O Perfume da Rosa
1 1 - Can Can Francês
1 – Can Can francês
- Esse aqui, Madeleine! Esse tá um luxo!
Madeleine Garcia retirou a caneta da bolsa. Circulando a fotografia do estojo de sombras para os olhos, escreveu em seguida o nome da cliente: Vivian.
— Creio que combinará muito com seu tom de pele.
No fundo, Madeleine sabia que aquela cor amarela clara não combinava com o rosto da moça – Vivian era alva demais para usar determinada tonalidade. Mas não adiantava ir contra os desejos dos clientes, tão pouco palpitar sobre os péssimos gostos deles – deveria apenas aceitar e fazer o pedido para revender.
— Quando irá chegar? – a moça ansiava. Sentada na cama com as pernas cruzadas, usava uma camisola vermelha quase completamente transparente, com rendas na parte dos seios e uma das alças caindo sobre o ombro. Aquilo era modo de atender uma vendedora?
— Dentro de uma semana, eu acho. – Madeleine guardou a revista em sua bolsa – Tem certeza de que não quer ver mais produtos? Tenho uns batons e uns gloss maravilhosos para complementar sua...
— Não me tente, Mady! – Vivian sorria – Não posso esgotar o cartão de crédito do Roger. Ele vai brigar comigo assim.
— Ah, entendo... – colocando a bolsa no ombro, Madeleine forçou um sorriso amarelo – Bom, estou de saída. Assim que seu conjunto de sombras chegar, ligarei e marcarei um dia para entregar, tudo bem?
— Sem problema. Tchauzinho, Mady!
Fechando a porta do apartamento de Vivian, Madeleine suspirou. Era legal trabalhar com cores, perfumes, beleza, mas às vezes sentia-se cansada. Ninguém mostrava o que realmente era: cobriam-se com aquelas pinturas, disfarçando, assim, os traços do tempo, os defeitos da pele, o verdadeiro ser. Superficialidade demais. Em certos momentos, Madeleine pensava realmente porque trabalhava como revendedora de cosméticos e fazia bicos como maquiadora. Não gostava de escutar as futilidades daquelas que lhe serviam de quadros humanos para suas aquarelas especiais, encontrava muitas pessoas frívolas. Enjoava.
De qualquer maneira, não havia como fugir. Escolhera não estudar e ser revendedora da Avon, assim como preferira certificados de cursos de beleza ao invés do diploma da faculdade. Ao menos, ganhava um dinheiro que sustentava seus poucos gastos consigo, com a casa, e com os dois gatos que criava.
Entrou no carro e ajeitou o cabelo. Até que gostara do novo penteado, curtinho e com a franja que lhe cobria as sobrancelhas. Inicialmente, sentira-se incomodada ao ver todo o seu imenso emaranhado de fios indo embora do seu couro cabeludo, mas precisou reconhecer que estava melhor, meio Amélie Poulain. Algumas de suas clientes não gostaram, preferiam que Madeleine usasse looks mais provocantes, sensuais, até vulgares. “Ajuda a arrumar namorado”, diziam. Para quê arrumar outro relacionamento se seu namoro virtual com Marcelinho estava tão bem? Contudo, não era isso que suas clientes e amigas achavam! “Namoro virtual? Esqueça isso, Madeleine, não dá certo! Ele vai te trair a qualquer hora”. Mas Marcelinho não era assim! Ele era romântico, educado, fazia Física na faculdade, usava óculos redondos charmosos, era tímido, fofo, ligava apenas para dizer “boa noite”. O único problema era a distância, o que em breve seria resolvido: nas férias, ele iria visitá-la – o que já considerava um grande passo, pois não aguentava mais sexo apenas pela internet.
Madeleine era careta. Gostava de música clássica; gastava noites de sábado lendo seus livros, assistindo seus filmes, namorando Marcelinho pela internet, tudo acompanhada pelos gatos; preferia roupas fechadas que escondessem os pequenos pneus que saltavam de suas calças. Odiava bebidas alcoólicas, cheiro de cigarro, barulho alto. Amava poesia, feijão com arroz, caixas de chocolate, fotos fofas, desenhos de ursinho, dormir com a mãe quando o pai viajava, histórias em quadrinhos, coleções de bonecas. Fugia de festas, agitações, multidões , tinha mania de limpeza, chorava fácil com filmes e desfechos infelizes dos livros que lia. Porém, embora esquisita e sem graça, sentia-se plenamente feliz e satisfeita com quem era.
