O Príncipe de Amicitia
5 Doce Abismo
Notas iniciais

Assustado e em choque, Yoongi correu aos tropeços pela estrada de terra, o coração martelando no peito. Precisava fugir. Se aquele homem o alcançasse, não teria outra chance.
As lágrimas ardiam em seus olhos, misturadas ao sangue que ainda escorria pela testa e bochecha cortada. Mas ele não parava. Correu como nunca antes, ignorando a dor nas pernas, ignorando a escuridão ao redor.
Só quando as luzes da aldeia desapareceram atrás das árvores, e o som dos próprios passos ecoava sozinho na mata, é que se permitiu olhar para trás. Estava sozinho. O homem o perdera de vista. Estava salvo por ora. Foi então que a ficha caiu. Brincar de herói era uma coisa. Ser um, era outra bem diferente. Heróis de verdade não existiam. Não naquele mundo.
Cambaleando, Yoongi adentrou novamente a floresta. O céu começava a clarear lentamente, e a luz pálida do amanhecer pintava a copa das árvores com tons cinzentos. O corpo pequeno do garoto tremia. A fome corroía seu estômago como ácido, e as pernas doíam tanto que mal conseguiam sustentá-lo. Seu rosto ardia com o corte recente, o sangue ainda escorrendo em pequenos filetes quentes.
Sentou-se ao pé de uma árvore, exausto. Engoliu o choro, mesmo com a garganta embargada. Levou a manga da blusa até o rosto e tentou limpar o sangue dos olhos, só para conseguir enxergar melhor. O tecido áspero fez o ferimento arder, mas ele não reclamou. Fechou os olhos por alguns segundos. Respirou fundo, precisava pensar.
Levantou-se devagar e olhou ao redor, vacilante. Já não tinha esperanças de encontrar um remédio, mas talvez, em outra aldeia, em outro lugar, houvesse alguém com um coração mais bondoso. Alguém que pudesse ajudar Lucy.
Mesmo machucado, mesmo com medo, Yoongi apertou o graveto em suas mãos como se ainda fosse uma espada, e voltou a caminhar.
Estava tão focado no horizonte, imerso em pensamentos e incertezas, que não percebeu quando alguém se aproximou.
— O que uma criança tão bonita faz sozinha nessa floresta tão perigosa? — disse uma voz suave e desconhecida.
Yoongi virou-se rapidamente. À sua frente estava uma jovem de sorriso acolhedor, os olhos brilhando com gentileza. Ele a encarou em silêncio, o corpo ainda tenso, pronto para correr se fosse necessário.
A moça se agachou, buscando nivelar-se à sua altura.
— Pobrezinho... — murmurou, ao notar o sangue em sua bochecha. — Quem faria algo tão cruel a um rostinho tão puro?
De dentro das dobras de sua roupa simples de camponesa, ela retirou um pequeno frasco. Sem hesitar, despejou um pouco do líquido sobre a ferida de Yoongi. Ele recuou imediatamente, com uma expressão de desconfiança. O líquido ardeu como fogo, e ele lançou à moça um olhar reprovador.
— Ah, isso? — disse ela, sorrindo com naturalidade — Vai passar logo. É um remédio… quase como uma poção mágica.
Ela piscou, como quem guarda um segredo, e então se levantou.
— Espere um pouquinho. Vou colher algumas ervas.
Enquanto ela se afastava entre os arbustos, cantarolando suavemente, Yoongi a observava com cautela. Ainda desconfiava, afinal, já havia aprendido que nem todos que sorriam eram confiáveis, mas havia algo naquela moça que o fazia lembrar de Lucy. Talvez o cheiro doce em suas roupas, ou a maneira como prendia o cabelo. Parecia uma versão mais velha de sua irmã. Mais forte, mais viva. Suas bochechas eram coradas, diferentes da palidez que tomava conta de Lucy. Também era mais alta e não tão magra. Os cabelos longos e escuros da jovem balançavam com o vento, pretos como a noite, e seus olhos tinham o tom exato das folhas que colhia: verdes, claros, serenos.
Yoongi concluiu, em sua mente de menino, que ela não era tão bonita quanto Lucy, mas era bonita. E, naquele momento, isso era o suficiente para que ele decidisse não fugir.
Depois de alguns minutos, Yoongi percebeu que a dor em seu rosto havia diminuído. O ardor cessara, e o sangue já não escorria. Levou os dedos até o ferimento e se surpreendeu ao sentir a pele úmida, mas firme. O corte começava a fechar.
