O PESO DE UMA PROMESSA

26 CAPÍTULO 26 - TUDO QUE ELE QUERIA TIRAR DE JACOB



Edward Cullen estava na audiência quando perdeu.


Viu tudo.


Talvez fosse isso que tornasse a derrota tão difícil de suportar.


Não recebera uma ligação de um advogado. Não lera uma decisão algumas horas depois. Não precisara que ninguém lhe contasse que Seth voltaria para a casa de Jacob Black.


Edward estivera sentado ao lado de Irina quando o menino entrara naquela sala.


Vira Seth procurar Jacob.


Vira o sorriso aparecer quando encontrara Elena.


Ouvira cada palavra.


Eu quero voltar para casa.


Ouvira quando Seth dissera que amava Irina.


E ouvira quando, apesar disso, explicara que sua casa era com Jacob e Elena.


Ouvira sobre o corredor iluminado.


Os morangos cortados.


Os pesadelos.


O dinossauro.


O degrau que fazia barulho.


A água perto da cama.


E ouvira a frase que parecera destruir toda a estratégia construída ao longo de meses.


Eu posso parar de fazer mala?


Edward soubera naquele momento.


Antes da decisão.


Antes de qualquer fundamentação.


Antes que o juiz anunciasse que a residência principal de Seth voltaria a ser estabelecida com Jacob.


Eles tinham perdido.


Mas nem sequer aquela tinha sido a pior parte.


A pior parte acontecera antes.


Quando o advogado perguntara a Elena:


— A senhora ama seu marido?


Edward observara.


Jacob ficara imóvel.


Elena também.


Por alguns segundos, Edward acreditara que finalmente veria a rachadura.


A hesitação.


Talvez até a verdade sobre aquele casamento conveniente.


Então Elena respondeu:


— Sim.


O advogado insistira:


— Sim o quê?


E Elena Swan olhara diretamente para ele.


— Eu amo meu marido.


Edward ainda conseguia ouvir.


Horas depois.


Dias depois.


A frase continuava dentro de sua cabeça.


Eu amo meu marido.


Era aquilo que ele não suportava.


Porque Jacob Black continuava tendo tudo.


Até ela.


Principalmente ela.


---


Edward nem sempre odiara Jacob.


Essa era uma verdade que raramente permitia a si mesmo lembrar.


Houve um tempo em que o admirara.


Quando entrou na Black Automotivos, Jacob ainda era jovem demais para carregar a empresa com a segurança que demonstrava, mas já possuía uma autoridade que Edward invejava.


As pessoas confiavam nele.


Não porque gritasse.


Não porque ameaçasse.


Simplesmente confiavam.


Jacob tinha aquilo que Edward passara a vida inteira tentando construir.


Um nome.


Dinheiro.


Respeito.


Família.


Poder.


E a irritante tranquilidade de quem não precisava provar constantemente que merecia ocupar o lugar onde estava.


Edward era diferente.


Precisava conquistar tudo.


Pelo menos era isso que dizia a si mesmo.


Quando começou a desviar dinheiro da empresa, não chamou de roubo.


Chamou de compensação.


No começo eram valores pequenos.


Diferenças que desapareceriam dentro de números muito maiores.


Pagamentos direcionados.


Fornecedores intermediários.


Comissões.


Nada extraordinário.


Nada que a Black Automotivos fosse sentir.


Era assim que justificava.


Eles têm milhões.


Eu estou pegando milhares.


Jacob nasceu com isso.


Eu construí tudo que tenho.


Depois os milhares aumentaram.


E Edward descobriu que roubar se tornava mais fácil depois da primeira vez.


Até Jacob descobrir.


---


Edward nunca esqueceu aquela sala.


Jacob colocou os documentos sobre a mesa.


— Você quer me explicar?


Edward olhou.


Sabia exatamente o que eram.


— Parece um erro contábil.


— Não é.


— Você tem certeza?


Jacob recostou-se na cadeira.


— Tenho.


Edward tentou explicar.


Falou de pagamentos.


De fornecedores.


De diferenças.


De procedimentos.


Jacob ouviu.


Tudo.


