O PESO DE UMA PROMESSA

23 CAPÍTULO 23- ATÉ QUE A MENTIRA NOS SEPARE


Elena descobriu que organizar um casamento em três semanas era perfeitamente possível.

Desde que a noiva estivesse disposta a abrir mão de metade da própria sanidade, o noivo tivesse dinheiro suficiente para transformar a palavra impossível em para quando? e Leah Clearwater fosse capaz de revisar contratos, acompanhar uma disputa de guarda, cobrar atualizações de uma investigação criminal e ainda encontrar tempo para impedir que os dois transformassem o casamento numa operação empresarial.

— Pequeno — Elena repetiu pela terceira vez.

A cerimonialista assentiu.

— Claro.

— Íntimo.

— Perfeitamente.

— Sem exageros.

— Exatamente.

Elena olhou para a pasta aberta diante dela.

— Então por que existem cento e vinte e oito pessoas nessa lista?

A mulher hesitou.

Jacob, sentado do outro lado da mesa, nem levantou os olhos do telefone.

— Cento e vinte e seis.

Elena virou lentamente o rosto.

— O quê?

— Duas não confirmaram.

— Isso não transforma cento e vinte e oito pessoas num casamento íntimo.

— Para os padrões da minha família e da empresa, transforma.

— Eu quero cinquenta.

Jacob finalmente levantou os olhos.

— Impossível.

— Você não pode dizer “impossível” depois de conseguir fechar um bistrô no Central Park com menos de vinte e quatro horas de antecedência.

A cerimonialista olhou de um para o outro.

Leah, sentada no sofá, continuou lendo um documento.

Elena apontou para Jacob.

— Cinquenta.

— Cem.

— Sessenta.

— Noventa.

— Sessenta e cinco.

— Oitenta.

— Setenta.

Jacob pensou.

— Setenta e cinco.

Elena estendeu a mão.

— Fechado.

Ele apertou.

A cerimonialista piscou.

— Vocês acabaram de negociar a lista de convidados?

Leah virou uma página.

— Eles negociam tudo.

— Não tudo — Jacob respondeu.

Elena olhou para ele.

O olhar durou um segundo a mais do que deveria.

Leah percebeu.

Não comentou.

Os preparativos seguiram daquela forma.

Flores.

Discussão.

Cardápio.

Discussão.

Música.

Discussão.

Convites.

Discussão.

Jacob queria organizar as mesas por vínculos familiares e profissionais.

Elena queria colocar juntas pessoas que realmente gostavam umas das outras.

Jacob dizia que eventos tinham lógica.

Elena respondia que pessoas não eram planilhas.

Emmett sugeriu uma mesa exclusivamente para pessoas que Jacob já havia irritado.

Rosalie respondeu que precisariam de um segundo salão.

Jacob ameaçou retirar os dois da lista.

Seth pediu dinossauros.

— Não — Jacob respondeu.

— Um — Elena negociou.

— Não.

— Pequeno.

— Elena.

— Escondido.

— Onde?

Ela pensou.

— No bolo.

Jacob pareceu pessoalmente ofendido.

— Não haverá um dinossauro no bolo do meu casamento.

Silêncio.

Jacob percebeu primeiro.

Elena depois.

Meu casamento.

Não o casamento.

Não esse casamento.

Meu.

Os olhos dos dois se encontraram.

— Nosso casamento — Jacob corrigiu.

Elena baixou os olhos para a lista.

Mas sorriu.

Só um pouco.


A lua de mel foi um dos poucos assuntos que discutiram antes que Jacob pudesse tomar qualquer decisão sozinho.

Leah mencionou durante uma das reuniões que o desaparecimento imediato dos recém-casados por alguns dias seria absolutamente comum e evitaria que parecesse estranho os dois voltarem às respectivas rotinas na manhã seguinte à cerimônia.

Elena imediatamente levantou a mão.

— Antes que ele faça alguma reserva sem me contar: não.

Jacob olhou para ela.

— Eu não ia fazer isso.

Elena, Leah e Rosalie olharam para ele.

Jacob suspirou.

— Certo. Talvez fosse.

— Dois dias — Elena estabeleceu. — No máximo.

— Dois dias não é lua de mel.

— Para um casamento que vai acontecer em três semanas, é quase uma temporada.

Jacob pensou.

— Dois dias.

— E nós escolhemos juntos.

— Certo.

— Sem surpresa.

— Certo.

— Sem você aparecer no aeroporto e me informar o destino.

— Já disse certo.

Elena estreitou os olhos.

— Estou registrando.

Foi assim que escolheram juntos um hotel discreto fora da cidade, suficientemente sofisticado para justificar fotografias de uma viagem de recém-casados caso alguém perguntasse, mas perto o bastante para que retornassem rapidamente se acontecesse alguma coisa com Seth.

