O PESO DE UMA PROMESSA
21 CAPÍTULO 21 - TUDO QUE ERA VERDADE
Jacob não dormiu na noite em que Elena aceitou se casar com ele.
Tentou.
Subiu para o quarto pouco depois da meia-noite, tomou banho, apagou as luzes e permaneceu deitado por quase quarenta minutos olhando para o teto, até admitir que aquilo era inútil. O corpo estava cansado, mas a cabeça continuava presa à conversa que tivera com Elena algumas horas antes.
Ela aceitara.
Não imediatamente. Não sem discutir. Não sem lembrá-lo de que já tinha pagado caro demais por esconder verdades e construir mentiras com boas intenções. Elena tinha resistido justamente porque sabia como uma justificativa aparentemente nobre podia terminar. Dissera que a primeira mentira também tinha começado com a intenção de proteger alguém.
Bella.
E agora Seth.
Ainda assim, aceitara.
Por Seth.
Jacob levantou.
Desceu.
Fez café.
À uma e vinte da manhã.
Se Sue estivesse ali, provavelmente diria que aquilo explicava metade dos seus problemas.
Elena diria que explicava todos.
A lembrança surgiu tão naturalmente que Jacob ficou parado diante da cafeteira por alguns segundos.
Você toma café demais.
Ela havia dito aquilo dezenas de vezes. Depois aprendera que discutir não adiantava e simplesmente começara a deixar um copo de água perto da xícara.
Jacob olhou para a bancada vazia.
Era exatamente aquele tipo de coisa que precisava parar de fazer.
Pensar nela em cada detalhe.
O casamento era uma estratégia.
Uma estratégia extrema, sem dúvida, mas ainda uma estratégia.
Legalmente verdadeiro.
Publicamente verdadeiro.
Privadamente delimitado.
Ele explicara tudo.
Não haveria documentos falsos. Não haveria casamento fictício perante a lei. Eles realmente se casariam, morariam sob o mesmo teto e se apresentariam como marido e mulher. O que não existiria seria uma obrigação conjugal entre os dois.
Quartos separados.
Nenhuma cobrança.
Nenhuma expectativa romântica.
Nenhuma confusão.
Jacob quase riu.
A confusão já existia muito antes de qualquer casamento.
Pegou a xícara e sentou-se.
Foi então que se lembrou da conversa na cozinha.
Da maneira como Elena perguntara o que diriam quando alguém quisesse saber como ele a pedira em casamento.
Jacob sugerira o restaurante.
Ela rira.
Não de verdade.
Aquele riso sarcástico que usava quando achava que ele estava sendo particularmente idiota.
Claro. Combina perfeitamente. Jacob Black pede a cozinheira em casamento dentro da cozinha do restaurante. Muito original.
Ele a corrigira automaticamente.
Chef.
Elena praticamente revirara os olhos.
Jacob perguntara como ela imaginava um pedido.
E ela respondera que tanto fazia.
Não é um pedido de verdade, Jacob.
Ele ainda conseguia ouvir a voz dela.
Então não faz diferença.
Elena fora embora.
E aquelas palavras ficaram.
Jacob bebeu um gole do café.
Fazia diferença.
Não deveria.
Mas fazia.
Elena passara a vida inteira aceitando menos para si mesma.
Menos tempo.
Menos sonhos.
Menos espaço.
Bella precisava, Elena cedia.
Alguém sofria, Elena assumia.
Alguém errava, Elena procurava a própria parcela de culpa antes mesmo de avaliar a dos outros.
Até o restaurante.
Era o sonho dela.
E, quando acreditara que permanecer perto dele era errado, estivera disposta a abrir mão.
Agora faria aquilo novamente.
Casaria com um homem por causa de Seth.
Mudaria a própria vida.
Entraria numa casa que carregava tantas memórias entre os dois.
Aceitaria uma aliança.
Um sobrenome, talvez.
Uma rotina.
E dizia que não importava como seria pedida em casamento porque não era verdadeiro.
Aquilo irritou Jacob.
Profundamente.
Talvez porque alguma parte dele soubesse que Elena não estava diminuindo apenas o pedido.
Estava diminuindo a si mesma.
Às duas e três da manhã, Jacob pegou o telefone.
Organizar o bistrô foi a parte fácil.
Dinheiro resolvia problemas objetivos, e Jacob gostava de problemas objetivos.
Encontrou um pequeno bistrô dentro do Central Park, cercado por árvores e com uma área reservada voltada para um jardim. Ligou, explicou que precisava do espaço fechado por algumas horas e aceitou o valor sem negociar.
Depois vieram as flores.
