O Passado De Aziel E Amael.
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Hesitou em se levantar e deixar o conforto de ficar próximo ao aprendiz, mas parecia ser urgente, então delicadamente o soltou, beijando-o na testa.
– Não sei, Aziel... Fique aqui, vou ver o que é... Se quiser, pode dormir...
Ia caminhando até a porta, abrindo-a.
– Quem é?
– Está bem...
Se aconchegou na cama, deitando a cabeça no travesseiro, sempre ingenuo e tapado, não era atoa que se dava tão bem com Ablon.
[Mitzrael]: — Perdoe minha ousadia em lhe incomodar tão tarde, Senhor dos Vulcões...Mas trago ordens diretas dos Arcanjos...
Aziel estava sonolento demais, acabando por cair no sono, Mitzrael continuava falando.
[Mitzrael]: — Eles decidiram que os humanos serão castigados com um Dilúvio, e que você será encarregado de derreter as calotas polares.
Arregalou os olhos com a notícia, virando-se para se certificar de que Aziel dormia e saiu do quarto, pasmo com as ordens que recebera, confuso.
– Como...? Mitzrael, eles disseram o motivo desse castigo? Derreter as caloras polares... Para algo desse porte, algo extremamente grave deve estar ocorrendo... Ainda assim... Eles pretendem... Matar os humanos...?
Não gostava de questionar as ordens de seus superiores, mas por tudo que sabia sobre Yahweh, não precisava ser inteligente demais para deduzir que o Altíssimo jamais concordaria com atitude tão extremista.
[Mitzrael]: Esperava o Ishim fechar a porta, o anjo de cabelos e olhos roxos tinha um belo porte, carregando uma espada sagrada na bainha, mesmo não tendo armadura completa era um dos dicípulos de Rafael, Cura de Deus, mais como um ajudante e conselheiro para o Arcanjo bondoso, pois era extremamente justo e diciplinado.
– O motivo disso é que os humanos estão destruindo o planeta com seu ódio, egoísmo e luxúria... Nathanael, O Mais Puro foi mandado em missão junto de Balam para averiguarem isso, somente um homem chamado Noé e sua familia resistiram as tentações. Essa familia será poupada, apenas essa...
O anjo continuava a manter a postura, mas tinha percebido que o aprendiz do ishim estava ali dentro.
– Eles também disseram que poderá convocar quem quiser para ajudá-lo, quem sabe seu pupílo, mas isso é com você...
Olhava arrasado para Mitzrael, olhando para a porta como se olhasse para Aziel, voltando o olhar para o anjo à sua frente, balançando levemente a cabeça numa negativa.
– Aziel é só um garoto ainda... Isso é...
Mal tinha fôlego e saliva para falar, ainda atordoado demais com a notícia.
– É uma responsabilidade muito grande... Estamos falando de assassinar a humanidade inteira, e só deixar viva uma única família... Não, não é justo eu jogar esse peso nos ombros de alguém tão jovem... Vou contar a ele, sim... Mas... Não é justo. Não é?
Buscava a concordância de Mitzrael com suas ideias, com medo de estar passando demais a mão na cabeça do aprendiz, mas também com medo de ver o amado com o peso daquelas mortes nas costas para o resto da eternidade.
[Mitzrael]: — Se ele é seu único pupilo, devia pedir à ele, agora deixarei que descanse, não deve ser uma notícia fácil para um Ishim..
Fazia uma breve reverencia e se retirava queria voltas para a patrulha, afinal, era ele quem mantinha a ordem das regras celestiais que Miguel criava. Aziel acordara e abria a porta quando Mitzrael ia embora, esfregando os olhos.
– O que ele queria...?
Olhava em volta, segurando a mão de Aziel e entrando de volta no quarto, fechando a porta, indo até a cama e sentando-o nela de novo, sentando-se ao seu lado, pálido e meio trêmulo. Demorou alguns segundos antes de encontrar voz para falar com Aziel.
– Aziel... Veja bem... Mitzrael veio me dizer que os Arcanjos concluíram que os humanos estão destruindo o planeta com egoísmo, ódio e luxúria... Que buscaram entre os homens algum que valesse a pena salvar... Mas que apenas uma família se provou digna de morar na Terra. Então... Os Arcanjos ordenaram um Dilúvio... E serei eu a derreter as calotas polares. Me deram o direito de pedir ajuda de alguém e você é meu único pupilo... Mas para você, isso não é uma obrigação. Não precisa participar se não quiser.
Esperava não ter contado tudo rápido demais, então deixou o garoto assimilar a história pacientemente.
Sentou-se ao lado dele, preocupado ao vê-lo tão pálido e trêmulo, mas esperava segurando a mão dele que contasse tudo. Ouvia cada detalhe e seus olhos iam se arregalando, soltava a mão do mestre e se erguia, indignado.
– Isso é um absurdo! Não vivem só humanos lá, moram animais e plantas! Todos eles vão morrer se derreterem as calotas polares!