Quartos separados não estavam disponíveis na suíte reservada.

Jacob sugeriu trocar.

Elena recusou.

— Tem sala.

— Eu durmo na sala.

— Você tem quase um metro e noventa.

— E?

— E vai acordar sem coluna.

— Isso é preocupação?

— É autopreservação. Não quero explicar para Leah por que meu marido morreu durante a lua de mel dormindo num sofá.

Jacob sorriu.

— Então decidimos depois.

Elena percebeu tarde demais o que acabara de dizer.

Meu marido.

Nenhum dos dois comentou.


Billy Black chegou a Nova York quatro dias antes da cerimônia.

Jacob entrou no restaurante pouco depois das três da tarde.

— Meu pai chegou.

Elena quase derrubou a colher.

— Seu pai?

— Sim.

— Billy?

Jacob arqueou uma sobrancelha.

— Quantos pais você acha que eu tenho?

— Não começa.

— Foi uma pergunta legítima.

— Ele chegou da Europa?

— Hoje.

Elena limpou as mãos no avental.

— E você está me contando agora?

Jacob pareceu pensar.

— Estou melhorando. Na coletiva contei depois.

Ela apontou a colher.

— Isso ainda pode virar uma arma.

— Violência contra o noivo quatro dias antes do casamento pega mal.

— Posso alegar emoção pré-nupcial.

Jacob quase sorriu.

— Ele quer conhecer você.

A colher baixou.

Elena sentiu um nervosismo inesperado.

Era absurdo.

Aquilo não deveria importar tanto.

Billy Black era o pai do homem com quem ela estava se casando por razões que podiam ser explicadas numa sala de reunião.

Então por que parecia importante que ele gostasse dela?

— Agora?

— Agora.

— Estou trabalhando.

— Rosalie disse que pode ir.

Elena virou-se.

Rosalie estava junto à porta.

— Traidora.

— Vai conhecer seu sogro.

— Tecnicamente ainda não é meu sogro.

Jacob se aproximou.

— Quatro dias.

O coração dela tropeçou.

Elena odiava quando ele fazia aquilo.

Dizia frases absolutamente banais olhando para ela como se não fossem banais.

— Para de fazer isso.

— O quê?

— Nada.

Passou por ele.

Jacob ficou olhando.

— Mulheres são muito estranhas.

Rosalie respondeu:

— Você ainda não viu nada.


Billy estava na sala da casa de Jacob quando Elena entrou.

E a primeira coisa que viu foi o quadro.

O maldito quadro.

Continuava ali.

Grande.

Imponente.

Billy Black muito mais jovem, olhando para a sala com a mesma expressão séria que fizera Elena acreditar durante semanas que aquele homem era Jacob.

Ela parou.

Jacob percebeu.

Um sorriso apareceu lentamente.

— Não.

Elena apontou para ele.

— Nem pense.

Billy virou-se.

Rachel, ao lado do pai, olhou curiosa.

— Pensar no quê?

— Nada — Elena respondeu rapidamente.

Jacob entrou atrás dela.

— Elena achava que eu era o homem do quadro.

Elena fechou os olhos.

— Eu odeio você.

Rachel começou a rir.

Billy olhou para o próprio retrato.

Depois para Jacob.

Depois para Elena.

— Por quanto tempo?

— Não interessa.

— Semanas — Jacob respondeu.

— JACOB!

Rachel já ria abertamente.

Billy tentou permanecer sério.

Falhou.

— Você realmente achava que aquele era ele?

Elena apontou para o quadro.

— Olha para aquilo! É praticamente a mesma cara!

Billy ergueu uma sobrancelha.

— Estou tentando decidir se isso foi um elogio para mim ou uma ofensa para ele.

— Ofensa — Jacob respondeu.

— Definitivamente elogio — Elena disse.

Rachel levou a mão à barriga.

— Eu gostei dela.

— Obrigada.

Jacob tirou o casaco.

— Espera até descobrir que ela ameaçou chamar a polícia quando me encontrou na minha própria casa.

Elena virou-se.

— Você prometeu nunca mais contar essa história.

— Nunca prometi.

— Devia.

Billy estendeu a mão.

— Elena.

Ela apertou.

— Finalmente.

Havia calor na voz dele.

— Finalmente?

Billy olhou para o filho.

— Jacob nunca traz ninguém para dentro da própria vida.

Jacob endureceu imediatamente.

— Pai.

— O quê? Ela vai descobrir.

Elena olhou para Jacob.

Billy sorriu.

— Seja bem-vinda.

Duas palavras.

Simples.

Mas atingiram Elena num lugar inesperado.

Porque aquele casamento deveria ter limites.

