O Paradoxo de Maia Rey

1 Capítulo Único


— Maia? — guinchou minha mãe, batendo na porta do quarto — Está aí?

— Não — gritei, cobrindo minha cabeça com o edredom.

— Levante agora ou vai se atrasar — ouvi-a abrir a porta — Não quer chegar atrasada, não é?

— Uma puta decisão difícil — resmunguei, a voz abafada pelo edredom. Suspirei pesadamente e lancei o pra longe.

Abri lentamente os olhos e tive a bela visão do meu quarto. Tão organizado quanto uma lixeira. Arrastei-me para fora da cama; cansada dos dias iguais.

— Me atrasar ou não atrasar, eis a questão — sussurrei, vestindo calças rasgadas e uma blusa que uma vez fora branca.

Desci as escadas de dois em dois degraus e pulei os últimos três.

— Oi, pai. Oi, Drake — cumprimentei-os, entrando na cozinha e jogando minha mochila por cima na bancada.

Meu pai me deu um "bom dia" entusiasmado e enfiou uma torrada na boca, e meu irmão... bem, estava deitado sobre a bancada, o rosto escondido entre os braços.

— Drake? — chamei-o — Morreu de overdose? — eu já sabia a resposta. Sempre sabia.

— Coma alcoólico — corrigiu minha mãe, revirando os olhos e depositando um comprimido e um copo d'água ao lado dele.

— Por que as pessoas insistem em gritar? — disse baixinho, para que ninguém além de mim ouvisse.

— Por que as pessoas insistem em gritar? — resmungou meu irmão logo depois.

— Tome muita água e melhore, depois vamos ter uma conversa — disse minha mãe, metodicamente, como sempre.

— Sem essa, mãe — ele levantou a cabeça dos braços, jogou o comprimido na boca e engoliu toda a água — Todo mundo já ficou de ressaca.

— Eu nunca fiquei de ressaca — dei um risinho e enfiei uma garfada de omelete na boca.

— Traidora — sussurrou Drake para mim, lançando um olhar ameaçador.

— Acontece nas melhores famílias — mexi a boca formando as palavras.

— Acontece nas melhores famílias — suspirou meu pai no mesmo momento.

— Que dia é hoje? — perguntou Drake.

— Terça — murmurei, taciturna.

— Vá logo para o colégio! — mamãe apontou para a porta.

— Te vejo no inferno, Moranguinho — meu irmão acenou pra mim, dando um sorriso psicopata enquanto eu saltava da banqueta e corria para a porta, puxando a mochila junto — Apareço por lá mais tarde. Não vai se livrar de mim tão cedo, Maia Rey.

— Longe de mim, Drake — bati a porta.

Automaticamente levei a mão à cabeça, puxando os fios vermelhos dos meus cabelos curtos, cortados rente à nuca. "Moranguinho", é claro.

Me contentei em apenas caminhar silenciosamente para a escola, contando os segundos para o momento em que o garoto passaria correndo por mim. E como sempre, não me decepcionei. Quando ele passou, puxei-o pelo pulso. Abracei-o antes de lhe dar tempo para raciocinar. De olhos abertos, vi os homens armados com barras de ferro passarem por nós, olhando para os lados em busca de algo. Quando desapareceram na esquina seguinte, eu o soltei.

— Já foram — disse para ele — Não vá para casa.

— O-obrigado — ele respondeu atordoado, e correu para o caminho inverso dos homens.

Suspirei e continuei a andar. Ele ia para casa, eu sabia. Que otário. De todas as vezes que eu dissera para não ir, ele ia, e não tinha a boa sorte de se dar bem ao chegar lá. Não importa. Não é problema meu, ou é. Mas eu lembro que antes nunca fora. Antes de tudo mudar... Quer dizer, porra, não exatamente mudar. Nada muda agora.

— Rey! — Dash, meu melhor amigo, me esperava na porta da escola. Ele era dois anos mais velho do que eu e estava algumas turmas acima.

Vestia as mesmas calças e as mesmas botas de combate. Usava o mesmo perfume estranhamente reconfortante. Tinha o mesmo sorriso amigável no rosto.

