O PESO DE UMA PROMESSA

17 CAPÍTULO 17- AQUILO QUE RESTOU DO ACIDENTE


Elena aprendera a esconder a dor.

Não era exatamente uma habilidade nova.

Durante anos, esconder aquilo que doía fora uma das formas pelas quais conseguira continuar funcionando. Quando os pais morreram, aprendera a chorar longe de Bella. Quando o dinheiro apertara, aprendera a fazer contas de madrugada e sorrir pela manhã. Quando a responsabilidade se tornara grande demais, aprendera a chamar de cansaço. Quando Jacob a ferira, aprendera a chamar de consequência.

Agora fazia o mesmo com o próprio corpo.

O acidente deixara marcas que as roupas escondiam melhor do que Elena esperava. O corte na testa havia sido profundo e ainda estava protegido por um curativo menor, embora os pontos devessem permanecer por mais algum tempo. O ferimento mais grave, porém, ficava no tronco. No impacto, uma parte da estrutura da coluna do volante atravessara seu corpo, entrando pela região abdominal e saindo pelas costas. A cirurgia corrigira os danos internos, mas deixara duas feridas extensas, uma de cada lado do corpo, ainda fechadas por pontos e cobertas por curativos.

Os médicos tinham sido claros.

Repouso.

Nada de esforço.

Nada de longos períodos em pé.

Nada de restaurante.

Elena ouvira.

E voltara ao restaurante.

Nos primeiros dias, conseguira fingir que estava tudo bem.

Naquela manhã, não.

A dor estava diferente.

Mais quente.

Mais pulsante.

A pele ao redor dos pontos parecia repuxar a cada movimento e, quando trocara o curativo antes de sair de casa, percebera uma vermelhidão maior.

Deveria ter contado para Alice.

Não contou.

Deveria ter ligado para o médico.

Não ligou.

Tomou o analgésico.

Vestiu uma blusa larga.

Foi trabalhar.

Precisava trabalhar.

Enquanto estivesse cortando, provando, corrigindo, organizando e reclamando de fornecedores, não precisava pensar nos olhos de Bella.

Por isso, quando Rosalie perguntou pela terceira vez naquela tarde:

— Você está bem?

Elena respondeu pela terceira vez:

— Estou.

Rosalie estreitou os olhos.

— Está andando torto.

— Sempre andei.

— Não desse jeito.

— Estou cansada.

— Elena...

— Rose.

O tom encerrou a conversa.

Rosalie permitiu.

Por enquanto.


Na mesma tarde, a vários quilômetros dali, Jacob recebeu o relatório que estava esperando.

Paul entrou no escritório acompanhado de Emmett.

Nenhum dos dois estava com expressão de quem trazia boas notícias.

Jacob percebeu imediatamente.

Fechou o computador.

— Fala.

Paul colocou uma pasta sobre a mesa.

Jacob olhou.

— Os dois carros?

— Os dois.

Jacob puxou a pasta.

— O que encontraram?

Paul não respondeu imediatamente.

Emmett fechou a porta.

Aquilo bastou para Jacob sentir o primeiro sinal de perigo.

— Paul.

— Os mecânicos analisaram separadamente, como você pediu.

— E?

— Encontraram a mesma irregularidade nos dois sistemas de freio.

Jacob ficou imóvel.

— Mesma?

— Mesma.

Paul abriu o relatório e apontou para as fotografias técnicas.

— Falta uma peça essencial do conjunto.

Jacob olhou para as imagens sem realmente compreendê-las.

— Nos dois?

— No carro da Rebecca e do Salomon e no carro da Elena.

Silêncio.

— Pode ter sido perdida no impacto?

Paul balançou a cabeça.

— Foi a primeira coisa que perguntei.

Jacob levantou os olhos.

— E?

— Não.

A palavra caiu pesadamente.

Emmett continuou:

— Os dois mecânicos foram categóricos. Pelo tipo de peça, pela posição e pelo estado do restante do conjunto, ela não simplesmente se desprendeu nos acidentes.

Jacob sentiu o sangue esfriar.

— Então como saiu?

Paul olhou diretamente para ele.

— Remoção manual.

Nada se moveu no escritório.

Jacob olhou novamente para o relatório.

Rebecca.

Salomon.

Elena.

Bella.

Quatro nomes.

Duas mortes.

Uma mulher que quase morrera.

Um menino órfão.

— Tem certeza?

