O PESO DE UMA PROMESSA

18 CAPÍTULO 18 - Pedido


Elena finalmente dormiu.

Jacob percebeu pelo ritmo da respiração.

Durante algum tempo, mesmo depois de se deitar, ela continuara inquieta. Os olhos se fechavam, mas voltavam a abrir poucos minutos depois, como se o próprio corpo estivesse exausto enquanto a mente permanecia alerta, recusando-se a abandonar completamente a realidade.

Jacob ficou sentado na poltrona ao lado da cama.

Não sabia exatamente por quê.

Talvez soubesse.

Não queria admitir.

Elena virou o rosto no travesseiro e abriu os olhos mais uma vez.

— Você ainda está aqui.

— Estou.

— Seth está dormindo?

— Está.

— Paul?

— No quarto de hóspedes do corredor.

Ela assentiu.

— Então pode ir dormir.

— Posso.

Jacob não se levantou.

Elena observou-o por alguns segundos.

— Mas não vai.

— Ainda não.

— Por quê?

A pergunta ficou entre eles.

Jacob poderia ter dito que ainda conseguia ouvir o choro dela na cozinha.

Poderia ter dito que não conseguia esquecer a maneira como Elena pronunciara as palavras os olhos dela estavam abertos.

Poderia dizer que tinha medo de ela fechar os próprios olhos e encontrar Bella novamente.

Poderia dizer que simplesmente queria ficar.

Ou que a amava.

Mas aquela última verdade continuava presa nele.

— Dorme — pediu.

Elena não insistiu.

Fechou os olhos.

Alguns minutos depois, falou novamente:

— Jacob?

— Hum?

— Obrigada.

Ele soube pelo que era.

Pelos curativos.

Por ter escutado.

Pelo abraço.

Por não ter tentado transformar a dor dela em alguma coisa menor.

— Não precisa agradecer.

Ela não respondeu.

Dessa vez, o sono finalmente veio.

Jacob permaneceu ali.

Observou o rosto dela relaxar pouco a pouco. Ainda havia o curativo na testa, cobrindo parte do corte profundo deixado pelo acidente. Sob a camiseta, outros dois curativos escondiam a trajetória brutal da estrutura do volante através do corpo dela.

Jacob desviou os olhos.

Pensou no relatório.

A mesma peça.

Dois carros.

Remoção manual.

Marcus Doyle próximo aos dois.

Rebecca.

Salomon.

Bella.

Elena.

Quatro pessoas dentro de dois carros que não deveriam ter perdido os freios.

Três mortos.

Elena viva por pouco.

E Seth dormindo no quarto ao lado, sem saber que talvez a morte dos pais não tivesse sido um acidente.

Jacob passou as mãos pelo rosto.

Pensou em Edward.

A vontade de voltar até aquela casa e arrancar dele uma resposta ainda existia.

Mas então lembrou do rosto assustado de Seth.

Da ligação para Elena.

Vem me buscar?

Jacob fechou os olhos.

Não podia perder o controle novamente.

Não se quisesse recuperar o sobrinho.

Quando se levantou, já passava das três.

Parou na porta.

Olhou para Elena.

Ela continuava dormindo.

— Boa noite — murmurou.

Fechou a porta quase completamente.

Mas, naquela noite, Jacob dormiu muito pouco.

E, quando conseguiu, sonhou com carros sem freios.


O cheiro de café o acordou.

Jacob abriu os olhos.

Por alguns segundos, não soube que horas eram.

Então ouviu:

— Três.

— Dois.

— Dois e meio.

— Não.

— Por quê?

— Porque não existe meio ovo.

— É só cortar.

Jacob ficou imóvel.

Seth.

Elena.

Levantou-se.

Quando chegou à cozinha, parou na entrada.

Havia alguma coisa estranhamente familiar naquela cena.

Elena estava diante do fogão.

Usava uma camiseta larga e uma calça confortável. Os cabelos estavam presos de qualquer maneira no alto da cabeça, alguns fios caindo ao redor do rosto. Movia-se mais devagar do que antes do acidente e, quando precisava virar o corpo, fazia isso quase inteiro, evitando torcer a região dos pontos.

