O PESO DE UMA PROMESSA

24 CAPÍTULO 24 - QUANDO NINGUÉM ESTÁ OLHANDO


A primeira coisa que Elena descobriu sobre a vida de casada foi que Jacob Black ocupava espaço demais no sofá. Não metaforicamente. Fisicamente. Era domingo. A audiência aconteceria dali a poucos dias, o restaurante só abriria no fim da tarde e, pela primeira vez desde o casamento, não havia compromisso, fotógrafo, advogado, reunião, jantar empresarial, visita programada ou qualquer outro evento exigindo que parecessem um casal. Portanto, às dez e vinte e três da manhã, Jacob estava deitado no sofá da sala com um livro aberto sobre o peito e as pernas estendidas por quase todo o comprimento do móvel.

Elena parou diante dele. Esperou. Jacob continuou lendo. Ela pigarreou. Nada. — Jacob. — Hum? Nem levantou os olhos. — Eu gostaria de sentar. Ele virou uma página. — Tem uma poltrona. Elena olhou para a poltrona. Depois para ele. — Quero o sofá. — Tem outro sofá. — Quero esse. Jacob finalmente levantou os olhos. — Por quê? Elena pensou. — Porque você está nele. Uma sobrancelha se ergueu. — Isso deveria me fazer sair? — Deveria fazer você recolher essas pernas gigantes. — Minhas pernas têm tamanho normal. — Para um poste. Jacob voltou ao livro. — Poltrona. Elena ficou olhando para ele. Então sentou mesmo assim. Em cima das pernas dele. Jacob fechou o livro. — Elena. — O quê? — Você está sentada nas minhas pernas. — Eu avisei que queria sentar. — Existem aproximadamente quatrocentos metros quadrados disponíveis nesta casa. — Mas eu queria esse sofá. — Você tem algum problema psicológico relacionado a móveis? — Talvez. Ela se ajeitou. Jacob continuou olhando. — Vai sair? — Não. — Elena. — Pode continuar lendo. Jacob olhou para o livro. Depois para ela. Abriu novamente. — Você é insuportável. — E você ocupa espaço demais. Por alguns minutos, ficaram em silêncio. Elena mexia no telefone. Jacob tentava ler. Tentava. Porque agora havia o peso dela sobre suas pernas e o perfume de seu cabelo perto demais. Depois de alguns minutos, Elena mudou de posição. Sem pedir licença, levantou os pés e os colocou sobre as pernas dele. Jacob olhou. — O que está fazendo? — Ficando confortável. — Isso aqui virou apoio para pés? — Marido serve para alguma coisa. Ele a encarou. Elena percebeu tarde demais. *Marido.* Ainda acontecia. A palavra escapava cada vez mais facilmente. Jacob fechou o livro sobre um dedo para marcar a página. — Então essa é minha função? — Uma delas. — Quais são as outras? Elena pensou. — Abrir potes. — Você consegue abrir potes. — Alcançar coisas altas. — Você tem um metro e sessenta e nove. — Existem armários altos. — Mais alguma? Ela sorriu. — Comprar pasta de dentes. Jacob começou a rir. — Eu comprei dois tubos. — Aprendizado rápido. Ele voltou ao livro. Mas, alguns minutos depois, sua mão pousou casualmente sobre o tornozelo dela. Elena percebeu. Não disse nada. Jacob também não pareceu perceber. Ou fingiu não perceber. Ela continuou mexendo no telefone. Ele continuou lendo. A mão permaneceu ali. Era exatamente aquilo que começava a assustá-la. Não os beijos. Não o Central Park. Não a cerimônia. Não o evento. Aquilo. Um domingo. Um sofá. Um livro. Os pés sobre as pernas dele. A mão de Jacob distraidamente apoiada em seu tornozelo. Nenhuma câmera. Nenhuma testemunha. Nenhuma necessidade de convencer ninguém. Apenas eles. Elena baixou o telefone. — Rosalie quase matou um fornecedor ontem. Jacob não tirou os olhos do livro. — Por quê? — Ele entregou quarenta quilos de tomates errados. Jacob virou uma página. — Existem tomates errados? — Foi exatamente