— Pedi segunda avaliação.

Paul virou outra página.

— Mesmo resultado.

Jacob levantou-se lentamente.

Não parecia furioso.

Ainda.

Aquilo assustou Emmett mais do que se tivesse gritado.

— Quem teve acesso aos carros?

Paul respirou.

— Fomos atrás disso.

Jacob levantou os olhos.

— E?

— Encontramos uma coincidência.

— Qual?

Emmett respondeu:

— Marcus Doyle.

Jacob conhecia o nome.

— O funcionário de Edward?

— Prestador. Resolve muita coisa para ele.

Jacob permaneceu imóvel.

Paul continuou:

— Ele esteve próximo ao carro de Rebecca e Salomon nos dias anteriores ao acidente. Temos registro de câmera de um estabelecimento vizinho.

Jacob não piscou.

— E Elena?

Paul hesitou.

Foi suficiente.

— Fala.

— Também.

O ar pareceu desaparecer do escritório.

— Também o quê?

— Marcus esteve perto do carro dela antes da viagem.

Jacob empurrou a cadeira para trás.

— Jacob.

Paul já conhecia aquele movimento.

— Onde Edward está?

— Não.

— Paul.

— Você não vai para lugar nenhum nesse estado.

Jacob pegou as chaves.

— Onde ele está?

— Jacob...

— ONDE ELE ESTÁ?

Emmett se colocou entre ele e a porta.

— Pensa.

— Estou pensando.

— Não, não está.

Jacob olhou para ele.

— Rebecca morreu.

Emmett ficou quieto.

— Salomon morreu.

A voz de Jacob começou a tremer.

— Bella morreu.

Paul se aproximou.

— Nós sabemos.

— Elena quase morreu.

— Sabemos.

— E o mesmo homem ligado a Edward estava perto dos dois carros.

— Isso é indício — Paul disse. — Não prova que Edward mandou fazer nada.

Jacob soltou uma risada vazia.

— Ótimo.

Pegou o paletó.

— Então vou perguntar.

Paul fechou os olhos.

— Merda.


Edward abriu a porta e mal teve tempo de reconhecer quem estava do outro lado.

Jacob o acertou.

O primeiro soco lançou Edward contra a parede do hall.

Irina gritou.

— JACOB!

Paul, que viera justamente porque sabia que aquilo aconteceria, entrou atrás dele.

— Jacob!

Edward levou a mão à boca.

Havia sangue.

— Você ficou louco?!

Jacob agarrou sua camisa.

— Marcus Doyle.

Edward parou.

Foi pequeno.

Um segundo.

Mas Jacob viu.

— Conhece?

— É meu funcionário.

— Seu funcionário esteve perto do carro da minha irmã.

Edward tentou afastar as mãos dele.

— Solta.

— E esteve perto do carro de Elena.

Irina empalideceu.

— O quê?

Jacob virou-se para ela.

— A mesma peça do freio estava faltando nos dois carros.

O rosto de Irina mudou.

— Que peça?

Edward empurrou Jacob.

— Você invade minha casa com essa história absurda e...

Jacob o acertou novamente.

— JACOB! — Paul gritou.

Edward reagiu.

O soco atingiu o rosto de Jacob.

Foi suficiente.

Jacob avançou.

Os dois bateram contra um móvel.

Irina gritava.

Paul tentou separá-los.

— CHEGA!

Jacob conseguiu acertar Edward mais uma vez.

— REBECCA MORREU!

Outro.

— SALOMON MORREU!

Paul o segurou por trás.

— Jacob!

— BELLA MORREU POR CAUSA DAQUELE CARRO!

Edward limpou o sangue da boca.

— Você não sabe do que está falando.

Jacob tentou avançar.

Paul o segurou.

— E ELENA QUASE MORREU!

— Jacob, CHEGA!

— Pergunta para seu funcionário!

Edward apontou para a porta.

— Sai da minha casa.

— Se eu descobrir que você...

— O quê? Vai me matar?

Jacob ficou imóvel.

O silêncio foi pior que qualquer resposta.

Paul apertou ainda mais o braço dele.

— Vamos embora.

Irina olhava de Edward para Jacob.

— Edward...

— Não começa.

— Marcus esteve perto dos carros?

— Eu tenho dezenas de funcionários.

— Não foi o que perguntei.

Edward virou-se.

— Não vou discutir isso agora.

Do andar superior veio um barulho.

Todos pararam.