Seth estava sentado à mesa, ainda de pijama.

— Três — insistiu.

— Dois.

— Estou crescendo.

— Não tão rápido.

— Tio Jake deixa.

— Seu tio Jake considera café da manhã uma competição.

— Eu ouvi.

Elena virou-se.

Os olhos encontraram os de Jacob.

Por um segundo, nenhum dos dois falou.

A madrugada estava ali.

O choro.

Os braços dele ao redor dela.

As mãos cuidadosas sobre os curativos.

Tudo que tinham dito.

E tudo que não tinham.

Elena foi a primeira a quebrar o silêncio.

— Bom dia.

— Bom dia.

Seth apontou para ela.

— Ela está me deixando com fome.

Elena colocou dois ovos diante dele.

— Você vai sobreviver.

Jacob puxou uma cadeira.

— Concordo.

Seth arregalou os olhos.

— Traidor.

— Dramático.

— Estou crescendo.

— Você já disse.

— Porque ninguém está entendendo.

Elena colocou pão sobre a mesa.

— Come.

Seth começou a comer, resmungando.

Ela pegou uma xícara.

— Café?

Jacob assentiu.

— Por favor.

Elena preparou.

Forte.

Sem açúcar.

Colocou diante dele.

Jacob olhou para a xícara.

Depois para ela.

— Você lembra.

Elena pareceu perceber apenas naquele instante.

— É café, Jacob.

— Certo.

Bebeu.

Seth observava os dois.

— Vocês estão estranhos.

— Come — Jacob respondeu.

— Ontem vocês estavam brigados.

Elena fechou os olhos por um segundo.

— Seth...

— Agora Elena está fazendo café para você.

— Ela fez café porque já estava fazendo café.

Seth olhou para Elena.

— Fez?

Elena demorou um segundo.

— Fiz.

— Hum.

Jacob estreitou os olhos.

— O que significa “hum”?

— Nada.

— Você tem cinco anos.

— Cinco e meio.

— Pior ainda.

Seth sorriu.

Poucos minutos depois, a cozinha estava cheia de pequenas discussões.

O caderno que Seth não encontrava estava dentro da mochila.

O estojo estava debaixo da cadeira.

E um dos tênis que jurava ter perdido estava no próprio pé.

Elena apontou para baixo.

— Seth.

Ele olhou.

— Ah.

Jacob fechou os olhos.

— Essa criança um dia vai ter participação numa empresa.

Elena respondeu:

— Até lá talvez aprenda a localizar os próprios pés.

Seth começou a rir.

— Vocês estão rindo de mim!

— Jamais — Elena respondeu.

— Está sim!

Ele ria.

Genuinamente.

Jacob ficou quieto.

Observou.

Não era o sorriso cauteloso que Seth usava desde a morte dos pais.

Não era a alegria breve das visitas.

Era apenas uma criança feliz tomando café da manhã.

Com ele.

Com Elena.

Em casa.

Jacob baixou os olhos para a própria xícara.

Não queria pensar demais naquela cena.

Porque sabia que ela terminaria.


No carro, Seth continuou falando durante praticamente todo o caminho.

Contou sobre um colega que jurava que tiranossauros sabiam nadar.

Elena disse que aquilo exigia pesquisa.

Jacob disse que não queria pesquisas sobre tiranossauros às sete e quarenta da manhã.

Seth declarou que os dois não tinham espírito científico.

Quando chegaram à escola, Elena desceu para ajudá-lo com a mochila.

Seth a abraçou.

— Vídeo hoje?

— Hoje também.

— Sete horas.

— Sete e meia.

— Sete e quinze.

Elena levantou uma sobrancelha.

— Você negocia demais.

— Sete e vinte?

— Sete e meia.

— Tá.

Ele olhou para Jacob.

— Você me busca?

A expressão de Jacob mudou.

— Hoje Irina vem buscar você.

A alegria de Seth diminuiu imediatamente.

