O PESO DE UMA PROMESSA
9 CAPÍTULO 9 - Promessas e Segredos
Três semanas se passaram.
Vinte e dois dias.
Jacob sabia exatamente.
Vinte e dois dias desde que Seth saíra de sua casa carregando uma mala que Elena arrumara.
Vinte e dois dias desde que o menino olhara para trás através da janela do carro.
Vinte e dois dias desde que a casa voltara a ficar silenciosa.
Jacob odiava aquele silêncio.
E odiava ainda mais não ter descoberto como o documento chegara às mãos de Irina.
— Ela esteve aqui.
Embry colocou uma folha sobre a mesa.
Jacob ergueu os olhos.
— Quem?
— Irina.
— Eu sei que esteve.
— Não. Quero dizer no período exato em que o documento ficou na casa.
Jacob largou a caneta.
Embry sentou-se.
— Cruzei os registros do portão, câmeras externas e os dias em que você trouxe a pasta.
Jacob pegou a folha.
— Quando?
Embry apontou.
— Aqui.
Jacob leu.
Irina Cullen.
Entrada: 15h42.
Saída: 17h19.
O documento estava na casa naquele dia.
— Elena estava aqui?
— Sim.
— Seth?
— Sim.
— Mais alguém?
Embry hesitou.
— A irmã de Elena apareceu naquele mesmo período. Mas não vejo ligação.
Jacob ergueu os olhos.
— Isabella?
— Sim.
— Ela conhecia Irina?
— Não que saibamos.
Jacob recostou-se.
Pensou.
Irina estivera dentro da casa.
Sabia que havia uma disputa societária.
Sabia que Salomon deixara documentos.
Poderia ter visto a pasta.
Poderia ter esperado uma oportunidade.
— Foi Irina.
Embry não respondeu.
— Ela encontrou.
— É possível.
— Mais do que possível.
Jacob levantou-se.
— Ela fotografou o documento.
— Jake...
— É a única explicação.
Embry não parecia tão convencido.
— Você tem prova?
Jacob ficou em silêncio.
— Não.
— Então ainda não podemos acusá-la.
Jacob passou a mão pelo rosto.
— Ela entrou na minha casa, encontrou um documento e usou aquilo para tirar Seth de mim.
— Se foi ela.
Jacob olhou pela janela.
— Foi.
Precisava acreditar nisso.
Porque as outras possibilidades eram piores.
Naquela tarde, Elena estava no apartamento.
O antigo apartamento.
Ainda chamava de casa, embora tivesse passado tanto tempo na residência Black que às vezes acordava sem saber onde estava.
Alice costurava perto da janela.
Bella estava no banho.
Elena olhou para o próprio celular.
Tela preta.
— Não.
Apertou o botão.
Nada.
Conectou o carregador.
Nada.
— Morreu de novo? — Alice perguntou.
— Bateria.
— Compre outro.
— Alice.
— Só estou mantendo viva uma tradição.
Elena revirou os olhos.
Precisava fazer uma ligação.
— Bella!
— O QUÊ?
— Cadê seu celular?
— NO QUARTO!
Elena entrou.
O aparelho estava sobre a cama.
Desbloqueado.
Pegou.
Ia apenas fazer uma ligação.
Então uma notificação apareceu.
Elena tocou sem querer.
A galeria abriu.
Fotografias.
Bella com amigas.
Comida.
Um vestido.
Uma festa que Elena definitivamente não sabia que Bella frequentara.
Elena estreitou os olhos.
— Isabella...
Deslizou.
Parou.
Seu coração parou junto.
Uma fotografia.
Documento.
Ela aproximou a imagem.
Leu.
IRINA GREY CULLEN.
5%.
Elena ficou imóvel.
Não.
Deslizou para trás.
Depois voltou.
Era o documento.
O documento de Jacob.
O mesmo documento que havia sido usado na audiência.
O mesmo documento que ajudara Irina a conseguir a guarda provisória de Seth.
— Não.
Sua voz saiu quase inaudível.
Bella apareceu na porta secando os cabelos.
— Achou?
Elena levantou os olhos.
Bella viu o telefone.
Viu a fotografia.
Perdeu a cor.
— Lena...
Elena levantou-se.
— O que é isso?
— Eu posso explicar.
— O QUE É ISSO?
Alice parou de costurar.
— O que aconteceu?
Bella aproximou-se.
— Lena, me dá o celular.
Elena recuou.
— Você tirou essa foto?
Silêncio.
