O Preço da Coroa

7 O Espelho da Miséria




​O vilarejo de Lowland não era um lugar de canções escocesas e danças. Era um cemitério de vivos. O cheiro de podridão e lama era tão forte que Edmund sentiu o estômago revirar assim que desceu de seu cavalo. Ele estava usando roupas mais simples, mas sua pele limpa e seu porte ainda o faziam parecer um intruso de outro planeta.

​Ao lado dele, Maria caminhava com a cabeça erguida, mas seus olhos estavam úmidos. Ela o guiava pelos becos onde o esgoto corria a céu aberto.

​— Veja, Majestade — Maria sussurrou, apontando para uma cabana sem teto. — Ali mora a velha Agnes. Ela perdeu o filho para a febre porque não tinham lenha para aquecer a sopa. E ali... — ela apontou para um grupo de crianças com ventres inchados pela desnutrição — ...aqueles são os seus súditos. Eles não querem tapeçarias francesas. Eles querem um amanhã.

​Edmund parou diante de uma fila onde a distribuição de grãos começava. Ele viu uma mulher jovem, da sua idade, segurando um bebê que mal tinha forças para chorar. Quando o guarda entregou o saco de trigo e a caixa de carne, a mulher caiu de joelhos e tentou beijar as botas de Edmund.

​— Obrigada, milorde! Obrigada por não nos deixar morrer! — ela soluçava.

​Edmund recuou, horrorizado. Ele sentiu uma náusea profunda. Ele não era um herói; ele era o monstro que permitira que aquilo chegasse a tal ponto. Ele olhou para suas mãos e as viu, metaforicamente, cobertas pela lama daquelas ruas. Ele se sentiu um lixo. Um adereço dourado em um trono de ossos.

​O Colapso no Castelo

​De volta ao castelo, Edmund não foi para o banquete. Ele se trancou em seu gabinete, recusando comida ou vinho. Maria entrou horas depois, trazendo apenas água, e o encontrou debruçado sobre a mesa, cercado por dezenas de pergaminhos.

​Ele escrevia furiosamente. Cartas para a França, para a Inglaterra, para os clãs do Norte, para qualquer um que pudesse enviar ouro ou suprimentos em troca de alianças futuras. Ele estava empenhando o próprio futuro da coroa para salvar o presente do povo.

​Mas suas mãos começaram a tremer. A pena caiu, manchando o papel de tinta preta. Edmund tentou respirar, mas o ar não vinha. Ele se levantou, derrubando a cadeira, e cambaleou até a janela, as mãos no pescoço.

​— Eu sou inútil... — ele arquejou, a voz falhando. — Maria... eu vi os olhos daquelas crianças. Elas me olhavam como se eu fosse um deus, mas eu sou apenas... eu sou um lixo. Eu não sei o que fazer. Se o parlamento me bloquear amanhã, eles morrem. E a culpa será minha!

​Maria largou a bandeja e correu até ele. Edmund estava em pleno ataque de pânico, o rosto pálido e o suor frio escorrendo. Sem pensar na hierarquia ou nas ameaças, ela o segurou pelos ombros e o forçou a olhar para ela.

​— Respire, Edmund! Olhe para mim! — ela ordenou, a voz firme.

​Ele a segurou pelos braços, apertando o tecido do vestido dela com força, como se ela fosse a única coisa real em um mundo de pesadelos.

— Eu entrei naquelas casas, Maria... o cheiro... o silêncio... eu nunca senti tanta vergonha na minha vida. Eu queria tirar esta coroa e jogá-la no lodo! Eu me senti um covarde por dormir em seda enquanto eles dormem na terra.

​Maria sentiu o coração apertar. O ódio que ela cultivara por semanas estava derretendo diante da vulnerabilidade brutal dele. Ela o guiou até o sofá, sentando-se ao lado dele, ainda segurando suas mãos trêmulas.

​— O fato de você sentir vergonha é o que te diferencia do seu pai e daqueles lordes — Maria disse suavemente, a voz agora carregada de uma ternura inesperada. — Um lixo não sentiria dor, Edmund. Um lixo continuaria comendo em pratos de ouro sem olhar para trás. Você sentiu. Você viu.

​Edmund encostou a cabeça no ombro dela, o corpo ainda tremendo.

— Eu estou com medo, Maria. Medo de falhar com eles.

​Maria passou a mão pelos cabelos dele, um gesto de conforto que selou uma nova e perigosa aliança entre os dois.

— Então não falhe. Use esse medo. Transforme essa vergonha em fúria contra aqueles que querem te impedir. Você escreveu as cartas?

​— Sim... para todos os reinos que conheço — ele sussurrou.

​— Então agora você descansa — ela disse, sem soltar as mãos dele. — Amanhã, você não será o "menino-rei". Amanhã, você será o Rei que a Escócia precisa. E eu estarei bem atrás de você. Se você tropeçar, eu te empurro para frente.

​Edmund levantou os olhos para ela, a respiração finalmente se acalmando. Naquela penumbra, não havia rei ou criada. Havia apenas dois jovens unidos pela mesma dor.

​— Por que está me ajudando? — ele perguntou. — Você ainda me odeia?

​Maria sustentou o olhar dele por um longo tempo antes de responder.

— Eu odeio a coroa, Edmund. Mas o homem que a carrega... este eu estou começando a conhecer.