— Dash — lhe dei um aceno de cabeça; eu já sabia o que ele iria falar.

— A Aria enlouqueceu por causa do...

— Do novo aluno — completei.

Aria era outra amiga minha. Uma garota radiante de pele negra e cabelos cacheados, ela exalava felicidade e brilhava mais do que o sol. Ela cheirava a rosas e as pessoas a adoravam. Dash era apaixonado por ela. Mas terça não é o dia que eles ficarão juntos.

Dash estava nervoso. Aria se animava com qualquer outro novo aluno, mas garotos deixavam Dash particularmente irritado.

Ele balançou a cabeça, inquieto, e algumas mechas negras de cabelo caíram em seus olhos. Sinalizei para que ele caminhasse comigo até as salas de aula.

— Dash, Rey! — Aria acenava para nós, pendurada ao braço de um garoto. Aproximamo-nos. — Esse é o...

— Mike Reynolds — terminei, não conseguindo me segurar e começando a ficar impaciente.

— Como você sabe meu nome? — Mike olhou para mim, semicerrando os olhos.

— Chutei — dei de ombros, tranquilamente — Você tem cara de Mike.

Aria sorriu e sussurrou algo para Dash. Ele deu uma risadinha e eles saíram juntos, me deixando sozinha com Mike. Eu já sabia de cor o que viria a seguir.

— Cabelo legal — ele disse, tentando ser amigável — Parece...

— Morango, melancia, pimenta, tomate, peruca de palhaço, suco de groselha... — citei, ficando realmente aborrecida.

— Na verdade eu ia dizer...

— Sangue escorrendo da minha cabeça — ele abriu a boca, surpreso — Sei o que você ia dizer e o que vai dizer. Então, pela primeira vez, por favor, não diga nada — eu nunca fora tão grosseira, mas nos outros dias eu fora bem simpática. Até saímos juntos, até transamos, até fomos para o estado vizinho de carro, até fomos à praia, até batemos de carro. Eu conhecia Mike como a palma da minha mão.

Só mais um pouco de paciência era o que eu precisava. Eu podia sentir o ar extenuando a superfície do Tempo ao meu redor. Seria amanhã. Amanhã meu tormento acabaria. Meu castigo. Ficar presa no tempo. Dia após dia. Repetindo-se. Sendo terça no dia anterior para ser uma merda de terça hoje também, e novamente no dia seguinte. O paradoxo a qual eu estava presa, selada para viver pela eternidade. Mas eu sentia a camada se dissolvendo, sentia que amanhã seria, finalmente, uma quarta.

Mike ficara lá, parado, enquanto eu corria pelo corredor, esbarrando em alguns alunos, e depois saía pelo portão da escola. Não precisava ir à aula hoje, como não precisei no dia anterior. Era tudo igual. Já havia decorado a matéria. Eu não envelheço, não consigo morrer por mais que eu tente, pois no dia seguinte acordaria em minha própria cama totalmente curada, se pintar o cabelo de azul hoje, amanhã ele estaria novamente vermelho. Não consigo contar os dias de cabeça, pois acabo perdendo a conta, se escrever em um papel no dia seguinte ele estará em branco. Não importa quais mudanças eu faça hoje, no dia seguinte estará tudo exatamente como antes. Mas eu sei que amanhã será um dia diferente. Eu sinto isso.

∞

— Rey? — guinchou minha mãe, batendo na porta do quarto — Está aí? Você vai se atrasar.

Eu podia sentir meu irmão deitado na bancada da cozinha, meu pai lendo o jornal, o gato do vizinho pulando a janela. Enrolei-me mais no edredom, disposta a dormir até o final do dia. O garoto idiota teria que se virar sozinho. Dash ficaria me esperando até os portões fecharem. Mike não me conheceria hoje. Então caí num sono profundo, com a reconfortante sensação do ar extenuando a superfície do Tempo ao meu redor.

Amanhã seria uma quarta.

Notas finais
Hoje é uma quarta.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!