Prazo.

Objetivo.

E Billy acabara de recebê-la como se realmente estivesse entrando para aquela família.

Rachel a abraçou.

— Eu queria conhecer você há semanas.

— Eu também.

Elena hesitou.

— Sinto muito pela Rebecca.

O sorriso de Rachel desapareceu.

Billy baixou os olhos.

— Obrigada — Rachel respondeu.

Sentou-se.

— Foi por isso que fomos embora.

Elena permaneceu quieta.

— Depois do funeral eu não conseguia ficar aqui. Tudo lembrava Rebecca. A casa. A empresa. Seth. Até meu telefone. Eu continuava abrindo nossas conversas como se ela pudesse mandar alguma coisa.

Billy sentou-se ao lado da filha.

— Rachel não estava bem.

— Nem você.

Ele não contestou.

Rachel segurou a mão do pai.

— A morte da Rebecca foi demais para nós dois. Então resolvemos passar algum tempo na Europa. No começo seriam duas semanas. Depois um mês. E fomos ficando.

Billy olhou para Elena.

— Jacob dizia que estava tudo sob controle.

Rachel soltou uma risada triste.

— O que, vindo do Jacob, deveria ter sido nosso primeiro sinal de que absolutamente nada estava sob controle.

Elena apontou discretamente para Rachel.

— Finalmente alguém entende.

Jacob cruzou os braços.

— Estou começando a me arrepender de ter reunido vocês.

Billy observou Elena.

— Rachel me contou sobre Seth. Sobre o que você fez por ele.

— Eu só...

— Ficou.

Elena parou.

A mesma palavra.

Aquela que Jacob usara no pedido.

Billy assentiu.

— Às vezes ficar é a coisa mais importante que alguém pode fazer.

Elena sentiu os olhos arderem.

Jacob olhou para ela.

E naquele instante, pela primeira vez, Elena percebeu que o casamento começava a criar raízes em lugares onde nenhuma estratégia deveria alcançar.


Na manhã da cerimônia, Elena acordou antes do despertador.

Permaneceu deitada.

Olhou para o teto.

Hoje eu vou me casar com Jacob Black.

A frase parecia impossível.

Três meses antes, sequer conhecia aquele homem.

Depois fora seu patrão.

Seu problema.

Seu amigo.

O homem que beijara.

O homem por quem se apaixonara.

O homem que a destruíra com palavras.

O homem que permanecera do lado de fora de seu quarto quando ela não conseguia suportar sua presença.

O homem que cuidara de Seth.

O homem que tratara seus ferimentos na cozinha.

O homem que se ajoelhara diante dela no Central Park e dissera que a amava.

E o homem que, segundos depois de ela dizer sim, transformara tudo numa história conveniente.

Elena fechou os olhos.

Eu amo você.

A voz dele continuava dentro dela.

Não conseguia decidir se aquilo tornava o casamento mais bonito ou mais cruel.

Porque Elena sabia que o amava.

Essa era a única parte sobre a qual não tinha dúvida.

Ela se casaria por Seth.

Mas não pisaria naquele altar sem sentimentos.

Esse era o perigo.

Para Jacob, talvez houvesse linhas.

Estratégia de um lado.

Sentimentos do outro.

Elena já não conseguia encontrá-las.

Quando Alice entrou no quarto, encontrou-a ainda sentada na cama.

— Está arrependida?

Elena pensou.

— Não.

A resposta veio rápido demais para ser mentira.

Alice sentou-se.

— Com medo?

— Muito.

— De casar?

Elena olhou para ela.

— De gostar demais de estar casada com ele.

Alice não respondeu.

Apenas segurou sua mão.


Jacob também acordou cedo.

E passou tempo demais olhando para o terno pendurado.

Hoje Elena vai ser minha esposa.

A palavra continuava provocando nele a mesma reação do Central Park.

Minha esposa.

Não deveria significar tanto.

Mas significava.

O casamento tinha começado como uma ideia absurda depois de uma conversa com Leah.

Uma forma de retirar argumentos de Irina e Edward.

Uma maneira de reforçar a estrutura que já existia ao redor de Seth.

Mas Jacob já sabia que o pedido não fora falso.

E, naquela manhã, precisou admitir outra coisa.

Estava feliz.

Não porque aquilo ajudaria na guarda.

Não apenas.

Estava feliz porque se casaria com Elena.

E sentiu culpa por isso.

Porque Elena não havia concordado com aquela versão.

Ela aceitara um acordo.

Jacob não tinha direito de desejar mais.

— Está pensando demais.

Billy estava à porta.

Jacob virou-se.

— Estou bem.

— Você diz isso desde criança quando definitivamente não está bem.

Jacob voltou a olhar para o terno.

Billy aproximou-se.