— Bella.
— Sim.
Elena fechou os olhos.
Por um segundo, teve esperança de ter entendido errado.
Acabou.
— Por quê?
Bella começou a chorar.
— Eu não sabia.
— Não sabia o quê?
— Que ela ia usar daquele jeito.
Elena ficou imóvel.
— Ela?
Silêncio.
— Irina?
Bella chorou mais.
Elena sentiu o estômago revirar.
— Irina pediu?
— Lena...
— IRINA PEDIU PARA VOCÊ FOTOGRAFAR DOCUMENTOS NA CASA DE JACOB?
— Ela só disse que...
— Responde!
— Sim!
Alice levantou-se.
— Meu Deus.
Elena ficou olhando para a irmã.
— Como você pôde fazer isso?
— Eu não sabia que Seth ia ser tirado de lá!
— O que você achou que ela faria com um documento escondido?!
— Eu não pensei!
— Exatamente!
Bella recuou.
Elena raramente gritava daquela maneira.
— Você nunca pensa!
— Lena...
— Você entra numa casa que não é sua, mexe num documento que não é seu, fotografa e entrega para uma mulher que está brigando judicialmente pela guarda de uma criança e você me diz que não pensou?!
— Ela disse que Jacob estava escondendo coisas!
— E você acreditou?!
— Eu não conheço ele!
— EU CONHEÇO!
Silêncio.
Até Elena se surpreendeu com a força da resposta.
Bella chorava.
— Ela disse que só queria saber se ele estava escondendo alguma coisa sobre a herança do Seth.
— E você decidiu ajudar?
Bella não respondeu.
Elena percebeu.
Havia mais.
— O que ela ofereceu?
Bella ficou branca.
— Nada.
Elena conhecia aquela expressão.
Criara aquela menina.
— Isabella.
— Lena...
— O que ela ofereceu?
Bella começou a soluçar.
— Dinheiro.
Elena sentiu como se tivesse levado um tapa.
— Quanto?
Bella disse o valor.
Alice fechou os olhos.
Elena apenas encarou a irmã.
— Você vendeu a informação?
— Não fala assim.
— COMO EU DEVO FALAR?
— Eu precisava de dinheiro!
— Para quê?!
— Para mim!
A resposta escapou.
Elena ficou em silêncio.
Bella respirava depressa.
— Eu nunca tenho nada!
Elena empalideceu.
— O quê?
— Eu estou cansada, Lena!
— Cansada de quê?
— De ser pobre!
Alice fechou os olhos.
— Bella...
— Minhas amigas têm roupas, viajam, saem, fazem tudo! Eu preciso pedir dinheiro para comprar qualquer coisa!
Elena ficou imóvel.
Cada palavra atingia.
— Eu pago sua faculdade.
— Eu sei.
— Pago sua comida.
— Eu sei!
— Seu transporte.
— Eu sei!
— O aluguel.
— EU SEI!
— Então do que exatamente você está cansada?
Bella chorava.
— De olhar para você fazendo conta para tudo!
Elena ficou sem resposta.
— De ver você usando um celular que nem funciona porque todo dinheiro vai para mim! De Alice costurando até de madrugada! De não poder comprar nada sem pensar se vai faltar para outra coisa!
Elena aproximou-se.
— Então você vendeu um documento.
— Eu não sabia o que ia acontecer!
— Seth perdeu a casa dele por causa disso!
— EU NÃO SABIA!
— Uma criança que acabou de perder os pais!
Bella cobriu o rosto.
— Para!
— Ele gritava pedindo para ficar com Jacob!
— PARA!
— Pediu para eu ir com ele!
Bella chorou.
Elena também.
— E eu fiquei lá achando que Irina tinha encontrado aquele documento.
Sua voz falhou.
— Jacob está há semanas tentando descobrir quem fez isso.
Bella levantou os olhos.
— Você vai contar?
Silêncio.
Elena olhou para a irmã.
A pergunta doeu mais que tudo.
— Eu...
E então ouviu uma voz que atravessara dezoito anos.
Promete para mim que vai cuidar dela.
Elena fechou os olhos.
— Eu não sei.
Às cinco e quarenta daquela tarde, Elena entrou na Black Automotivos.
Sue levantou-se.
— Elena?
— Jacob está?
— Está em reunião.
— Preciso falar com ele.
Sue percebeu sua expressão.
— É urgente?
Elena assentiu.
— Muito.
Sue telefonou.
Dois minutos depois, Elena estava diante da porta do escritório.