Limpou a garganta timidamente, tentando chamar a atenção da moça. Ela se virou imediatamente, com um sorriso gentil nos lábios.
— Obrigado — disse ele baixinho, sem saber se deveria desviar o olhar ou sustentar aquele gesto de gratidão.
— Não precisa me agradecer, minha criança — respondeu ela, se aproximando e colocando uma flor delicada em suas mãos.
Yoongi ficou maravilhado com o presente, observando as pétalas coloridas com os olhos brilhando.
— A senhora é uma fada? Consegue curar as pessoas? — perguntou, cheio de esperança, abraçando a flor contra o peito.
A moça riu baixinho, a voz tão doce quanto o cheiro das ervas que colhia.
— Não, pequeno… não sou uma fada. Isso foi apenas um remédio simples. Nada mágico.
Mas para Yoongi, aquilo era mágico o suficiente. De súbito, seus olhos se acenderam com uma ideia.
— Minha irmã está muito, muito doente — começou, a voz trêmula — Eu prometi a ela que ia buscar ajuda, por isso estava indo para outra aldeia.
A expressão da moça suavizou, e ela se agachou novamente diante dele.
— E no caminho… encontrou pessoas más, não foi? — disse com delicadeza.
Yoongi assentiu, mordendo o lábio inferior para conter o choro que ameaçava vir.
— O mundo é um lugar cruel às vezes — continuou ela — Existem pessoas más, que fazem coisas terríveis até mesmo com crianças bondosas como você.
Ela passou a mão com carinho por seus cabelos.
— Por isso você precisa de alguém que o proteja… você e sua irmã.
Seu olhar se fixou nos fios brancos e sedosos de Yoongi, como se enxergasse neles algo raro e precioso.
— Seus cabelos são como a neve. Tão belos… Pessoas como você são raras, meu querido. Raras e especiais.
Yoongi, ainda desconfiado, mas agora esperançoso, murmurou:
— Me chamo Yoongi. Min Yoongi. A senhora pode curar minha irmã também?
A moça o encarou por alguns segundos, como se medisse o peso daquela pergunta. Então, sorriu.
— Não sei se posso curá-la… mas posso tentar. Leve-me até ela. Quem sabe eu consiga ajudá-la.
...
Ao chegarem à pequena casa, a jovem se aproximou da cama onde Lucy repousava. Examinou-a com atenção, os olhos percorrendo seu corpo frágil e abatido. Lucy estava pior. O suor escorria por sua testa febril, os lábios estavam rachados, e seus olhos, antes tão vivos, agora pareciam vazios e afundados em olheiras profundas.
A moça se virou para Yoongi e balançou a cabeça lentamente, com pesar.
— Sinto muito, minha criança… — disse em voz baixa — Não há mais o que possa ser feito por sua irmã.
Yoongi avançou alguns passos, desesperado.
— Por favor! Tem que ter algum jeito de salvar ela! — implorou, a voz falhando — A senhora não tem mais nenhum daqueles remédios mágicos? Igual usou em mim? Por favor… por favor!
A moça arqueou uma sobrancelha e soltou uma leve risada, curta e enigmática.
— Já que você mencionou… — disse, como se tivesse acabado de lembrar de algo — Talvez eu tenha uma última coisa.
Ela retirou um frasco de aparência estranha de uma pequena bolsa amarrada ao cinto. O líquido dentro era escuro e denso, quase oleoso, refletindo tons arroxeados à luz trêmula da lareira.
Aproximou-se de Lucy com calma. Ergueu sua cabeça com delicadeza, apoiando-a em seu colo. Com os dedos, entreabriu os lábios ressecados da garota e despejou o conteúdo do frasco lentamente. Lucy engoliu com dificuldade, o pescoço tremendo com o esforço.
— Agora... só nos resta esperar — disse a moça, afastando-se e se sentando em uma cadeira próxima, como se aquilo fosse apenas parte de uma rotina qualquer.
Para Yoongi, cada segundo que se passava era como uma faca atravessando o peito. Sentado no chão, com as mãos unidas contra o peito e os olhos fixos na irmã, ele sentia o tempo se arrastar. O medo o dominava, misturado à esperança desesperada de que, a qualquer momento, Lucy abriria os olhos e sorriria para ele.
Mas nada aconteceu.
Meia hora se passou. E cada minuto foi uma eternidade.
A moça se levantou em silêncio, aproximando-se novamente da cama. Verificou os sinais vitais de Lucy com calma. Seu rosto, antes sereno, tornou-se sombrio.