Seth estava no topo da escada.

Pálido.

Assustado.

Jacob sentiu a raiva desaparecer instantaneamente.

— Seth.

O menino recuou.

— Ei.

Jacob soltou-se de Paul.

— Está tudo bem.

Seth balançou a cabeça.

Não estava.

Havia sangue no rosto de Edward.

No canto da boca de Jacob.

Um vaso quebrado.

Irina chorando.

Adultos gritando.

Seth correu de volta para o quarto.

— Merda — Jacob murmurou.

Irina virou-se furiosa.

— Olha o que você fez!

Jacob fechou os olhos.

Dessa vez ela tinha razão.


Seth trancou a porta.

Sentou-se no chão.

Pegou o telefone que Irina deixava com ele para emergências.

Não ligou para Sue.

Não ligou para Leah.

Nem para Paul.

Ligou para Elena.

Ela atendeu no terceiro toque.

— Oi.

— Elena?

A voz dele bastou.

Elena endireitou-se apesar da dor.

— Seth?

— Eles estão brigando.

Ela se levantou.

A dor atravessou seu corpo.

Ignorou.

— Quem?

— Tio Jake e Edward.

— Onde você está?

— No quarto.

— Está sozinho?

— Estou.

— A porta está fechada?

— Está.

Elena pegou a bolsa.

Rosalie olhou.

— Onde você vai?

Elena levantou a mão.

— Seth, olha para mim.

Ele apareceu na tela.

Estava chorando.

— Eu estou com medo.

O coração de Elena apertou.

— Eu sei.

— Vem me buscar?

Ela não hesitou.

— Vou.

— Promete?

Elena fechou os olhos.

— Prometo.


Quando Elena chegou, a briga física já havia terminado.

A emocional, não.

Irina discutia com Jacob.

Edward estava com gelo no rosto.

Paul permanecia perto de Jacob.

Elena entrou.

Todos pararam.

Jacob foi o primeiro a vê-la.

— O que você está fazendo aqui?

Ela ignorou.

— Seth?

Irina apontou para cima.

— Está no quarto.

Elena começou a subir.

Jacob percebeu a dificuldade.

— Elena, espera.

— Não.

— Você está com dor.

— Seth me ligou chorando.

A frase o calou.

Elena subiu.

Cada degrau puxava os pontos.

Quando chegou ao quarto, bateu.

— Seth?

Silêncio.

— Sou eu.

A porta abriu imediatamente.

O menino se jogou contra ela.

A dor foi tão forte que Elena perdeu o ar.

Mas não o afastou.

— Ei.

Abraçou-o.

— Eu vim.

— Eles estavam batendo.

— Eu sei.

— Tio Jake bateu no Edward.

— Eu sei.

— Edward bateu nele.

— Também sei.

Seth olhou para ela.

— Adultos são idiotas.

Elena quase sorriu.

— Frequentemente.

__ Você veio...

__ Eu sempre vou vir quando você me chamar...

****

Jacob decidiu levar Seth para casa.

Irina se opôs.

— Ele fica comigo.

— Ele está apavorado.

— Por sua causa!

— Exatamente.

Jacob respirou.

— E não quero que ele fique numa casa onde essa discussão vai continuar.

Edward riu.

— Você não tem o direito.

__ E você não tem o direito de respirar.

Elena apareceu no pé da escada segurando a mão de Seth.

— Ele quer ir com Jacob.

Todos olharam.

Irina ficou magoada.

— Seth?

O menino baixou os olhos.

— Só hoje.

Irina respirou.

Jacob falou:

— Amanhã resolvemos isso com Leah.

Edward começou:

— Você não...

Paul entrou na frente.

— Hoje acabou.

Elena olhou para Jacob.

— Eu vou junto.

Ele a encarou.

— Não precisa.

Seth apertou a mão dela.

— Precisa.

Elena respondeu:

— Então eu vou.

Jacob não discutiu.


Na casa de Jacob, Elena fez o que sabia fazer.

Transformou medo em rotina.

Pediu pizza.

Deixou Seth escolher o filme.

Sentou-se ao lado dele no sofá, apesar da dor.

Quando monstros apareceram na televisão, discutiu seriamente sobre qual deles perderia uma luta contra um tiranossauro.

Seth decidiu que todos.

Jacob observava da cozinha.

Elena estava pálida.

Muito.

Mas sempre que ele tentava aproximar-se, ela parecia se recompor.

