O PESO DE UMA PROMESSA

12 CAPÍTULO 12 - A ESTRADA DE VOLTA


Durante os dois primeiros dias, Elena chorou.

Não o tempo inteiro.

Talvez tivesse sido mais fácil se fosse assim.

Chorava em intervalos.

Às vezes, passava uma hora inteira aparentemente bem, sentada à mesa da cozinha, olhando para uma xícara de café que esfriava diante dela. Então alguma coisa pequena acontecia.

O celular vibrava.

Um carro preto passava pela rua.

Alice dizia o nome de Rosalie.

Alguém abria a geladeira e Elena se lembrava de Jacob reclamando das passas.

E começava novamente.

Na primeira noite, dormiu menos de duas horas.

Na segunda, não tentou.

Ficou sentada no sofá da sala, enrolada em uma manta, enquanto a cidade adormecia do lado de fora.

Bella permaneceu trancada no quarto.

Alice dormia — ou fingia dormir.

Elena não sabia.

Às quatro e dezessete da manhã, levantou-se e foi até a cozinha.

Abriu a torneira.

Encheu um copo.

Não bebeu.

Apoiou as duas mãos sobre a bancada.

Dois dias.

Dois dias desde que Leah colocara o distrato diante dela.

Dois dias desde que assinara o próprio nome e abrira mão do restaurante.

Dois dias desde que Jacob deixara claro que não queria mais qualquer vínculo que o obrigasse a permanecer perto dela.

E, ainda assim, a pior parte não era o restaurante.

Era ele.

Você foi a minha maior decepção.

Elena fechou os olhos.

As palavras continuavam exatamente no mesmo lugar.

Mas havia outras.

Piores.

Talvez ainda acredite que seus pais morreram porque você pediu para ir àquele parque.

Ela acreditava.

Jacob sabia.

E usara aquilo contra ela.

Elena deveria odiá-lo.

Tentara.

Durante dois dias inteiros.

Tentara se agarrar àquela frase como justificativa para sentir raiva.

Não conseguira.

Porque, por mais cruel que Jacob tivesse sido, havia uma verdade que continuava existindo ao lado daquela crueldade.

Ela mentira.

Não com palavras.

Com silêncio.

Todos os dias.

Enquanto Seth permanecia com Irina.

Enquanto Jacob lutava para recuperá-lo.

Enquanto ele confiava nela.

Enquanto a beijava.

Enquanto ela se apaixonava por ele.

Elena abriu os olhos.

E, pela primeira vez, a pergunta que a perseguia não era:

Como faço Jacob me perdoar?

Era outra.

O que faço agora?

A resposta chegou silenciosa.

Ela precisava ir embora.

Não porque Jacob mandara.

Não porque Irina vencera.

Não porque estivesse fugindo.

Precisava ir porque Nova York havia deixado de ser o lugar onde conseguia respirar.

Precisava voltar para onde tudo começara.

Para a Flórida.

Para sua terra natal.

Para o lugar em que ainda existiam algumas lembranças anteriores à tragédia.

Talvez fosse absurdo procurar um recomeço justamente onde sua vida havia sido quebrada pela primeira vez.

Mas Elena estava cansada de construir a existência inteira em torno de uma promessa feita por uma criança assustada.

E havia outra coisa.

Bella.

Elena olhou na direção do corredor.

Durante dezoito anos, protegera a irmã.

Pagara.

Resolvera.

Escondera.

Desculpara.

Amortecera cada queda antes que Bella atingisse o chão.

E agora sabia onde aquilo as levara.

Bella vendera uma informação.

Aceitara dinheiro.

E Elena transformara o erro da irmã em seu próprio segredo.

Não faria aquilo outra vez.

Se fossem embora, Bella iria com ela.

Não como castigo.

Como consequência.

A vida confortável que Elena construíra para protegê-la terminara.

Bella precisaria trabalhar.

Assumir responsabilidades.

Reconstruir.

Elena também.

Pela primeira vez, talvez as duas precisassem crescer juntas.