— Ama ela?

Jacob não hesitou.

— Sim.

Billy ficou em silêncio.

— Ela sabe?

Jacob pensou no Central Park.

— Eu disse.

— Não foi o que perguntei.

Jacob olhou para o pai.

Billy apenas sustentou seu olhar.

Jacob não respondeu.

Porque talvez essa fosse a pergunta.

Ele tinha dito.

Mas Elena acreditava?


A cerimônia começou no fim da tarde.

Setenta e cinco convidados.

Exatamente.

Elena conferira.

Duas vezes.

Seth usava um terno que odiava e tênis que Jacob só descobriu quando o menino já estava pronto.

— Não.

— Elena deixou.

Jacob virou-se.

E esqueceu os tênis.

Elena estava no início do corredor.

O mundo pareceu ficar silencioso.

O vestido era elegante e simples, moldando o corpo sem exageros. Os cabelos caíam soltos. Não havia véu escondendo seu rosto.

Jacob agradeceu por isso.

Queria vê-la.

Elena deu o primeiro passo.

E viu Jacob.

Não o empresário.

Não o homem que convocava coletivas sem avisá-la.

Não o homem que transformava sentimentos em planos quando sentia medo.

Jacob.

Esperando por ela.

Os olhos dele não saíam dos seus.

E Elena soube imediatamente que Seth estava certo.

Ele olhava para ela de um jeito diferente.

Talvez sempre tivesse olhado.

O coração dela acelerou.

Isso não é real.

Tentou lembrar.

O casamento é real. O motivo é que não é.

Mas aquilo também já não parecia completamente verdade.

Quando chegou até ele, Jacob estendeu a mão.

Elena colocou a sua.

Os dedos dele fecharam-se.

Quentes.

Firmes.

— Você está linda — ele murmurou.

Dessa vez não disse apenas que o vestido estava bonito.

Elena sorriu.

— Você também.

— Nervosa?

— Muito.

— Eu também.

Ela piscou.

— Você?

— Não conta para ninguém.

Elena quase riu.

A cerimônia começou.

As palavras do celebrante pareciam perigosamente verdadeiras.

Companheirismo.

Respeito.

Escolha.

Permanecer.

Família.

Elena sentiu cada uma.

Quando chegou sua vez de responder, olhou para Jacob.

— Sim.

Uma palavra.

A mesma do Central Park.

Mas dessa vez alguma coisa mudou.

Jacob apertou suavemente seus dedos.

Quando foi a vez dele:

— Sim.

Elena sentiu os olhos arderem.

Não faz isso.

Não podia chorar.

Não por aquilo.

Então vieram as alianças.

Jacob pegou a dela.

Por um instante, ficou olhando.

Lembrou-se do pedido.

Da caixa fechada.

Do medo que sentira quando Elena dissera sim.

Dessa vez não recuou.

Segurou a mão dela.

Colocou a aliança lentamente.

O polegar passou involuntariamente sobre seus dedos.

Elena sentiu.

Os olhos dos dois se encontraram.

Ela colocou a aliança nele.

E teve um pensamento que não queria ter.

Meu marido.

O celebrante continuou falando.

Elena mal ouviu.

Jacob também não.

— Eu os declaro marido e mulher.

Seth abriu um sorriso enorme.

Rachel chorou.

Billy baixou a cabeça por um instante.

Rosalie segurou a mão de Emmett.

Alice já havia desistido de fingir que não chorava.

Então veio:

— Pode beijar a noiva.

Jacob olhou para Elena.

Dessa vez não havia câmeras.

Não havia Irina.

Não havia juiz.

Apenas família e amigos.

Ele se inclinou.

— Tudo bem?

Elena poderia ter escolhido um beijo rápido.

Seguro.

Fez o contrário.

A mão subiu até o rosto dele.

— É nosso casamento — sussurrou.

Jacob sentiu o coração bater forte.

Então a beijou.

Devagar.

Sem pressa.

A mão dele deslizou até sua cintura.

Elena aproximou-se.

Por alguns segundos, o beijo deixou de ser parte da cerimônia.

Era apenas deles.

Quando se afastaram, Jacob permaneceu com a testa encostada na dela.

— Oi, esposa — murmurou.

Elena riu entre lágrimas.

— Oi, marido.

E aquilo foi tão perigosamente natural que os dois precisaram lembrar de respirar.


A lua de mel de dois dias começou na manhã seguinte.

Exatamente como combinado.

O primeiro problema surgiu sete minutos depois de entrarem na suíte.

Havia uma cama.

Uma.

Grande.

Jacob olhou.

Elena olhou.

— Nós vimos as fotos — ele disse.

— Parecia maior.

— A cama?

— O quarto.

Jacob apontou para o sofá.