Então não perguntou.

Ainda.

Perto das onze, Seth começou a dormir.

— Elena?

— Hum?

— Você vai embora?

Ela olhou para ele.

— Não.

— Vai dormir aqui?

Jacob levantou os olhos.

Elena respondeu:

— Vou.

— Promete?

Ela ajeitou o cobertor.

— Prometo.

Seth fechou os olhos.

Cinco minutos depois, dormia.


Elena permaneceu sentada ao lado dele até ter certeza.

Quando saiu, ouviu vozes vindas do escritório.

Paul.

Jacob.

Deveria continuar andando.

Não continuou.

— A polícia precisa receber isso — Paul dizia.

— Vai receber.

— Jacob, temos Marcus perto dos dois carros. Isso não prova Edward.

— Eu sei.

— Então para de agir como se provasse.

— O mesmo componente foi removido.

Elena parou.

— Nos dois acidentes — Jacob continuou. — Rebecca e Salomon. Elena e Bella.

O coração dela disparou.

— E Marcus estava lá.

— Sim.

Elena entrou.

— O quê?

Os dois se viraram.

Jacob empalideceu.

— Elena.

— O que você acabou de dizer?

Silêncio.

— Que peça?

Jacob levantou-se.

— Senta.

— Não manda eu sentar.

A velha Elena apareceu por um segundo.

— Que peça estava faltando?

Paul olhou para Jacob.

Ele respondeu:

— Um componente essencial do sistema de freio.

Elena ficou imóvel.

— No meu carro?

— Sim.

— E no carro da Rebecca?

— Sim.

— E não saiu no acidente?

Jacob respirou.

— Os mecânicos dizem que não.

— Então alguém tirou?

— Essa é a hipótese técnica.

Elena sentiu o chão desaparecer.

— Marcus?

— Esteve perto dos dois carros.

Ela levou a mão à boca.

— Meu Deus.

Jacob aproximou-se.

Elena recuou.

Não por ele.

Pelo pensamento.

— Irina.

Jacob franziu a testa.

— O quê?

Elena olhou para ele.

— Irina foi à minha casa.

Paul endireitou-se.

— Quando?

— Antes de eu viajar.

Jacob ficou imóvel.

— O que ela queria?

— Me humilhar.

— Elena.

— Foi.

A raiva começou a aparecer.

— Disse que você nunca me perdoaria. Que eu tinha sonhado alto demais. Que uma mulher como eu não devia ter imaginado que poderia ficar com você.

Jacob fechou os olhos por um segundo.

— Ela sabia que você ia embora?

Elena parou.

Pensou.

— Sabia.

O silêncio mudou.

Paul perguntou:

— Tem certeza?

— Eu falei que estava indo embora.

Jacob ficou pálido.

— E Edward?

— Não estava lá.

— Ela disse alguma coisa sobre ele?

Elena tentou lembrar.

A conversa.

O telefonema de Bella.

A reação de Irina.

— Bella ligou para ela.

Jacob ergueu os olhos.

— Quando?

— Antes.

— Sobre o quê?

— O pendrive.

Jacob ficou imóvel.

— Bella achava que Irina tinha mandado aquilo para você.

— E?

— Irina negou.

— Elena...

— Ela negou ter enviado.

Elena apertou os olhos.

— E Bella perguntou sobre Edward.

Paul e Jacob se entreolharam.

— O que Irina respondeu? — Paul perguntou.

— Não lembro exatamente.

Elena respirou.

— Mas ela não respondeu direito.

Jacob fechou os olhos.

Aquilo estava ficando pior.


Depois da meia-noite, a casa finalmente ficou silenciosa.

Paul dormiu num dos quartos de hóspedes.

Seth não acordou.

Jacob permaneceu no escritório por algum tempo.

Elena tentou dormir.

Não conseguiu.

A dor havia se tornado intensa.

Quente.

Pulsante.

Levantou-se devagar.

Desceu.

Na cozinha, abriu a caixa de primeiros socorros.

Analgésico.

Gaze. Remédio para machucados. Fez uma careta ao ver que o único remédio disponível era justamente o que mais ardia.

Foi até a bancada da mesa e sentou.

Retirou cuidadosamente o curativo abdominal.

A pele estava vermelha.

— Droga.

Limpou como conseguiu.

Quando o líquido tocou a região machucada, ardeu.

Elena apertou os olhos.

— Merda.

