O PESO DE UMA PROMESSA

25 Capítulo 25 - Onde eu quero morar


Jacob acordou às quatro e dezessete da manhã.

Não porque o despertador tivesse tocado. Não porque algum ruído vindo do corredor o tivesse tirado do sono. Simplesmente abriu os olhos e soube, com a mesma certeza irritante com que sabia quando uma negociação estava prestes a dar errado, que não dormiria novamente.

Ficou algum tempo encarando o teto.

Dali a poucas horas aconteceria a audiência que poderia encerrar meses de incerteza sobre Seth.

Ou prolongá-los.

A residência provisória do menino permanecia com Irina desde a decisão anterior, tomada quando tudo ainda parecia mais simples do que realmente era. Desde então, Seth passara a viver na casa da tia e de Edward, enquanto Jacob lutava para demonstrar que o melhor lugar para o sobrinho não deveria ser determinado pelo estado civil de ninguém, pelo tamanho de uma casa ou pela quantidade de adultos disponíveis para buscá-lo na escola.

Era sobre vínculo.

Rotina.

Segurança.

Presença.

Permanência.

E, agora, havia o casamento.

Jacob virou o rosto.

Elena dormia ao seu lado.

Aquilo ainda conseguia surpreendê-lo.

Desde que Seth voltara temporariamente para alguns períodos de convivência e passara a acreditar que tio Jake e Elena dormiam juntos porque eram casados, os dois tinham abandonado os quartos separados. Começara como outra adaptação necessária. Uma encenação doméstica para uma criança que não precisava carregar mais dúvidas.

Mas já fazia algumas noites que Seth não aparecia no quarto.

E Elena continuava ali.

Naquela madrugada, estava deitada de lado, voltada para ele, os cabelos espalhados pelo travesseiro. Em algum momento durante a noite, a distância cuidadosamente estabelecida entre os dois desaparecera e a mão dela repousava perto do braço dele.

Jacob ficou olhando.

Não deveria.

Mas ficou.

Aquela mulher seria questionada dentro de algumas horas sobre o casamento deles.

Talvez perguntassem se o amava.

Talvez perguntassem se o casamento era verdadeiro.

E Jacob percebeu que tinha muito mais medo da resposta dela do que deveria.

Levantou-se cuidadosamente.

Encontrou Elena na cozinha alguns minutos depois.

Ela devia ter acordado logo depois dele.

Estava descalça, usando uma camiseta larga, cabelos presos de qualquer maneira e uma expressão que deixava evidente que também dormira muito pouco.

Preparava café.

Olhou para ele.

— Você também?

— Também.

— Que horas são?

— Quatro e vinte e três.

Elena fez uma careta.

— Isso deveria ser ilegal.

Jacob sentou-se diante da bancada.

Ela colocou uma xícara diante dele.

Preto.

Sem açúcar.

Ele olhou para o café.

Depois para ela.

Pequenas coisas.

Era sempre nas pequenas coisas que aquele casamento ficava perigoso.

— Obrigado.

— Não agradece ainda. Pode estar horrível.

Ele tomou um gole.

— Está bom.

— Pelo menos uma coisa hoje começou direito.

Elena preparou o próprio café, colocou leite e sentou-se ao lado dele.

Durante algum tempo nenhum falou.

Não precisavam.

— Ele pode ser ouvido hoje — Jacob finalmente disse.

— Eu sei.

— Eu não queria isso.

— Nem eu.

— Ele tem cinco anos.

Elena virou o rosto imediatamente.

— Cinco e meio.

Jacob quase sorriu.

— Você sempre corrige.

— Porque ele corrigiria.

O sorriso desapareceu depressa.

Jacob passou as mãos pelo rosto.

— Irina ama ele.

— Eu sei.

— E ele ama Irina.

— Eu sei.

— Se ele disser que quer continuar morando lá...

Elena demorou antes de responder.

— Então nós vamos ouvir.

Jacob a encarou.

— Vai doer — ela continuou. — Muito. Mas essa audiência não pode ser sobre aquilo que nós queremos. Tem que ser sobre Seth.

— Eu sei.

— E ele amar Irina não significa que queira morar com ela. Da mesma forma que querer morar aqui não significa deixar de amá-la.

Jacob olhou para a xícara.

— Eu acho que ele quer voltar.

— Eu também.

— Como pode ter tanta certeza?

Elena envolveu a própria xícara com as mãos.

— Porque Seth nunca pergunta quando poderá visitar esta casa.

Jacob ergueu os olhos.

— Ele pergunta quando poderá voltar para casa.

A frase entrou devagar.

Elena colocou a mão sobre a dele.

— Vai ficar tudo bem.

Jacob soltou uma respiração curta.

— Você não sabe.

Ela reconheceu imediatamente.

Aquela cozinha.

Outra noite.

Ela chorando por Bella.

A mesma resposta.

Elena virou a mão e entrelaçou os dedos nos dele.

— Não.

Apertou suavemente.

— Mas eu vou ficar aqui até ficar.

Jacob olhou para ela.

Durante alguns segundos não existiram audiência, guarda, Irina ou advogados.

Apenas aquela mulher repetindo para ele a promessa mais simples que alguém já lhe fizera.

Eu vou ficar.

— Obrigado.

Elena sorriu.

— Sempre.

Nenhum dos dois percebeu imediatamente o peso daquela palavra.


A audiência começou pouco depois das dez.

Elena descobriu que odiava tribunais.

Não pela formalidade.

Não pelo silêncio.

Odiava porque, dentro daquela sala, adultos transformavam uma criança em argumentos.

A audiência representava a reavaliação da situação estabelecida provisoriamente meses antes. Desde a concessão da residência de Seth a Irina, muita coisa mudara. Jacob e Elena haviam se casado. A relação de Seth com ambos continuara sendo acompanhada. Havia novos elementos sobre sua rotina, sua adaptação, sua rede familiar e, sobretudo, sobre aquilo que vinha manifestando repetidamente: queria voltar para a casa de Jacob.