Poucas.
Nada exagerado.
Elena odiaria qualquer coisa espalhafatosa.
Balões em tons claros.
Discretos.
O responsável perguntou qual era a ocasião.
— Pedido de casamento.
Dizer aquilo produziu uma sensação estranha.
O homem sorriu.
— Parabéns.
Jacob quase respondeu que não havia motivo para parabenizá-lo.
Não respondeu.
Agradeceu.
Depois veio o anel.
Às oito e dez da manhã, Jacob estava pessoalmente numa joalheria.
Poderia ter enviado alguém.
Não enviou.
A atendente colocou várias opções diante dele.
— Ela prefere ouro branco ou amarelo?
Jacob ficou olhando.
Não sabia.
Aquilo o incomodou mais do que deveria.
Sabia como Elena tomava café.
Sabia que, quando estava nervosa, pressionava os dedos uns contra os outros.
Sabia que gostava de cozinhar ouvindo música quando estava sozinha, mas desligava tudo quando precisava se concentrar.
Sabia que cortava os morangos de Seth em quatro partes praticamente iguais.
Sabia que dizia que não estava com dor justamente nos dias em que a dor estava pior.
Sabia que seu silêncio podia significar coisas diferentes e começava a aprender a distinguir cada um deles.
Mas não sabia qual metal ela escolheria para uma aliança.
A atendente mostrou outra peça.
Jacob parou.
Delicada.
Elegante.
Bonita sem chamar atenção demais.
Elena.
— Essa.
— Quer ver outras?
— Não.
— Tem certeza?
Jacob olhou novamente.
— Tenho.
A certeza o incomodou.
Mesmo assim, comprou.
Conseguir a medida foi mais simples. Jacob se lembrou de uma aliança fina que Elena às vezes usava na mão direita. Certa vez, deixara o acessório sobre a bancada enquanto preparava uma massa e Seth tentara colocá-lo no próprio dedo.
Jacob lembrava.
Lembrava de coisas demais.
Quando voltou para casa, ainda faltava alguma coisa.
Na verdade, faltava quase tudo.
Precisavam de uma história.
Uma boa história.
Convincente.
Foi até a cozinha.
Abriu uma gaveta.
E encontrou o primeiro bilhete.
Seth — fruta cortada. Não vale biscoito como café da manhã.
Jacob sorriu.
Pegou outro.
Jantar na geladeira. Aquecer 3 minutos. NÃO colocar passas.
Ficou olhando para a letra dela.
Havia mais.
Lista de compras.
Horário de Seth.
Lembretes.
Pequenas reclamações.
Um recado sobre café.
Coisas absolutamente banais.
E Jacob tinha guardado.
Não todos conscientemente.
Esse era o problema.
Alguns tinham ido parar na gaveta porque estavam no bolso de um paletó. Outro ficara semanas dentro de uma pasta da empresa. Um estava dobrado na carteira.
Jacob reuniu todos sobre a bancada.
Ficou olhando.
Ele os guardara antes mesmo de admitir que queria guardar qualquer coisa relacionada a Elena.
Aquilo deveria ter sido um aviso.
Ignorou.
Os bilhetes iriam para o bistrô.
As xícaras vieram depois.
Não comprou iguais.
Levou as próprias.
A dele.
A dela.
As duas que costumavam aparecer lado a lado sobre aquela mesma bancada.
Uma com café forte e sem açúcar.
Outra com café com leite.
Quando chegou ao bistrô e entregou a caixa, o responsável pela organização perguntou:
— Essas xícaras têm algum significado especial?
— Não.
Jacob respondeu rápido demais.
O homem apenas assentiu.
Depois vieram as passas.
— Uvas-passas? — o homem repetiu.
— Sim.
— Em uma taça?
— De cristal.
O homem olhou para ele.
— Certo.
— Algum problema?
— Nenhum. Só estou tentando entender.
Jacob pensou em Elena ameaçando colocar passas nas receitas.
Nas discussões absurdas.
Na expressão dela quando descobrira que ele realmente detestava aquilo.
— Não precisa entender.
As passas foram colocadas na taça.
Jacob observou.
Ridículo.
Perfeito.
Então ficou parado no meio do jardim.
Flores.
Balões.
Bilhetes.
Xícaras.
Passas.
Ainda faltava alguma coisa.
E soube imediatamente o que era.
A música.
Não precisou perguntar a ninguém.
Naquela noite, pouco antes da inauguração do restaurante, quando ele e Elena ficaram sozinhos.
Não havia sido uma música tocando por acaso.
Fora ele.
Jacob tinha pegado o celular.
Escolhido a canção.