Tentou alcançar as costas.

Não conseguiu.

Tentou novamente.

A dor puxou os pontos.

— Elena.

Ela congelou.

Jacob estava parado na porta.

Sem camisa, usando apenas uma calça de moletom.

O olhar dele caiu imediatamente para o ferimento.

E mudou.

— O que aconteceu?

— Nada.

— Isso não é nada.

— Estou cuidando.

Jacob aproximou-se.

— Está inflamado.

— Eu sei.

— Há quanto tempo?

— Não sei.

— Elena.

— Alguns dias.

Ele fechou os olhos.

— Você não contou para ninguém.

— Não.

— Por quê?

— Não queria preocupar.

Jacob soltou o ar.

— Claro.

Ela pegou outra gaze.

Tentou alcançar as costas.

Não conseguiu.

Jacob estendeu a mão.

— Deixa.

Elena parou.

Os dois se olharam.

— Eu consigo.

— Não consegue.

Ela odiou que fosse verdade.

Silêncio.

Então entregou a gaze.

Jacob lavou as mãos.

Aproximou-se.

— Vai doer.

Elena soltou uma pequena risada sem humor.

— Essa frase perdeu bastante efeito ultimamente.

Ele não respondeu.

Ficou atrás dela.

Afastou cuidadosamente o tecido.

Quando viu a ferida nas costas, parou.

Era muito pior do que imaginara.

A cicatriz ainda recente.

Os pontos.

A pele irritada.

Aquilo atravessara o corpo dela.

Jacob sentiu náusea.

— Foi a coluna do volante?

Elena assentiu.

— Entrou pela frente.

Pausa.

— Saiu atrás.

Jacob fechou os olhos.

Por um instante viu o carro.

Bella.

Elena.

Precisou respirar.

— Pronta?

— Faz.

Ele começou.

Elena se contraiu. Lágrimas de dor desceram dos seus olhos.

— Desculpa.

— Continua.

— Está ardendo?

Ela virou levemente o rosto.

— Muito.

— Posso parar.

— Não.

Jacob continuou devagar.

O silêncio entre eles era quase físico.

Os dedos dele eram cuidadosos.

Elena percebia cada toque.

Cada vez que ele se aproximava.

Cada respiração.

Jacob terminou as costas.

Colocou a gaze.

Fixou o curativo.

— Agora a frente.

Elena virou-se.

Por um segundo, nenhum dos dois se moveu.

O ferimento ficava no abdômen.

Ela levantou a blusa apenas o necessário.

Jacob olhou.

Outra cicatriz.

Outra prova.

Seu maxilar endureceu.

— Jacob.

Ele levantou os olhos.

— Estou bem.

— Não está.

Elena ficou quieta.

— Mas vou terminar.

Ele limpou cuidadosamente.

Ela segurou a borda da bancada.

Quando ardeu, fechou os olhos e um gemido de dor escapou.

Jacob percebeu.

— Pode apertar minha mão.

Elena abriu os olhos.

— Estou bem.

— Eu sei.

Ele não insistiu.

Terminou.

Depois olhou para o corte na testa.

— Esse também.

— Não precisa.

— Elena.

Ela suspirou.

— Certo.

Jacob ficou diante dela.

Muito perto.

Limpou delicadamente a região próxima aos pontos.

Elena observava seu rosto.

A concentração.

A culpa.

A distância.

Quando terminou, guardou a gaze.

— Pronto.

Elena não se moveu.

Jacob também não.

Então ela perguntou:

— Você acredita mesmo que Irina e Edward fizeram isso?

Ele ficou imóvel.

— Não sei.

— Mas acredita que podem ter feito.

— Eu não sei.

— Jacob.

Ele olhou para ela.

— Tenho indícios.

A voz era baixa.

— Não tenho resposta.

Elena assentiu.

Olhou para as próprias mãos.

— Eles não precisavam.

Jacob franziu a testa.

— O quê?

Ela continuou olhando para baixo.

— Não precisavam fazer isso com Bella.

A voz mudou.

Jacob percebeu.

— Elena...

— Eu já estava indo embora.

Ele ficou imóvel.

— Eu ia sair de Nova York., com ela.

A respiração dela ficou irregular.

— Eu não ia voltar para o restaurante. Não ia voltar para sua casa. Não ia...

Parou.

Jacob se aproximou um pouco.

— Você não sabe se foi Edward.

— Mas se foi...