Respirou.
Entrou.
Jacob estava sozinho agora.
— Elena.
— Oi.
Ele percebeu imediatamente.
— Aconteceu alguma coisa com Seth?
— Não.
Jacob relaxou.
Só um pouco.
— Então?
Elena apertou a alça da bolsa.
— Eu preciso contar uma coisa.
— Sente.
— Prefiro ficar em pé.
Jacob franziu a testa.
— Certo.
Elena abriu a boca.
Foi Bella.
Era simples.
Duas palavras.
Bastava dizer.
— É sobre o documento.
Jacob ficou imediatamente atento.
— O que tem?
O coração dela disparou.
— Eu...
Jacob levantou-se.
— Descobriu alguma coisa?
Ela tentou.
— Jacob...
— Eu também.
Elena parou.
— O quê?
— Irina esteve em casa exatamente quando a pasta estava lá.
Elena ficou imóvel.
— Você acha que foi ela?
— Tenho quase certeza.
— Mas não tem prova.
— Ainda.
Jacob caminhou até a janela.
— Quando descobrir...
Elena sentiu frio.
— O quê?
Ele virou-se.
A expressão era dura.
— Quem entregou aquele documento para Irina vai pagar muito caro.
Elena parou de respirar.
— Jacob...
— Aquilo ajudou a tirar Seth de mim.
— Eu sei.
— Não foi um vazamento qualquer.
Ele fechou as mãos.
— Foi minha família.
Elena sentiu lágrimas surgirem.
— O que você faria?
— Com a pessoa?
Ela assentiu.
— Tudo que estiver legalmente ao meu alcance.
Elena pensou em Bella.
Dezoito anos.
Universitária.
Impulsiva.
Irresponsável.
Sua irmã.
O bebê na cadeirinha.
Promete.
— Elena?
Ela piscou.
— O que você queria me contar?
Silêncio.
Era a chance.
A chance de corrigir tudo.
A chance de ser justa com Jacob.
Com Seth.
Ela não conseguiu.
— Nada.
Jacob franziu a testa.
— Você veio até minha empresa para dizer nada?
— Eu achei que tinha uma informação.
— E?
— Eu estava errada.
Jacob continuou olhando.
Elena desviou os olhos.
— Desculpe.
Saiu antes que ele pudesse perguntar mais.
No elevador, Elena chorou.
Sozinha.
Encostou a cabeça na parede.
— Desculpa.
Não sabia para quem estava pedindo.
Para Jacob.
Para Seth.
Para o pai.
Ou para si mesma.
Os dias seguintes foram piores.
Bella tentou conversar.
Elena evitou.
Não porque tivesse deixado de amá-la.
Isso jamais aconteceria.
Mas porque estava com raiva.
Uma raiva que não sabia onde colocar.
Obrigou Bella a devolver o dinheiro.
Irina recusou.
Elena mandou que a irmã não tocasse em um centavo.
— Você vai guardar isso até descobrirmos como devolver.
— Lena...
— Não discute comigo.
Bella não discutiu.
Pela primeira vez em muito tempo.
Uma noite, Elena saiu da casa de Jacob pouco depois das oito.
Não precisava mais dormir lá.
Sem Seth, não havia motivo.
Atravessou metade do caminho para casa quando percebeu.
— Meu celular.
Parou.
Revirou a bolsa.
Nada.
— Perfeito.
Voltou.
Jacob estava no jardim quando ela chegou.
Sem terno.
Sem gravata.
Camisa branca com as mangas dobradas.
Uma xícara nas mãos.
Elena parou.
Era estranho vê-lo assim.
Humano.
— Esqueceu alguma coisa? — ele perguntou.
— Meu celular.
— Na cozinha.
— Obrigada.
Ela entrou.
Pegou.
Quando voltou, Jacob ainda estava no jardim.
— Boa noite.
— Elena.
Ela parou.
— Sim?
Ele levantou a cafeteira térmica que estava sobre a mesa.
— Café?
Elena olhou para o relógio.
— São nove da noite.
— E?
— Pessoas normais não tomam café às nove.
— Você trabalha para mim há meses. Já deveria saber que não sou normal.
Ela sorriu.
— Isso eu percebi na primeira semana.
— Quando achava que meu pai era eu?
Elena fechou os olhos.
— Precisava lembrar?
— Sempre.
Ela aproximou-se.
— Uma xícara.
Jacob serviu.
Elena sentou-se.
Por alguns minutos, ninguém falou.