— Lamento, minha criança — disse, sem emoção — Fiz tudo o que estava ao meu alcance. Mas não há mais o que fazer. — Ela fez uma breve pausa e então completou, com uma frieza que perfurou o coração de Yoongi — Ao menos o sofrimento dela logo chegará ao fim. Acho melhor você se despedir.
Aquelas palavras atingiram Yoongi como uma lâmina invisível, cortando-o muito mais fundo que o ferimento em seu rosto. Era uma dor silenciosa e devastadora, a pior que já havia sentido.
Ele havia perdido os pais quando ainda era um bebê, e desde então, Lucy era tudo o que tinha. Era irmã, era mãe, era casa.
O choro veio com força, incontrolável.
— Lucy! Lucy! Lucy! — gritou entre soluços, agarrando-se ao corpo frágil da irmã, tentando envolvê-la em um abraço desesperado. — Eu vou dar um jeito… eu vou te salvar, só aguenta mais um pouco, por favor...
Lucy abriu os olhos com esforço, a respiração já entrecortada.
— Yoon… Yoongi — murmurou, cada sílaba exigindo dela um esforço desumano — Me escute com atenção, irmãozinho...
Yoongi silenciou, apesar do choro. As lágrimas escorriam abundantes por seu rosto e caíam sobre o dela.
— Eu queria… poder ver você crescer. Mas não posso. — Fez uma pausa longa, buscando ar. — Vou encontrar papai e mamãe agora… está bem?... Mas eu sempre… sempre estarei com você.
— Não! Não, Lucy! — implorou ele, com a voz rasgada pela dor — Por que você está se despedindo? Eu ainda vou te curar… não me deixa sozinho, por favor!
Lucy sorriu, fraca, mas com ternura.
— Meu irmãozinho… eu te amo tanto... — Sua voz já era quase um sussurro. — não se preocupe, ninguém nasceu para ficar sozinho, Yoongi. Um dia você encontrará amigos leais que nunca te abandonarão.
E então, com os olhos voltados para ele, Lucy deu seu último suspiro. A morte foi suave. Mas para Yoongi, foi como se o mundo inteiro tivesse desabado sobre si. Um vazio imenso invadiu seu peito. A dor, a ansiedade, o medo, tudo misturado em um nó sufocante. Sentia-se como se algo dentro dele tivesse se quebrado para sempre.
Ele permaneceu ali, imóvel, com os braços ao redor do corpo sem vida da irmã. O tempo parecia ter parado. Sua mente se enchia de perguntas sem resposta, girando em espiral: Por quê? Por que ela? Por que agora?
Os olhos de Lucy ainda estavam abertos, fixos nele, como se continuassem a protegê-lo mesmo na morte.
Yoongi parou de chorar. Não por aceitação, mas porque algo em sua alma simplesmente silenciou. As lágrimas cessaram. O choro desapareceu. E ele ficou ali, estagnado, com o olhar perdido sobre o corpo da única pessoa que o amou incondicionalmente. Ali, naquela noite fria e silenciosa, uma parte de Yoongi morreu com Lucy.
A moça misteriosa observava a cena com uma inquietante tranquilidade, como se a dor de Yoongi fosse um espetáculo. Apesar disso, tentou mascarar sua satisfação com uma expressão fingidamente triste ao se aproximar dele, estendendo os braços como quem oferece consolo.
— Eu sei que está doendo, criança... — murmurou, num tom quase doce demais para ser verdadeiro — Mas posso fazer essa dor desaparecer. Com esses cabelos brancos… você seria um enfeite deslumbrante na minha coleção. Só precisamos dar um jeito nesse rostinho… esse corte atrapalha a perfeição.
Ela sorriu, um sorriso enviesado e perturbador, enquanto enrolava entre os dedos alguns fios dos cabelos de Yoongi como se já lhe pertencessem. Antes que pudesse fazer mais, uma voz masculina ecoou pela porta, firme e autoritária:
— Basta, Ailish.
Um homem alto e bem vestido adentrou o pequeno cômodo, a presença imponente preenchendo o ambiente. Seu olhar passou brevemente por Lucy, agora sem vida, e pousou sobre Yoongi com um interesse peculiar.
— Essa criança me parece... promissora — disse com calma — considerando sua linhagem. Tenho observado ele há dias. Tenho outros planos para ele. Procure outra criança para o seu entretenimento.
