O Preço da Coroa
8 O Renascimento da Escócia
O porto de Edimburgo nunca estivera tão vivo. O horizonte, antes cinzento e vazio, agora estava recortado pelos mastros de mais de vinte navios imponentes. As bandeiras da França, da Espanha, do Vaticano e de ducados distantes tremulavam ao vento gelado.
Edmund estava parado no cais, a neve caindo suavemente sobre sua capa de viagem. Ao seu lado, Maria não usava mais o avental de serva, mas um vestido de lã fina verde-escura que Edmund insistira em lhe dar. Ela segurava uma prancheta, conferindo cada caixa que descia: sedas, ouro para os cofres, mas, acima de tudo, montanhas de batatas, grãos, carnes secas e frutas frescas que o povo não via há gerações.
— Você conseguiu, Edmund — Maria sussurrou, os olhos brilhando ao ver as cartas com selos de cera vermelha da Arquidiocese de Roma e de reis poderosos. — Eles responderam ao seu chamado.
Edmund apertou a mão dela discretamente sob as dobras das capas.
— Nós conseguimos. Sem a sua voz na minha cabeça, eu teria desistido no primeiro "não" do Parlamento.
O Banquete sob as Estrelas
Naquela noite, o protocolo foi quebrado de forma definitiva. Edmund ordenou que o banquete não fosse nos salões abafados do castelo, mas nos vastos jardins externos. Tochas foram fincadas na terra, e mesas quilométricas foram montadas para o povoado inteiro. O cheiro de assado e vinho doce preenchia o ar, substituindo o cheiro da morte que pairava meses antes.
Os membros do Parlamento assistiam a tudo das sacadas do palácio, com taças de ouro nas mãos e rostos retorcidos de ódio. Eles viam o rei misturado aos camponeses.
Edmund subiu em um tablado improvisado. O silêncio caiu sobre os milhares de presentes.
— Durante meses, me disseram que a Escócia estava quebrada! — Edmund começou, sua voz projetando-se com uma força nova. — Me disseram que o povo era um fardo e que a fome era um destino. Mas hoje, olhem para estes navios! Olhem para estas mesas! O mundo reconheceu a nossa dor porque nós paramos de nos calar!
Um murmúrio de revolta veio da ala dos nobres. O líder do Parlamento deu um passo à frente:
— Você está esbanjando o futuro deste país com migalhas para a plebe, garoto! Você não tem poder para governar sem nós!
Edmund sentiu o peso da oposição. Por um segundo, a dúvida brilhou em seus olhos. Mas então, o som de trombetas reais, diferentes das dele, ecoou pelos portões.
A multidão se abriu. Montado em um cavalo branco, vestindo roupas simples de caçador, mas com uma aura inconfundível, estava Henrique Blake. Ao seu lado, em uma carruagem adornada com as chaves de São Pedro, estava um representante direto do Papa.
— Meu filho não está sozinho — a voz de Henrique trovejou, fazendo os parlamentares recuarem. — Ele tem o apoio do trono que eu abdiquei, e o apoio da fé que sustenta este mundo.
Henrique subiu ao palco e abraçou Edmund, um gesto que selou a legitimidade do jovem rei diante de todos. Com o pai ao seu lado e o apoio de Roma presente, Edmund virou-se para a sacada onde os nobres tremiam.
— Lordes e Ministros — Edmund declarou, e Maria, ao pé do palco, sorriu com orgulho. — Vocês provaram que seus corações são feitos de pedra e que sua visão não alcança além do próprio ouro. A partir de hoje, o Parlamento está dissolvido. Vocês estão todos demitidos de suas funções e títulos.
Um clamor de choque e comemoração explodiu no jardim.
— Eu buscarei novos conselheiros — continuou Edmund, olhando diretamente para Maria. — Homens e mulheres que saibam o que é a fome. Que saibam o que é ser humano. A Escócia não pertence mais aos gananciosos. Ela pertence ao povo!
O grito que se seguiu foi o mais alto já ouvido na história de Edimburgo. Milhares de vozes gritando o nome de Edmund. No meio da euforia, Edmund desceu do palco e foi direto até Maria. Ele não se importou com os olhos do pai ou do Papa. Ele a segurou pela cintura e a girou, rindo como o jovem que ele finalmente tinha o direito de ser.
— E agora? — Maria perguntou, com a respiração ofegante, os braços em volta do pescoço dele.
— Agora — Edmund respondeu, encostando a testa na dela — nós vamos reconstruir este reino do zero. Juntos.
Fale com o autor