— Ah.

Elena desviou os olhos.

Seth chutou levemente o chão.

— Eu queria ir com você.

Jacob agachou-se.

— Eu sei.

— Quando eu volto?

— Ainda não sei.

— Pra casa.

Jacob engoliu em seco.

— Eu sei, campeão.

— Essa é minha casa.

— Eu sei.

Seth abraçou o tio.

Depois correu para dentro da escola.

Jacob permaneceu olhando.

Quando voltou ao carro, Elena estava em silêncio.

— Ele estava feliz hoje — disse depois de alguns segundos.

— Estava.

— Fazia tempo?

Jacob ligou o carro.

— Bastante.

O restante do caminho foi silencioso.


Diante do restaurante, Elena soltou o cinto.

— Obrigada.

— Pelo quê?

— Carona.

— Eu já vinha para esse lado.

Ela olhou pela janela.

— Mentiroso.

Jacob quase sorriu.

— Como estão os pontos?

— Melhores.

— Elena.

— Tenho médico às três.

— Vai?

Ela olhou para ele.

— Vou.

— E vai contar que está trabalhando.

— Talvez omita detalhes irrelevantes.

— Elena.

— Vou contar.

Jacob assentiu.

— Certo.

Ela abriu a porta.

— E não fica o dia inteiro em pé.

Elena parou.

— Você sabe que não manda em mim?

— Sei.

— Só confirmando.

Saiu.

Jacob esperou até vê-la entrar.

Só depois seguiu para a empresa.


Irina estava esperando por ele.

Sue levantou-se assim que Jacob apareceu.

— Eu disse que você tinha compromissos.

— Imagino que não tenha funcionado.

— Nem um pouco.

Jacob olhou através do vidro do escritório.

Irina estava de pé diante da janela.

— Quanto tempo?

— Vinte minutos.

— Ótimo.

Entrou.

Irina se virou imediatamente.

— Você perdeu completamente o juízo.

Jacob fechou a porta.

— Bom dia, Irina.

— Não faz isso.

— Fazer o quê?

— Fingir normalidade depois do que aconteceu ontem.

Jacob colocou as chaves sobre a mesa.

— O que você quer?

— Seth.

— Está na escola.

— Eu sei onde ele está.

— Então?

— Vim deixar claro que aquilo não vai se repetir.

Jacob ficou quieto.

— Você entrou na minha casa, acusou Edward de assassinato e partiu para cima dele.

— Eu não acusei Edward de assassinato.

Irina soltou uma risada incrédula.

— Não?

— Eu disse que um funcionário ligado a ele esteve próximo dos dois carros antes dos acidentes.

— Enquanto gritava que Rebecca, Salomon e Bella morreram!

Jacob apertou a mandíbula.

— Porque morreram.

— E Seth ouviu.

Aquilo o atingiu.

Irina percebeu.

— Ele ficou apavorado, Jacob.

— Eu sei.

— Por sua causa.

— Eu sei.

Ela pareceu surpresa com a admissão.

Jacob continuou:

— Eu não deveria ter perdido o controle na frente dele.

— Não deveria ter perdido o controle em lugar nenhum.

— Provavelmente.

— Provavelmente?

— Irina, não vim discutir minha personalidade.

— Eu vim.

Ele soltou o ar.

— Claro.

— Você acha que depois de ontem vou simplesmente fingir que nada aconteceu?

— Não.

— Vou contar ao meu advogado.

— Imaginei.

— E ao tribunal, se for necessário.

Jacob ficou imóvel.

— Vai dizer que você foi até minha casa, agrediu meu marido na frente de Seth e fez acusações gravíssimas sem qualquer conclusão oficial contra Edward.

— Você pode contar.

— Posso?

— Deve.

Irina franziu a testa.

— O quê?

— Se acredita que isso é relevante para Seth, conte.

Ela pareceu perder o ritmo da discussão.

— Mas conte tudo.

— O que significa?

Jacob pegou o relatório sobre a mesa.