Havia ainda a investigação dos acidentes.

Marcus Doyle já não era apenas um nome perdido entre suspeitas. Elementos de movimentação, localização e circunstâncias o colocavam próximo aos dois veículos antes dos acidentes. Mas ele desaparecera, e ainda não existia prova direta ligando Edward às sabotagens.

Leah fora categórica antes de entrarem.

— Nós não vamos transformar suspeita em condenação. A investigação existe. Os elementos existem. O desaparecimento de Marcus existe. Tudo isso é relevante para avaliação de segurança. Mas ninguém vai afirmar que Edward mandou sabotar qualquer carro sem prova.

Jacob concordara.

Elena também.

Os advogados de Irina começaram exatamente onde Leah previra.

No casamento.

— Excelência, desde a decisão que estabeleceu provisoriamente a residência do menor com minha constituinte, ocorreu uma alteração extremamente conveniente na situação pessoal do senhor Black.

Leah nem piscou.

— Conveniente não é sinônimo de fraudulenta.

— O senhor Black se casou.

— Sim.

— Durante a disputa pela guarda.

— Também é fato.

O advogado olhou para Jacob e Elena.

— Com uma mulher que já exercia papel relevante na vida da criança e cuja presença poderia solucionar justamente uma das fragilidades anteriormente apontadas na estrutura familiar oferecida pelo senhor Black.

Jacob endureceu.

Elena percebeu.

Sua mão encontrou a dele sob a mesa.

Ele olhou para ela.

Não reage.

Entendeu.

— Portanto — prosseguiu o advogado —, parece no mínimo razoável questionar se estamos diante da evolução espontânea de um relacionamento ou de uma reorganização familiar construída com objetivo processual.

Leah respondeu com absoluta calma:

— Questionar é legítimo. Afirmar fraude exige prova.

— Um casamento realizado poucas semanas depois de um pedido, em meio a uma disputa dessa magnitude...

— Não transforma o casamento em fraude.

— Mas é conveniente.

— E continua não sendo prova.

O advogado mudou a direção.

Falou do período relativamente curto da relação.

Do fato de Elena ter sido funcionária de Jacob.

Da proximidade temporal entre o casamento e a audiência.

Do anúncio público.

Da rapidez da cerimônia.

Então olhou diretamente para Elena.

— A senhora Swan compreende que seu casamento fortaleceu a posição processual do senhor Black?

Elena respirou.

— Compreendo que poderia ser interpretado dessa forma.

— Poderia?

— Sim.

— A senhora nega que isso tenha sido considerado?

Silêncio.

Jacob virou-se discretamente.

Leah também.

Elena não mentiria.

Nunca mais.

— Não.

O advogado pareceu satisfeito.

— Então admite.

— Admito que a situação de Seth fazia parte das nossas preocupações quando decidimos nos casar.

Jacob fechou os olhos por um segundo.

O advogado quase sorriu.

— Portanto, o casamento teve finalidade processual.

Elena olhou diretamente para ele.

— Não foi isso que eu disse.

— Qual seria a diferença?

— A diferença é que pessoas não são documentos.

O advogado ficou em silêncio.

Elena continuou:

— Seth foi uma das razões pelas quais tomamos a decisão naquele momento. Isso é verdade. Não vou mentir sobre isso. Mas o vínculo entre mim e Jacob existia antes. O vínculo entre mim e Seth também. E nada que aconteceu depois foi inventado para esta audiência.

— A senhora ama seu marido?

A pergunta caiu no ambiente.

Jacob parou.

Elena sentiu a mão dele endurecer sob a sua.

Olhou para ele.

Durante um instante lembrou do Central Park.

Eu amo você, Elena.

Lembrou daquilo que dissera depois.

Ótimo. Agora temos a nossa história.

Lembrou dos beijos.

Das flores.

Do sofá.

Da piscina.

Das noites dividindo a cama.

Dos olhos dele procurando os seus.

Voltou-se para o advogado.

— Sim.

Jacob não respirou.

— Sim o quê?

Elena não desviou.

— Eu amo meu marido.

O coração de Jacob bateu tão forte que quase doeu.

O advogado tentou recuperar o controle.

— E espera que o juízo simplesmente aceite que um casamento iniciado em circunstâncias tão convenientes tenha se transformado...

Leah interrompeu:

— A testemunha respondeu à pergunta.

O juiz assentiu.

— Prossiga para outro ponto.

Jacob ainda olhava para Elena.

Ela não olhou para ele.

Se olhasse, talvez não conseguisse continuar.


A audiência avançou.

A relação de Seth com Irina não foi diminuída.

Ao contrário.

Ficou claro que havia afeto genuíno.

Irina cuidava dele.

Seth a amava.

Jacob jamais pedira que esse vínculo fosse rompido.

Então o juiz fechou parte dos documentos diante de si.

— Considerando a idade da criança e a relevância das manifestações já registradas nos acompanhamentos realizados, entendo pertinente ouvi-la.

Jacob fechou os olhos.

Leah tocou discretamente seu braço.

— Não é uma escolha — sussurrou. — Lembra disso.

Ele assentiu.

Seth não decidiria o processo.

Mas seria ouvido.


Quando Seth entrou, Elena precisou conter o impulso de se levantar.

Ele parecia pequeno demais para aquela sala.

Usava uma camisa azul e balançava ligeiramente as pernas quando se sentou.

Olhou primeiro para Irina.

Sorriu.

Ela sorriu de volta, embora seus olhos já estivessem marejados.

Depois procurou Jacob.

Encontrou.

Por último Elena.

Seu sorriso aumentou.

— Oi, Seth.

— Oi.

— Você sabe por que veio conversar comigo hoje?

O menino pensou.

— Porque vocês ainda estão decidindo se eu posso voltar para casa.

Jacob parou de respirar.

A formulação era simples.

Infantil.

E dizia tudo.