O jardim estava silencioso.
Mas não era o mesmo silêncio de dentro da casa.
Havia vento.
Folhas.
A cidade distante.
— Você sente falta dele — Elena disse.
Jacob olhou para a xícara.
— Todo dia.
— Eu também.
Jacob levantou os olhos.
— Ele pergunta por você.
Elena sorriu.
— Fala com ele?
— Quando Irina permite.
— Como ele está?
— Melhor alguns dias.
Pausa.
— Pior em outros.
Elena assentiu.
— Luto é assim.
Jacob a observou.
— Você conhece a dor dele.
Ela ficou em silêncio.
— Você disse uma vez que sabia como era perder os pais.
Elena olhou para o jardim.
— Sim...Eu tinha seis anos.
Jacob esperou.
— Bella era bebê.
— Sinto muito.
Elena mexeu na xícara.
— Foi um acidente de carro.
Jacob ficou imóvel.
Agora entendia.
Seth.
A reação dela.
A maneira como sabia quando aproximar e quando esperar.
— Você tinha a idade dele.
— Quase.
Silêncio.
— Meu pai estava dirigindo.
Elena respirou.
— Tinha chovido.
Jacob não disse nada.
— Eu queria ir a um parque de diversões.
A voz começou a falhar.
— Eles disseram não.
Jacob percebeu.
— Elena...
— Eu insisti.
— Você tinha seis anos.
— Eu insisti até eles aceitarem.
— Isso não...
— Na volta, o carro derrapou.
Ela olhou para ele.
— Minha mãe morreu na hora.
Jacob ficou imóvel.
— Meu pai morreu depois.
— E vocês?
— Bella estava na cadeirinha. Eu estava com cinto.
Ela sorriu sem humor.
— Nenhum arranhão importante.
Jacob não sabia o que dizer.
— Antes de morrer, meu pai pediu que eu prometesse uma coisa.
Jacob entendeu antes que ela dissesse.
— Bella.
Elena assentiu.
— Ele disse para eu cuidar dela. Para nunca deixar nada acontecer com ela.
O segredo queimou dentro dela.
Jacob não sabia.
Não podia saber.
— E eu prometi.
— Você tinha seis anos.
— Promessa continua sendo promessa.
— Não quando é feita por uma criança diante do pai morrendo.
Elena olhou para ele.
— Para mim continua.
Jacob colocou a xícara sobre a mesa.
— Foi por isso que nunca casou?
A pergunta a surpreendeu.
— Como sabe que nunca casei?
— Ficha.
— Sua ficha tem informação demais.
— Responda.
Elena riu baixo.
— Não tive tempo.
— Vinte e quatro anos.
— Exatamente.
— Pessoas se apaixonam antes dos vinte e quatro.
Ela deu de ombros.
— Eu tinha Bella.
— Isso não impede.
— Impediu para mim.
— Por quê?
Elena pensou.
— Porque eu não podia colocar outra pessoa primeiro.
Jacob franziu a testa.
— Relacionamento não exige abandonar sua irmã.
— Não.
— Então?
— Eu precisava trabalhar. Estudar. Cuidar dela. Pagar contas. Resolver os problemas dela.
— E seus problemas?
Elena sorriu.
— Eu resolvo depois.
Jacob ficou sério.
— Isso não é saudável.
Ela riu.
— Jacob Black dando conselho sobre equilíbrio de vida?
— Não mude de assunto.
— Você trabalha quinze horas por dia.
— Doze.
— Isso não ajuda sua defesa.
Ele quase sorriu.
Mas voltou ao assunto.
— Você realmente acredita que seus pais morreram por sua causa?
Elena parou.
— Sim.
— Elena.
— Se eu não tivesse insistido...
— Não.
— Jacob...
— Você tinha seis anos.
— Mas...
— Seis.
Ele se inclinou.
— Crianças pedem para ir a parques.
Elena desviou os olhos.
— Você não entende.
— Entendo culpa.
Ela olhou para ele.
Jacob continuou:
— Passei semanas pensando que, se não tivesse ficado com Seth naquela noite, Rebecca e Salomon talvez não tivessem saído para jantar.
Elena ficou imóvel.
— Jacob...
— Se eu dissesse não, eles teriam ficado em casa.
— Não foi sua culpa.
— Exatamente.
Silêncio.
Elena percebeu a armadilha.
— Não é a mesma coisa.
— É exatamente a mesma coisa.
— Não.
— Você acabou de me absolver por uma decisão que considera imperdoável em você.