Quando terminou, perguntou:


— Acabou?


Edward ficou em silêncio.


— Jacob...


— Você terminou?


— Sim.


— Está demitido.


Duas palavras.


Sem gritos.


Sem espetáculo.


Aquilo foi pior.


— Depois de tudo que eu fiz por essa empresa?


Jacob levantou os olhos.


— Você roubou essa empresa.


— Uma fração.


— Não importa.


Edward riu.


— Claro que importa.


Jacob se levantou.


— Para mim, não.


Edward nunca esqueceu aquela frase.


Para mim, não.


Era fácil.


Jacob podia ter princípios.


Podia tratar dinheiro como se fosse uma questão moral absoluta.


Porque nunca precisara dele.


— Você nasceu com tudo isso.


Jacob ficou imóvel.


— Isso não tem nada a ver com o que você fez.


— Tem tudo a ver.


— Não.


Jacob apontou para os documentos.


— Meu sobrenome não colocou sua assinatura aí.


Edward sentiu o rosto queimar.


— Você fez isso.


Foi afastado.


Acessos bloqueados.


Documentos preservados.


Contratos revistos.


Saiu da Black Automotivos carregando uma caixa com seus pertences enquanto pessoas que o respeitavam evitavam olhar para ele.


Então viu Jacob atravessar o corredor.


Não havia satisfação no rosto dele.


Nem triunfo.


Havia decepção.


Aquilo foi pior do que qualquer humilhação.


Jacob não o odiava.


Edward ainda não era importante o suficiente para isso.


Naquele dia, alguma coisa mudou.


Ele deixou de querer aquilo que Jacob possuía.


Passou a querer que Jacob perdesse.


---


Então veio Irina.


E essa era outra parte da história que Edward não conseguia transformar completamente em mentira.


Ele realmente a amara.


No começo, não se aproximou dela para atingir Jacob.


Não se casou com ela como parte de algum plano.


Gostava de Irina.


Gostava da inteligência.


Da força.


Do temperamento.


Da maneira como ela entrava em qualquer ambiente e parecia saber exatamente quem era.


Gostava quando ela ria.


Esperava pelas mensagens.


Queria vê-la.


Quando a beijou pela primeira vez, não pensava em Jacob.


Quando pediu que se casasse com ele, queria que ela dissesse sim.


E quando Irina aceitou, Edward acreditou que tinha conseguido alguma coisa inteiramente sua.


Durante algum tempo, foi feliz.


Talvez Irina também.


O problema surgiu devagar.


Não porque ela falasse de Jacob.


Ela quase nunca falava.


Edward começou a percebê-lo justamente nos silêncios.


Uma notícia sobre a Black Automotivos.


Uma fotografia.


Um comentário.


O nome dele dito por outra pessoa.


E Irina mudava.


Pouco.


Quase imperceptivelmente.


Mas Edward observava pessoas.


Sempre observara.


Numa noite, depois de encontrarem Jacob em um evento, perguntou:


— Você ainda ama ele?


Irina riu.


— Que pergunta ridícula.


— É simples.


— Eu sou casada com você.


Edward olhou para ela.


— Não foi o que perguntei.


Irina ficou em silêncio.


E aquele silêncio destruiu alguma coisa.


Edward ainda a amava.


Esse era justamente o problema.


Se não amasse, não teria doído.


Começou a observar mais.


Comparar mais.


Questionar mais.


Até perceber que podia ter Irina ao seu lado todas as noites e, ainda assim, existir uma parte dela que Jacob possuía sem sequer pedir.


Foi quando o amor começou a se misturar com ressentimento.


Depois com ciúme.


Depois com humilhação.


E finalmente com ódio.


Não apenas dela.


Principalmente dele.


Jacob Black não precisava fazer nada.


Era isso que enlouquecia Edward.


Não precisava procurar Irina.


Não precisava seduzi-la.


Não precisava pedir que ela lembrasse.


Ele simplesmente existia.


E isso bastava.


---


Os anos fizeram o restante.


Edward acompanhou a Black Automotivos.


Sua expansão.


Seus números.


Sua estrutura.


A família.