— Quando você fala “voltar para casa”, de qual casa está falando?

Seth apontou para Jacob.

Depois para Elena.

— A casa do tio Jake.

Fez uma pequena pausa.

— E da Elena agora.

Elena sentiu os olhos arderem.

— Você está morando com sua tia Irina atualmente?

— Estou.

— Ela cuida bem de você?

— Cuida.

— Você gosta dela?

Seth pareceu estranhar a pergunta.

— Eu amo ela.

Irina começou a chorar.

— Então por que quer morar em outro lugar?

Seth ficou quieto.

Olhou para Irina.

Depois para as próprias mãos.

— Porque eu sinto falta da minha casa.

— O que faz aquela casa ser sua casa?

Ele pensou seriamente.

— Meu quarto.

Uma pausa.

— Minhas coisas.

Outra.

— Meu dinossauro.

Algumas pessoas sorriram.

— Só isso?

Seth balançou a cabeça.

— Tio Jake deixa a luz do corredor acesa.

Jacob baixou os olhos.

— Por quê?

— Porque eu tenho pesadelo.

— E o que ele faz quando você tem pesadelo?

— Fica comigo.

— Até você dormir?

Seth sorriu.

— Às vezes ele dorme primeiro.

Uma risada discreta atravessou a sala.

— Ele ronca.

Jacob enxugou rapidamente uma lágrima.

— E Elena?

O rosto do menino mudou.

Olhou imediatamente para ela.

— Ela sabe quando eu estou triste.

— Como?

Seth deu de ombros.

— Não sei.

— E o que ela faz?

— Às vezes nada.

O juiz pareceu curioso.

— Nada?

— Ela senta perto.

Elena levou a mão à boca.

— Isso ajuda?

— Ajuda.

Seth respirou fundo.

— Quando minha mamãe e meu papai morreram, tinha muita gente em casa.

O ambiente mudou.

— Todo mundo falava comigo. Todo mundo perguntava se eu estava bem.

A voz ficou menor.

— Depois todo mundo foi embora.

Jacob fechou os olhos.

— A casa ficou muito quieta.

Seth olhou para as próprias mãos.

— Eu não gostava quando ficava quieta.

— Por quê?

Demorou.

— Porque parecia que eles tinham morrido outra vez.

Elena sentiu as lágrimas descerem.

Irina chorava do outro lado.

— Mas tio Jake ficou.

Seth olhou para Jacob.

— Ele dormia perto de mim.

A voz falhou.

— Uma vez ele dormiu no chão.

Jacob abaixou a cabeça.

— E depois Elena ficou também.

Agora Seth olhava para ela.

— Quando eu não queria comer, ela não brigava.

Um pequeno sorriso surgiu.

— Ela cortava morango.

Elena riu entre lágrimas.

— Bem pequeno. Sem a parte branca.

O juiz sorriu.

— Parece importante.

Seth ficou muito sério.

— É.

Então o sorriso desapareceu.

— Quando Elena foi para a Flórida, eu achei que ela não ia voltar.

O peito de Elena apertou.

— Por que pensou isso?

— Porque as pessoas vão embora.

Silêncio.

— Minha mamãe e meu papai foram.

A voz falhou.

— Eu sei que eles não quiseram.

Jacob levou a mão à boca.

— Mas foram.

Seth começou a chorar.

— E quando Elena sofreu o acidente eu achei que ela ia também.

Elena fechou os olhos.

— Aí tio Jake me levou para ver ela.

As lágrimas corriam pelo rosto do menino.

— E ela voltou.

Elena chorava abertamente agora.

— Ela voltou para Nova York.

Seth respirou.

— Só que eu não voltei para casa com ela.

Aquilo atravessou Jacob.

— Você sente que está longe da sua casa?

Seth assentiu.

— Eu gosto da casa da tia Irina.

Olhou imediatamente para ela.

— Eu gosto de ficar com você.

Irina assentiu, chorando.

— Eu sei, meu amor.

— Mas eu quero morar na minha casa.

Seth voltou-se para o juiz.

— Porque lá eu sei onde ficam minhas coisas.

A voz começou a ganhar urgência.

— Eu sei qual degrau faz barulho.

Jacob fechou os olhos.

— Eu sei onde tio Jake esconde chocolate.

Elena soltou uma pequena risada em meio ao choro.

— Eu sei que Elena deixa água perto da minha cama.

Respirou fundo.

— Eu sei que, se eu acordar, alguém vai estar lá.

Ninguém se moveu.

— E agora eles casaram.

Seth olhou para os dois.

— Então agora eu tenho os dois.

Elena apertou a mão de Jacob.

— Eu sei que Elena não é minha mãe.

Sua voz ficou imediatamente preocupada.

— Eu não quero outra mãe.

Elena assentiu, chorando.

— Eu sei, amor.

— Porque eu já tenho uma mãe.

— Sempre vai ter.

Seth olhou para Jacob.

— E tio Jake não é meu pai.

Jacob não conseguiu impedir as lágrimas.

— Porque eu já tenho meu pai.

— Tem — ele respondeu.

— Mas eles são...

Seth procurou a palavra.

Não encontrou.

— Eles são eles.

Aquilo foi ainda mais forte.

Não queria substitutos.

Não queria apagar Rebecca.

Não queria apagar Salomon.

Queria Jacob.

Queria Elena.

Exatamente como eram.

— E eu quero eles.

O juiz esperou.

— Se você voltar a morar com Jacob e Elena, quer continuar vendo sua tia Irina?

Seth pareceu assustado.

— Claro.

Virou-se para ela.

— Eu posso?

Irina cobriu a boca.

— Pode, meu amor.

— Eu quero dormir lá às vezes.

— Pode.

— E quero que você vá na minha casa.

Irina assentiu.

— Eu vou.

Seth voltou-se para o juiz.

— Eu não quero escolher um.

A frase fez Elena fechar os olhos.

— Eu só quero morar em casa.

O juiz respondeu com suavidade:

— Você não precisa escolher quem ama.