— Eu fico ali.

Elena olhou para o sofá.

Depois para ele.

— Você não cabe.

— Cabe.

— Suas pernas vão ficar para fora.

— Não é problema.

— Depois vai reclamar das costas.

— Eu não reclamo.

Elena riu.

— Jacob, você reclama quando o café está três graus abaixo da temperatura que considera aceitável.

— Isso é diferente.

— Dorme na cama.

Silêncio.

Jacob olhou.

— Tem certeza?

— Ela é enorme.

— Certo.

— Cada um do seu lado.

— Certo.

— Sem invadir.

— Elena.

— Estou estabelecendo regras.

— Você ocupa a cama inteira.

— Mentira.

— Já vi você dormindo.

Ela parou.

O hospital.

A casa dele.

A lembrança passou pelos dois.

— Cada um do seu lado — Elena repetiu.

— Certo.

Na primeira noite, ficaram separados.

Quase um metro entre os dois.

Ridículo.

Elena virou para um lado.

Jacob para o outro.

Vinte minutos.

Trinta.

— Está dormindo? — ela perguntou.

— Estava.

— Mentiroso.

— O que foi?

— Nada.

— Então dorme.

Cinco minutos.

— Jacob?

— Elena.

— Você está respirando muito alto.

Ele virou-se.

— Agora você está fiscalizando minha respiração?

— Estou tentando dormir.

— Quer que eu pare?

Ela começou a rir.

Jacob também.

A tensão quebrou.

Conversaram no escuro.

Coisas pequenas.

Seth.

Restaurante.

Billy.

Rachel.

O casamento.

Evitaram cuidadosamente o que realmente queriam dizer.

Até o silêncio voltar.

Elena percebeu que estavam virados um para o outro.

Não sabia quando aquilo acontecera.

A distância entre os dois tinha diminuído.

Jacob levantou a mão.

Tocou uma mecha do cabelo dela.

— Você estava linda hoje.

— Ontem.

— Ainda não dormi. Para mim ainda é hoje.

Elena sorriu.

— Você também estava bonito.

— Só bonito?

— Não se empolga.

A mão dele permaneceu perto de seu rosto.

O ar mudou.

Elena percebeu.

Jacob também.

Ele se aproximou lentamente.

Ela não recuou.

Os lábios quase se tocaram.

Então Elena sussurrou:

— Isso não faz parte do acordo.

Jacob parou.

A frase doeu mais do que deveria.

Retirou a mão.

— Eu sei.

Elena imediatamente se arrependeu.

— Jacob...

— Está tudo bem.

Não estava.

Virou-se.

Ela ficou olhando para suas costas.

E odiou o acordo pela primeira vez.


No segundo dia, brigaram pela pasta de dentes.

— Você apertou no meio.

Jacob olhou para o tubo.

— O quê?

— No meio.

— E?

— Isso é psicopatia.

— Elena.

— Existe uma extremidade por um motivo.

— A pasta sai do mesmo jeito.

— Esse tipo de pensamento destrói civilizações.

Jacob começou a rir.

— Não ri.

— Estamos casados há menos de quarenta e oito horas e você está ameaçando nossa relação por causa de pasta de dentes.

— Estou descobrindo incompatibilidades graves.

— Quer anulação?

Elena cruzou os braços.

— Ainda estou avaliando.

— Posso oferecer acordo.

— Estou ouvindo.

— Eu compro dois tubos.

Ela pensou.

— Aceitável.

Jacob aproximou-se.

— Casamento salvo.

Elena sorriu.

— Por enquanto.

E nenhum dos dois percebeu imediatamente que estavam discutindo exatamente como um casal que pretendia continuar casado.


A primeira aparição pública como marido e mulher aconteceu três dias depois.

Era um evento beneficente ligado ao setor empresarial, com imprensa, investidores e algumas das famílias mais influentes da cidade.

Elena estava diante do espelho quando Jacob entrou no quarto.

Parou.

Ela percebeu pelo reflexo.

— O quê?

— Nada.

— Você sempre diz nada quando é alguma coisa.

Jacob aproximou-se.

O vestido de Elena deixava os ombros descobertos.

Elegante.

Escuro.

Ele precisou lembrar do motivo pelo qual entrara.

— Está linda.

Ela encontrou seus olhos pelo espelho.

— Obrigada.

Jacob percebeu que o fecho do colar ainda estava aberto.

— Posso?

Elena hesitou.

Assentiu.

Virou-se de costas.

Jacob pegou as duas pontas.

Os dedos tocaram sua nuca.

Elena prendeu a respiração.

Ele percebeu.

Não comentou.

Fechou o colar.

Mas as mãos permaneceram por um instante sobre seus ombros.