A voz quebrou.

E então aconteceu.

A primeira lágrima caiu.

Jacob congelou.

Elena levou a mão ao rosto como se estivesse surpresa.

Outra lágrima.

Depois outra.

— Eu já estava indo embora.

— Eu sei.

— Porque você nunca ia me perdoar.

— Elena...

— E eles sabiam.

Ela começou a chorar.

Não uma lágrima.

Não o silêncio do hospital.

Chorar.

De verdade.

Como se alguma barragem dentro dela finalmente tivesse cedido.

— Eu sabia que tinha acabado.

Jacob aproximou-se.

— Elena.

— Então por quê?

A voz saiu quebrada.

— Por que Bella?

Ele não tinha resposta.

— Ela não tinha nada a ver com isso!

— Eu sei.

— Ela tinha dezoito anos!

Jacob fechou os olhos.

— Eu sei.

— ELA TINHA DEZOITO ANOS!

Elena começou a perder o ar.

Jacob segurou seus braços.

— Respira.

— Eu vi.

Ele parou.

— O quê?

— Os olhos dela.

Jacob sentiu o coração parar.

Elena chorava sem conseguir conter.

— Eu vi os olhos dela.

— Elena...

— Ela estava do meu lado.

As palavras começaram a sair.

Rápidas.

Desordenadas.

Guardadas por semanas.

— O carro parou e eu... eu tentei chegar até ela, eu tentei, mas não conseguia mexer direito. Tinha alguma coisa me prendendo.

Levou a mão ao abdômen.

— Eu não sabia o que era. Eu só sabia que doía.

Jacob sentiu os próprios olhos encherem.

— E eu chamei Bella.

Elena apertou os olhos.

— Chamei uma vez.

Choro.

— Duas.

A voz desapareceu.

— Muitas.

Jacob não se moveu.

— Ela não respondia.

Elena olhou para ele.

— Então eu virei.

Jacob sabia o que viria.

— E os olhos dela estavam abertos.

A voz quebrou completamente.

— Estavam olhando para mim.

Jacob sentiu uma lágrima descer.

— Mas ela não estava me vendo.

Elena levou as mãos ao rosto.

— Eu pedi para ela olhar para mim.

Jacob não aguentou.

Aproximou-se.

— Elena...

— Eu pedi!

Ela soluçava.

— Eu falei “Bella, olha para mim”. Eu falei para ela ficar comigo.

Jacob tocou seu rosto.

— Eu sei.

— Mas ela já tinha ido.

Elena fechou os olhos.

— E eu prometi.

Ali estava.

A ferida mais antiga.

— Eu prometi para meu pai.

Jacob respirou.

— Elena...

— Eu prometi cuidar dela.

— Você cuidou.

Ela balançou a cabeça.

— NÃO!

Jacob ficou quieto.

— Eu falhei.

— Elena...

— Eu falhei com ele.

— Não.

— Com Bella.

— Não.

— Com você.

Ele parou.

— Com Seth.

— Não.

— Com o restaurante.

— Não.

— Com todo mundo!

Jacob segurou seus braços.

— Não.

— Eu falhei em tudo!

— Não.

— Para de falar não!

Jacob fechou a boca.

Elena chorava.

— Eu estou cansada.

A voz se tornou pequena.

— Eu estou tão cansada.

Jacob sentiu o coração partir.

— Eu passei a vida inteira tentando cuidar de todo mundo.

Ele apenas ouviu.

— Meu pai pediu.

Silêncio.

— Eu tinha seis anos.

Jacob fechou os olhos.

— Seis.

Ela soluçou.

— Eu não sabia como cuidar de um bebê.

— Eu sei.

— Mas eu fiz.

— Fez.

— Aprendi.

— Eu sei.

— E ela cresceu.

A voz quebrou.

— E eu achei que tinha conseguido.

Jacob sentiu as lágrimas.

— Você conseguiu.

Elena balançou a cabeça.

— Não.

— Tudo bem.

Ela parou.

Esperava que ele discutisse.

Ele não discutiu.

— Tudo bem você achar que não agora.

Jacob se aproximou.

— Eu não vou tentar convencer você de nada.

Elena chorava.

— Então o que você vai fazer?

Ele olhou para ela.

— Ficar.

Uma palavra.

Elena fechou os olhos.

As pernas pareciam não sustentá-la.

Jacob percebeu.

— Vem.

Elena não resistiu.