Rebecca.


Rachel.


Billy.


Salomon.


Jacob.


Sabia que Salomon possuía participação importante.


Sabia que Seth seria herdeiro.


E quando começou a compreender como a estrutura societária ficaria caso determinadas pessoas deixassem de existir, uma ideia que inicialmente parecera absurda começou a adquirir forma.


Quarenta por cento.


Seth.


Uma criança.


Uma criança não administrava uma empresa.


Adultos administravam sua vida.


Decisões seriam supervisionadas, controladas, representadas.


Edward não seria automaticamente dono de nada.


Sabia disso.


Mas se Seth estivesse sob o teto dele e de Irina, haveria proximidade.


Informação.


Influência.


Tempo.


Possibilidades.


E, simultaneamente, Jacob perderia a irmã.


O cunhado.


Parte da estabilidade familiar.


E talvez o acesso mais natural ao sobrinho.


Era perfeito.


Na mente de Edward, pelo menos.


---


Marcus Doyle entrou na história porque sabia fazer aquilo que Edward não queria fazer com as próprias mãos.


Não eram amigos.


Nunca foram.


Marcus precisava de dinheiro.


Edward precisava de alguém que não fizesse perguntas morais.


O primeiro encontro foi curto.


Edward colocou um envelope sobre a mesa.


Marcus olhou.


— Quem?


— Salomon Grey.


— Só ele?


Edward demorou.


Rebecca.


Irmã de Jacob.


Se Salomon morresse e Rebecca permanecesse viva, Seth continuaria com a mãe.


Nada mudaria.


O caminho continuaria fechado.


— Rebecca também.


Marcus ficou em silêncio.


— A criança?


Edward imediatamente respondeu:


— Não.


— Tem certeza?


— Seth não estará no carro.


Marcus observou Edward.


— Você verificou.


— Sim.


— Então isso já está planejado há algum tempo.


Edward não respondeu.


Marcus tocou o envelope.


— O que você quer que pareça?


Edward o encarou.


— Acidente.


Foi tudo.


Edward não quis detalhes.


Não perguntou exatamente como Marcus faria.


Queria distância suficiente para continuar dizendo a si mesmo que não tinha tocado em ninguém.


Como se ordenar fosse diferente.


Como se dinheiro não pudesse matar.


Como se mãos limpas significassem consciência limpa.


Quando recebeu a confirmação, estava em casa.


O telefone vibrou.


Uma única palavra.


Feito.


Horas depois, a notícia chegou.


Rebecca e Salomon estavam mortos.


Irina desceu as escadas.


Viu a televisão.


Parou.


— Meu Deus.


Começou a chorar.


Edward levantou-se.


Ela foi até ele.


E Edward a abraçou.


Então ouviu:


— Jacob...


O corpo dele endureceu.


Irina chorava contra seu peito.


— Meu Deus, Edward... Jacob vai ficar destruído.


Rebecca estava morta.


O irmão dela também.


E Irina pensara em Jacob.


Foi naquele momento que o que ainda restava de amor dentro de Edward começou definitivamente a se deformar.


---


O plano deveria funcionar.


Irina amava Seth.


Isso facilitava tudo.


Ela queria a guarda porque acreditava verdadeiramente que poderia cuidar do sobrinho.


Edward alimentou essa convicção.


— Jacob trabalha demais.


— Ele ama Seth.


— Nunca disse que não.


— Então?


— Amor não é tudo.


Irina ficou em silêncio.


— Seth precisa de estabilidade.


Edward segurou sua mão.


— Nós podemos oferecer.


Irina acreditou.


Porque queria acreditar.


A guarda provisória veio.


E Edward pensou que finalmente uma coisa tinha funcionado.


Seth estava dentro da casa dele.


Os quarenta por cento estavam próximos.


Jacob estava do lado de fora.


Então Elena Swan entrou definitivamente no caminho.


---


No começo, Edward não deu importância.


Uma funcionária.


Uma chef.


Uma mulher que Seth adorava.


Depois percebeu Jacob olhando para ela.


E Edward conhecia Jacob suficientemente bem para perceber aquilo antes mesmo que o próprio Jacob admitisse.