— Conte que dois veículos envolvidos em acidentes fatais apresentavam a ausência do mesmo componente essencial do sistema de freios. Conte que os especialistas consideraram incompatível com perda decorrente do impacto. Conte que há indícios de remoção manual. E conte que Marcus Doyle esteve próximo aos dois carros.

— Isso não liga Edward a nada.

— Eu sei.

— Então para de agir como se ligasse.

— Estou tentando descobrir.

Irina cruzou os braços.

— Enquanto isso, Seth mora comigo.

Jacob ficou em silêncio.

— E continuará morando.

— Veremos.

— Depois de ontem?

Ela soltou uma risada curta.

— Você realmente acha que melhorou sua situação?

Jacob não respondeu.

— Você é solteiro, vive para aquela empresa, depende de outras pessoas para cuidar de Seth quando trabalha e agora ainda agride alguém na frente dele.

— Cuidado.

— É exatamente isso que vão dizer.

— Seth era feliz na minha casa.

— Isso não significa que você ofereça a melhor estrutura.

Jacob se levantou.

— E Edward oferece?

— Somos casados.

— Isso não responde.

— Temos uma casa estruturada.

— Também não responde.

Irina pegou a bolsa.

— Não importa o que você acha.

— Nem o que você acha.

— Importa o que o tribunal enxergar.

Ela caminhou até a porta.

Jacob falou:

— E Elena?

Irina parou.

— O que tem?

— Ontem você falou dela.

Irina se virou.

— Elena é parte dessa história.

— Não usa Elena para justificar nada.

— Por quê? Porque você ainda está apaixonado por ela?

Jacob ficou imóvel.

— Minha vida não é da sua conta.

— Torna-se quando você envolve Seth nela.

— Elena nunca fez mal a Seth.

— Elena ajudou a criar a situação que me deu a guarda provisória.

Jacob não respondeu.

Irina abriu a porta.

— Vou buscar Seth depois da escola.

— Eu sei.

— E vou conversar com meu advogado sobre ontem.

Jacob assentiu.

— Faça isso.

Ela saiu.

A porta fechou.

Jacob permaneceu parado por alguns segundos.

Depois sentou.

O escritório pareceu silencioso demais.


Leah apareceu perto do meio-dia.

— Ouvi dizer que você resolveu tornar minha vida mais interessante.

Jacob nem levantou os olhos.

— Paul fala demais.

— Paul fala exatamente o necessário quando o cliente dele tenta destruir o próprio processo.

— Você não é advogada do Paul.

— Infelizmente sou amiga dele. É pior.

Ela sentou.

— Me conta.

Jacob contou.

Sem enfeitar.

Sem minimizar.

Quando terminou, Leah soltou o ar.

— Péssimo.

— Obrigado.

— Quer que eu minta?

— Não.

Ela pegou o relatório.

— Isso aqui, por outro lado, é muito importante.

— Eu sei.

— Mas precisa ser tratado como investigação. Não como sentença.

— Eu sei.

Leah levantou os olhos.

— Você está dizendo “eu sei” demais desde que cheguei.

— Porque todo mundo está me dizendo coisas que eu já sei.

— Então começa a agir como alguém que sabe.

Jacob não respondeu.

Leah continuou lendo.

— Irina vai usar a briga.

— Ela acabou de avisar.

— Claro.

— Disse que pode pedir restrição de visitas.

Leah fez uma careta.

— Pode pedir muitas coisas. Conseguir é outra conversa. Mas não me dê mais material para trabalhar contra você.

— Não vou.

— Espero.

Virou outra página.

— Precisamos reforçar tudo que já temos sobre a rotina de Seth com você. Escola, médicos, atividades, vínculo, participação efetiva. E precisamos parar de deixar a outra parte monopolizar a palavra “estabilidade”.

Jacob levantou os olhos.

— Como assim?

Leah deu de ombros.

— Desde o começo eles vendem uma imagem muito conveniente. Irina é tia biológica, casada, casa organizada, duas figuras adultas permanentes. Você é o tio solteiro, empresário, trabalha demais e depende de uma rede de apoio.

