O Preço da Coroa

1 O Peso do Ouro e o Gosto da Poeira



​O Trono de Pedra

​O silêncio no Grande Salão de Edimburgo era quase ensurdecedor. Edmund Blake ajeitou a gola de veludo, sentindo o peso da coroa de ouro sobre a cabeça. Já se passara um mês desde que seu pai, Henrique, partira com a Rainha Anastácia para uma vida de anonimato e paz. Edmund ainda esperava ver a figura imponente do pai cruzar aquelas portas a qualquer momento, mas a única coisa que via eram petições sobre impostos e disputas de terras.

​— Majestade? — o conselheiro pigarreou. — Os lordes do norte aguardam sua decisão sobre a nova taxa de exportação de lã.

​Edmund suspirou, olhando para as próprias mãos. Elas eram limpas demais, pensou. Nunca haviam puxado um arado ou sentido o frio de um inverno sem lareira.

​— Diga a eles que revisarei os termos amanhã — respondeu Edmund, a voz firme, mas cansada. — Por hoje, chega de burocracia. Quero caminhar pelos jardins.

​Ele mal sabia que, a poucos quilômetros dali, a "burocracia" tinha um rosto jovem e furioso.

​A Mesa Vazia

​No vilarejo de fumaça e pedra, o cenário era outro. Maria Benevides batia com força a faca de cozinha contra a mesa de madeira gasta, fatiando o que restava de um nabo murcho.

​— É rídiculo! — Maria exclamou, os olhos castanhos brilhando de indignação. — Ouvi dizer que o "Menino-Rei" encomendou tapeçarias novas da França. Tapeçarias! Enquanto as crianças do vizinho dividem um pedaço de pão seco.

​Seu pai, Jorge, um homem de ombros curvados pelo trabalho nas minas, suspirou profundamente.

— Cuidado com a língua, Maria. As paredes têm ouvidos e o castelo tem carrascos. Edmund Blake não é o pai dele. Ainda não sabemos que tipo de homem ele é.

​— Eu sei exatamente o que ele é, pai — retrucou Maria, apontando a faca para a porta. — É um pássaro em uma gaiola de ouro. Ele olha para nós e vê números, não pessoas. Se ele não descer do trono para nos ver, eu farei questão de subir lá para buscá-lo.

​Sua mãe, Elena, aproximou-se, colocando uma mão trêmula sobre o ombro da filha.

— O que você está dizendo, minha filha? Não faça loucuras. O que uma moça sozinha pode fazer contra um exército?

​Maria deu um sorriso amargo, um brilho perigoso em seu olhar.

— Um exército não serve de nada se o inimigo já estiver dentro do castelo. Amanhã é a procissão de um mês de coroação. Ele vai desfilar pela cidade para exibir a coroa.

​— Maria, não... — implorou a mãe.

​— Ele quer um show, mãe? Pois eu vou dar um a ele. O povo está com fome, e está na hora do Rei Edmund Blake sentir o gosto do medo.

​Naquela noite, enquanto Edmund dormia em lençóis de seda, Maria afiava uma pequena adaga de caça, arquitetando o plano que mudaria a história da Escócia para sempre.