O Plano Mestre

1 O Relojoeiro


Notas iniciais
"E você corre e corre para alcançar o sol, mas ele está se pondo Dando a volta, até surgir novamente atrás de você O sol é o mesmo, de forma relativa, mas você está mais velho Com menos fôlego e um dia mais próximo da morte" Pink Floyd

Era o fim de uma bela tarde. Tarde essa que durara pouco em relação às demais, o que não é motivo de surpresa, já que isso sempre acontece, afinal, quando estamos ocupados demais com algo ou estamos fazendo algo que gostamos em um bom lugar, a relativização do tempo é inevitável. Porém, não estou falando de uma cidade normal, central ou periférica, muito menos satélite, grande ou média, mas de uma cidade especial, onde a sabedoria permeia e voa com o vento, de um lado para o outro, de um lado para o outro, e nunca vai embora, permanece sempre presente.

Esse lugar é chamado de White Earth.

Ladrões aqui nem pensam em roubar, assassinos nem pensam em matar, suicidas nem pensam em suicídio e corruptores nem pensam em corrupção, afinal eles nem existem.

Especificamente em uma viela conhecida como Augustus Segundo, os raios solares emanavam vida e se despediam dando lugar a luz da Lua, oferecendo um belo contraste de cores, sobretudo na Torre de Vidro, a qual se encontrava no centro da praça Augustus, ao redor da qual se encontravam bancos de prata, revestidos de simplina, um metal de sacrifício típico do local, usado para evitar que a prata esquentasse, todavia muito mais valioso, humanamente falando, organizadamente postos em meio ao gramado e às árvores, responsáveis pela climatização do ambiente, tornando perfeito o equilíbrio entre construções e natureza. A viela também não era comum, pois era feita de ladrilhos de diamante e cristais, e esse era o endereço da loja de relógios do Sr. Inácio, um ambiente simples, mas constantemente visitado.

Nesse fim de tarde estava o Sr. Inácio sozinho na sua loja, organizando de uma forma diferente os relógios. Costumava gastar tempo prestando serviços para ajudar o tempo a funcionar, mas ao contrário do que se pensa, não era cobrado nada pelo conserto e nem pela venda de relógios, sim, ora já havia metais preciosos pelas ruas, por que cobrar por algo que se já tem? Faz muito mais sentido aproveitar a oportunidade para realçar as relações sociais, e o ambiente era perfeito para isso, consistia em uma pequena área com um balcão ao fundo na frente de uma porta, a qual dava acesso à casa do dono da loja. Enquanto ao teto, este era feito fundamentalmente de cristais, que eram responsáveis por filtrar a luz solar, chegando com perfeita temperatura no interior do local, além de possuir algumas cadeiras, de madeira, pela preferência do dono, destinada aos visitantes, as quais possuíam detalhes leves e bem elaborados nos braços e nas pernas.

E nesse lugar habitava e cumpria suas funções o Sr. Inácio, pertencente à classe dos duendes, responsável por tarefas específicas como cuidar de uma loja. Costumava vestir roupas simples, inclusive no dia citado, boina elegante cor preta com detalhes nas bordas um pouco mais escuras, suéter cor bege com listras diagonais brancas e calças folgadas cor marrom e geralmente sem calçados, mas nesse dia estava com um calçado artesanal e usava seu monóculo.

Quando ele estava prestes a acabar o serviço um amigo seu passou pela porta, era perceptível por que a porta possuía uns guizos que balançavam quando alguém passava por ela. Era o Sr. Peter, pertencente à classe dos anjos sem asas, responsáveis pela agricultura e produção de grãos da região.

—Inácio! Quanto tempo! – disse o anjo ao entrar, acenando com a mão, antes de estendê-la para um aperto.

—Ora se não é meu bom amigo Peter! Fique a vontade! Algum desejo em especial?

—Sim, Sr. Inácio – disse Peter em um tom alegre – preciso que o meu relógio volte a funcionar, preciso do meu tempo de volta.