— Rede de apoio que Seth conhece desde que nasceu.

— Eu sei. E isso conta.

Ela fechou a pasta.

— Mas babá não é família. Funcionário não é família. Pelo menos não no sentido que eles tentam explorar no processo.

Jacob ficou em silêncio.

— Isso é ridículo.

— Não completamente.

— Então homem solteiro não pode criar criança?

Leah riu.

— Não inventa argumento que eu não fiz. Claro que pode. Estado civil não define capacidade parental.

Ela pegou a xícara de café dele, percebeu que estava vazia e colocou de volta.

— Estou dizendo que, neste processo específico, eles conseguiram apresentar uma aparência de núcleo familiar mais convencional e usam isso junto com seus horários, suas viagens e o restante.

Jacob encostou-se na cadeira.

— Aparência.

— Sim. Aparência também pesa até ser confrontada com fatos.

Silêncio.

Leah olhou distraidamente para os documentos.

— Se você fosse casado, por exemplo, esse seria um argumento a menos para eles explorarem. Dependendo da relação, poderia até fortalecer bastante a imagem de estabilidade doméstica.

Jacob olhou para ela.

— Casado?

— Foi um exemplo.

— Um exemplo idiota.

Leah deu de ombros.

— Então ignora.

— Vou ignorar.

— Ótimo.

E ela realmente mudou de assunto.

— Agora, sobre Marcus. Quero tudo que Paul e Emmett conseguiram, mas ninguém vai abordar esse homem sem falar comigo primeiro.

Jacob ainda estava olhando para ela.

— Jacob.

— O quê?

— Marcus.

— Certo.

— Câmeras, registros, testemunhas, horários. Quero tudo organizado. Se houver material relevante, encaminhamos pelas vias adequadas. E você não chega perto de Edward.

— Entendi.

— Nem de Marcus.

— Leah.

— Estou falando sério.

— Eu entendi.

Ela continuou falando.

Marcus.

Relatório.

Polícia.

Visitas.

Próxima audiência.

Jacob respondeu.

Fez perguntas.

Tomou notas.

E a conversa sobre casamento não voltou.

Nem uma vez.


Às três e dezessete, Jacob ainda estava pensando nela.

Na conversa.

Não em Leah.

Na palavra.

Casado.

— Ridículo — murmurou.

Abriu um contrato.

Leu duas linhas.

A imagem que apareceu não foi de uma cerimônia.

Foi da cozinha naquela manhã.

Elena diante do fogão.

Seth reclamando dos ovos.

Café forte sem açúcar.

— Não.

Voltou ao contrato.

Às três e quarenta, pensou em Seth perguntando quando voltaria para casa.

Às quatro, pensou em Elena sentada no hospital enquanto Seth comia morangos.

Às quatro e quinze, pensou em Seth ligando para Elena quando ficou com medo.

Não para ele.

Para Elena.

Às quatro e meia, pensou no que Leah dissera.

Babá não é família.

Aquilo o incomodava.

Sue era família para Seth.

Paul era família.

Embry também.

Família não precisava de sangue.

Então por que a palavra continuava incomodando?

Seu celular vibrou.

Áudio de Seth.

Jacob abriu.

— Tio Jake... a Irina veio me buscar.

A voz era baixa.

Houve uma pausa.

— Eu não queria ir.

Jacob fechou os olhos.

Gravou:

— Eu sei, campeão. Eu também queria que você viesse comigo.

Pouco depois chegou outro.

— Quando eu volto?

Jacob não respondeu imediatamente.

Outro áudio.

— Pra minha casa.

A voz infantil atingiu alguma coisa dentro dele.

Jacob apoiou os braços sobre a mesa.

Ouviu novamente.

Pra minha casa.

Gravou:

— Eu estou fazendo tudo que posso para você voltar, está bem?

A resposta veio:

— É complicado?

Jacob soltou uma pequena risada triste.

— Muito.

Outro áudio.

— Eu odeio complicado.

— Eu também, campeão.

Guardou o celular.