Ela desviou os olhos.
— Eu insisti.
— E eu aceitei cuidar de Seth para que eles saíssem.
— Você não sabia.
— Nem você.
Elena sentiu os olhos arderem.
— Meu pai morreu olhando para mim.
Jacob ficou quieto.
— E eu prometi.
— Então cuide da Bella.
— Eu cuido.
— Mas viver sua vida não significa quebrar a promessa.
Elena olhou para ele.
— Enquanto ela precisar de mim, eu não posso me colocar primeiro.
— E se ela sempre precisar?
A pergunta a atingiu.
— Então...
Elena hesitou.
— Então eu continuo.
— Mesmo que custe sua felicidade?
Ela respondeu baixo:
— Mesmo que custe.
Jacob ficou olhando para ela.
Não havia humor agora.
Nenhuma provocação.
Nenhuma regra.
Apenas os dois.
— Seu pai pediu que você cuidasse da sua irmã.
A voz dele ficou mais baixa.
— Não acredito que tenha pedido que você deixasse de viver.
Elena sentiu uma lágrima escapar.
Jacob levantou a mão.
Hesitou.
Então tocou seu rosto.
O polegar retirou a lágrima.
Elena parou de respirar.
Jacob também.
A mão permaneceu ali.
Os olhos dela encontraram os dele.
Nenhum dos dois recuou.
Por alguns segundos, a distância pareceu desaparecer.
Elena percebeu a respiração dele.
Jacob percebeu que ela não se afastava.
Ele se inclinou quase imperceptivelmente.
Elena fechou os olhos por um instante.
O telefone tocou.
Os dois se afastaram imediatamente.
Elena olhou para a tela.
IRINA CULLEN
Seu coração disparou.
— É Irina.
Jacob levantou-se.
— Atende.
— Alô?
— Elena?
A voz de Irina estava agitada.
— O que aconteceu?
— É Seth.
Jacob ficou imediatamente ao lado dela.
— O que tem Seth?
Elena colocou no viva-voz.
— Ele caiu.
Jacob empalideceu.
— Caiu de onde?
Irina ouviu.
— Jacob?
— Onde está Seth?
— No hospital.
Jacob já pegava as chaves.
— Qual?
Irina informou.
— Ele está bem — acrescentou rapidamente. — Foi um susto. Ele bateu a cabeça, fizeram exames...
— Como ele caiu?
— Jacob...
— COMO ELE CAIU?
Elena segurou seu braço.
Jacob olhou para ela.
Respirou.
Irina continuou:
— Ele estava brincando, tentou subir numa estrutura no jardim e caiu. Eu estava perto. Nós viemos imediatamente.
— Quero falar com ele.
— Ele está acordado.
Pausa.
— E está pedindo pela Elena.
Jacob olhou para ela.
— Estamos indo.
Desligou.
— Vamos.
Jacob dirigiu rápido demais.
— Jacob.
— Estou dentro do limite.
— Você está vinte acima.
Ele diminuiu.
— Obrigado.
— Não agradece. Só não quero chegar ao hospital dentro de uma ambulância.
Ele não respondeu.
Cinco minutos depois:
— Ela deveria estar olhando.
Elena suspirou.
— Crianças caem.
— Não daquela altura.
— Você nem sabe a altura.
— Foi suficiente para hospital.
— E ela levou ele.
— Depois que caiu.
— Jacob.
— O quê?
— Não começa uma guerra antes de saber o que aconteceu.
— Ela tirou ele de mim e três semanas depois ele está no hospital.
— Foi um acidente.
Jacob apertou o volante.
Elena percebeu.
— Você está com medo.
— Não.
— Está.
— Elena.
— Tudo bem.
Silêncio.
— Eu também.
Ele olhou rapidamente para ela.
E diminuiu um pouco mais a velocidade.
Seth estava sentado na cama quando chegaram.
Um pequeno curativo próximo à testa.
Irina ao lado.
Edward estava mais afastado.
— TIO JAKE!
Jacob atravessou o quarto.
— Ei.
Abraçou o menino.
— Está doendo?
— Pouquinho.
— Ficou tonto?
— Não sei.
— Vomitou?
— Jacob — Irina interrompeu. — O médico já avaliou.
Ele ignorou.
— Está enxergando direito?
— Tio Jake!
Seth riu.
— Estou bem.
Elena apareceu.
O rosto do menino se iluminou.
— ELENA!
Ela se aproximou.
— Você resolveu voar sem me avisar?