o que ele perguntou. — Homem corajoso. — Homem estúpido. Jacob sorriu. — Qual a diferença? — O corajoso sabe que pode morrer. — E o estúpido? — Descobre depois. Jacob finalmente olhou para ela. — Rosalie matou? — Não. Emmett chegou antes. — Então ele salvou o fornecedor? — Não. Disse que ela ficava sexy quando estava brava. Jacob fechou os olhos. — Claro que disse. — Rosalie esqueceu o fornecedor e começou a brigar com Emmett. — Estratégia brilhante. — Foi o que ele disse. Jacob voltou ao livro. Elena continuou: — Depois o fornecedor tentou sair discretamente. — Inteligente. — Tropeçou numa caixa de cebolas. Jacob começou a rir. Elena também. — E derrubou tudo. — Não. — Sim. — Na frente da Rosalie? — Na frente da Rosalie. Jacob fechou o livro. — Gostaria de ter visto. — Temos câmera. Ele olhou imediatamente. — Você tem o vídeo? Elena sorriu. — Talvez. — Elena. — Vai custar. — Quanto? — Quero escolher o jantar. — Fechado. — E o filme. Jacob imediatamente recuou. — Não. Elena arregalou os olhos. — Como assim, não? — Jantar, tudo bem. Filme, não. — Por quê? — Porque sua escolha cinematográfica é questionável. — Você nunca viu um filme escolhido por mim. — Exatamente. Quero manter assim. Elena tirou os pés das pernas dele. — Então não tem vídeo. Jacob segurou seus tornozelos antes que conseguisse levantar. — Chantagem. — Negociação. — Isso é extorsão. — Pergunta para Leah. Ele ficou olhando. — Filme. — Escolhido por mim. — Com direito a veto. — Sem veto. — Um veto. — Meio veto. Jacob franziu a testa. — Como existe meio veto? — Você reclama, eu ignoro e colocamos o filme mesmo assim. Ele começou a rir. — Fechado. Elena recolocou os pés sobre as pernas dele. — Excelente. Jacob olhou. — Você estava indo embora. — Mudei de ideia. E, por quase vinte minutos, ficaram no sofá assistindo ao desastre gastronômico de um homem que jamais imaginaria que seu pior dia profissional serviria de entretenimento para Jacob Black. --- Naquela noite, o casamento quase terminou por causa de um filme. — Não. Jacob estava parado diante da televisão. Elena segurava o controle. — Você prometeu. — Eu não sabia que você escolheria isso. — Você nem sabe o que é. — Tem uma mulher chorando na capa. — E? — Vai acabar mal. — Você tem medo de filme triste? — Não tenho medo. — Então senta. Jacob olhou para a tela. — Duas horas e vinte minutos. — Você lê relatórios financeiros por quatro horas. — Relatórios têm utilidade. Elena levou a mão ao peito. — Retira. — Não. — Cinema é arte. — Algumas coisas são. — Você é culturalmente limitado. — E você está tentando me obrigar a assistir duas horas de pessoas sofrendo porque não conseguem conversar. — Você nem sabe a história! — Acertei? Elena ficou em silêncio. Jacob sorriu. — Acertei. — Senta. Ele sentou. — Vou dormir. — Se dormir, eu conto o final errado. — Isso não faz sentido. — Quando você assistir sozinho depois, vai passar duas horas esperando uma coisa que nunca acontece. Jacob a encarou. — Você é uma pessoa perturbadora. — Obrigada. Vinte minutos depois, Elena estava encostada no braço do sofá. Quarenta minutos depois, o ombro dela tocava o de Jacob. Uma hora depois, sua cabeça estava apoiada nele. Jacob percebeu. Não se mexeu. Mais quinze minutos e Elena pegou pipoca da tigela que estava sobre o colo dele. — Tem uma tigela inteira do seu lado. — Essa está mais perto. — Você está roubando minha pipoca. — Somos casados. Tecnicamente metade é minha. — Você usa o casamento de forma muito conveniente. Elena pegou outra. Jacob segurou sua mão dentro da tigela. Ela olhou. — Solta. — Pede desculpa. — Pela