O Passado nunca Morre
13 Cap. 13 O prometido é devido.
Notas iniciais
Anteriormente...
– Eu devo perguntar como foi, ou é preferível que eu me mantenha na ignorância?
– Além disso, não quero perder a diversão que está prestes a começar.
– Pare de se preocupar comigo, Pavel! Eles vem primeiro!!
– Vocês tem noção como vai ser ridiculamente difícil convencer um restaurante cheio de humanos que nada sobrenatural aconteceu?!
– Você. Porque tudo de ruim que acontece em Istambul tem que ter algo a ver com você, Abe Mazur?
Janine Hathaway (Turquia — 19 anos antes)
Naquele momento, eu admirei Donna Stanton.
Os Alquimistas, geralmente, agem com extrema cautela com a nossa raça. Fossem morois ou dhampirs, ficava aparente em seus rostos o repúdio e até o medo de nós, coisa que Donna não transparecia. Mesmo enquanto discutia com Ibrahim... e oh, eu não queria estar na pele dela quando ele estreitou os olhos ameaçadoramente.
– O que está querendo insinuar, Donna?
– Senhorita Stanton para você. E eu não insinuo, eu avalio fatos e você é um perigo para a humanidade por si só, fosse moroi ou humano. – disse ela e se aproximou dele sem se importar de invadir seu espaço pessoal – Eu vou descobrir o que você está contrabandeando naquelas docas, então reze para não ser o que eu estou pensando.
– Cuidado, senhorita Stanton. – respondeu ele com uma voz tão ameaçadora que senti os pelos da minha nuca se arrepiarem – O seu trabalho é encobrir-nos da humanidade, e não meter o nariz onde não é chamada.
– Meu trabalho é proteger a humanidade das influencias de criaturas malignas da noite como você. E agora, se me dá licença, eu pretendo limpar a merda que vocês deixaram acontecer. – disse ela seca e inabalada e virou-se rapidamente sem esperar qualquer “licença” ser dada.
– Stanton: um. Mazur: zero. – murmurei sem perceber que meus pensamentos me escaparam e Ibrahim se virou para mim com um olhar furioso ao qual eu só consegui responder tentando segurar o riso.
– Você devia cuidar desse ferimento em vez de fazer gracinhas. – reclamou ele estreitando ainda mais os olhos. Eu teria rido por alguém ser capaz de dizer que eu estava fazendo gracinha se eu não tivesse sentido a fisgada no braço.
– Ai. – murmurei tentando abarcar o sangue já coagulando – Vou ter que concordar com Stanton, você é um ímã para problemas. Meu braço já sofreu o suficiente, fique longe de mim ou vou acabar perdendo-o.
Como minha “piada” não pareceu surtir efeito, levantei o olhar para encará-lo e me assustei com a expressão preocupada de seus olhos. Ele retirou o lenço verde que ainda estava impecável no bolso do palitó e amarrou-o no meu braço com delicadeza. Antes que eu pudesse dizer uma palavra ele desviou o olhar para algo atrás de mim e seu rosto retomou a máscara mafiosa instantaneamente.
– Acho que você vai perder mais que um braço, pela cara que sua protegida está fazendo.
Virei-me apressada para Vanessa. Com toda a confusão para ser resolvida, eu apenas a havia deixado aos cuidados de Pavel e tomado à frente na limpeza. Oh Deus, ela estava irritada.
– Melhor eu tirá-la daqui antes que ela tenha um ataque.
Não esperei uma confirmação dele ou algo assim, apenas me dirigi à Vanessa esperando pela bronca por ainda estar naquele lugar. Mas a bronca não veio. E eu vi logo que a coisa seria mais séria do que parecia.
O caminho de volta ao hotel foi silencioso. Vanessa não me dirigiu o olhar por todo o percurso, fazendo exatamente o contrário de Pavel que resolveu nos acompanhar, mas não parava de me observar. Cansada desse tratamento de silêncio, assim que chegamos na suíte do hotel, abandonei Pavel na sala e segui Vanessa até seu quarto, fechando a porta atrás de mim.
– Vanessa eu entendo que está...