Seth assentiu.

Ficou alguns segundos quieto.

— Posso pedir uma coisa?

— Pode.

A voz saiu pequena.

— Eu posso parar de fazer mala?

Jacob abaixou a cabeça.

Elena chorou.

— Porque toda vez que eu faço mala eu fico pensando se eu vou voltar.

Seth enxugou o próprio rosto com a manga.

— Eu só quero deixar minhas coisas no meu quarto.

Respirou fundo.

— E saber que quando eu acordar eu ainda vou estar em casa.

O silêncio foi absoluto.

Então Seth olhou novamente para o juiz.

— Posso pedir outra coisa?

— Pode.

— Deixa eu voltar?

O juiz permaneceu sereno.

— Eu vou considerar tudo que você me contou.

Seth assentiu.

— Tá.

Depois acrescentou:

— Mas não demora muito.

Uma risada triste atravessou a sala.

— Eu sinto muita saudade.


A decisão não veio como recompensa pelo depoimento de Seth.

Nem poderia.

O juízo considerou o conjunto.

A relação histórica de Jacob com o sobrinho.

A participação concreta de Elena na vida da criança.

A rotina construída naquela residência antes da alteração provisória.

A preservação da escola e da rede de apoio.

A presença de Billy, Rachel e demais familiares.

Os acompanhamentos realizados.

A manifestação de Seth, considerada de acordo com sua idade e maturidade.

O vínculo afetivo positivo com Irina.

E os novos elementos de segurança surgidos depois da decisão provisória, tratados com cautela porque a investigação criminal ainda não estava concluída.

O casamento de Jacob e Elena foi considerado parte da realidade familiar atual.

Não uma garantia.

Não o fundamento exclusivo.

Quando o juiz finalmente anunciou que a residência principal de Seth seria alterada para a casa de Jacob, preservando-se convivência ampla e regular com Irina, Jacob não reagiu imediatamente.

Leah tocou seu braço.

— Jacob.

Ele olhou para ela.

— Ele volta para casa.

Jacob virou-se para Elena.

Ela já chorava.

— Ele vai para casa — sussurrou.

Jacob a puxou para os braços.

Ali.

Sem câmeras.

Sem fotógrafos.

Sem necessidade de convencer ninguém.

Beijou seus cabelos.

— Vai.

Quando Seth voltou, correu para eles.

— Eu vou hoje?

Jacob abaixou-se.

— Hoje.

— Para casa?

A voz dele falhou.

— Para casa.

Seth abraçou seu pescoço.

Depois Elena.

— Então eu não preciso levar mala?

Elena riu chorando.

— Hoje precisa. Suas coisas estão na casa da tia Irina.

Seth pensou.

— Mas depois?

Ela segurou seu rosto.

— Depois sua mala vai servir para viajar.

— Só?

— Só.

Seth sorriu.

— Eu odeio mala.

Jacob riu.

— Nós sabemos, campeão.


Irina abraçou Seth antes de ele sair.

Longamente.

Não havia ódio naquele abraço.

Havia dor.

— Você vai me ligar?

— Todo dia.

Ela sorriu entre lágrimas.

— Não precisa todo dia.

— Eu quero.

— Então liga.

Seth beijou seu rosto.

— Você vai na minha casa?

A expressão minha casa doeu.

Mas Irina sorriu.

— Vou.

— Promete?

— Prometo.

Quando se levantou, encontrou os olhos de Elena.

Durante alguns segundos nenhuma falou.

Então Elena se aproximou.

— Você continua sendo tia dele.

Irina engoliu em seco.

— Eu sei.

— Ele ama você.

— Eu sei.

Irina olhou para Jacob.

Depois novamente para Elena.

— Cuida dele.

Elena respondeu sem hesitar:

— Sempre.

Irina saiu antes que chorasse mais.

Edward esperou até entrarem no carro.

— Isso não acabou.

Irina virou-se.

— Seth acabou de pedir para voltar para casa e é isso que você tem para dizer?

— Você ouviu a decisão.

— Ouvi.

— Jacob vai controlar tudo.

Irina franziu a testa.

— Tudo o quê?

Edward olhou para ela.

— As ações.

Silêncio.

— Quarenta por cento, Irina.

Ela ficou olhando.

— Você está falando das ações agora?

— Estou falando daquilo que está em jogo.

— Seth está em jogo!

— Seth é titular de quarenta por cento da Black Automotivos. Enquanto ele for criança, quem estiver ao redor dele terá influência sobre...

— Para.

— Irina...

— Para!

Ela respirava com dificuldade.

— Eu perdi a convivência diária com meu sobrinho e você está preocupado com ações?

Edward endureceu.

— Nós perdemos influência.

Irina olhou pela janela.

Então viu.

Do outro lado, Jacob saía com Seth entre ele e Elena.

Seth segurava a mão dos dois.

Jacob disse alguma coisa.

Elena riu.

Seth também.

Família.

Aquilo doeu.

Mas outra coisa doeu ainda mais.

A forma como Jacob olhou para Elena.

Irina conhecia aquele homem.

Tinha sido noiva dele.

Sabia reconhecer quando Jacob estava apaixonado.

— O casamento não é falso — murmurou.

Edward acompanhou seu olhar.

— Eu avisei.

— Cala a boca.

— Olha para eles.

— Eu disse para calar a boca.

— Ele ama ela.

Irina fechou os olhos.

— Cala a boca, Edward.

Ele não respondeu.

Mas enquanto Irina sofria pela perda do lugar que acreditava ter na vida de Seth — e talvez pelo lugar que perdera anos antes na vida de Jacob — Edward pensava apenas nos quarenta por cento que agora estavam definitivamente fora de seu alcance imediato.

E aquilo, para ele, era imperdoável.


Seth entrou em casa correndo.

— MEU QUARTO!

Jacob mal fechara a porta.

— Seth, não corre na escada!

— EU SEI!

— Então não corre!