Elena levantou os olhos para o espelho.

Encontrou os dele.

Perto.

Íntimo demais.

— Jacob...

Ele retirou as mãos.

— Pronto.

Elena virou-se.

— Preparado para fingir que é apaixonado pela sua esposa?

A pergunta saiu como brincadeira.

Jacob não sorriu.

— Não acho que essa seja a parte difícil.

Elena perdeu o sorriso.

Ele estendeu a mão.

— Vamos?

Ela colocou a sua.


No evento, Jacob parecia conhecer todos.

Elena não conhecia praticamente ninguém.

Isso deveria tê-la deixado desconfortável.

Não deixou.

Porque Jacob não a abandonou nem uma única vez.

Apresentava-a.

— Minha esposa, Elena.

Cada vez que dizia minha esposa, alguma coisa dentro dela reagia.

A mão dele permanecia em sua cintura.

Às vezes nas costas.

Quando alguém se aproximava demais, Jacob a puxava discretamente para perto.

Quando Elena ficava perdida numa conversa empresarial, ele se inclinava e explicava em seu ouvido.

Em determinado momento, ela percebeu que estava ajeitando a gravata dele.

Parou.

Jacob olhou.

— O quê?

— Nada.

Terminou de ajeitar.

Era fácil demais.

Esse era o problema.

Emmett apareceu.

— Vocês sabem que ninguém está fotografando agora, certo?

Elena retirou imediatamente a mão da gravata.

Jacob olhou para ele.

— Você não tem outra coisa para fazer?

— Tenho. Mas isso é melhor.

Rosalie puxou Emmett.

— Deixa os recém-casados.

— Eles estão se deixando sozinhos muito bem.

Jacob mostrou o dedo médio discretamente.

Elena começou a rir.

Foi quando ouviu:

— Que cena adorável.

Irina.

Elena parou.

Jacob sentiu seu corpo ficar rígido.

Edward estava ao lado da esposa.

— Irina — Jacob cumprimentou.

— Jacob.

Os olhos dela foram para Elena.

— Sra. Black.

Elena sorriu.

— Irina.

O olhar de Irina caiu sobre a aliança.

— Foi tudo muito rápido.

— Foi — Elena respondeu.

— Algumas pessoas levam anos para decidir se conhecem alguém o suficiente para casar.

Jacob endureceu.

Elena permaneceu tranquila.

— Outras levam anos para descobrir que não conheciam.

Edward disfarçou um sorriso.

Irina percebeu.

— Imagino que um casamento tão repentino tenha causado surpresa.

— Causou.

— Principalmente considerando o momento.

Elena inclinou a cabeça.

— Que momento?

— A disputa por Seth.

Jacob interveio.

— Cuidado.

Irina olhou para ele.

— Só estou comentando uma coincidência.

— Não parece.

— Então interpretei errado?

Elena tocou discretamente o braço de Jacob.

Ele olhou para ela.

Ela assumiria.

— Você quer perguntar se nosso casamento é falso, Irina?

Irina sorriu.

— Eu não disse isso.

— Não precisava.

Edward observava.

Elena continuou:

— Então pergunta.

Irina sustentou o olhar.

— É?

Silêncio.

Jacob virou-se para Elena.

Ela sorriu.

— Não.

Simples.

Irina riu.

— Claro.

— Mas entendo sua dificuldade em acreditar.

O sorriso de Irina diminuiu.

— Minha dificuldade?

— Você conhece Jacob há muito tempo.

— Conheço.

— Foi noiva dele.

Jacob percebeu para onde aquilo estava indo.

— Elena...

Ela apertou suavemente seu braço.

— Então deve ser estranho ver outra mulher casada com o homem com quem você imaginou que se casaria.

Irina ficou imóvel.

Edward baixou os olhos para esconder a reação.

Elena continuou com absoluta tranquilidade:

— Principalmente quando o casamento aconteceu tão rápido.

— Elena — Irina disse entre os dentes.

— Você trouxe o assunto.

— Não seja ingênua. Você apareceu há poucos meses e acredita que conhece Jacob?

Elena olhou para ele.

Depois para Irina.

— Talvez eu não conheça tudo.

Pausa.

— Mas conheço o suficiente para saber que ele odeia passas, aperta a pasta de dentes no meio, bebe café demais, finge que não está preocupado quando começa a dar ordens para todo mundo e guarda bilhetes que deveria jogar fora.

Jacob ficou imóvel.

Irina também.

— E sei que, quando Seth tem pesadelo, Jacob deixa a porta do quarto aberta porque o menino precisa enxergar a luz do corredor.

A voz de Elena ficou mais baixa.

— Sei que ele ainda olha para o telefone esperando notícias da investigação quando acha que ninguém está vendo. Sei que se culpa pela irmã. Sei que faria qualquer coisa por Seth.