pipoca? — Pela apropriação indevida. — Nunca. Jacob continuou segurando. Elena tentou puxar. — Jacob. — Elena. Ela aproximou-se para pegar a tigela com a outra mão. Ele afastou. — Isso é infantil. — Você começou. — Eu só queria pipoca. — Tinha a sua. Elena tentou novamente. Jacob levantou a tigela. — Você é ridículo. — E você é baixa. — Eu tenho um metro e sessenta e nove! — Continua não alcançando. Ela se ajoelhou no sofá. Jacob levantou mais. Elena se inclinou sobre ele. E parou. Os rostos ficaram próximos. Muito próximos. A brincadeira desapareceu. A mão de Jacob ainda segurava a dela. A outra segurava a tigela no alto. Elena olhou para sua boca. Ele percebeu. Então a televisão explodiu numa música dramática. Os dois se afastaram. Jacob colocou a tigela entre eles. — Seu filme é péssimo. Elena respirou fundo. — Você está chorando. — Não estou. — Está com o olho brilhando. — Ar-condicionado. — Estamos sem ar-condicionado. Jacob ficou em silêncio. Elena começou a rir. — Jacob Black está chorando. — Se contar para alguém, eu peço o divórcio. Ela riu ainda mais. — Isso eu preciso contar para Emmett. — Elena. — E Paul. — Elena. — E Seth. Jacob pegou uma almofada. Ela levantou as mãos. — Certo! Certo! Jacob abaixou. Elena sorriu. — Só para Rosalie. A almofada voou. --- Dois dias depois, Rosalie entrou na cozinha do restaurante com um sorriso estranho. Elena percebeu. — O que foi? — Nada. — Você está com cara de nada perigoso. — Seu marido está lá fora. Elena parou. — Jacob? — Você tem outro? — O que ele quer? Rosalie deu de ombros. — Talvez você devesse descobrir. Elena saiu da cozinha ainda limpando as mãos num pano. Jacob estava perto da entrada. Terno. Gravata. Expressão de Jacob. E flores. Elena parou. Um buquê de flores nas mãos. Olhou para Rosalie. Rosalie sorriu. — Eu vou voltar para a cozinha porque sou uma pessoa discreta. — Você nunca foi discreta na vida. — Verdade. Desapareceu. Elena caminhou até Jacob. — O que aconteceu? — Nada. — Quem morreu? — Ninguém. — Seth está bem? — Está. — Billy? — Bem. — Rachel? — Elena. Ela apontou para as flores. — Então explica isso. Jacob olhou para o buquê como se tivesse esquecido que o carregava. — Flores. — Eu sei identificar flores. — Então qual é a dúvida? — Por que você está me dando flores? Jacob ficou alguns segundos em silêncio. — Porque vim buscar minha esposa no trabalho. Elena sentiu alguma coisa dentro do peito. — E? — E recém-casados fazem essas coisas. O encanto diminuiu um pouco. — Ah. Jacob percebeu. — O quê? — Nada. — Você fez aquela cara. — Que cara? — A cara de “nada” que significa alguma coisa. Elena pegou as flores. — Obrigada. Jacob continuou olhando. — Você não gostou. — Gostei. — Não parece. — Só achei que fosse... Ela parou. — Fosse o quê? — Nada. Jacob entendeu. Tarde. — Elena. — Está tudo bem. Ela cheirou as flores. — São lindas. Virou-se. Jacob segurou seu braço. — Eu vi quando estava vindo para cá. Elena olhou. — O quê? — As flores. Ele parecia desconfortável. Quase irritado por precisar explicar. — Passei por uma floricultura. — Certo. — E pensei em você. Elena ficou imóvel. — Não comprei porque recém-casados fazem isso. Pausa. — Quer dizer, também fazem. Mas eu comprei porque olhei para elas e pensei que você gostaria. Elena sentiu o sorriso aparecer. — Você é muito ruim nisso. — Em comprar flores? — Em ser romântico. — Não estava tentando ser romântico. — Claro. Jacob estreitou os olhos. — Quer devolver? Elena abraçou o buquê. — Nem tenta. Ele sorriu. — Vamos? — Para onde? — Casa. A palavra atingiu os dois. Casa. Não *minha casa*. Não *a