Colocado sobre a mesa.
E estendido a mão para Elena.
Jacob ficou imóvel.
Lembrava-se perfeitamente de ter escolhido.
Naquela noite, dissera a si mesmo que fora por impulso.
Agora já não tinha tanta certeza.
Pegou o celular.
Procurou a música.
O título apareceu na tela.
Thank You for Loving Me.
Obrigado por me amar.
Só o título já era suficiente.
Mas Jacob conhecia o sentido da canção.
Era uma canção de gratidão por um amor que enxergava quando o outro não conseguia enxergar, que permanecia quando era necessário e oferecia força quando o próprio chão desaparecia.
Os primeiros acordes fez o coração de Jacob estremecer, e então veio as primeiras palavras:
É difícil para mim dizer as coisas
It's hard for me to say the things
Que quero dizer, às vezes
I want to say, sometimes
Não há ninguém aqui, a não ser você e eu
There's no one here but you and me
Jacob olhou para o jardim. E lembrou dos olhos de Elena.
Talvez tivesse sido por isso que escolhera aquela música na primeira vez.
Mesmo sem perceber.
Ela chegara à vida dele quando tudo parecia perfeitamente organizado.
Depois Rebecca e Salomon morreram.
Seth desmoronou.
E Elena ficou.
Não resolvera.
Não salvara.
Apenas ficara.
Com Seth.
Com ele.
Depois fora Jacob quem falhara.
Fora cruel.
Mandara embora justamente a mulher cuja presença havia se tornado parte da própria rotina.
E Elena tinha dito que o amava.
Na pior noite possível.
Eu amo você.
Jacob lembrava.
Também lembrava da própria resposta.
Não diz isso agora.
Naquele momento, estava ferido demais para receber aquilo.
Agora estava prestes a pedir que Elena se casasse com ele ao som de uma música cujo próprio título agradecia exatamente pelo amor que ele não soubera aceitar quando ela lhe oferecera.
A ironia era quase ofensiva.
Por alguns segundos, pensou em escolher outra.
Qualquer uma.
Algo bonito.
Genérico.
Seguro.
Mas não seria deles.
Fechou os olhos.
E voltou àquela noite.
Elena cansada.
Nervosa com a inauguração.
Andando de um lado para outro.
Jacob observando.
Até decidir que já bastava.
Pegara o celular.
Colocara a música.
Ela o olhara.
— O que você está fazendo?
Jacob estendera a mão.
— Vem.
— Jacob...
— Elena.
Ela aceitara.
Naquela época, ele não soubera explicar por que escolhera aquela canção.
Agora sabia.
Abriu os olhos.
— Essa.
O funcionário assentiu.
Jacob deixou a música programada.
Tudo estava pronto.
E aquilo não parecia uma história inventada.
Parecia a vida deles espalhada por um jardim.
Mas agora vinha a parte que realmente estava deixando nervoso: o Pedido.
Quando entrou no restaurante às onze e vinte e viu Elena atrás da bancada, a primeira coisa que Jacob percebeu foi que ela parecia cansada.
A segunda foi que estava linda.
Ignorou a segunda.
Elena recusou antes mesmo que ele dissesse o que queria.
Naturalmente.
Discutiu.
Fez perguntas.
Negociou o tempo.
Ameaçou ficar.
Perguntou para onde iam.
Muitas vezes.
No carro, continuou.
Empresa?
Não.
Casa de Leah?
Não.
Cartório?
Não.
Tribunal?
Definitivamente não.
Quando perguntou se iam a uma joalheria, Jacob quase estragou tudo.
Ela percebeu a hesitação.
Continuou interrogando.
Jacob quase contou.
Mais de uma vez.
Não contou.
Queria ver a reação dela.
Essa constatação o incomodou.
Não precisava ver reação nenhuma.
Precisava construir uma história convincente.
Só isso.
Mas queria ver Elena entrando no bistrô.
Queria vê-la encontrar os bilhetes.
Queria ver se riria das passas.
Queria vê-la reconhecer a música.
Queria saber se aquilo significaria para ela uma fração do que estava começando a significar para ele.
Quando chegaram, Jacob a deixou caminhar alguns passos à frente.
Elena entrou.
Parou.
Ele observou.
Ela viu as flores.
Os balões.
Depois os bilhetes.
Jacob percebeu exatamente quando reconheceu a própria letra.
Elena aproximou-se.
Tocou um deles com a ponta dos dedos.
Aquilo apertou alguma coisa dentro dele.
Ela encontrou as xícaras.
Depois a taça.
Jacob viu seus olhos se arregalarem diante das passas.