Jacob estava se apaixonando.


Era quase engraçado.


O homem que controlava tudo estava completamente perdido por uma mulher que provavelmente nem percebia metade do efeito que causava.


Edward observou.


Irina também.


E o ciúme dela foi a confirmação.


— Ele está diferente com ela — Irina comentou certa vez.


Edward olhou.


— Quem?


Ela demorou um segundo demais.


— Jacob.


Claro.


Sempre Jacob.


Depois veio Bella.


Jovem.


Impulsiva.


Precisando de dinheiro.


Ressentida com a irmã.


Irina viu uma oportunidade.


Edward deixou.


O documento dos cinco por cento poderia ser útil.


Bella fotografou.


Recebeu.


Elena descobriu.


E escondeu.


Aquilo foi um presente.


Edward enviou o pendrive.


Não Irina.


Documento.


Comprovante da transferência para Bella.


Sem explicações.


Sem contexto.


A verdade, quando entregue no momento certo, podia destruir melhor do que qualquer mentira.


Funcionou.


Jacob descobriu.


A discussão foi brutal.


Elena decidiu partir.


Edward soube.


E por algumas horas acreditou que aquilo bastaria.


Até perceber que não bastaria.


Porque conhecia Jacob.


Talvez melhor do que Jacob gostaria.


Jacob estava ferido.


Furioso.


Traído.


Mas apaixonado.


Edward sabia o que Irina não conseguia entender.


Aquela briga não seria suficiente.


Jacob cederia.


Não imediatamente.


Talvez levasse semanas.


Meses.


Mas cederia.


Porque Elena era diferente.


Edward percebera isso na maneira como Jacob olhava para ela antes mesmo do rompimento.


Percebera no restaurante.


Na forma como investira secretamente.


Na maneira como aparecia.


Na raiva desproporcional quando descobrira a mentira.


Ódio e amor podiam parecer muito semelhantes quando alguém estava profundamente ferido.


Edward conhecia a diferença.


Jacob não odiava Elena.


Jacob a amava.


E eventualmente a perdoaria.


Então Jacob teria tudo outra vez.


Empresa.


Dinheiro.


Seth.


Família.


E Elena.


O amor da vida dele.


Foi isso que Edward não suportou.


Não o risco de Elena descobrir.


Não alguma informação que ela carregasse.


Não Bella.


Jacob.


Sempre Jacob.


---


Edward encontrou Marcus novamente.


— Ela vai para a Flórida.


Marcus esperou.


— E?


Edward olhou para ele.


— Não pode voltar.


Marcus ficou alguns segundos em silêncio.


— A mulher do Black?


Edward odiou a maneira como ele disse.


— Elena Swan.


— Quer outro acidente?


Edward não respondeu imediatamente.


Marcus entendeu.


— Tem certeza?


Edward pensou em Jacob encontrando Elena novamente.


Pensou em desculpas.


No perdão.


Naquela mulher voltando para os braços dele.


Pensou em Irina observando.


Pensou em Jacob recuperando Seth.


Pensou em Jacob vencendo outra vez.


— Tenho.


— Vai estar sozinha?


Edward acreditava que sim.


Ou deveria estar.


O foco era Elena.


Só Elena.


— Faça.


---


Quando soube que Bella estava no carro, Edward ficou furioso.


— Você disse que ela estaria sozinha.


Marcus respondeu:


— Ela não estava.


— Bella morreu.


— Eu sei.


— Ela não fazia parte disso.


— Acidente não escolhe passageiro.


Edward desligou.


Por alguns minutos sentiu algo parecido com culpa.


Bella tinha dezoito anos.


Não era o alvo.


Não tinha importância para o plano.


Era uma consequência que ele não previra.


Um erro colateral.


Foi assim que passou a chamá-la dentro da própria cabeça.


Erro colateral.


Era mais fácil do que dizer o nome.


Bella.


Mas Elena sobrevivera.


E aquilo tornou tudo pior.


Porque Jacob correu para ela.


Ficou no hospital.


Destruiu o distrato.


Investigou o acidente.