– ONDE VOCÊ ESTAVA?!
O grito de minha protegida ecoou pelo quarto interrompendo qualquer pensamento meu. Ela estava vermelha de raiva e seus lábios se retraíam em fúria deixando as presas à mostra. Ok... acho que a coisa era realmente séria. E é claro que nessas horas eu tinha uma articulação perfeita com as palavras.
– Eu... O-o quê?
– ONDE. VOCÊ. ESTAVA. JANINE! – disse ela enfatizando cada palavra – Onde você estava quando o ataque começou?! Onde você estava por diabos que não era do MEU lado ME protegendo?!
– Eu... eu deixei você com Pavel para ajudar os outros.
– Pavel não estava do meu lado quando o strigoi quase arrancou o meu pescoço! Ele tinha ido atrás de você! E mesmo que ele estivesse, Pavel não é meu guardião, VOCÊ é! – gritou ela a plenos pulmões e eu sabia que Pavel devia estar ouvindo da sala. E pior... Eu sabia que ela estava certa.
– E-eu sinto muito, Vamessa. Foi um erro, não vai acontecer de novo.
– Não. Não vai. – disse ela com uma voz fria e altiva o que me fez olhá-la incerta sem reconhecê-la. – Saia. – então se virou rapidamente e se dirigiu ao banheiro sem mais nenhuma palavra.
– Vanes...
– Isso foi uma ordem, Guardiã Hathaway.
Eu não sei se foi o choque ou a culpa que me fez congelar naquele momento. Quando estávamos na academia, Vanessa costumava me fazer uma promessa desnecessária toda vez que dizia que um dia eu seria sua guardiã. “Eu nunca lhe darei ordens.” E essa era a primeira vez que ela descumprira.
Respirei fundo, fechei os olhos e recobrei minha máscara de guardiã assim que a olhei novamente. Com uma pequena reverência, me afastei até a porta me retirando.
– Boa noite, senhorita Conta.
– Não vejo como ela possa ficar boa.
Com o comentário ácido de minha protegida, eu fechei as portas de seu quarto e me virei para a sala já pronta para encarar Pavel. Minha máscara em perfeitas condições e minhas emoções trancafiadas numa caixa.
– Eu avisei que Abe só lhe traria problemas. – disse Pavel encostado no sofá com uma expressão indecifrável.
Claro. Como minha noite não podia piorar, eu não precisava levar sermão apenas de um amigo, mas de dois. Esperei pelo resto que viria apenas parada à porta e tenho certeza que meus lábios deviam formar uma linha fina de irritação. Respirei fundo novamente. Bem, eu merecia isso não é? Eu definitivamente merecia.
Contra as minhas expectativas, ele suspirou e me arremessou algo que peguei no ar. Gelado! Quando percebi, estava segurando uma compressa de gelo e o encarei.
– Rosto, braço, costelas. O que mais você contundiu hoje? – perguntou ele enquanto apontava para cada parte dolorida do meu corpo. Eu baixei o olhar para as outras bolsas de gelo e a caixa de primeiros socorros sobre a mesinha de centro e suspirei.
– Minha responsabilidade.
– Abe costuma causar isso nas pessoas.
Pude ouvir sua risada nasal enquanto seguia até o sofá sem olhá-lo nos olhos. Coloquei o gelo sobre o lado esquerdo do rosto sentindo o ardor aliviar o inchaço e estendi a mão para pegar a caixa de primeiros socorros, mas fui impedida pela mão de Pavel e finalmente o encarei.
– Você vai me contar qual é seu envolvimento com ele? – perguntei enquanto o via retirar o lenço de Ibrahim da ferida no meu braço. Ele apenas se manteve calado enquanto começava a limpar a ferida e avaliava se precisava de pontos. Resolvi insistir. – Pavel...
– Você não está cumprindo a sua parte do acordo. – resmungou ele ainda concentrado nos pontos falsos que começou a fazer.
– Talvez se você me explicar porque devo ficar longe dele, isso reforce a “minha parte no acordo”.