Ela olhou para Jacob.

Por um instante, esqueceu Irina.

— E sei que é muito melhor do que acredita que é.

Jacob sentiu o peito apertar.

Irina percebeu.

Era exatamente aquilo que não queria ver.

— Muito comovente — disse.

Elena voltou a olhá-la.

— Você perguntou.

Edward finalmente falou:

— Acho que tivemos a resposta.

Irina lançou um olhar mortal ao marido.

Jacob quase sorriu.

— Algum outro comentário sobre meu casamento?

Irina ergueu o queixo.

— Só espero que dure.

Elena sorriu.

— Eu também.

Pausa.

— Afinal, seria constrangedor repetir certos erros.

Dessa vez Edward realmente tossiu para esconder o riso.

Irina ficou vermelha.

— Vamos.

Virou-se.

Edward permaneceu por um segundo.

Olhou para Jacob.

Depois para Elena.

— Parabéns.

Jacob não respondeu.

Edward seguiu a esposa.

Elena soltou o ar.

— Talvez eu tenha exagerado.

Jacob virou-se lentamente para ela.

— Repetir certos erros?

— Ela mereceu.

— Com certeza.

Elena piscou.

— Você não está bravo?

— Estou tentando não rir.

Ela começou a rir.

Jacob também.

Então percebeu uma coisa.

A mão de Elena ainda estava sobre seu peito.

A dele estava em sua cintura.

Nenhuma câmera próxima.

Nenhuma necessidade.

Os dois perceberam ao mesmo tempo.

Mas, dessa vez, nenhum se afastou imediatamente.

— Obrigado — Jacob disse.

— Pelo quê?

— Pelo que disse.

Elena ficou séria.

— Eu não estava fingindo.

— Eu sei.

A frase criou outro silêncio.

Jacob levantou a mão.

Passou o polegar muito suavemente pelo rosto dela.

Elena fechou os olhos por um segundo.

— Tem alguma coisa aqui — ele explicou.

— Claro.

— Tinha.

— Mentiroso.

Jacob sorriu.

— Talvez.

Ela deveria se afastar.

Não fez.

Então ouviu fotógrafos chamando.

— Sr. e Sra. Black!

Os dois olharam.

— Um beijo!

Outros aderiram.

— Aqui!

— Um beijo!

Elena respirou fundo.

— Lá vamos nós.

Jacob olhou para ela.

— Tudo bem?

— Faz direito.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Tem certeza?

— Jacob.

A mão dele apertou sua cintura.

E ele a beijou.

O primeiro toque deveria ter sido breve.

Não foi.

Elena segurou a nuca dele.

Jacob a puxou para mais perto.

O corpo dela encontrou o seu.

As câmeras desapareceram.

O salão desapareceu.

Por alguns segundos, Elena não era uma esposa interpretando amor.

Era uma mulher beijando o homem que amava.

E Jacob não era um homem tentando convencer ninguém.

Era simplesmente um homem beijando sua esposa.

Quando se afastaram, permaneceram próximos.

Testa contra testa.

Respiração misturada.

Elena abriu os olhos.

— Isso foi exagerado.

— Você mandou fazer direito.

— Não precisava fazer tão direito.

— Instruções pouco específicas.

Ela riu baixinho.

Jacob sorriu.

Então sua mão deslizou pelas costas dela.

Não para a cintura.

Um pouco mais abaixo.

Elena arregalou os olhos.

— Jacob.

— O quê?

— Sua mão.

Ele olhou inocentemente.

— Intimidade.

Ela quase engasgou.

— Você está se vingando.

— De quê?

— Da coletiva.

— Talvez.

Elena se aproximou do ouvido dele.

— Continua e eu aperto sua bunda de verdade.

Jacob virou o rosto.

Os lábios quase tocaram novamente.

— Promessa?

Elena ficou vermelha.

— Você é impossível.

— E você está sorrindo.

— Estou pensando em homicídio.

— De novo?

— Recorrente.

Jacob riu.

Do outro lado do salão, Irina observava.

A mão de Jacob nas costas de Elena.

A maneira como ela se inclinava para falar em seu ouvido.

O sorriso dele.

A facilidade.

Edward aproximou-se.

— Ainda acha falso?

Irina não respondeu.

— Irina.

— Cala a boca.

— Eu avisei.

Ela apertou a taça.

— Foi para as câmeras.

Edward olhou ao redor.

Os fotógrafos já estavam fotografando outra pessoa.

Jacob continuava com a mão na cintura de Elena.

Ela continuava perto dele.

— As câmeras já foram embora.

Irina percebeu.

E aquilo doeu muito mais do que o beijo.

Porque o beijo podia ser atuação.