casa*. Casa. Elena pegou sua bolsa. — Vamos. Quando passaram pela cozinha, Rosalie gritou: — BONITAS FLORES! Jacob nem parou. — Eu odeio seus amigos. Elena sorriu. — São seus amigos também agora. — Isso não estava no acordo. — Devia ter lido as letras pequenas. --- Na manhã seguinte, tomavam café no jardim. Elena ainda usava pijama e um robe leve. Jacob estava de camiseta e moletom, algo que ela descobrira ser uma visão surpreendentemente rara. — Você tem roupa normal — comentou. Jacob tomou café. — O que significa roupa normal? — Isso. Ela apontou. — Moletom. — Eu uso moletom. — Nunca vi. — Porque você não morava comigo. Elena ficou quieta. Jacob percebeu. A frase era simples. Mas havia um *agora mora* escondido nela. Elena pegou um pedaço de pão. — Você dorme de meia? Jacob franziu a testa. — O quê? — Estou perguntando. — Não. — Ótimo. — Por quê? — Precisava saber. — Para quê? — Para avaliar o casamento. Jacob colocou a xícara sobre a mesa. — A pasta de dentes não foi suficiente? — Ainda estou coletando dados. — E qual seria o problema se eu dormisse de meia? — Psicopatia. — Tudo que você não gosta é psicopatia? — Basicamente. — Você coloca ketchup em ovos. Elena arregalou os olhos. — Não muda de assunto. — Isso é muito pior. — Não é. — É um crime contra a culinária. — Sou chef. Eu decido. — Então admite abuso de autoridade? Elena riu. Jacob ficou olhando. Era estranho como aqueles momentos tinham se tornado os melhores do dia. Não reuniões. Não eventos. Não jantares caros. Café no jardim. Elena de pijama. Discussões sobre ketchup. Jacob percebeu que estava sorrindo. — O que foi? — ela perguntou. — Nada. — Está me olhando. — Estou sentado na sua frente. — Não desse jeito. Ele pegou a xícara. — Que jeito? — Esquece. Elena baixou os olhos. O telefone de Jacob vibrou. Os dois olharam. Qualquer ligação podia ser Leah. Ou notícia sobre Seth. Não era. Jacob virou o aparelho. Elena viu a tensão desaparecer. — Está com saudade dele? Jacob não precisou perguntar de quem. — Sim. Ela também. — Eu também. Silêncio. A cadeira vazia ao lado parecia subitamente muito visível. — Se ele voltar depois da audiência... — Quando ele voltar. Elena olhou. Jacob respirou. — Se ele voltar. — Vai mudar muita coisa. — Vai. Ela passou o dedo pela borda da xícara. — Principalmente uma. Jacob esperou. — Seth acha que nós dormimos juntos. Silêncio. Jacob ficou imóvel. Elena sentiu o rosto aquecer. — Eu sei. — E ele vai achar estranho se perceber que temos quartos separados. — Provavelmente. — Então... Ela parou. Jacob tomou café. Devagar demais. — Então? Elena estreitou os olhos. — Não me faz dizer sozinha. Ele estava se divertindo. — Você está gostando disso. — Um pouco. — Idiota. Jacob colocou a xícara sobre a mesa. — Se Seth voltar para casa, teremos que dormir no mesmo quarto. Pronto. Dito. Elena sentiu calor subir pelo pescoço. — Sim. — Pelo menos enquanto ele estiver acordado. — Certo. — Depois posso ir para outro quarto. Elena respondeu rápido demais: — Não precisa. Silêncio. Ela percebeu. Jacob também. — Quero dizer... — Eu sei o que quis dizer. — Não, não sabe. — A cama é grande. — Exatamente. — Já dormimos nela na lua de mel. — Exatamente. Jacob inclinou-se. — Você ronca. Elena arregalou os olhos. — Eu não ronco. — Ronca. — Mentira. — Baixinho. — Jacob Black, eu não ronco. — Parece um gatinho com sinusite. Elena pegou um guardanapo e jogou nele. Jacob riu. — Eu te odeio. — Não odeia. A resposta veio simples. Natural. Os dois ficaram quietos. Elena desviou os olhos. Não. Não odiava. E Jacob sabia. Talvez esse fosse o problema. --- As flores