Mandou examinar os carros.


E quando Elena voltou, Jacob não apenas a recebeu de volta à vida.


Acabou se casando com ela.


Exatamente como Edward previra.


Ele cederia.


Sempre soubera.


Só não imaginara que o fracasso seria tão completo.


---


Na audiência, sentado ao lado de Irina, Edward assistiu a todas as peças de seu plano desmoronarem.


Rebecca e Salomon estavam mortos.


Mas Seth voltaria para Jacob.


Bella estava morta.


Mas Elena sobrevivera.


O pendrive destruíra a confiança.


Mas Jacob perdoara.


O acidente deveria tirar Elena definitivamente.


Mas acabara fazendo Jacob perceber que não conseguia viver sem ela.


A disputa pela guarda deveria colocar Seth sob seu teto.


Mas Jacob e Elena haviam se casado.


E agora Elena dizia diante de todos:


— Eu amo meu marido.


Edward virou o rosto.


Olhou para Jacob.


E viu.


O choque.


A emoção.


A maneira como a mão dele apertou a dela.


Aquilo não era atuação.


Edward sentiu o ódio subir.


Tudo que fizera.


Tudo.


E Jacob continuava vencendo.


Quando Seth pediu para voltar para casa, Edward soube que os quarenta por cento estavam escapando.


Quando a decisão foi proferida, teve certeza.


Não havia mais influência cotidiana.


Não havia proximidade.


Não havia oportunidade.


Seth voltaria para o centro da família Black.


E Elena estaria lá.


A mulher que deveria estar morta.


---


Dias depois, Edward ainda estava cheio de ódio.


Não dormia bem.


Bebia mais.


Pensava demais.


Irina percebia.


Mas não perguntava.


Até aquela noite.


Edward estava no escritório.


A porta quase fechada.


O telefone tocou.


Marcus.


Edward atendeu imediatamente.


— Onde você está?


Irina vinha pelo corredor.


Ia chamá-lo.


Parou quando ouviu o nome.


— Marcus, você deveria ter desaparecido.


Irina congelou.


Não entrou.


Edward estava de costas para a porta.


— Eu desapareci — respondeu Marcus. — Mas a polícia está fazendo perguntas demais.


— Então continue longe.


— Fácil falar. Não é você que eles estão procurando.


Edward apertou o telefone.


— Você recebeu para isso.


Irina sentiu o coração acelerar.


Recebeu para quê?


Aproximou-se silenciosamente.


— Recebi para fazer dois serviços — Marcus disse. — Não para carregar quatro mortes nas costas.


Irina levou a mão à boca.


Edward levantou-se.


— Baixa a voz.


— Rebecca. Salomon. Bella.


Uma pausa.


— E Elena quase foi a quarta.


O mundo de Irina parou.


Não.


Não.


Aquilo não podia...


Edward falou:


— Bella não estava prevista.


Irina sentiu as pernas fraquejarem.


— Isso não muda nada para mim — Marcus respondeu.


— Muda para mim.


— Ah, muda?


— Eu mandei cuidar de Elena.


Irina fechou os olhos.


Sentiu o estômago virar.


— Não mandei matar Bella.


Ela precisou apoiar a mão na parede.


Eu mandei cuidar de Elena.


As palavras se repetiram.


Então Marcus falou novamente:


— E o primeiro carro?


Irina parou de respirar.


Edward ficou em silêncio.


Marcus insistiu:


— Rebecca e Salomon também não contam?


Uma lágrima desceu pelo rosto de Irina.


Ela não fez som.


Edward respondeu:


— Aquilo precisava acontecer.


Irina apertou a boca com a mão.


Seu irmão.


Salomon.


Rebecca.


Seth.


A criança que acordara perguntando pelos pais.


As noites chorando.


O funeral.


Tudo.


Edward.


Seu marido.


— Você disse que o garoto não estaria no carro — Marcus continuou. — Foi a única coisa que você fez questão de confirmar.


Irina fechou os olhos.


Seth.


Edward sabia.


Planejara.


Escolhera o dia.


Escolhera o momento.


— E não estava — Edward respondeu.