— TÁ BOM!

Continuou correndo.

Elena começou a rir.

Jacob olhou para ela.

— Ele não escuta.

— Escuta.

— Não obedece.

— É diferente.

Um barulho veio do andar de cima.

Jacob levantou a cabeça.

— SETH!

— NÃO QUEBROU!

Elena riu ainda mais.

— Sentiu saudade?

— Ainda estou avaliando.

Seth reapareceu no alto da escada.

— MEU DINOSSAURO ESTÁ AQUI!

— Ninguém mexeu — Jacob respondeu.

— Nem no Tyrannosaurus?

— Nem nele.

— EU SABIA!

Desapareceu novamente.

Jacob olhou ao redor.

Um dinossauro no corredor.

Mochila no chão.

Tênis largado perto da porta.

A casa parecia diferente.

Barulhenta.

Bagunçada.

Completa.

Elena aproximou-se.

— Ele está em casa.

Jacob assentiu.

— Está.

Ela sorriu.

Jacob passou um braço por sua cintura.

Puxou-a.

Elena colocou as mãos em seu peito.

— Nós conseguimos.

— Nós conseguimos.

Ele beijou sua testa.

Sem pensar.

Ela fechou os olhos.

Seth gritou do andar de cima:

— ELENA!

Ela riu.

— Dever.

Jacob olhou para ela.

— Nosso dever.

Os dois perceberam a palavra.

Nenhum corrigiu.


Naquela noite, Seth apareceu na porta do quarto.

— Você vai dormir aqui?

Elena olhou para Jacob.

— Vou.

Seth sorriu.

— Com tio Jake?

Elena ficou vermelha.

Jacob quase sorriu.

— Algum problema?

— Não.

Seth pareceu satisfeito.

— Boa noite.

— Boa noite, campeão.

Ele saiu.

Elena esperou a porta do quarto dele fechar.

Virou-se.

— Para de sorrir.

— Não estou sorrindo.

— Está.

— Você ficou vermelha.

— Cala a boca.

Deitaram.

Cada um do seu lado.

Cinco minutos.

Dez.

— Está acordada? — Jacob perguntou.

— Não.

— Ótimo.

Elena sorriu no escuro.

— Jacob?

— Hum?

— Ele está em casa.

— Está.

Ela virou-se.

Jacob já estava olhando para ela.

— Você está feliz?

— Muito.

— Eu também.

Jacob levantou a mão.

Afastou uma mecha de cabelo de seu rosto.

Elena não recuou.

A mão dele permaneceu ali.

Ela se aproximou.

Pouco.

Jacob também.

Não havia câmeras.

Não havia audiência.

Não havia Irina.

Não havia razão para beijá-la.

E talvez justamente por isso ambos quisessem tanto.

Elena tocou seu peito.

Jacob passou a mão por sua cintura.

Os rostos se aproximaram.

— TIO JAKE?

Congelaram.

A porta abriu.

Seth apareceu abraçado ao dinossauro.

Jacob fechou os olhos.

Elena mordeu o lábio para não rir.

— O que foi, campeão?

— Posso dormir aqui?

Jacob olhou para Elena.

Ela já levantava o cobertor.

— Vem.

Seth subiu.

Deitou exatamente no meio.

Dois minutos depois estava dormindo.

Elena olhou para Jacob por cima da cabeça dele.

— Salvo pelo dinossauro — sussurrou.

Jacob olhou para sua boca.

— Continuo achando que “salvo” é a palavra errada.

Elena ficou vermelha.

Dessa vez não respondeu.


Os dias seguintes foram leves de uma forma que nenhum deles lembrava existir.

Seth voltou à escola.

As visitas e contatos com Irina foram organizados.

O quarto dele voltou a acumular brinquedos no chão.

A luz do corredor permaneceu acesa durante a noite.

E Jacob e Elena passaram a dividir oficialmente o mesmo quarto.

No começo, cada um de um lado.

Depois a distância diminuiu.

Uma manhã Elena acordou com a cabeça sobre o peito dele.

Em outra, Jacob despertou com o braço ao redor de sua cintura.

Nenhum comentou.

Mas nenhum voltou a dormir tão distante quanto antes.

Então chegou o aniversário de Jacob.

E Elena decidiu que um homem que detestava festas precisava desesperadamente de uma.


— Ele vai odiar — Rachel avisou.

— Perfeito.

— Elena.

— Ele precisa aprender que nem tudo gira em torno do que ele quer.

Rachel riu.

— Agora tenho certeza de que vocês foram feitos um para o outro.

Elena fingiu não ouvir.

A festa seria em casa.

Billy.

Rachel.

Paul.

Emmett.

Rosalie.

Alice.

Leah.

Embry.

Sue.

Algumas pessoas próximas.

Seth recebeu a missão de distrair Jacob.

— Como?

— Conversa com ele.

— Sobre o quê?

— Qualquer coisa.

Seth pensou.

— Dinossauro?

— Perfeito.

— Quanto tempo?

— Vinte minutos.

Ele pareceu ofendido.

— Eu consigo falar duas horas.

Elena beijou sua testa.

— Eu sei.


Jacob entrou em casa às sete e vinte e três.

As luzes estavam apagadas.

— Elena?

Nada.

— Seth?

Silêncio.

Deu dois passos.

As luzes acenderam.

— SURPRESA!

Jacob parou.

Completamente imóvel.

Elena estava no centro da sala.

Sorrindo.

Seth ao lado.

— Feliz aniversário!

Jacob olhou para todos.

Depois para Elena.

— Você fez isso?

— Talvez.

— Eu disse que não queria festa.

— Eu ouvi.

— E?

— Discordei.

Paul levantou a taça.

— Eu gosto muito dela.

— Ninguém perguntou — Jacob respondeu.

Emmett riu.

— Finalmente alguém que não tem medo dele.

Elena aproximou-se.

— Está bravo?

— Muito.

— Quanto?

— Estou pensando.

— Vai me expulsar?