ficaram na cozinha. Elena poderia ter colocado na sala. Não colocou. Queria vê-las enquanto cozinhava. Jacob percebeu. Não comentou. Naquela noite, ele entrou na cozinha e encontrou Elena diante da geladeira. — O que está fazendo? — Procurando sobremesa. — Tem frutas. Ela olhou para ele. — Eu disse sobremesa. — Fruta é sobremesa. Elena fechou a geladeira. — Nosso casamento acaba aqui. — De novo? — Irreconciliável. — Ontem era pasta de dentes. — Hoje é fruta. — Amanhã? — Depende do seu comportamento. Jacob abriu um armário. Pegou uma caixa escondida no fundo. Elena estreitou os olhos. — O que é isso? Ele colocou sobre a bancada. Chocolate. Ela abriu a boca. — Você escondeu chocolate? — De Seth. — Seth não está aqui. — Hábito. Elena pegou um. — Você é um homem cheio de segredos. — Claramente. Ela mordeu. Jacob pegou outro. — Esse era meu. — Existem dez. — Eu queria aquele. — Você tem cinco anos? — Era o maior. — Você tem cinco anos. Jacob tentou pegar metade da mão dela. Elena afastou. — Não. — Dá. — Não. Ele se aproximou. — Elena. Ela levantou o braço. — Você disse que eu sou baixa. Resolva. Jacob segurou sua cintura. Elena soltou um pequeno grito quando ele a puxou. — Jacob! Ele alcançou o chocolate. Mas não se afastou. Ela ficou presa entre a bancada e o corpo dele. Os dois pararam. Elena ainda segurava metade do chocolate. Jacob segurava a outra. — Isso foi trapaça — ela murmurou. — Eficiência. — Ladrão. — Você roubou primeiro. Os olhos dele desceram para a boca dela. Elena percebeu. O ar mudou. Então ela colocou o restante inteiro na própria boca. Jacob piscou. Elena mastigou, triunfante. — Problema resolvido. Ele começou a rir. — Você é impossível. — Aprendi com meu marido. E saiu. Jacob ficou sozinho na cozinha. Sorrindo. --- Na tarde seguinte, Elena estava perto da piscina quando decidiu que Jacob precisava aprender que toalhas molhadas não deveriam ser deixadas sobre cadeiras de madeira. — Jacob! Ele apareceu pela porta. — O quê? — Isso. Ela apontou. — O que tem? — Está molhada. — É uma toalha. — Sobre uma cadeira de madeira. — Que fica ao lado de uma piscina. — Isso não significa que você precise colaborar para estragar. Jacob olhou. — Você me chamou aqui para discutir uma toalha? — Chamei. — Tenho uma reunião em vinte minutos. — Então tem vinte minutos para aprender civilidade doméstica. Ele pegou a toalha. — Pronto. — Obrigada. — Mais alguma coisa? Elena começou a andar para trás. — Sim. A xícara que deixou no escritório... O pé atingiu a borda molhada. Ela escorregou. — Elena! Jacob avançou. Segurou sua cintura. Por um segundo, conseguiu. No seguinte, perdeu o equilíbrio. — Jacob! — Segura! — Estou segurando! — Não em mim! Tarde demais. Os dois caíram. A água explodiu ao redor. Elena voltou à superfície primeiro. O cabelo cobria o rosto. Jacob apareceu logo depois. Por dois segundos, ficaram em silêncio. Então Elena começou a rir. Riu até perder o ar. Jacob passou as mãos pelo cabelo molhado. — Muito engraçado. — Sua cara... — Eu estava tentando salvar você. — Você caiu junto! — Porque você me puxou! — Eu estava caindo! — Exatamente por isso não devia me puxar! — Como eu deveria saber? — Instinto de sobrevivência! Elena continuava rindo. — Meu instinto de sobrevivência mandou segurar em você! Jacob parou. Elena também. *Segurar em você.