O Preço da Coroa

3 O banquete entre faiscas


O banquete foi montado no Grande Salão de Delavga, mas o clima era de um funeral luxuoso. Enquanto músicos tocavam harpas ao fundo, o tilintar dos talheres de prata parecia ensurdecedor. Selene estava sentada à direita de seu pai, usando um vestido de seda azul que escondia a tensão em seus músculos. À sua frente, Adrian Kane comia com uma eficiência silenciosa, ignorando as iguarias exóticas em favor do pão e da carne.

​Dominic tentava manter uma conversa sobre rotas comerciais, mas o silêncio de Adrian era uma barreira intransponível. Eventualmente, o Rei de Ferro pousou sua taça de vinho e fixou seus olhos em Selene.

​— A princesa parece ter perdido o apetite — observou Adrian, a voz cortando a música. — Ou as histórias sobre a culinária de Delavga são tão exageradas quanto as sobre sua hospitalidade?

​Selene ergueu o queixo, sustentando o olhar.

— O apetite costuma desaparecer quando a companhia é imposta, e não escolhida, Majestade.

​Um silêncio súbito caiu sobre a mesa. Iara apertou o guardanapo sob a mesa, e Dominic empalideceu. Adrian, no entanto, não pareceu ofendido. Ele inclinou-se ligeiramente para a frente.

​— A franqueza é uma virtude rara em cortes como esta — disse ele, com um tom seco. — Mas a teimosia sem propósito é apenas um desperdício de tempo. Temos um reino para salvar e um contrato para cumprir.

​— "Cumprir"? — Selene soltou um riso amargo, ignorando o olhar de aviso de Alexander. — Você fala como se estivesse adquirindo uma mina de ferro ou um novo regimento de cavalaria. Eu não sou uma cláusula de contrato, Rei Adrian. Meu irmão se casou por amor. Ele escolheu Débora porque ela era a sua vida. O que você sabe sobre isso?

​Adrian arqueou uma sobrancelha, o olhar desviando-se por um segundo para Alexander e Débora antes de voltar para Selene.

— Sei que o amor não paga as dívidas que o seu pai acumulou. Sei que o amor não protege fronteiras de invasores. Eu não vim aqui para lhe recitar poesias, princesa. Vim para garantir que Delavga não desapareça do mapa.

​— E para isso você precisa me levar como prisioneira para aquele deserto de gelo que chama de lar? — a voz dela subiu de tom, a raiva fervendo.

​— Você irá como Rainha de Oakhaven — corrigiu ele, a voz tão fria quanto as montanhas do norte. — E se o preço da sua coroa é o meu "pulso de ferro", que assim seja. Você aprenderá que o inverno não se importa com os sentimentos de uma criança que queria viver em um conto de fadas.

​Selene levantou-se abruptamente, fazendo sua cadeira arrastar ruidosamente pelo chão de pedra.

— Eu posso até ir para Oakhaven, Adrian Kane. Mas não se engane: você comprou o meu título e a minha presença no seu trono. Mas a minha obediência? Isso é algo que nem todo o ouro das suas minas pode comprar.

​Ela se virou e saiu do salão, deixando para trás um rastro de indignação e o eco de suas palavras. Adrian Kane permaneceu sentado, observando-a partir. Ele levou a taça aos lábios, bebendo o restante do vinho com uma calma irritante.

​— Ela tem fogo — comentou Adrian para um Dominic em choque. — É uma pena que o fogo, se não for controlado, acabe por queimar quem o carrega.

​As faíscas haviam sido lançadas. Agora, restava saber quem sairia ileso do incêndio que estava por vir.