Quase sorriu.
Então a música começou.
Thank You for Loving Me.
Elena parou.
Completamente.
Jacob também.
Ela lembrava.
Ele soube pela maneira como o corpo dela ficou imóvel.
Lembrou-se da primeira vez em que a tivera nos braços ao som daquela canção.
Naquela noite, pedira apenas uma dança.
Agora pediria uma vida.
Ou fingiria pedir.
A diferença começava a ficar perigosamente pequena.
Elena virou-se.
Jacob já estava ajoelhado.
O rosto dela fez com que esquecesse por alguns segundos qualquer coisa que tivesse planejado.
Olhos enormes.
Mão sobre a boca.
Choque.
Elena não falou.
Jacob abriu a caixa.
Tinha pensado no discurso.
Não escrito.
Apenas pontos.
Primeiro encontro.
Seth.
Família.
Uma narrativa convincente.
Simples.
Deveria ter sido simples.
Então olhou para ela.
E começou a dizer a verdade.
— A primeira vez que vi você, estava no meio da sala da minha casa, com aqueles fones nos ouvidos, pronta para chamar a polícia porque achava que eu era um invasor. Você não sabia quem eu era, não sabia que aquela era minha casa e, definitivamente, não fazia ideia de que o homem do retrato que tinha visto durante dias era meu pai e não eu.
Jacob quase sorriu.
A cena estava inteira na memória.
Elena assustada.
Indignada.
Pronta para expulsá-lo da própria casa.
Na época, ele achara absurdo.
Agora parecia o início inevitável de alguma coisa.
— Naquele dia, eu achei que você seria apenas mais uma pessoa passando pela minha casa. Alguém que trabalharia ali por algum tempo e depois seguiria a própria vida. Só não percebi que, desde aquele primeiro encontro, você já estava entrando na minha sem pedir permissão.
Dizer aquilo produziu uma sensação estranha.
Porque era verdade.
Elena nunca pedira espaço.
Simplesmente ocupara.
A cozinha.
A rotina.
Seth.
Ele.
— Foi acontecendo sem que eu percebesse. Primeiro vieram as discussões, os bilhetes espalhados, o café que aparecia na minha frente exatamente como eu gostava, as reclamações sobre minhas regras e essa sua obsessão em lembrar que eu odeio passas. Depois veio Seth.
Jacob olhou para ela.
Os olhos de Elena já brilhavam.
— Quando Rebecca e Salomon morreram, eu tinha dinheiro, advogados, uma casa enorme e nenhuma ideia de como ajudar aquele menino. Você não tinha nenhuma resposta melhor do que eu. A diferença é que você entendeu que ele não precisava de respostas. Precisava de alguém disposto a ficar. E você ficou.
A lembrança veio inteira.
Seth no chão.
O silêncio.
A comida recusada.
Elena perto dele.
Sem exigir.
Sem prometer.
Apenas presente.
— Acho que foi quando comecei a entender o que estava acontecendo comigo. Porque eu já não procurava você naquela casa apenas por causa de Seth. Eu procurava porque queria saber se você estava lá. Percebia quando chegava. Percebia quando ia embora. E a casa começou a parecer diferente quando você não estava nela.
Foi ali.
Talvez.
Ou talvez tivesse começado muito antes.
Jacob já não sabia.
— Então eu descobri o que você tinha escondido de mim.
A lembrança mudou.
O pendrive.
O comprovante.
Bella.
O nome de Irina.
A percepção de que Elena sabia.
A raiva voltou quase física.
— E fiquei furioso. Não apenas porque você mentiu, mas porque era você. Eu confiava em você de uma maneira que não costumava confiar nas pessoas, e descobrir que tinha escondido algo que podia interferir na situação de Seth me fez sentir traído.
Elena chorava silenciosamente.
Jacob não desviou.
— Eu queria você longe de mim. Queria acreditar que conseguiria arrancar tudo que sentia junto com a confiança que tinha perdido. E, naquela noite, fui cruel porque sabia exatamente onde machucar. Usei contra você uma culpa que sabia que carregava desde os seis anos, mesmo sabendo que aquela criança não tinha provocado a morte dos próprios pais.
Aquilo ainda lhe causava vergonha.
Porque não fora um acidente.
Jacob escolhera.
Sabia onde ferir.
E ferira.
— Eu queria que você sentisse um pouco da dor que eu estava sentindo.
Pausa.
— E consegui.
Ele viu a lágrima atravessar o rosto de Elena.
— Você foi embora e eu deixei. Disse a mim mesmo que era aquilo que queria. Que seria mais fácil se você simplesmente desaparecesse da minha vida.
