O Preço da Coroa

15 Voltando a ser o velho Adrian


O sol mal havia despontado no horizonte cinzento de Oakhaven quando Selene despertou com o som metálico de uma fivela sendo ajustada. A lembrança do calor do piquenique e dos beijos da manhã anterior ainda estava vívida em sua mente, mas a imagem que encontrou ao abrir os olhos era outra.

​Adrian estava de pé, já vestido com sua túnica de couro negro e o pesado manto de lobo. Sua expressão era uma máscara de pedra, os olhos fixos em um pergaminho enquanto ele conferia a bainha de sua espada. Não havia o brilho de domingo, nem o rastro do homem que a abraçara no jardim.

​— Adrian? — ela chamou, a voz rouca pelo sono. — Já vai para o conselho? Achei que íamos plantar a muda de pinheiro hoje, como você disse...

​Ele mal desviou o olhar do mapa. Sua voz saiu seca, como o estalar de galhos secos no gelo.

​— O pinheiro pode esperar. Recebi notícias de que as minas do sul tiveram um desmoronamento e os batedores avistaram navios mercantes não identificados na costa. Tenho obrigações que não envolvem jardinagem, Selene.

​Selene sentou-se na cama, o contraste do comportamento dele deixando-a tonta.

— Mas ontem... ontem você disse que os generais podiam esperar. Ontem você foi... humano.

​Adrian parou por um segundo, a mão apertando o cabo da espada. Ele finalmente olhou para ela, mas o olhar era distante, quase profissional.

​— Ontem foi domingo. Hoje é a realidade de um Rei. Não confunda um momento de lazer com uma mudança de caráter. Oakhaven não se governa com sentimentos, mas com ordem.

​— Então tudo aquilo foi um teatro? — Selene perguntou, a voz subindo de tom pela frustração. — O carinho na frente da sua irmã, o jeito que você me segurou... foi apenas um intervalo antes de você voltar para a sua armadura?

​— Foi um descanso — ele rebateu friamente. — Agora, comporte-se como a Rainha que este reino precisa. Maria Benevides tem a lista de suprimentos para você conferir. Não me espere para o jantar, estarei com o alto comando até tarde.

​Ele caminhou em direção à porta sem olhar para trás.

​— Adrian! — ela gritou, fazendo-o parar com a mão na maçaneta. — Você não pode simplesmente ligar e desligar o que sente por mim como se fosse uma lâmpada de óleo!

​Ele virou o rosto apenas o suficiente para que ela visse o perfil rígido.

— Eu não sinto, Selene. Eu executo. Sugiro que aprenda a fazer o mesmo se quiser sobreviver a este inverno.

​A porta se fechou com um baque surdo e definitivo. Selene caiu de volta nos travesseiros, sentindo o frio do quarto invadir seus ossos. O homem que a beijara com ternura sob o sol de domingo havia desaparecido, deixando em seu lugar o soberano implacável que não permitia que nada, nem mesmo o amor, interferisse em seu pulso de ferro.