* Ela estava perto. Só então percebeu. Jacob ainda tinha uma mão em sua cintura. A outra estava apoiada na borda. A roupa molhada de Elena grudava no corpo. A camiseta de Jacob também. O riso desapareceu. Os olhos dele encontraram os dela. — Você está bem? A voz estava baixa. — Estou. Jacob afastou uma mecha molhada que grudara no rosto dela. Elena fechou os olhos por um instante. A mão permaneceu. Desceu lentamente até seu pescoço. Ela abriu os olhos. — Jacob... Ele se aproximou. Dessa vez não havia acordo sendo discutido. Não havia fotógrafos. Não havia casamento para convencer ninguém. Elena levantou a mão. Tocou o rosto dele. Jacob ficou imóvel. Esperando. Ela passou o polegar pela barba curta. — Você realmente tentou me salvar de uma piscina. — Reflexo. — Eu sei nadar. — Descobri tarde. Ela sorriu. — Herói inútil. — Mulher ingrata. — Controlador. — Teimosa. — Arrogante. — Linda. Elena perdeu o sorriso. — Você faz isso de propósito. — O quê? — Isso. Jacob sabia. — Talvez. A distância diminuiu. Elena sentiu o polegar dele tocar seu queixo. Os lábios ficaram a centímetros. Dessa vez ela não mencionou o acordo. Jacob percebeu. A mão apertou suavemente sua cintura. Elena aproximou-se. O nariz dele tocou o dela. Mais um centímetro. — Eu sabia. Os dois congelaram. Emmett estava parado no jardim. Paul ao lado. Paul fechou os olhos. — Eu disse para você não falar. — Mas olha isso. Jacob soltou Elena lentamente. — Vocês têm algum problema? Emmett sorriu. — Vários. Mas nenhum tão interessante quanto esse. Elena passou as mãos pelo cabelo molhado. — Há quanto tempo vocês estão aí? Paul respondeu: — Tempo suficiente. — Isso significa o quê? — Vimos a queda. Elena relaxou. — Só? Emmett abriu um sorriso. — Não. Jacob apontou para a casa. — Vai embora. — Viemos falar da investigação. O humor desapareceu. Jacob olhou para Paul. Ele já estava sério. — Encontramos alguma coisa. --- Cinco minutos depois, estavam na sala. Elena enrolada numa toalha. Jacob tinha trocado apenas a camiseta. Emmett colocou uma pasta sobre a mesa. — Conseguimos confirmar mais uma coisa sobre Marcus Doyle. Jacob abriu. — O quê? Paul sentou-se. — Ele não apareceu perto dos dois carros por coincidência. Elena sentiu o estômago apertar. Jacob percebeu. Sua mão encontrou a dela sobre o sofá. Automático. Sem olhar. Apenas segurou. Paul continuou: — Conseguimos reconstruir parte dos deslocamentos dele nos dias anteriores aos dois acidentes. Marcus esteve perto da oficina onde o carro de Rebecca e Salomon passou antes da viagem. Jacob endureceu. — E o carro de Elena? — Também. Silêncio. Elena sentiu os dedos de Jacob apertarem os seus. — Como? Emmett abriu outro documento. — O carro de vocês ficou num estacionamento durante uma parada na viagem para a Flórida. Elena lembrou. A parada. Bella reclamando. Uma memória banal. Agora contaminada. — Marcus estava lá? Paul assentiu. — Temos indícios fortes. Veículo compatível, horário compatível e registros que colocam o telefone dele na região. Jacob olhou os documentos. — Ainda não liga Edward diretamente. — Não — Paul respondeu. — Mas liga Marcus cada vez mais aos dois casos. — Encontraram comunicação entre eles? — Ainda não. Jacob soltou o ar. Emmett ficou sério. — Tem outra coisa. Jacob levantou os olhos. — O quê? — Marcus desapareceu. Silêncio. — Desde quando? — Dois dias. Jacob se levantou. — Dois dias? — A polícia já sabe. Jacob começou a andar. — Seth. Paul assentiu. — Foi a primeira coisa que pensamos. Jacob pegou o telefone. — Vou ligar para Leah. Precisamos reforçar... — Jacob. Ele olhou para Elena. — Não começa. — O quê? — Esse modo em que você decide que precisa carregar tudo sozinho. — Eu não... Ela ergueu uma sobrancelha. Jacob desistiu. — Certo. Elena pegou o telefone sobre a mesa e entregou. — Liga para Leah. Fala com a polícia. Faz tudo que precisa fazer. Pausa. — Mas nós estamos nisso. *Nós.