—Isso é simples – disse o relojoeiro pegando o objeto com a mão direta para analisá-lo melhor – pelo que vejo é apenas um problema com a bateria dele, uma troca vai resolver o problema, sente-se, por favor.

Peter se sentou enquanto o seu amigo procurava nas gavetas atrás do galpão uma bateria compatível, enquanto isso ele perguntou:

—Como está a sua casa? – disse o agricultor

—Ah, está ótima! Todos os meus irmãos estão como deveriam estar. Bem os dias vão bem, graças ao criador de todas as coisas. E sua casa? Diga-me as novidades!

—Minha casa está em perfeita harmonia! Graças ao mesmo. Mas tem coisas ruins que ouvi dizer, não sobre minha casa, mas sobre a humanidade e seu futuro, porém ouvi também que as devidas providências já foram tomadas.

—Ora! Esses humanos! Não cansam de serem desumanos! De serem entre si os próprios lobos auto devoradores – afirmou Inácio aumentando um pouco o tom de voz – o amor é uma palavra muito bem falada na terra deles, entretanto muito mal executada. Confiamos em nosso Rei para ajudá-los da melhor forma. Em um universo tão grande os criados querem ser maiores e mais poderosos que o criador! – Ao terminar de dizer a frase, ambos foram surpreendidos por três crianças humanas que adentraram com rapidez e desespero no rosto com um relógio na mão do menor deles.

—Senhor! Senhor! – disse o garoto dando um passo a frente – precisamos de ajuda! O nosso relógio... O nosso relógio não funciona mais! Estamos sem tempo!

—Tenham calma por favor! Vocês estão sem tempo por que o relógio não funciona ou por que estão apressados? – Respondeu Sr. Inácio com um sorriso no rosto.

—Mas o que? Não é hora de fazer piadas!

—Mas como vocês sabem que não é hora se o medidor que possuem não funciona? O tempo transcende a matéria assim como a alma transcende o corpo.

—Ó grande sábio da China, eu não entendo suas metáforas!

—Por favor senhor nos perdoe – disse a garota tomando a frente do garoto – estamos aqui para fazer o que é necessário, diga-nos o que pode e nos ajude – tomou o relógio da mão do amigo e deu ao senhor relojoeiro.

Ele o pegou e fez como sempre faz, analisou-o. Mas dessa vez deu uma resposta diferente.

—Bem, não há problema algum aqui. Ele voltará a funcionar se preciso for.

—Mas... Como assim? – Retrucou a garota.

—Simples, esse objeto foi projetado pelos projetistas reais de um elemento não humano chamado Arkenos, isso quer dizer que só funcionará caso tenho sido feito para funcionar e se funcionou até agora, pode voltar ou não, depende de seu destino. Mas uma coisa lhes digo, aprendam a enxergar além dos ponteiros do relógio. Cada ano que passa fica mais curto, parecem nunca arranjarem tempo, planos que tampouco deram em nada, mas esta situação está no fim, a menos que aproveitem o que lhes foi dado. Podem ir agora. – As três crianças se viraram e saíram, ao que parecia, tristes e confusas, resmungando algo inaudível.

—Um relógio que não funciona? – Perguntou Peter que ainda estava lá

—Sim, pois não é só de um desses que podemos descobrir o tempo, o que é inevitável para quem é mortal. E bem, antes que me pergunte, o rei me disse o que fazer – deu uma breve risada – ah! Aqui está a bateria do seu, desculpe a demora! – Colocou-a no objeto que estava sobre o balcão, e se despediu de Peter, o qual já tinha seus afazeres. Enquanto ao duende, terminou a nova organização dos relógios.

No centro do local havia um vaso sobre uma coluna. O objeto tinha uma cor de fundo escura e outra superficial clara, conforme se abaixava a visão as cores se misturavam entre si, tornando-se uma única cor, imperfeita, nem clara nem escura. O curioso é que a organização da loja mudava constantemente, mas aquela coluna com aquele vaso permanecia sempre lá, independente da passagem do tempo.