O Pequeno Conto De Maria
1 único
Maria estava parada naquele lugar já há muito tempo. Chovera de manhã, as lágrimas molharam a terra e se fez a lama e a pequena garota, sem nada entender do mundo pegara sua boneca favorita e fora ficar de pé na lama, do lado de fora da casa, dentre as flores carmim, com seu vestido brando.
Vestido branco que já amarelava, devido ao logo tempo de uso. Maria, que agora tinha seis anos, não crescera muito nos últimos tempos, então suas roupas eram reaproveitadas. Situação injusta na cabeça da criança. Os pais, de família rica, elite da pequena cidade, grandes possuidores de terras, bajulavam e presenteavam os irmãos mais velhos de Maria infinitamente; quanto mais agrado, melhor. Meninos e meninas mimados, sempre com roupas e brinquedos novos, tinham os melhores professores para aprender em casa e viviam como príncipes e princesas, enquanto Maria, esquecida, ficava em seu quarto, com sua única boneca de pano, remendada e velha, com seus vestidos na mesma situação.
Tão pequena e inocente, judiada. Não entendia porque seus irmãos eram tratados diferente, nem falavam com ela. Pareceria que era uma das filhas das empregadas, se alguma empregada a trata-se com carinho. Quando muito recordavam-se de chama-las as refeições. E ela apenas ficava parada, com seus pequenos pés envoltos de lama, olhando para frente, tentando ver alguma beleza na estranha fina, onde nenhum carro passava. Era uma cidade pequena, quase um vilarejo, bem longe dos castelos e da burguesia, sua família era a burguesia, sonhavam em se juntar a realeza, Maria não sabia o porque, não queria saber o porque, para ela não fazia diferença, não conseguia pensar muito, não fora ensinada a pensar, então não se importava se era burguesa ou nobre, não sabia o significado dessas palavras, apenas ouvira quando vagava pelos corredores da grande casa. Ela não pensava nisso, e, nesse momento, não pensava em nada, apenas estava parada lá.
Essa era uma das virtudes que achava que possuía: ficar em silêncio, deixar sua mente quieta, não pensar. Às vezes ouvira sua mãe reclamando que não conseguia parar de pensar e que gostaria de descansar a mente, e Maria conseguia. De alguma maneira, se achava especial.
Não conhecia as palavras, não conhecia as letras, não sabia o que significavam, se conformara, mas sabia que era especial, faltava apenas colocar isso para fora. Descobrir porque era especial. Fitava a estrada, cinza, com lama dos dois lados, frondosas árvores sombrias, escondendo o céu que começava a clarear. Deu um passo finalmente, arrastando o pouco peso do seu corpo, lentamente, e deu outro passo, e assim foi caminhando tortuosamente pela lama, até a pequena estrada. Parou no meio, nenhum carro vinha e nenhuma carruagem, em nenhum dos lados da mão única. Muitos acidentes aconteciam nessa estrada devido isso, estradas de mão única são perigosas para os carros recém fabricados, porém era mais fácil frear com eles do que com as carruagens, na verdade nem eram carruagens, eram carroças, puxadas por cavalos mansos, os carros vinham de longe e iam para longe, ninguém parava na pequena cidade.
Maria, absorta na sua falta de pensamentos, caiu na estranha após sentir uma dor aguda na cabeça, como uma pancada. Quase desacordada, entreabriu os olhos para tentar ter consciência de que ainda estava viva, e viu um carro indo para longe. Era preto e brilhante, tinha som de cavalo, a máquina que levava uma pessoa.
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