— Você mora aqui.

— Divórcio?

— Já usamos essa ameaça demais.

Ela sorriu.

— Então feliz aniversário.

Entregou uma pequena caixa.

Jacob abriu.

Um marcador de páginas.

Metal escuro.

Com uma pequena gravação:

Para você não ficar dez minutos na mesma página.

Jacob levantou os olhos.

— Você percebeu?

— Eu percebo muita coisa.

Ele sorriu.

— Obrigado.

— De nada.

— BEIJO! — Emmett gritou.

Jacob fechou os olhos.

— Eu vou matar ele.

— Depois da festa.

Paul começou também.

Rosalie aderiu.

Seth imediatamente gritou:

— BEIJO! BEIJO! BEIJO!

Elena ficou vermelha.

Jacob olhou para ela.

— Parece que não temos escolha.

Ela tentou brincar.

— Somos recém-casados.

Deveria servir como lembrete.

Precisamos parecer apaixonados.

Mas Jacob não queria parecer.

Queria beijá-la.

Colocou uma mão em sua cintura.

Elena envolveu seu pescoço.

— Feliz aniversário — sussurrou.

— Obrigado.

Ele a beijou.

No início, Elena ainda ouviu os convidados.

Depois Jacob passou a mão por suas costas e a trouxe mais perto.

Ela tocou sua nuca.

E esqueceu.

Esqueceu a festa.

Esqueceu que alguém estava olhando.

O beijo se prolongou.

Quando se afastaram, Elena ainda estava com os olhos fechados.

— RESPIRA, BLACK! — Emmett gritou.

A sala explodiu em risadas.

Elena escondeu o rosto no peito de Jacob.

Ele abraçou sua cintura.

— Eu realmente vou matar ele.

— Depois do bolo.

— Certo.

— Eu fiz.

Jacob afastou-se.

— Você fez o bolo?

— Claro.

— Que sabor?

— Passas.

O horror no rosto dele foi imediato.

Elena começou a rir.

— Mentira!

— Isso não tem graça.

— Tem muita.

— Elena.

— Chocolate.

— Melhor.

Seth apareceu.

— Eu ajudei.

— Você colocou confeitos — Elena corrigiu.

— Eu ajudei muito.

Jacob abaixou-se.

— Então deve estar excelente.

Seth abraçou o tio.

— Feliz aniversário.

Jacob o apertou.

— Obrigado, campeão.


Pouco depois das onze, Rachel chamou Seth.

— Vamos, pequeno. Seu avô está esperando.

Elena olhou surpresa.

— Ele vai com você?

Rachel sorriu.

— Prometi que poderia dormir lá hoje. Ele está falando nisso desde ontem.

Seth abraçou Elena.

— Amanhã eu volto.

Aquelas palavras ainda faziam alguma coisa dentro dela.

Eu volto.

— Eu sei.

Beijou sua testa.

Seth abraçou Jacob.

— Feliz aniversário de novo.

— Obrigado.

— Não come meu bolo.

— É meu bolo.

— Mas sobrou.

— Continua sendo meu.

Seth olhou para Elena.

— Ele é egoísta.

— Eu sei.

Jacob abriu a porta.

— Vai embora.

Seth riu.

Rachel piscou discretamente para Elena antes de sair.

A porta se fechou.

E, aos poucos, todos os outros também foram embora.

Quando o último carro desapareceu, a casa ficou silenciosa.

Só Jacob.

E Elena.

Ela olhou ao redor.

Copos.

Pratos.

Balões.

Flores.

Restos de bolo.

— Cansada? — ele perguntou.

— Um pouco.

— Deixa para amanhã.

Elena concordou.

Então caminhou até o aparelho de som.

Jacob observou.

— O que está fazendo?

— Seu aniversário ainda não acabou.

Escolheu uma música.

Os primeiros acordes preencheram a sala.

Suaves.

Jacob olhou para ela.

Elena estendeu a mão.

— Dança comigo.

— Você está me convidando?

— Não estraga.

Ele caminhou até ela.

— Não estragaria.

Segurou sua mão.

A outra foi para a cintura dela.

Elena apoiou a mão em seu ombro.

Começaram devagar.

Sem plateia.

Sem fotografias.

Sem ninguém a convencer.

Elena apoiou a cabeça no peito dele.

Jacob fechou os olhos.

— Gostou da festa?

— Gostei.

— Mesmo?

— Mesmo.

— Achei que fosse me matar.

— Considerei.

Ela sorriu contra o peito dele.

— E desistiu?

— Ainda estou decidindo.

— Idiota.

Continuaram dançando.

O silêncio entre as frases não era desconfortável.

Era íntimo.

Jacob sentia o corpo dela acompanhando naturalmente o seu.

A respiração.

O perfume.

Os dedos distraídos na nuca dele.

E alguma coisa dentro dele simplesmente cansou.

Cansou de chamar aquilo de estratégia.

Cansou de transformar sentimento em planejamento.

Cansou de procurar uma justificativa para cada vez que queria tocá-la.

Parou de dançar.

Elena levantou o rosto.

— O que foi?

Jacob ficou olhando para ela.

— Eu não quero mais fazer isso.

O rosto dela mudou.

— Fazer o quê?

— Fingir.

Elena ficou imóvel.

— Eu não quero mais dizer que beijo você porque tem alguém olhando.

Os olhos dela começaram a marejar.

— Não quero comprar flores e depois dizer que é porque recém-casados fazem isso.

A mão dele subiu até seu rosto.

— Não quero dormir com você e fingir que é porque Seth pode entrar no quarto.

Uma lágrima escorreu pela face dela.

Jacob a enxugou.

— E não quero continuar fingindo que aquela declaração no Central Park foi uma história inventada para convencer os outros.

— Jacob...

— Eu menti depois.

Ela ficou imóvel.

— Quando você disse sim, eu fiquei com medo.

— De quê?

— Daquilo ser real.

Elena respirou trêmula.