Tentou trabalhar.

Não conseguiu.

Às cinco e vinte, fechou o computador.

Pegou as chaves.


Elena estava sentada quando Jacob chegou ao restaurante.

Rosalie discutia com ela sobre tomates.

— Quarenta por cento a mais.

— São melhores.

— São tomates, Rosalie. Não possuem currículo.

— São orgânicos.

— Continuam tomates.

Rosalie percebeu Jacob.

Olhou para ele.

Depois para Elena.

— Vou verificar pessoalmente o caráter dos tomates.

Elena estreitou os olhos.

— Covarde.

— Muito.

Rosalie saiu.

Jacob aproximou-se.

Elena observou seu rosto.

— Aconteceu alguma coisa.

Não era pergunta.

— Irina levou Seth.

Elena abaixou a prancheta.

— Depois da escola?

— Sim.

— Ele estava bem?

— Não queria ir.

Ela fechou os olhos.

— Eu sinto muito.

Jacob puxou uma cadeira.

Sentou-se diante dela.

— Ela vai usar a briga.

— Contra você?

— Contra minha guarda. Talvez até contra as visitas.

Elena ficou séria.

— Ela falou isso?

— Falou.

— E o relatório?

— O relatório prova sabotagem.

— E Marcus.

— Coloca Marcus perto dos dois carros.

Jacob respirou.

— Ainda não coloca Edward ordenando nada.

— Mas Seth voltou para a casa dele.

— Sim.

Silêncio.

Jacob olhou para as próprias mãos.

— Estou cansado, Elena.

Ela o observou.

— Você não costuma admitir isso.

— Eu sei.

— Cansado de quê?

Jacob levantou os olhos.

— De perder Seth.

A resposta veio sem defesa.

— Eu não aguento mais entregar aquele menino para alguém enquanto ele pergunta quando pode voltar para casa.

Elena ficou quieta.

— Hoje de manhã ele estava feliz.

Jacob olhou para ela.

— Você viu.

Ela assentiu.

— Vi.

— Depois mandou áudio dizendo que não queria ir com Irina.

A voz de Jacob ficou mais baixa.

— Perguntou quando podia voltar para casa.

Elena apertou os dedos.

— Jacob...

— E eu não tenho resposta.

Ele se levantou.

Andou alguns passos.

— Não sei quanto tempo essa investigação vai levar. Não sei o que vão encontrar contra Marcus. Não sei se vamos conseguir ligar Edward a alguma coisa.

Virou-se.

— Só sei que Seth está dormindo na mesma casa que ele hoje.

Elena sentiu um arrepio.

— Eu sei.

— E estou cansado de perder.

Ela abaixou os olhos.

— Parte disso aconteceu por minha causa.

Jacob ficou em silêncio.

— Se eu tivesse contado sobre Bella assim que descobri...

Ele não respondeu.

— Se eu tivesse mostrado a foto, a transferência...

Elena respirou.

— Talvez vocês tivessem conseguido reagir antes da decisão.

Jacob permaneceu olhando para ela.

— Talvez Seth não estivesse com Irina agora.

Silêncio.

Elena levantou os olhos.

— Eu tenho culpa?

Jacob não desviou.

— Sim.

A palavra ficou entre eles.

Elena baixou lentamente os olhos.

Jacob também ficou em silêncio.

Não explicou.

Não amenizou.

Não acrescentou que outras pessoas também tinham errado.

Nada.

Apenas o silêncio desconfortável entre duas pessoas que sabiam exatamente do que estavam falando.

Elena passou o polegar pela borda da prancheta.

— Certo.

Jacob olhou para ela por alguns segundos.

Então disse:

— Me ajude a recuperar Seth.

Elena levantou os olhos imediatamente.

Não hesitou.

— O que eu posso fazer?

Jacob ficou imóvel.

A pergunta era simples.

A resposta não.

Por um instante, pensou em recuar.

Então ouviu novamente a voz de Seth dentro da cabeça.

Pra minha casa.

Olhou para Elena.

— Case comigo.