Ailish franziu os lábios, claramente contrariada, mas não ousou discutir. Ela se afastou de Yoongi com um olhar frustrado, como quem perde um brinquedo raro.
Ninguém falava sobre o estranho hábito de Ailish, mas todos sabiam. Desde a perda de seu filho, dez anos atrás, ela encontrara um passatempo mórbido: empalhar crianças e transformá-las em adornos para sua sala. Um passatempo nada convencional, mesmo para tempos tão sombrios.
O homem se aproximou de Yoongi com passos suaves, abaixando-se até ficar em sua altura. Seu rosto era sereno, o sorriso gentil. Mas havia algo nos olhos, um brilho intenso, calculado, hipnotizante.
— Olá, pequeno. Sou o Sr. Ethan.
Sua voz era suave e envolvente.
— Não precisa mais ter medo. Você não está sozinho. Somos sua família agora. Você nunca mais sentirá fome ou qualquer outra necessidade.
Yoongi sentiu um arrepio na espinha. A presença daquele homem o inquietava. Mas, de algum modo, suas palavras também o acalmavam. Era como o calor de uma lareira acesa, que você só depois percebe estar queimando demais.
— Me diga uma coisa, Yoongi… — continuou Ethan, os olhos cravados nos dele — Você sabe de quem é a culpa pelo que aconteceu com sua irmã?
Yoongi permaneceu em silêncio. O vazio em seu peito ainda era grande demais para formular qualquer pensamento. Ele realmente não sabia. Mas Ethan sabia que aquela era a abertura perfeita.
— Creio que você conhece o castelo de Somnium… — disse Ethan, a voz baixa e sedutora — onde vivem o Rei e seu filho, rodeados de ouro, banquetes e roupas de seda.
Ele se inclinou levemente, o olhar preso em Yoongi como o de um predador paciente.
— Sabia que, enquanto eles vivem no conforto, enchendo suas barrigas e desfrutando de uma vida plena, você e sua irmã passaram fome, frio e miséria? Isso te parece justo?
Yoongi permaneceu imóvel, a mente ainda nebulosa, mas as palavras de Ethan encontravam espaço em meio ao luto.
— Eu luto para mudar isso. Para que outras crianças como você não sofram o mesmo destino.
E então, estendeu a mão.
— Venha comigo, pequeno. Tenho muito o que te ensinar.
Yoongi olhou para sua irmã uma última vez. Lucy permanecia imóvel, envolta em silêncio, os olhos fechados pela eternidade.
Seu coração apertou. Mas ele não chorou. Sentia-se como se algo dentro dele tivesse sido arrancado, e o que restava era um eco vazio. Um vazio fácil de preencher com palavras doces e promessas de justiça.
Sem dizer nada, ele segurou a mão de Ethan. Deixou-se levar. Ethan o ergueu e o colocou sobre um dos cavalos. Com um aceno breve para trás, virou-se para Ailish:
— Cuide das coisas por aqui.
Sem mais palavras, desapareceram entre as sombras da floresta.
— Venha, me ajude com isso — ordenou Ailish a um dos guardas, apontando para o corpo de Lucy.
O homem, ainda que treinado e calejado, hesitou por um segundo. Com cuidado, envolveu o corpo da jovem em um pano branco, respeitosamente. Seus olhos marejaram levemente.
— Por que ela precisava morrer...? — murmurou, com pesar — Era tão jovem... Ser levada por uma doença assim, que Deus a tenha.
Ele fechou os olhos da moça com delicadeza. Ailish soltou uma risadinha debochada.
— Ah, isso? Era só uma doença boba. Curável com qualquer um dos meus elixires.
Ela se inclinou, os olhos brilhando de malícia.
— Precisei dar um empurrãozinho… meu último frasco de veneno. Que desperdício. Mas… há males que vêm para o bem. Se é que me entende.
O guarda empalideceu.
— O pior — continuou ela, suspirando dramaticamente — foi ter que atuar nesse teatrinho patético que meu pai arquitetou. Mas… como mais ele convenceria a criança a segui-lo? Tirando a única coisa que o mantinha preso aqui, é claro. Agora Yoongi tem o incentivo perfeito.
O guarda a observava, desconfortável. Mesmo após anos servindo aquela família, ainda não se acostumara com a frieza que corria em suas veias.
— E o corpo da moça, Milady? O que deseja que eu faça?
Ailish pensou por um instante, depois sorriu.
— Guarde-o. Está um pouco velho, mas talvez ainda tenha alguma utilidade.
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