Sorriu para si mesma quando viu sua imagem no espelho retrovisor. Ligou o motor e saiu.
Eram quase dez horas quando escutou as batidas no vidro do carro. Distraída com a nona sinfonia de Beethoven que terminava para dar ligar ao Can Can francês, abriu a janelinha, ainda imersa na magia musical, sorrindo para a pessoa que lhe chamava.
— Passa a chave do carro, vagabunda.
O cano longo, duro e frio da arma fora posto sobre sua fronte, congelando-a. Madeleine sentiu o corpo tremer, as ações paralisaram. O tique nervoso da gagueira voltara.
— P-p-p-p-p-p-p-p-p-p-....
— Vai logo, puta! Quer levar um tiro e morrer, vadia?
O rosto do delinqüente era escondido por uma máscara preta, dando abertura apenas ao seu nariz e a seus olhos. Cada vez mais trêmula, Madeleine levou a mão à trava do carro, pronta para abrir – não sabia nem se iria pedir, em piedade, para retirar, ao menos, seus estojos de maquiagem e a revista com os pedidos das clientes.
— Pise no acelerador.
A outra voz era diferente e não vinha de fora do carro, e sim de dentro. Uma tonalidade feminina, grossa, decidida. Instintivamente, voltou o rosto para o outro banco dianteiro, batendo os olhos em uma silhueta de mulher. Cabelos dourados, lisos e longos formaram-se diante de suas pupilas, óculos escuros, jaqueta de couro, lábios finos, rosto trancado. O que aquela mulher estava fazendo ali?
— Quer morrer também, desgraçada?
A mulher, ao contrário de Madeleine, parecia bem tranqüila, tanto ao ponto de sacar uma pistola de plástico cor de rosa no rosto do assaltante. O meliante não contivera o riso.
— Tá querendo morrer também, desgraçada?
Os lábios da mulher repuxaram-se em um sorriso cínico.
— Desgraçada é a sua vida medíocre, cretino.
E, inesperadamente, ela apertara o gatilho da arma de plástico. Madeleine vira a cena como os últimos instantes da sua curta vida de vinte e três anos. Esperara a morte, porém, como um milagre, esta não viera. Não para ela. Ao contrário do que imaginara, o tiro da arma atingira o assaltante, que caíra no chão com um ferimento na fronte, passando a se debater e a gritar no chão, parecendo ter um severo ataque epiléptico.
— Não se preocupe, ele vai se recuperar. – a voz feminina falou, tranquilamente – Agora, por favor, pise no acelerador.
— E-e-e-e-e-e-e-e-e-e-e-e-elllle.....
— Não, ele não morreu, mas vai sofrer bem muito. Quando você vai pisar no acelerador mesmo?
Madeleine não tinha forças – o que era aquilo mesmo que estava vivendo? A moça não esperara por sua ação, era mais do que perceptível que tinha pressa em demasia. Pisando no acelerador, dera impulso ao carro, obrigando Madeleine a dirigir.
— Vá em frente, vá em frente!
O Can Can francês atingira os seus ápices.
— Quem é você? – gritara Madeleine, cada vez mais assustada.
— Em frente! Não tenho tempo para perguntas! Em frente, em frente!
Inconscientemente, Madeleine obedecera às ordens que lhe foram impostas, sempre dirigindo em frente. Passara minutos intermináveis assim, até chegar próximo a um ponto interditado da estrada.
— Não posso continuar! – gritou, agoniada.
— Ignore! Vá, vá, vá, vá!
— Vamos morrer!
— Não vamos! Vá!
Madeleine ainda tentou ir contra, em vão. A moça continuara a atividade, tomando a direção e batendo na placa que impedia a passagem, jogando o carro para além da estrada.
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