— Você acha que isso torna você uma boa pessoa?


— Não estou interessado no que você acha.


— Devia estar interessado no que eu posso contar.


Edward ficou em silêncio.


Irina percebeu a mudança.


A ameaça.


— Está me ameaçando?


— Estou dizendo que não vou cair sozinho.


Edward aproximou-se da janela.


— Quanto?


Marcus riu.


— Ainda acha que tudo se resolve com dinheiro.


— Quanto?


— Não quero dinheiro.


— Então o que quer?


— Garantia.


— De quê?


— De que eu saio disso.


Edward soltou uma risada fria.


— Você sabotou dois carros, Marcus. Não existe garantia.


Irina sentiu náusea.


Dois carros.


Era verdade.


Não havia mais espaço para dúvida.


Edward mandara matar seu irmão.


Rebecca.


Elena.


Bella morrera por estar no lugar errado.


E ela estava casada com o homem responsável.


Irina recuou.


Um passo.


Depois outro.


Precisava sair dali antes que Edward percebesse.


O piso rangeu.


Ela congelou.


Edward virou o rosto.


— Irina?


O coração dela parou.


Por uma fração de segundo pensou em correr.


Em gritar.


Em entrar naquele escritório e atacá-lo.


Mas alguma coisa mais forte que o horror assumiu o controle.


Seth.


Se Edward matara Salomon.


Rebecca.


Tentara matar Elena.


O que faria se soubesse que Irina descobrira?


Ela precisava sobreviver.


Precisava proteger Seth.


E precisava descobrir o quanto Edward ainda podia provar contra si mesmo.


Irina respirou fundo.


Entrou.


— Você está falando com quem?


Edward observou seu rosto.


Ela obrigou-se a parecer irritada.


Apenas irritada.


Nada mais.


— Trabalho.


Irina olhou para o telefone.


— A essa hora?


— Sim.


Ela deu de ombros.


— Ótimo.


Virou-se.


Edward chamou:


— Irina.


Ela parou.


Não podia tremer.


— O quê?


— Você ouviu alguma coisa?


Irina virou lentamente.


Olhou para o homem com quem dormira durante anos.


O homem que um dia amara.


O homem que mandara matar seu irmão.


E sorriu com cansaço.


— Só você falando alto demais.


Edward continuou observando.


— Sobre?


Irina deu uma risada curta.


— Eu não faço ideia. Algum problema da empresa, suponho.


Silêncio.


Edward procurou alguma coisa em seu rosto.


Irina sustentou.


— Posso dormir agora ou você pretende me interrogar?


Finalmente ele desviou os olhos.


— Vai dormir.


— Boa noite.


Irina saiu.


Caminhou pelo corredor.


Sem correr.


Entrou no quarto.


Fechou a porta.


Foi até o banheiro.


Trancou.


E só então permitiu que as pernas cedessem.


Sentou-se no chão.


Levou as duas mãos à boca.


Nenhum som saiu.


As lágrimas começaram.


Salomon.


Seu irmão.


Lembrou-se dele rindo.


Lembrou-se de Seth no funeral.


Lembrou-se de Rebecca.


Lembrou-se de abraçar Edward enquanto chorava a morte dos dois.


Ele a consolara.


O homem responsável a segurara enquanto ela chorava.


Irina sentiu ânsia.


Curvou-se.


Mas não vomitou.


Respirou.


Precisava pensar.


Não podia contar a Edward.


Não ainda.


Não podia confrontá-lo.


Não podia deixar que ele soubesse.


Marcus estava vivo.


Isso significava testemunha.


Talvez provas.


Pagamentos.


Mensagens.


Alguma coisa.


Irina enxugou o rosto.


Olhou para o próprio reflexo.


— Você não sabe que eu sei — sussurrou.


Era a única vantagem que tinha.


E não desperdiçaria.


---


No escritório, Edward permanecia olhando para a porta.


Alguma coisa o incomodara.


Não sabia o quê.


Talvez Irina realmente não tivesse ouvido.


Talvez tivesse.


Mas havia outro problema.


Marcus.


Precisava resolver.


Edward abriu a gaveta.