* Jacob pegou o telefone. — Certo. Antes de se afastar, tocou sua cintura. Um gesto pequeno. Instintivo. — Troca essa roupa. Elena olhou para si mesma. — Você também. — Vou. — E não deixa a toalha molhada no sofá. Emmett gargalhou. — Vocês acabaram de descobrir que um possível sabotador desapareceu e ela ainda está preocupada com a toalha? Elena apontou. — Madeira estraga. Paul assentiu seriamente. — Ela tem razão. Jacob fechou os olhos. — Por que todo mundo que entra nesta casa fica contra mim? Elena sorriu. — Talvez o problema seja você. --- Mais tarde, quando Emmett e Paul foram embora, a casa voltou ao silêncio. Elena encontrou o livro de Jacob no sofá. Pegou. Colocou sobre a mesa. Viu as flores na cozinha através da porta aberta. A caixa de chocolate sobre a bancada. Duas xícaras na pia. Uma almofada caída no chão desde a guerra do filme. Pequenos vestígios deles. Não de uma encenação. De uma vida. Jacob voltou à sala. — Leah vai pedir reforço nas medidas relacionadas a Seth. — Certo. Sentou-se. Elena olhou para ele. Depois para suas pernas. Sem dizer nada, colocou os pés sobre elas. Jacob olhou. Não reclamou. Apenas apoiou a mão em seu tornozelo. — Onde você parou? — No livro? — É. Ele pegou o volume. — Capítulo oito. — É bom? — Era. — Era? Jacob olhou para os pés dela. — Estou tendo dificuldade para me concentrar ultimamente. Elena sentiu o rosto aquecer. — Problema seu. — Definitivamente. Ele abriu o livro. Elena pegou o telefone. Ficaram em silêncio. A mão dele permaneceu em seu tornozelo. Alguns minutos depois, Elena percebeu que Jacob não virava a página havia muito tempo. — Você não está lendo. — Estou. — Está na mesma página há dez minutos. — É uma página complexa. Elena sorriu. — Claro. — Elena. — Hum? — Amanhã eu busco você no restaurante. Ela olhou. — Com flores? Jacob fingiu pensar. — Talvez. — Não precisa. — Eu sei. A resposta fez alguma coisa dentro dela. *Não precisa.* Era justamente por isso. Elena recolocou os olhos no telefone. — Jacob? — Hum? — Gostei das flores. Ele olhou para ela. — Eu sei. — Convencido. — Você colocou na cozinha. — Porque combinou. — Claro. — Cala a boca e lê. Jacob sorriu. Voltou ao livro. E Elena percebeu que era assim que a mentira começava a ficar perigosa. Não porque estavam se beijando diante de câmeras. Não porque haviam dividido uma cama na lua de mel. Não porque usavam alianças ou porque um juiz poderia acreditar que formavam uma família. Era perigosa porque Jacob sabia quais flores comprar. Porque Elena sabia quando ele estava preocupado pelo modo como segurava uma xícara. Porque ele já comprava dois tubos de pasta de dentes. Porque ela deixava espaço para ele na própria rotina. Porque discutiam por pipoca, chocolate, filmes e toalhas. Porque diziam *casa*. Porque diziam *nós*. Porque, se Seth voltasse, nenhum dos dois parecia realmente incomodado com a ideia de dividir o mesmo quarto. E porque, naquela piscina, quando Jacob se aproximara para beijá-la, Elena não pensara uma única vez que aquilo fazia parte de um acordo. Pensara apenas que queria que ele a beijasse. Do outro lado do sofá, Jacob continuava na mesma página. Não porque o livro fosse complexo. Mas porque Elena estava com os pés sobre suas pernas, as flores que ele escolhera estavam na cozinha e, pela primeira vez em muito tempo, aquela casa não parecia grande demais. Parecia ocupada. Vivida. Parecia casa. E Jacob já começava a desconfiar que, se Seth voltasse, não seria apenas o menino que estaria voltando para uma família. Talvez Elena e ele já tivessem criado uma sem perceber.