Jacob ficou diante dela.

Ela tentou limpar o rosto.

Não conseguiu.

— Eu não quero ver os olhos dela.

A voz era infantil.

Jacob sentiu algo dentro dele se quebrar.

— Eu sei.

— Toda vez que fecho os meus, eu vejo.

— Eu sei.

— E quando abro também.

Ele não respondeu.

— Eu queria ter fechado os olhos dela.

Jacob respirou.

— Não consegui.

— Elena...

— Eu devia ter conseguido.

Ele aproximou-se.

Dessa vez ela não recuou.

— Posso?

Elena não respondeu.

Mas seu corpo se inclinou.

Foi o suficiente.

Jacob a abraçou.

Com cuidado.

Muito cuidado para não pressionar os ferimentos.

Elena encostou o rosto em seu peito.

E desmoronou.

O choro veio mais forte.

Profundo.

Doloroso.

Jacob fechou os olhos e a segurou.

Não disse que não era culpa dela.

Não disse que Bella estava em paz.

Não disse que tudo acontecia por uma razão.

Não disse nenhuma das frases vazias que as pessoas diziam quando não suportavam o sofrimento dos outros.

Apenas ficou.

Elena abraçou Jacob com força, suas lagrimas molhando o peito dele.

— Eu sinto falta dela.

— Eu sei.

— Eu sinto tanta falta.

Jacob apoiou o rosto sobre os cabelos dela.

— Eu sei.

— Eu queria minha irmã.

— Eu sei.

— Eu queria voltar.

Ele fechou os olhos.

— Para antes?

— Para qualquer antes.

Jacob sentiu as lágrimas.

— Eu também.

Elena chorou por muito tempo.

Minutos.

Talvez mais.

Nenhum dos dois contou.

Quando o choro começou a diminuir, ela continuou com o rosto contra o peito dele.

Jacob acariciava lentamente seus cabelos.

Queria dizer.

Eu amo você.

As palavras estavam ali.

Na garganta.

Queria pedir desculpas.

Por aquela noite.

Pelo restaurante.

Pela frase sobre seus pais.

Por tudo.

Mas aquela não era a hora.

Elena não precisava carregar também os sentimentos dele.

Então Jacob permaneceu quieto.

Depois de algum tempo, ela murmurou:

— Eu sei que você me odeia.

O coração dele apertou.

— Não te odeio.

Elena não levantou o rosto.

Jacob poderia dizer.

Eu amo você.

Não conseguiu.

Talvez por medo.

Talvez porque aquela confissão, naquele instante, parecesse exigir alguma resposta que Elena não tinha condições de dar.

Então disse apenas:

— Eu não odeio você.

Silêncio.

— Nunca odiei.

Elena fechou os olhos.

Ficaram assim.

Ela sentada sobre a bancada.

Jacob diante dela.

Os braços dele protegendo sem prender.

As mãos dela ainda agarradas nele.

Depois de algumas respirações, Elena perguntou:

— Vai ficar tudo bem?

Jacob fechou os olhos.

Não sabia.

Rebecca continuava morta.

Salomon continuava morto.

Bella continuava morta.

Havia um homem ligado a Edward próximo dos dois carros.

Elena estava machucada.

Seth estava assustado.

Nada estava bem.

Mas talvez a pergunta não pedisse uma previsão.

Talvez pedisse apenas alguma coisa em que se apoiar naquela madrugada.

Jacob apertou os braços ao redor dela.

— Vai.

Elena respirou contra seu peito.

— Você não sabe.

— Não.

Ela ficou quieta.

Jacob encostou os lábios nos cabelos dela.

— Mas eu vou ficar aqui até ficar.

Elena fechou os olhos.

Dessa vez, quando Bella apareceu na memória, os olhos ainda estavam abertos.

A dor ainda veio.

A culpa também.

Nada desapareceu.

Mas havia braços ao redor dela.

Havia calor.

Havia uma voz.

Havia alguém ficando.

E Elena chorou outra vez.

Mais baixo.

Sem lutar contra as lágrimas.

Jacob permaneceu ali.

Sem pedir perdão.

Sem pedir amor.

Sem exigir que ela fosse forte.

Sem tentar consertar o que não podia ser consertado.

Apenas ouvindo.

Às vezes, amar alguém não era encontrar as palavras capazes de salvar.

Às vezes, era reconhecer que não existiam palavras.

E ficar mesmo assim.