Seth abriu os braços.
Elena o abraçou.
— Você está bem?
— Estou.
— Tem certeza?
— Sim.
— Quantos dedos?
Mostrou três.
— Quatro.
Elena arregalou os olhos.
Jacob empalideceu.
Seth começou a rir.
— Três!
Elena colocou a mão no peito.
— Quase matou seu tio.
Jacob lançou-lhe um olhar.
— Isso não tem graça.
— Tem um pouco.
Seth riu novamente.
Irina observava.
Então alguma coisa lhe ocorreu.
Olhou para Jacob.
Depois para Elena.
Os dois haviam chegado juntos.
Àquela hora.
— Vocês vieram juntos?
Jacob virou-se.
— O quê?
— Você e Elena.
— Sim.
Irina olhou para Elena.
— Você estava na casa dele?
Silêncio.
Jacob fechou a expressão.
— Isso é relevante para o estado de Seth?
— Estou apenas perguntando.
— Então não pergunte.
Irina cruzou os braços.
— Era quase dez da noite.
— E?
— Elena não está mais dormindo na sua casa.
Elena percebeu para onde aquilo caminhava.
— Eu tinha esquecido meu celular.
Irina olhou para ela.
— E ficou?
— Tomamos café.
Irina ergueu as sobrancelhas.
— Café.
Jacob deu um passo à frente.
— Tem algum problema?
— Nenhum.
— Então pare.
— Estou tentando entender o ambiente em que meu sobrinho vivia.
Jacob riu sem humor.
— Não ouse.
— O quê?
— Usar Elena.
— Não estou usando ninguém.
— Está interrogando por que ela estava na minha casa às nove da noite.
Edward finalmente se aproximou.
— Jacob, ninguém está acusando...
— Você fica fora disso.
— Tio Jake — Seth chamou.
Jacob parou imediatamente.
Olhou para ele.
O menino estava assustado.
A raiva desapareceu.
— Desculpa.
Aproximou-se.
— Está tudo bem.
Elena percebeu.
Irina também.
Jacob sentou-se ao lado de Seth.
— Não vamos brigar.
Seth olhou para Irina.
— Promete?
Jacob respirou.
— Prometo.
Irina se aproximou.
— Eu também.
Seth segurou a mão do tio.
Depois estendeu a outra para Elena.
Ela segurou.
Irina observou os três.
Jacob de um lado.
Elena do outro.
Seth no meio.
E algo naquela imagem a incomodou.
Não porque Elena fosse ruim para Seth.
Justamente o contrário.
Ela era boa demais.
Seth a amava.
Jacob confiava nela.
E, pela maneira como Jacob havia chegado com Elena àquela hora da noite...
Talvez houvesse mais.
Edward percebeu o olhar da esposa.
Acompanhou.
Jacob.
Elena.
Seth.
Uma família que ainda não sabia que parecia uma família.
E, ao contrário de Irina, Edward não sentiu ciúme.
Sentiu interesse.
Porque qualquer coisa que pudesse enfraquecer Jacob Black numa disputa pela guarda de Seth...
poderia ser útil.
Mais tarde, depois que o médico confirmou novamente que Seth estava bem, Jacob acompanhou Elena até o estacionamento.
— Obrigado por vir.
Ela sorriu.
— Ele pediu por mim.
— Eu sei.
Silêncio.
O momento no jardim ainda estava entre eles.
Nenhum mencionou.
— Sobre o que conversávamos antes...
Elena sentiu o coração acelerar.
— Jacob...
— Eu quis dizer aquilo.
— O quê?
— Você não matou seus pais.
Ela baixou os olhos.
— Boa noite, Jacob.
— Elena.
Ela abriu a porta do carro.
— Eu não sei viver de outro jeito.
Jacob ficou parado.
— Talvez esteja na hora de aprender.
Elena olhou para ele.
Pensou em Bella.
Na fotografia.
No documento.
Na mentira.
Na promessa.
— Talvez eu não possa.
Entrou no carro.
Jacob observou enquanto ela se afastava.
Não sabia que, naquela noite, Elena carregava dois segredos.
O primeiro era que quase quisera que ele a beijasse.
O segundo era muito pior.
Ela sabia quem entregara o documento a Irina.
E havia escolhido proteger Bella.
Mesmo que, para cumprir a promessa feita ao pai de cuidar da irmã, precisasse agora trair silenciosamente a confiança do homem que começava a ocupar um espaço perigoso demais em seu coração.
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