Pegou um telefone que Irina nunca vira.


Havia poucas conversas ali.


Poucos números.


Nenhum nome completo.


Ele abriu uma delas.


Marcus.


Depois outra.


Informações sobre Jacob.


Horários.


Rotina.


Locais.


Edward olhou para a fotografia do aniversário novamente.


Jacob e Elena.


A mão dele na cintura dela.


O sorriso.


A felicidade.


Depois lembrou da audiência.


Eu amo meu marido.


A frase queimou.


Edward fechou a imagem.


Precisava parar de atacar as coisas ao redor de Jacob.


Era esse o erro.


Rebecca.


Salomon.


Elena.


Seth.


Tudo atingia Jacob.


Mas não o destruía.


Pelo contrário.


Jacob transformava perda em motivo para se agarrar ainda mais às pessoas que restavam.


Então Edward percebeu.


Precisava atingir o próprio Jacob.


Não necessariamente matá-lo.


Morte era simples demais.


E, além disso, a polícia já estava olhando para os acidentes.


Outro seria estupidez.


Precisava destruir aquilo que fazia Jacob ser Jacob.


Sua reputação.


Sua empresa.


A confiança das pessoas.


O lugar que ocupava dentro da própria família.


Talvez até fazer Elena olhar para ele de outra forma.


Edward sentiu alguma coisa próxima de satisfação.


Era isso.


Não tirar Elena de Jacob.


Fazer Elena acreditar que Jacob não era o homem que pensava.


Não tirar a empresa.


Fazer o mundo acreditar que Jacob não merecia comandá-la.


Não afastar Seth à força.


Fazer com que alguém decidisse que Jacob não era seguro para Seth.


Tudo que Edward tentara destruir fisicamente poderia ser destruído de outra maneira.


Por dentro.


Ele abriu um arquivo.


Havia documentos antigos da Black Automotivos.


Alguns verdadeiros.


Outros poderiam ser modificados.


Transferências.


Contratos.


Assinaturas.


A ironia fez Edward sorrir.


Anos atrás, Jacob o expulsara daquela empresa chamando-o pelo que era.


Ladrão.


Talvez tivesse chegado a hora de devolver a palavra.


Edward pegou o telefone.


Fez uma ligação.


— Preciso que você consiga algumas coisas para mim.


A voz do outro lado perguntou alguma coisa.


Edward olhou para a fotografia de Jacob e Elena.


— Documentos.


Outra pergunta.


— Da Black Automotivos.


Silêncio.


— Quero movimentações que possam ser associadas diretamente ao Jacob.


A pessoa respondeu.


Edward sorriu.


— Se não existirem, faça existirem.


Desligou.


Recostou-se.


Dessa vez não haveria freios.


Não haveria carros.


Não haveria sangue.


Haveria números.


Papéis.


Suspeitas.


Imprensa.


Polícia.


Talvez investigação financeira.


Talvez uma empresa em crise.


Talvez uma esposa descobrindo que o homem que ama não é quem acreditava.


Talvez um juiz se perguntando se Seth deveria permanecer naquela casa.


Edward fechou os olhos.


Era melhor.


Muito melhor.


Porque morrer era rápido.


Edward não queria que Jacob morresse.


Queria que ele assistisse à própria vida desmoronar.


Queria que perdesse o respeito.


O nome.


A empresa.


Seth.


E, principalmente, Elena.


Queria vê-la olhar para Jacob com a mesma decepção que Jacob demonstrara anos atrás quando descobriu que Edward roubava a Black Automotivos.


Talvez então ficassem iguais.


Mas Edward ainda não sabia que, no andar de cima, Irina estava sentada no chão do banheiro reconstruindo cada palavra que ouvira.


Rebecca.


Salomon.


Elena.


Bella.


Marcus.


Dois carros.


Dois serviços.


E uma frase que jamais conseguiria esquecer:


Aquilo precisava acontecer.


Naquela noite, duas pessoas começaram a fazer planos dentro da mesma casa.


Edward planejava destruir Jacob Black.


Irina planejava descobrir como destruir Edward antes que ele conseguisse.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.