Jacob respirou.
A próxima lembrança era pior.
— Então recebi a notícia do acidente.
Sua própria voz mudou.
Não precisou forçar.
— Quando cheguei ao hospital e vi você naquela cama, inconsciente, tudo aquilo que parecia tão importante algumas horas antes deixou de fazer sentido. A raiva continuava existindo. A mágoa também. Mas nenhuma delas era maior do que o medo de que você não abrisse os olhos outra vez.
Por um instante, Jacob não estava mais no Central Park.
Estava no hospital.
Luz branca.
Máquinas.
Elena imóvel.
Curativos.
A mão dela dentro da sua.
— Eu fiquei ao seu lado sem saber se você conseguia me ouvir. Falei coisas que deveria ter dito quando você ainda podia responder. Pedi para você voltar, mesmo sabendo que, se acordasse e decidisse nunca mais olhar para mim, eu teria que aceitar.
Lembrou-se das palavras.
Eu amo você.
Naquela vez, Elena não ouvira.
Ou pelo menos Jacob acreditava que não.
Agora estava diante dele.
Acordada.
Olhando.
Sentindo.
— Porque foi naquele quarto que eu entendi uma coisa que a raiva tinha me impedido de enxergar.
O coração de Jacob batia rápido.
— Eu podia viver magoado com você. Podia viver sem confiar em você por algum tempo. Podia até aprender a viver se você decidisse não me querer mais.
Pausa.
— Mas eu não conseguia aceitar um mundo em que você simplesmente não existisse.
Ao fundo a musica dizia:
Eu nunca soube que tinha um sonho
I never knew I had a dream
Até que esse sonho era você
Until that dream was you
Quando olho dentro dos seus olhos
When I look into your eyes
O céu é de um azul diferente
The sky's a different blue
Juro pela minha vida que não estou me escondendo
Cross my heart, I wear no disguise
E se eu tentasse, você faria de conta
If I tried, you'd make believe
Que acreditava em minhas mentiras
That you believed my lies
Aquela frase não fazia parte de discurso nenhum.
Era dele.
Inteiramente.
Jacob sentiu a garganta fechar.
— Foi ali que eu parei de tentar dar outro nome ao que sentia.
Então disse.
Dessa vez para uma Elena que podia ouvi-lo.
— Eu amo você, Elena.
O medo veio imediatamente.
Não de rejeição.
Da verdade.
Porque dizer aquilo olhando para ela foi diferente de dizer ao lado de uma cama de hospital.
Agora Elena podia responder.
Podia entender.
Podia acreditar.
E Jacob percebeu que estava tremendo levemente.
Quase imperceptível.
Mas estava.
— Provavelmente já amava muito antes de admitir. Talvez desde quando comecei a guardar esses bilhetes idiotas. Talvez desde quando percebi que sabia reconhecer seus passos dentro da minha casa. Talvez desde a primeira vez que vi Seth sorrir para você como se soubesse, antes de mim, que você ficaria.
O rosto dela mudou.
Jacob viu.
Continuou antes que pudesse pensar demais.
— E ontem de manhã, quando entrei na cozinha e encontrei vocês dois discutindo por causa de dois ovos, eu vi alguma coisa que não esperava.
Um sorriso apareceu involuntariamente.
— Seth estava reclamando, você estava mandando ele comer, o tênis que ele dizia ter perdido estava no próprio pé e meu café já estava sobre a mesa antes que eu pedisse.
Aquela manhã.
Tão banal.
Tão pequena.
Talvez por isso tivesse sido tão poderosa.
— Não aconteceu nada extraordinário naquela cozinha.
Pausa.
— E talvez tenha sido justamente por isso que significou tanto.
Jacob olhou para Elena.
— Por alguns minutos, aquilo pareceu uma vida. Não uma emergência. Não uma disputa de guarda. Não três pessoas tentando sobreviver às coisas que perderam.
Respirou.
— Uma vida.
A palavra seguinte surgiu antes que pudesse impedir.
— Uma família.
E, quando disse, soube.
Era aquilo.
Não uma esposa no papel.
Não uma estratégia.
Aquela cozinha.
Aquela mulher.
Aquele menino.
Café.
Tênis perdido.
Dois ovos.
Vida comum.
— Nós fizemos muita coisa errada, Elena. Você me machucou. Eu machuquei você. Houve momentos em que tivemos todos os motivos para desaparecer da vida um do outro.
Jacob olhou para a caixa nas próprias mãos.
Depois para ela.
— Mas continuamos voltando.
Era verdade.
Sempre.