Balançava a face pros lados, se afastando um pouco dele.
– Eu não farei parte dessa matança inútil!
Mantinha a cabeça baixa ao ouvir o discurso do aprendiz, e se orgulhava da maneira como pensava e defendia a natureza, bem como um ishim. Infelizmente, não podia negar a tarefa como o aprendiz podia, e teve de engolir a vontade de cair no choro ao ouvir a palavra "assassinato".
–... Eu sei. Por isso, não precisa participar disso.
Ergueu-se, afagando os ombros do menor e beijando sua testa
– Por favor, descanse. Vou falar com os arcanjos para saber quando isso irá ocorrer.
Falava baixo, com medo que a voz falhasse. Teria que arcar com as consequências do Dilúvio sozinho, mas ao menos sseu discípulo estaria livre daquela culpa. Caminhou até a porta e, antes de sair, usou todas as forças que tinha para lançar um sorriso a Aziel.
– Boa noite, Aziel. Durma. Descanse.
Sentou-se na cama, não conseguindo acreditar como seu mestre aceitava aquilo tão naturalmente, sentia o beijo na testa e o via se erguer, indo até a porta e saindo. Não conseguiria dormir aquela noite. Os dias foram se passando e tinha se distanciado um pouco de Amael, passando mais tempo livre com Ablon e Baturiel, precisava pensar no quew era tudo aquilo acontecendo, mas notava nos treinos mudanças sutis em Amael, como suas asas escurecendo e a cor de seus olhos ficando rubros e sua aura machucá-lo um pouco. Resolveu que depois do treino conversaria com ele de novo.
– Mestre, tem tempo livre agora?
Sentia-se ainda terrivelmente abalado pelo que fizera, e a culpa nunca o deixava. Era como se revivesse o mesmo momento todos os dias, várias vezes duante o dia. Uma tortura que nunca acabava. Mal se dava conta de seus olhos ligeiramente avermelhados por um momento ao virar-se para o aprendiz, mas assim que piscou, a cor sumiu.
– Há algo que queira conversar comigo, Aziel?
Havia notado o distanciamento do outro, mas não queria também que notasse o quanto o afetava, então apenas agia como se sua distância fosse normal.
– Sim, mas não pode ser aqui...
Virava meio corpo, como se quisesse ser acompanhado por ele, indo andando até o próprio quarto, esperando ser seguido pelo maior.
Franzia o cenho, não entendendo bem o motivo de ter que ir a outro local para conversar, mas o seguia mesmo assim até seu quarto, parando a praticamente um metro de distância do discípulo.
– Quer conversar dentro de seu quarto?
– Sim, qual o problema?
Ia até ele e o puxava pra dentro, fechando a porta e suspirava,
indo até a própria cama e se sentava, erguendo os olhos para ele.
–... Nenhum...
Tentava não expor na voz como a mudança de comportamento do outro consigo o magoava, engolindo o nó que se formara em sua garganta, encostando-se em sua porta, sem tirar os olhos do seu.
– Pode falar... O que quer conversar?
Sua voz saía praticamente sem emoção para poder mascarar a mágoa e culpa que o consumiam, pois já era insuportável a dor, de modo que não conseguia fingir que estava bem como antes, então apelava para a falta de emoções.
– ...Não sei, apenas queria ficar mais tempo com você mestre...Como antes do Dilúvio...
Desviava a face pro lado, visivelmente também afetado pelo ocorrido com os humanos, mesmo que não fossem todos que tivessem morrido, tanto Enoque quanto Atlântida estavam destruídas e milhares de almas foram para o Éden Celestial, além dos animais e plantas mortos.
Teve de abaixar o rosto por um segundo, pelo choque da informação, piscando algumas vezes, olhando-o com um leve sorriso no rosto. Caminhou lentamente até sua cama, segurando sua mão em sentando ao seu lado, tocando gentilmente em seus cabelos.
– Isso nós podemos fazer... Ficar um tempo juntos...
Tinha certeza que o discípulo queria ficar com ele, mas sentia que Aziel agora o considerava outra pessoa; "O Amael de depois do Dilúvio". Jamais teria o Amael de antes de volta, isso era fato, e se sentia insuficiente para saciar a saudade do outro. Mesmo assim, estava tentando como podia.
Via o maior se aproximar e se sentar ao seu lado, encostava a cabeça em seu ombro ao ter os cabelos afagados, entreabrindo os olhos, já com os cabelos um pouco mais longos.
– ...Rafael, Cura de Deus desapareceu...Assim como Mitzrael...Correm rumores que Mitzrael foi executado por Miguel após o ocorrido com um Serafim e um Ofanim, e logo depois o Arcanjo sumiu...Miguel mandou todos procurarem por ele...
Tudo parecia estar desmoronando.
Sentia o peso das notícias e a carga que já levava ficava pior, ainda mais por ver quem amava tão triste. Abraçou o outro, sem notar que duas lágrimas escorriam de seus olhos e os mesmos estavam mais rubros, colocando a cabeça do discípulo gentilmente em seu peito, ainda afagando seus cabelos.
