de alguém? Ter a vida em suas mãos?

— Daniel não deu dois passos para trás, como você disse antes. Os dois passos nunca existiram. Você o empurrou, não foi? — o sorriso sumiu de meus lábios, para logo em seguida aparecer novamente. Mais satisfeito do que nunca.

— É você quem está dizendo isso, doutor. — fixei meu olhar em um ponto qualquer. Archie se levantou.

— Regina, como isso pode ser possível? É como se eu estivesse na presença de outra mulher. Completamente diferente da mulher dócil que conheci. Aquela que buscava sua liberdade, buscava o amor. — ele caminhou até uma das janelas. — Você me manipulou. Não apenas isso... Você manipulou a todos.

— Eu não manipulei ninguém, querido. Eu apenas contei os fatos, você escolheu acreditar em mim. Você escolheu seu lado. — mais uma vez a costura da poltrona ganhou minha atenção.

— Você só me deu um lado! — ele me encarou e eu dei de ombros.

— Um belíssimo lado, não foi? — eu sorri. Eu jamais me diverti como hoje.

— Você não pode fazer isso, Regina. Não pode agir como se a vida fosse um jogo...

— Como não, se é exatamente isso o que ela é? — ele se sentou novamente. — A vida é um jogo. O mais belo. Existem aqueles que dão as cartas e existem aqueles que são as cartas. Existem os jogadores e existem as peças. A vida é um jogo, querido Archie. Eu escolhi ser uma jogadora. A melhor possível. Não é minha culpa se outras pessoas optaram pelas peças.

— Eu não consigo aceitar que você foi capaz disso. Você manipulou, jogou. Você foi completamente egoísta. — ele respirou fundo.

— A verdade é que dependendo das circunstâncias, qualquer um é capaz de cometer qualquer pecado. — ele pegou sua caneca de café e a tomou. Tudo em uma única golada.

— Você me parecia uma pessoa completamente diferente. Céus!

— O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém. — ele me encarou e eu dei de ombros. — William Shakespeare.

— Regina. — ele ergueu a cabeça, como se estivesse se recordando de algo. — Você empurrou Daniel... O que me garante que Lily não estava certa? O que me garante que você não foi responsável pelo acidente que agravou a situação da mãe dela?

— Nada lhe garante. — desisti de tentar me manter séria e me permiti sorrir de sua expressão. — Parece que você terá que confiar em mim.

— Isso não está certo, Regina. Chega a ser sociopático! Você manipulou verdades! Sua filha está presa, seu marido está morto...

— Ex-marido. — corrigi e ele negou com a cabeça.

— Você manipulou até mesmo o seu envolvimento com Emma. Fez-me pensar que estava sendo seduzida por um amor, quando, na verdade, você sempre o quis. Você foi atrás de Emma, você a seduziu. Regina, a vida não é um maldito livro!

— Pelo contrário, doutor. Eu acredito que a vida é um belo livro e cada um escolhe escrevê-lo da forma que quer. Você pode apenas sobreviver aos dias, ou você pode vivê-los. Pode escrevê-los da forma mais simples, ou pode dar emoção a eles. Eu optei por viver, eu optei pela emoção. — inspirei fundo. Faltavam poucos minutos para o fim da diversão. — As coisas não são assim tão absurdas quanto você está pensando. Os acontecimentos vieram, eu apenas os contornei para que seguissem o rumo que eu desejava. Emma foi atraída por mim, eu sabia que ela não seria capaz de me trair com Daniel, ainda que estivesse sendo paga para isso. Eu soube no momento em que a vi. Daniel escolheu ir até meu apartamento, ele tentou me matar. A morte dele foi apenas uma consequência. Lily está presa porque optou por caminhos que a levaram a isso. Eu só estive ali o tempo todo.

— Não faça tudo parecer tão simples, Regina. Você seduziu Emma, dando a ela a desculpa da traição de Daniel e fazendo com que ela se sentisse culpada por não lhe contar a verdade, quando você sempre soube. Daniel morreu porque você, com esse jogo, terminou seu casamento da pior maneira e o fez ir até lá. Além disso, estou certo de que Lily estava certa e você fez-me pensar que ela era uma louca. — ele segurou a cabeça entre as mãos. — Eu sinto muito Regina, mas irei denunciá-la.

— Ah é mesmo? — de repente, minhas mãos se tornaram absurdamente interessantes. — E o que pretende usar como prova? — ele se levantou, indo em direção ao gravador que ficava entre nós dois.

— Onde está a fita? — ele abriu e girou o aparelho nas mãos.

— Incrível como o ser humano pode se perder completamente quando uma rotina é quebrada. Bastou que desligasse sua cafeteira quando você foi até a sala ao lado e então, você precisou religa-la. Isso foi o bastante para que, quando voltasse, se esquecesse de colocar a fita no gravador. Normalmente, seu café já estaria pronto e você iria até ali apenas pegar uma nova fita. — eu me levantei. — A rotina é uma arma perigosa, doutor.

— Ainda assim! Eu tenho a minha palavra! — então, eu gargalhei.

— Ótimo ter tocado nesse ponto. É onde eu desejava chegar. — apoiei minha bolsa na poltrona novamente. — Eu escolhi você, porque ninguém jamais iria confiar na sua palavra. Eu sou uma Mills, meu trabalho é conhecido. Você é apenas um psiquiatra que não tem fama alguma. Aliás, eu sou sua única paciente. — ele abriu a boca em choque. — Sim, doutor, eu sei disso. Fico feliz em dizer que fui a responsável por você não ter outros. Agora, me diga, quem irá confiar na sua palavra? Um homem invejoso que busca fama após a perda de sua única paciente, que busca causar polêmica. — batidas na porta chamaram nossa atenção.

— Meu amor? — Emma abriu a porta e eu me permiti sorrir. Para ela, o mais sincero dos sorrisos.

— Eu já estou indo, querida. Henry já está pronto? — beijei seus lábios e ela assentiu.

— Ele está ligando a cada cinco minutos. — ela se deu conta da presença de Archie. — Olá doutor. — ele não respondeu. Estava em choque, era notável.

— Certo, me espere lá em baixo. Já estamos acabando aqui. — ela assentiu e deixou a sala. — Bom, Archie, acredito que este é o fim.

— Você nunca vai dizer a eles? Nunca vai contar o quanto foi manipuladora? Nunca vai dizer a Henry que você matou o pai dele? — as palavras saiam em um sussurro, ele se mantinha focado na janela, mas eu sabia que ele, de fato, não a enxergava.

— Não, eu não vou. Afinal, isso seria uma escolha e, como sabemos, escolhas trazem consequências. Nenhum de nós está disposto a pagar o preço. — eu abri a porta e me preparei para sair.

— O preço de que, Regina? — detive-me e o encarei pela última vez.

— O preço da traição, é claro.

Archie Hope se matou naquela noite. Ele pulou da janela de seu consultório, a janela que, por vezes, serviu como uma tela do céu durante minhas sessões. Ele se jogou e levou, junto a ele, tudo o que lhe contei. Eu não sei ao certo o que o levou a isso, talvez não soubesse lidar com a minha pintura da realidade. Talvez não aceitasse o próprio fracasso como profissional. Archie estava morto, assim como os meus segredos.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!