— E, quando penso em tudo que aconteceu desde o dia em que encontrei você no meio da minha sala querendo chamar a polícia, percebo que já não consigo imaginar minha vida sem encontrar você nela.
Abriu completamente a caixa.
O anel brilhou.
— Então eu não quero mais tentar.
O coração dele batia forte.
— Eu amo você. Quero você na minha vida. Quero continuar encontrando seus bilhetes, discutindo sobre café e ouvindo você explicar para Seth por que biscoito não é jantar.
Jacob sorriu.
— Quero as coisas importantes.
Pausa.
— E quero as comuns também.
Olhou diretamente para ela.
— Elena Swan, case comigo.
Então esperou.
Por alguns segundos, esqueceu que já conhecia a resposta.
Elena tinha aceitado na noite anterior.
Aquilo estava combinado.
Ela diria sim.
Deveria ser simples.
Mas não parecia.
Elena chorava.
E sorria.
Jacob sentiu o coração bater ainda mais forte.
— Sim.
Uma única palavra.
Foi suficiente.
Elena sorriu através das lágrimas.
— Eu caso com você.
E alguma coisa dentro de Jacob respondeu antes da razão.
Ela vai ser minha esposa.
Não pensou em Seth.
Não pensou em Irina.
Não pensou no tribunal.
Não pensou em Leah.
Não pensou na investigação.
Elena.
Sua esposa.
A alegria veio tão rápida e tão intensa que o assustou.
Jacob quis se levantar.
Quis colocar o anel no dedo dela.
Ele mesmo.
Quis segurar seu rosto.
Quis beijá-la.
Não porque alguém pudesse estar olhando.
Não porque precisavam de fotografias.
Não porque um casal recém-noivo deveria se beijar.
Quis beijá-la porque Elena acabara de dizer que se casaria com ele.
E, por alguns segundos, Jacob quis esquecer o acordo.
Foi exatamente isso que o assustou.
Porque aquilo não deveria ser real.
Elena aceitara por Seth.
Ele sabia.
Ela tinha dito.
Por Seth.
Então Jacob fez aquilo que sempre fazia quando alguma coisa escapava do controle.
Recuou.
Fechou a caixa.
Levantou.
— Ótimo.
O sorriso de Elena ainda estava ali.
— Agora temos a nossa história.
O sorriso desapareceu.
Jacob viu.
Mas não entendeu.
Acreditou que Elena simplesmente havia voltado à realidade.
Como ele.
Pegou a caixa e lançou suavemente para ela.
— Coloca.
Elena o olhou.
Estranho.
Jacob ignorou a sensação incômoda.
Explicou que precisavam começar a usar a aliança.
Que, se alguém perguntasse, o pedido acontecera naquele dia.
Ela colocou.
Serviu perfeitamente.
Jacob olhou para a mão dela.
E sentiu novamente.
Minha esposa.
Engoliu.
— Pronto. Essa parte do problema está resolvida.
— Sim — Elena respondeu.
Baixou os olhos para o anel.
— Resolvida.
Jacob acreditou que tinha recuperado o controle.
Não tinha.
No carro, falou demais.
Sabia.
Datas.
Leah.
Cerimônia.
Documentos.
Assessoria.
Tudo objetivo.
Tudo seguro.
Elena ficou voltada para a janela.
Jacob percebeu que estava quieta, mas atribuiu ao cansaço.
Ela ainda se recuperava.
Trabalhava mais do que deveria.
E aquela manhã havia sido emocionalmente intensa.
Quando perguntou se ela o escutava e Elena mal conseguiu repetir o que ele dissera, Jacob quase sorriu.
Continuou falando.
Não viu a lágrima.
Elena virou o rosto para a janela no momento certo.
Se Jacob tivesse visto, talvez alguma coisa tivesse mudado.
Mas não viu.
Leah foi a primeira pessoa para quem ligou.
— Ela aceitou.
Silêncio.
— Quem?
Jacob franziu a testa.
— Elena.
— Aceitou o quê?
— Casar comigo.
Outro silêncio.
— Jacob.
Ele já conhecia aquele tom.
— O quê? Eu acho que não entendi direito.... Ontem eu mencionei casamento como exemplo de um argumento que a outra parte explora. Não recomendei que você pedisse alguém em casamento vinte e quatro horas depois.
— Não pedi alguém.
— Isso não melhora.
Jacob passou a mão pelo rosto.
— Elena sabe exatamente o que estamos fazendo.
Leah ficou séria.
— Ela concordou livremente?
— Sim.
— Entendeu que casamento não garante guarda?
— Sim.
— Você entendeu?
— Leah.
— Preciso perguntar.