— Por alguns segundos eu esqueci Seth. Esqueci Irina. Esqueci a guarda. Esqueci Leah. Esqueci tudo.

O polegar dele permaneceu em seu rosto.

— Eu só pensei que você ia ser minha esposa.

Elena fechou os olhos.

— Então eu fiz aquilo que sempre faço quando alguma coisa fica grande demais.

Ela abriu os olhos.

— Tentou controlar.

Jacob sorriu.

— É.

Elena chorou sorrindo.

— Eu transformei tudo de novo em estratégia porque estratégia eu entendo.

A voz dele falhou ligeiramente.

— Isso aqui eu não entendia.

— E entende agora?

Jacob encostou a testa na dela.

— Não.

Ela quase riu.

— Péssima declaração.

— Ainda não terminei.

Elena ficou quieta.

— Eu não entendo como você conseguiu entrar na minha vida daquele jeito. Não entendo por que comecei a reconhecer seus passos na casa. Não entendo por que guardava seus bilhetes. Não entendo por que sabia quando você chegava antes de ver você.

A mão dele desceu até a cintura dela.

— Não entendo por que aquela casa ficou vazia quando você foi embora.

Elena chorava em silêncio.

— Só sei que eu amava você quando estava com raiva.

Ela fechou os olhos.

— Amava quando não confiava em você.

— Jacob...

— Amava quando fui cruel porque estava ferido demais para admitir que você tinha poder para me machucar daquele jeito.

A voz dele baixou.

— Amava no hospital.

Elena respirou fundo.

— Amava quando você não acordava e eu percebi que preferia passar o resto da vida magoado com você a viver num mundo em que você não existisse.

As lágrimas caíram.

— Amava quando você voltou.

Ele sorriu suavemente.

— Amava quando você colocou os pés em cima de mim enquanto eu tentava ler.

Elena riu chorando.

— Amava quando você caiu na piscina comigo.

— Você caiu comigo.

— Você escorregou.

— Jacob.

— Certo.

Ele sorriu.

Depois ficou sério.

— Eu amava você quando pedi para casar comigo.

Elena parou.

— E amo agora.

A mão dela subiu até seu rosto.

— Eu não quero mais fingir que isso não é real.

Silêncio.

— Eu amo você, Elena.

Ela chorou.

Mas sorriu.

— Eu esperei tanto para ouvir isso e acreditar que você estava falando comigo...

Jacob aproximou o rosto.

— Estou falando com você.

— Não para nossa história?

— Não.

— Não por Seth?

— Não.

— Não pela guarda?

— Não.

— Não porque alguém está olhando?

Jacob olhou ao redor da sala vazia.

— Ninguém está olhando.

Elena sorriu entre lágrimas.

— Então fala de novo.

Ele não hesitou.

— Eu amo você.

Ela o beijou.

Dessa vez não havia aplausos.

Não havia risadas.

Não havia fotógrafos.

O primeiro beijo foi lento, quase cuidadoso.

Como se ambos soubessem que aquela era a primeira vez em que não poderiam atribuí-lo a mais nada.

Jacob segurou o rosto dela entre as mãos.

Elena passou os braços por seu pescoço.

O beijo se aprofundou devagar.

Sem urgência.

Sem encenação.

Quando se afastaram, Elena manteve a testa encostada à dele.

— Eu amo você.

Jacob fechou os olhos.

Na primeira vez em que ela dissera aquilo, ele estava ferido demais para receber.

Agora deixou as palavras entrarem.

— Diz de novo.

Elena sorriu.

— Eu amo você, Jacob Black.

Ele abriu os olhos.

— Melhor.

— Convencido.

— Muito.

Elena o beijou novamente.

E continuaram dançando mesmo depois que a música terminou.

Sem música.

Apenas juntos.

Jacob beijou sua testa.

A face.

A ponta do nariz.

Elena riu baixinho.

— O que você está fazendo?

— Recuperando tempo perdido.

— Vai demorar.

— Tenho a noite inteira.

Ela parou de rir.

O olhar mudou.

Jacob percebeu.

Sua mão permaneceu na cintura dela.

— Elena...

Ela tocou seu rosto.

— Eu sei.

— Tem certeza?

A pergunta significava muito mais do que um beijo.

Elena entendeu.

— Tenho.

Jacob não se moveu imediatamente.

— Eu não quero que você faça nada porque acha que deve.

— Não acho.

— Nem porque somos casados.

— Não.

— Nem porque hoje foi um dia importante.

Elena colocou as duas mãos em seu rosto.

— Jacob.

Ele ficou quieto.

— Eu quero você.

A simplicidade da frase tirou dele qualquer resposta.

Elena sorriu.

— Agora pode parar de transformar isso numa reunião.

Ele riu.

— Certo.

— Obrigada.

Jacob a beijou.

E, quando a tomou nos braços e caminhou com ela até o quarto, não houve pressa.

Havia emoção demais para pressa.


No quarto, Jacob parou diante dela.

Durante meses estiveram perto.

Beijos interrompidos.

Mãos que permaneciam tempo demais.

Olhares que diziam aquilo que nenhum dos dois tinha coragem de dizer.

Agora não havia nada entre eles.

Exceto escolha.

Jacob tocou seu rosto.

— Ainda pode mudar de ideia.

Elena segurou a mão dele.

Beijou sua palma.

— Não quero mudar de ideia.

Ele a beijou novamente.

Devagar.

Cada beijo parecia desfazer alguma coisa.

A raiva.

O medo.

A culpa.

As palavras que machucaram.

Os silêncios.

As mentiras.

Elena passou os dedos pelos cabelos dele e percebeu que Jacob tremia ligeiramente.

Aquilo a comoveu mais do que qualquer demonstração de segurança.

— Olha para mim.

Ele abriu os olhos.

Elena acariciou seu rosto.

— Eu estou aqui.

Jacob fechou os olhos por um instante.

— Eu sei.