– E eu preciso lhe dar um motivo maior, Janine? – cortou ele irritado e nossos olhos finalmente se encontraram. Apesar de sua máscara, eu pude ver que ele parecia magoado – Já não basta o que aconteceu hoje? Responda a pergunta de Vanessa. Onde você estava quando a confusão começou?
Sem saber como lhe responder, desviei meu olhar do seu observando o progresso em meu braço. Levando meu silencio como resposta positiva para o que quer que ele estava pensando, Pavel apenas suspirou e continuou trabalhando na ferida em silêncio. Enfaixou tudo com cuidado e começou a guardar o material.
Retirei a compressa do rosto e, com cuidado para não magoar o braço, virei-me de bruços no sofá soltando as amarras do meu macacão revelando o que faltava das minhas costas. Pavel retirou meus cabelos com cuidado exagerado e silvou baixo quando viu o estado da pele sobre eles. Pela dor que eu sentia, a rolada escada a baixo devia ter deixado belas marcas.
– Muito feio? – tentei perguntar para quebrar o gelo, mas ele demorou para responder. Quando eu ia me virar para olhá-lo, pude ouvi-lo murmurar.
– É meio difícil achar feio qualquer coisa em você, baixõno.
Agradeci mentalmente por meu rosto estar virado, pois eu tinha certeza que ele ficara vermelho pelo calor que emanava. Coloquei a bolsa de gelo sobre ele novamente, sentindo a mudança de temperatura quase derretê-lo. O alívio passou rápido quando senti as mãos de Pavel em minhas costas. Eu podia sentir o frescor da pomada para contusões sobre minha pele, mas a sensação das mãos quentes de Pavel causavam um arrepio muito superior. Tenho certeza que o gelo começara a derreter.
Aos poucos, comecei a me acostumar com seu toque e senti as dores passando enquanto fui relaxando. Estava tão cansada daquele dia interminável. Do sono mal dormido e dos estresse com Ibrahim. Ibrahim... Deus, eu o beijei. Droga! O que eu ia fazer agora? Eu...
– Eu não posso lhe dizer exatamente o que Abe me pediu para fazer.
A voz de Pavel me tirou do rumo distorcido de meus pensamentos e qualquer relaxamento foi trocado por atenção total, principalmente quando ele colocou as outras compressas de gelo espalhadas pelas minhas costas.
– E o que você pode me dizer? – murmurei fingindo sonolência. Eu sabia que se ele pensasse que eu não me lembraria da conversa, seria mais provável que ele falasse algo.
– Pra começar... Foi Abe que mexeu os pauzinhos para que eu fosse guardião de Nate. – disse ele pausando como se esperasse minha reação. Mas essa não era uma informação nova exatamente. Eu já tinha deduzido isso das outras conversas, mas falar isso agora só o faria se trancar. Então eu fui para o que importava.
– Por que?
Ouvi-o suspirar e se mover atrás de mim, provavelmente sentando no chão já que logo sua cabeça estava encostada em meu ombro e eu pude sentir mexas do meu cabelo serem puxadas de leve como se alguém mexesse neles.
– Porque ele queria uma informação que só Nate poderia ter, e ninguém seria melhor para descobrir do que seu próprio guardião. – murmurou ele amargamente – O trato era esse. Eu descobria a informação e ele...
A voz de Pavel sumiu antes que ele terminasse. Eu senti sua tristeza quase que palpável e não contive o impulso de virar o rosto. Devagar, tirando a compressa de gelo e afastando o cabelo com a mão boa, pude virar o rosto para o dele que estava a centímetros do meu, encostado no meu ombro olhando o teto com pesar.
– E ele...
A dor nos olhos de Pavel era quase tão física para mim quanto às demais espalhadas em meu corpo. Mas imensamente maior. Quando ele me olhou, seus olhos tão próximos, eu quase podia me sentir em seu lugar, mesmo sem saber o que realmente lhe causara aquilo. Quando ele finalmente falou, sua voz saiu rouca e tremida.
– E ele omitiria as... provas do meu último crime.
Respirei fundo, totalmente envolvida pela dor e pesar em seus olhos e quando as palavras saíram, mais pareciam arranhadas de receio.
– O que você fez, Pavel?
– Eu... matei um moroi.
Continua...
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