— Entendi.
— Então quero conversar com os dois antes de qualquer medida relacionada ao processo.
— Certo.
— E, por favor, não invente mais nada até lá.
Jacob quase sorriu.
— Vou tentar.
— Isso não me tranquiliza.
Depois veio Paul.
Foi um erro.
Jacob percebeu aproximadamente vinte segundos depois de começar a contar.
— Ela aceitou?
— Sim.
— Elena Swan aceitou voluntariamente se casar com você?
— Paul.
— Estou estabelecendo os fatos.
— Sim.
— E você fez o quê? Foi ao restaurante com um contrato na mão?
Jacob ficou em silêncio.
Paul percebeu.
— O que você fez?
— Nada de importante...
— Jake.
— Levei ela ao Central Park.
Paul ficou imóvel.
— Não.
— Paul.
— Central Park?
— Sim.
— Onde?
— Num bistrô.
Paul já estava sorrindo.
— Você reservou um bistrô?
— Reservei.
— Tinha flores?
Jacob ficou quieto.
Paul começou a rir.
— Tinha flores.
— Precisávamos de uma história convincente.
— Claro.
— Para de rir.
— Tinha anel?
— Obviamente.
— Você ajoelhou?
Jacob fechou os olhos.
Paul perdeu completamente a compostura.
— VOCÊ AJOELHOU?
— Paul.
— Meu Deus.
— Terminou?
— Não. Tinha música?
Jacob não respondeu.
Paul parou de rir por um segundo.
— Tinha música.
— Sim.
— Qual?
Jacob hesitou.
— Bon Jovi.
Paul o encarou.
O sorriso diminuiu.
— Bon Jovi?
— Quantos grupos com esse nome você conhece?
— E qual era a música?
Jacob olhou para ele.
— Não é da sua conta?
Paul ficou alguns segundos em silêncio.
— Jake.
— O quê?
— Você sabe o significado da musica ou ela tem uma letra aleatoria?
Jacob lançou um olhar seco.
— Sei inglês, Paul.
— Só conferindo.
— Precisávamos...
Paul levantou a mão.
— Se você disser “história convincente” outra vez, eu vou bater em você.
Jacob fechou a boca.
Paul respirou.
— O que você disse para ela?
— O necessário.
— Isso significa o quê?
Jacob não respondeu.
Paul estreitou os olhos.
— Você disse que ama ela?
Silêncio.
Não precisava responder.
Paul soltou o ar lentamente.
— Você disse.
— Eu amo ela.
A resposta saiu antes que Jacob pensasse.
Paul assentiu.
— Eu sei.
— Então qual é o problema?
— Nenhum. Só estou tentando entender por que você chama isso de casamento falso.
— Não é falso. Já expliquei.
— Certo. Casamento verdadeiro, sentimentos verdadeiros, pedido verdadeiro com direito a detalhes reais que contam verdadeiramente a historia de vocês, com declaração real e uma regra privada dizendo que não é um casamento de verdade.
Jacob estreitou os olhos.
— Você está simplificando.
— Estou tentando.
Paul apoiou-se na mesa.
— Quando ela disse sim, o que você pensou?
Jacob ficou em silêncio.
— Que tínhamos resolvido parte do problema.
Paul continuou olhando.
— Mentira.
Jacob endureceu.
— Você pensou em Seth?
A pergunta o atingiu de forma inesperada.
Jacob abriu a boca.
Parou.
Paul esperou.
Não.
Não pensara.
Quando Elena dissera sim, Seth desaparecera.
Irina desaparecera.
O processo desaparecera.
Tudo.
Havia apenas Elena.
Paul percebeu a resposta no silêncio.
— Foi o que pensei.
— Isso não significa nada.
— Se você diz....
— Paul.
— Você está certo. Não significa absolutamente nada que, durante o pedido estratégico para ajudar na guarda do seu sobrinho, você tenha esquecido completamente da guarda e do seu sobrinho.
Jacob lançou um olhar irritado.
Paul se levantou.
— Boa sorte.
— Com o quê?
Paul caminhou até a porta.
— Com você mesmo.
E saiu.
Naquela noite, a casa estava silenciosa.
Seth não estava ali.
Elena também não.
Jacob fez café.
Não bebeu.
Sentou-se na sala e pegou o telefone.
Havia uma fotografia do bistrô tirada antes de buscar Elena.
Abriu.
Flores.
Balões.
Bilhetes.
Xícaras.
Passas.
Tudo cuidadosamente organizado.
Jacob ampliou a imagem.
Parou nos bilhetes.
Lembrou-se da pergunta de Paul.