– Eu sei... Deve estar sendo duro para você... Se quiser, pode extravasar tudo aqui e agora... Não precisa guardar para você.
"Mas eu preciso" não pode deixar de pensar, engolindo o choro outra vez. Sentia-se como se estivesse, de certa forma morrendo, sem nem notar as mudanças em sua aparência que esse sentimento causava.
Sentia suas lágrimas e erguia a mão, secando-as com as pontas dos dedos, muito preocupado com o estado de seu mestre.
– ...Acho que você precisa mais que eu...
Puxou-o pelos ombros para que recostasse a cabeça em seu peito e ficou a afagar seus cabelos.
– ...Mestre...O que está havendo com você...?
Não tinha coragem de chorar tudo que tinha vontade na frente do outro, mas mesmo assim, algumas lágrimas teimosas escorreram por seu rosto enquanto ele abraçava um dos braços de seu discípulo e tentava contê-las. Sua voz ficou presa por um momento, mas logo saiu, com certa dificuldade.
–... Eu não sei... Não sei, Aziel...
Fechava os olhos, aproveitando aquele momento de cumplicidade, sentindo o pulsar no peito do jovem ishim.
–... Mas gostaria que soubesse... que me orgulho de você...
Continuava a afagar seus cabelos, sentindo pena do estado em que seu mestre se encontrava, se culpando por não ter estado ao lado dele num momento de dificuldade, mas não faria aquilo de qualquer modo, continuando a secar suas lágrimas.
– ...Sua aura, sua aparência...Estão mudando...
Fazia com que o maior se deitasse, colocando a cabeça dele em seu colo.
– Soube que vários anjos estão ficando assim e estão se tornando agressivos...Descontrolados...
Fitava a porta sem realmente vê-la, na realidade revivendo o Dilúvio por sabe-se lá que vez naquele dia, sentindo as lágrimas escorrerem e borrarem sua vista, mas sem conseguir se importar com isso.
– Não vou me tornar agressivo com você, Aziel... Eu não quero mudar...
Respirou fundo algumas vezes, finalmente conseguindo engolir o choro, hesitando em levantar. Estava finalmente junto de quem amava... Mas não queria que o outro soubesse o quão mal estava na realidade, então resolveu ficar apenas um pouco mais.
– ...Estou preocupado...Essas lágrimas não são normais...
Continuava a lhe afagar os cabelos, não conseguindo conter as lágrimas de lava que escorriam, ficando entristecido por ele estar daquele jeito.
– ...Já está mudando...
Não suportava ver o menor preocupado daquele jeito, então sentou-se devagar, aproximando-se e segurando seu rosto entre as mãos. Precisava fazer aquilo, ou não suportaria a culpa de preocupar seu amado com coisas "desnecessárias". Afagou suas bochechas e, mesmo doendo e saindo meio forçado, sorriu.
– Eu estou bem... Eu vou ficar bem, Aziel. Não se preocupe, ok?
Beijou-lhe a testa, engolindo a vontade de dizer "eu te amo" e, levantando-se devagar, marchou até a porta.
– Sinto muito sair desse jeito, mas preciso arquitetar seu treinamento de amanhã... Está muito mais forte do que eu esperava, preciso fazer uns ajustes, ok? Nos vemos amanhã...
Por um momento, ao ter as bochechas seguradas teve a impressão de que seria beijado, mas esse pensamento sumiu assim que recebeu o beijo na testa, confuso com tudo aquilo, Amael parecia querer resolver tudo sozinho, e parecia esconder coisas de si. Observou-o ir até a porta, ouvindo o que dizia e forçava um sorriso.
– Está bem, não fique até tarde fazendo isso, serei o próximo soberano da Cidadela, mas não precisa exagerar...Nos vemos amanhã...
– Sim, tomarei cuidado... Até...
Saiu do quarto fechando a porta, deixando o sorriso desaparecer ali, com o queixo meio trêmulo. Voltou correndo para o quarto, não querendo ser visto com aquelas lágrimas estranhas escorrendo pelo rosto, sem ter como saber que seus olhos estavam mais avermelhados, entrando apressado no quarto, desabando na cama.
Olhou para o chão e viu o rastro das lágrimas de lava e sentiu um aperto no peito, seu mestre não era mais o mesmo, isso era fato, agora não sabia que destino ele teria,com tantos anjos mudando, o que seria dele? Seria preso em Gehena se mudasse? Se atirou na cama e abraçou o travesseiro, sem saber o que deveria fazer para ajudá-lo.
Mais uma vez, a culpa o consumia, revivendo os momentos, num looping infinito. Não havia como ignorar, a lembrança simplesmente voltava, assombrando-o, e as lágrimas escorriam quase sem parar, pingando na cama. Queria interromper toda aquela mudança, ou parar de sentir tanta culpa por ter matado tantos, mas simplesmente não conseguia, e não conseguir apenas o deixava pior.
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