Quando voltou a beijá-la, havia uma delicadeza quase reverente no gesto.

Como se, depois de tudo que haviam perdido, nenhum dos dois quisesse tomar nada do outro.

Apenas oferecer.

Confiança.

Presença.

Carinho.

Amor.

Eles se amaram sem pressa, deixando que cada gesto dissesse aquilo que as palavras tinham levado meses para alcançar. Havia perguntas silenciosas em cada aproximação e respostas na maneira como o outro permanecia. Havia beijos interrompidos por sorrisos, mãos que se procuravam, testas encostadas e momentos em que simplesmente paravam para olhar um para o outro, quase incrédulos diante da simplicidade de finalmente não precisarem fingir.

Para Elena, cada toque de Jacob parecia diferente porque agora sabia que não precisava merecê-lo cuidando de alguém, salvando alguém ou cumprindo uma promessa. Ele não a queria pelo que ela podia fazer por Seth. Não a queria porque precisava de uma esposa. Não a queria porque um juiz avaliava sua família.

Queria Elena.

E aquilo era assustador.

E maravilhoso.

Para Jacob, amar Elena naquela noite não significava perder o controle.

Significava descobrir que não precisava dele.

Pela primeira vez, não tentou prever o próximo movimento, definir limites ou encontrar uma estratégia. Apenas a ouviu. Observou. Respeitou cada hesitação e recebeu cada aproximação como confiança.

Quando Elena murmurou seu nome contra seus lábios, Jacob fechou os olhos.

Nunca o próprio nome parecera significar tanto.

Quando ele disse o dela, Elena sorriu.

Não porque houvesse graça.

Porque havia felicidade.

Simples.

Inteira.

Depois de tudo, ainda possível.

Naquela noite, eles se amaram primeiro com as palavras que haviam guardado por tempo demais e depois com a ternura de duas pessoas que finalmente compreendiam que o que existia entre elas não precisava mais ser explicado.

Não havia plateia.

Não havia acordo.

Não havia juiz.

Não havia estratégia.

Não havia ninguém para convencer.

Apenas Jacob.

Elena.

E tudo aquilo que durante meses haviam tentado chamar por outros nomes.


Muito tempo depois, Elena estava deitada com a cabeça sobre o peito dele.

Jacob fazia movimentos lentos em seus cabelos.

Nenhum queria dormir.

A casa estava completamente silenciosa.

— Jacob?

— Hum?

— Amanhã você vai transformar isso numa estratégia também?

A mão dele parou.

Elena imediatamente se arrependeu da pergunta.

Mas Jacob virou-se para ela.

— Não.

— Tem certeza?

Ele tocou seu rosto.

— Amanhã eu vou acordar ao lado da mulher que amo.

Os olhos dela encheram.

— E depois?

— Vou fazer café.

Elena riu.

— Muito romântico.

— Você gosta do meu café.

— Gosto.

— Depois provavelmente vamos discutir.

— Certamente.

— Seth vai voltar da casa da Rachel.

— Vai.

— Vai deixar um dinossauro no corredor.

— Provavelmente.

— Vai perguntar por que estamos sorrindo.

Elena riu.

— Com certeza.

Jacob sorriu.

— E eu vou continuar amando você.

Ela ficou quieta.

— Depois disso eu ainda não planejei.

Elena apoiou o queixo sobre o peito dele.

— Você? Sem planejamento?

— Você está me fazendo mal.

— Acho que estou fazendo muito bem.

Jacob riu e a puxou para mais perto.

Depois ficou sério.

— Elena?

— Hum?

— Felizmente você não desistiu de mim.

Ela olhou para ele.

— Quase desisti.

— Eu sei.

— Você me machucou muito.

— Eu sei.

— E eu machuquei você.

— Eu sei.

Elena passou os dedos lentamente pelo peito dele.

— Então eu não quero que a gente finja que amar resolveu tudo.

Jacob beijou seus cabelos.

— Não resolveu.

— Ainda temos coisas para consertar.

— Muitas.

— Eu ainda tenho medo.

— Eu também.

Ela levantou o rosto.

— Mas quero tentar.

Jacob beijou sua testa.

— Eu também.

Elena voltou a apoiar a cabeça sobre seu peito.

O coração dele batia sob seu ouvido.

Regular.

Quente.

Vivo.

Por muitos anos, Elena acreditara que amar alguém significava impedir que algo ruim acontecesse.

Salvar.

Proteger.

Carregar.

Prometer.

Talvez estivesse errada.

Talvez amar não fosse prometer que ninguém partiria.

Talvez fosse escolher voltar enquanto fosse possível.

Ficar quando ficar fosse escolha.

Segurar quando o outro precisasse.

Soltar quando fosse necessário.

E não transformar amor em responsabilidade por impedir todas as perdas.

Jacob apertou os braços ao redor dela.

— Dorme.

Elena sorriu.

— Boa noite, marido.

Ele beijou sua testa.

— Boa noite, esposa.

Dessa vez, nenhuma das palavras pareceu parte de um acordo.

E quando Elena adormeceu nos braços dele, não havia mais dois quartos naquela casa.

Não havia mais um casamento verdadeiro no papel e indefinido entre quatro paredes.

Não havia mais uma história criada para convencer outras pessoas.

Havia uma família.

Naquela noite, temporariamente dividida entre duas casas.

Seth dormia com Rachel, sabendo que pela manhã voltaria para o quarto onde poderia finalmente deixar suas coisas.

Jacob dormia com Elena nos braços.

E, pela primeira vez desde que tudo começara, nenhum deles precisou inventar uma razão para querer que a manhã chegasse.

Seth voltaria para casa.

Elena continuaria ali.

E Jacob finalmente compreendera a diferença entre uma promessa e uma escolha.

Uma promessa podia nascer do medo de perder alguém.

Uma escolha precisava ser feita de novo a cada dia.

Na manhã seguinte, ele escolheria Elena.

E esperava passar muitos anos dando a ela motivos para escolhê-lo também.