Quando ela disse sim, você pensou em Seth?
Não.
A resposta continuava sendo não.
Jacob apoiou a cabeça no sofá.
Fechou os olhos.
E a lembrança veio inteira.
Elena diante dele.
Lágrimas no rosto.
Sorrindo.
Sim.
O peito apertou.
Eu caso com você.
Jacob abriu os olhos.
Aquilo era perigoso.
O casamento precisava ter limites.
Elena ainda estava vivendo o luto por Bella.
Ainda carregava culpa.
Ainda se recuperava fisicamente.
E, acima de tudo, tinha aceitado por Seth.
Jacob não tinha o direito de transformar aquele acordo em outra coisa apenas porque os próprios sentimentos eram reais.
Não cobraria nada.
Não confundiria.
Não usaria o fato de amá-la para exigir reciprocidade.
Parou.
Reciprocidade.
Elena já tinha dito.
Antes do acidente.
Naquela noite terrível.
Eu amo você.
Jacob fechou os olhos.
Lembrava da expressão dela.
Da voz quebrada.
E lembrava da própria resposta.
Não diz isso agora.
Passou as mãos pelo rosto.
Talvez Paul estivesse certo.
Talvez fosse um idiota.
O telefone vibrou.
Mensagem de Leah.
Precisamos conversar amanhã sobre os próximos passos. Com os dois.
Jacob respondeu:
Certo.
Colocou o telefone sobre a mesa.
Então a tela mostrou novamente a fotografia.
Jacob ficou olhando.
Ele poderia ter inventado qualquer história.
Qualquer uma.
Poderia ter escolhido outro restaurante.
Comprado flores.
Feito uma reserva para jantar.
Pedido Elena em casamento diante de algumas pessoas.
Convincente.
Suficiente.
Mas não fizera isso.
Escolhera os bilhetes porque os guardara.
As xícaras porque conhecia aquela rotina.
As passas porque pertenciam a uma piada que só fazia sentido para eles.
O anel porque, no instante em que o viu, imaginara como ficaria na mão dela.
E a música...
Jacob pegou novamente o celular.
Procurou.
Thank You for Loving Me — Bon Jovi.
Apertou.
A música começou a tocar baixo na sala vazia.
A mesma introdução.
A mesma canção que escolhera na primeira vez em que dançara com Elena.
A mesma que tocara enquanto se ajoelhava.
Jacob deixou a cabeça cair contra o encosto do sofá.
Obrigado por me amar.
Era isso.
Elena o amava.
Tinha dito.
E ele a amava.
Tinha finalmente dito também.
Então por que continuava chamando aquilo de estratégia?
Porque estratégia ele sabia controlar.
Amor, não.
Jacob olhou para a sala vazia.
Lembrou-se novamente da cozinha.
Elena discutindo com Seth.
Dois ovos.
Tênis perdido.
Café.
Risos.
Uma família.
Foi então que entendeu.
Ele começara a preparar aquele pedido porque Elena dissera que não fazia diferença.
Começara tentando criar uma boa história.
Uma história convincente.
Uma lembrança que pudessem contar quando alguém perguntasse.
Mas, em algum momento entre a joalheria, os bilhetes guardados, as duas xícaras, a taça cheia de passas e a música do Bon Jovi, Jacob deixara de preparar uma encenação.
Cada detalhe era verdadeiro.
Cada lembrança era verdadeira.
Cada sentimento que colocara naquela declaração era verdadeiro.
E o pedido...
Jacob fechou os olhos.
Elena Swan, case comigo.
Também tinha sido.
Talvez por isso tivesse recuado quando ela disse sim.
Talvez por isso tivesse fechado a caixa em vez de colocar o anel em seu dedo.
Talvez por isso tivesse se refugiado imediatamente em datas, documentos e estratégias.
Porque, quando Elena disse que se casaria com ele, Jacob não pensou que finalmente tinham uma história para contar.
Pensou:
Ela vai ser minha esposa.
E desejou que fosse verdade.
A música continuava tocando.
Jacob permaneceu sozinho no sofá, escutando a mesma canção que escolhera duas vezes para Elena.
Na primeira, ainda não sabia por quê.
Na segunda, sabia.
Só não estava preparado para admitir o que aquilo significava.
O casamento começara como uma estratégia para trazer Seth de volta.
Mas o pedido não.
O pedido tinha sido verdadeiro.
A declaração tinha sido verdadeira.
O amor era verdadeiro.
E talvez a única mentira que Jacob tivesse contado naquele dia tivesse sido justamente a frase que usara para fugir de tudo isso:
Agora temos a nossa história.
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