A intimidade depois dele, não.


No carro, Elena ficou olhando pela janela.

Jacob dirigiu durante alguns minutos em silêncio.

— Você realmente apertaria minha bunda?

Ela virou-se.

— Esse é o assunto que escolheu?

— Estou curioso.

— Não.

— Mentira.

— Jacob.

Ele sorriu.

Silêncio.

Depois:

— Sobre o beijo...

— Não.

— Você sempre faz isso.

— Isso o quê?

— Proíbe conversas quando não sabe o que dizer.

Elena virou-se.

— E você transforma sentimentos em estratégia quando não sabe o que fazer com eles.

Jacob ficou em silêncio.

Golpe certeiro.

Elena imediatamente se arrependeu.

— Eu...

— Não. Você está certa.

Ela o encarou.

Jacob continuou olhando para a estrada.

— Mas não quero falar sobre o beijo hoje.

— Por quê?

Ele finalmente olhou rapidamente para ela.

— Porque talvez eu também não saiba o que dizer.

Elena ficou quieta.

E, estranhamente, aquela foi uma das respostas mais honestas que Jacob já lhe dera.


Na manhã seguinte, Leah entrou na sala de Jacob sem bater.

Colocou uma pasta sobre a mesa.

— Temos nova audiência.

Toda a leveza desapareceu.

Jacob levantou os olhos.

— Quando?

Leah informou a data.

Ele abriu a pasta.

— Tão rápido?

— O casamento alterou a dinâmica do processo, e a outra parte já se movimentou. Também temos novos elementos sobre a rotina atual de Seth e os vínculos afetivos que precisam ser formalmente apresentados.

— E a investigação?

— Continua. Não misture as duas coisas.

— Não estou misturando.

Leah lhe lançou um olhar.

— Está sempre a dois segundos de misturar.

Jacob ignorou.

— O que acontece agora?

— Seth poderá ser ouvido novamente de forma adequada à idade. É bastante provável que Elena também seja ouvida.

Jacob fechou a pasta.

— Sobre o casamento?

— Sobre Seth. Sobre a rotina. Sobre a relação dela com ele. E, inevitavelmente, sobre a vida de vocês.

— Certo.

Leah apontou para ele.

— Não treine respostas.

— Não faria isso.

Ela continuou olhando.

— Não faria.

— Ótimo.

Leah se levantou.

Parou junto à porta.

— Vi as fotos de ontem.

Jacob permaneceu impassível.

— E?

— Nada.

— Leah.

Ela sorriu.

— Só estou começando a achar que o maior risco dessa estratégia não está no processo.

Jacob franziu a testa.

— O que isso significa?

— Você é inteligente. Descobre.

Saiu.

O telefone de Jacob vibrou.

Elena.

Leah acabou de me avisar sobre a audiência.

Outra mensagem.

E antes que você pense nisso: NÃO venha ao restaurante dizer que precisamos ensaiar respostas.

Jacob sorriu.

Eu não ia fazer isso.

A resposta apareceu imediatamente.

Mentiroso.

Depois:

E compre pasta de dentes.

Jacob franziu a testa.

Tem pasta de dentes em casa.

Três pontinhos.

Você destruiu o tubo.

Jacob riu.

É pasta de dentes, Elena.

Cinco segundos.

Nosso casamento pode sobreviver a Irina, Edward, uma disputa de guarda e uma investigação criminal. Não sei se sobrevive à forma como você aperta a pasta de dentes.

Jacob ficou olhando para a tela.

Nosso casamento.

Sorriu.

Digitou:

Compro dois tubos.

A resposta veio:

Finalmente está aprendendo a negociar.

Jacob guardou o telefone.

Olhou para a pasta da audiência.

O casamento tinha sido criado para fortalecer uma estrutura que já existia ao redor de Seth.

A lua de mel fora parte da imagem.

O evento deveria servir para consolidá-la publicamente.

O beijo deveria convencer os outros.

Mas nada explicava por que Elena ajeitara sua gravata quando ninguém estava fotografando.

Nada explicava por que ele colocara o colar nela e demorara a retirar as mãos.

Nada explicava as conversas no escuro durante a lua de mel.

Ou por que tinha desejado beijá-la naquela cama.

Nada explicava por que Elena conhecia seus medos, seus hábitos e até a maneira como cuidava de Seth.

E absolutamente nada explicava por que, depois que as câmeras tinham se afastado, ele continuara segurando a esposa pela cintura.

Talvez Leah estivesse certa.

O maior risco daquela estratégia nunca tivesse sido o juiz descobrir que o casamento começara por conveniência.

Era Jacob e Elena esquecerem disso.

E, pouco a pouco, começarem a desejar que ninguém precisasse fingir mais nada.