Alice a encontrou naquela mesma manhã dobrando roupas sobre a cama.

Ficou parada na porta.

Observou a mala aberta.

Depois olhou para Elena.

— Não.

Elena continuou dobrando uma blusa.

— Bom dia para você também.

— Não faz isso.

— Alice...

— Não.

Alice entrou.

— Eu conheço essa mala.

— Imagino. Ela mora no armário.

— Elena.

Elena fechou os olhos.

— Vou embora.

Alice ficou imóvel.

Talvez já soubesse.

Talvez só não quisesse ouvir.

— Por quanto tempo?

Elena demorou.

— Não sei.

— Uma semana?

Silêncio.

— Um mês?

Elena continuou dobrando.

Alice aproximou-se.

— Você está indo embora de Nova York?

— Estou.

— Não.

— Alice...

— PARA DE FALAR MEU NOME DESSE JEITO!

Elena parou.

Alice começou a chorar antes mesmo de continuar.

— Não fala “Alice” com essa voz calma como se isso fosse uma conversa normal. Não é normal. Você não pode simplesmente colocar sua vida numa mala e desaparecer porque um homem está com raiva de você.

— Não estou indo embora por causa de Jacob.

Alice riu entre lágrimas.

— Não mente para mim.

— Não estou mentindo.

— Então olha para mim e diz que, se nada disso tivesse acontecido, você estaria fazendo essa mala.

Elena ficou em silêncio.

Alice assentiu.

— Foi o que pensei.

— Ele faz parte da decisão.

— Ele é a decisão.

— Não.

Elena finalmente olhou para ela.

— Bella também é.

Alice franziu a testa.

— Bella?

— Eu errei com ela.

— Elena, foi Bella quem...

— Eu sei o que Bella fez.

— Então por que parece que você está se culpando novamente?

Elena fechou a mala parcialmente.

— Porque eu não estou falando do que ela fez. Estou falando do que eu fiz durante dezoito anos.

Alice permaneceu quieta.

— Eu transformei cuidar dela em impedir que qualquer coisa tivesse consequência.

— Você criou sua irmã.

— Eu sei.

— Você tinha seis anos quando seus pais morreram!

Elena sentiu o golpe.

Jacob.

Outra vez.

— Eu sei.

Alice percebeu.

— Ele falou disso.

Elena não respondeu.

— Elena.

— Falou.

— O que ele disse?

— Não importa.

— Importa para mim.

Elena desviou os olhos.

— Ele disse que talvez eu ainda acreditasse que meus pais morreram porque pedi para ir ao parque.

Alice empalideceu.

— Ele disse isso para você?

— Estava com raiva.

— Eu não quero saber se ele estava possuído pelo demônio! Ele sabia o que aquilo significava para você!

— Sabia.

— E você ainda está defendendo ele?

— Não estou.

— Parece.

Elena sentou-se na cama.

— Alice, Jacob foi cruel comigo naquela noite.

A voz saiu baixa.

— E eu fui cruel com ele durante semanas.

— Não é a mesma coisa.

— Não precisa ser.

Alice ficou em silêncio.

Elena enxugou uma lágrima.

— Eu não quero mais passar a vida decidindo quem sofreu mais para descobrir quem tem o direito de estar errado.

Alice sentou-se ao lado dela.

— Então fica.

Elena balançou a cabeça.

— Não consigo.

— Por causa dele?

— Por minha causa.

Respirou profundamente.

— Eu preciso descobrir quem sou quando não estou tentando salvar Bella. Quando não estou tentando fazer Jacob me perdoar. Quando não estou trabalhando para pagar a próxima conta. Quando não estou cumprindo alguma promessa.

Alice começou a chorar.

— E eu?

Aquilo destruiu Elena.

— Não faz isso.

— Você falou de Bella. Falou de Jacob. Falou de você.

A voz de Alice quebrou.

— E eu?

Elena a abraçou imediatamente.

Alice agarrou sua blusa.

— Você é minha família, sua idiota.

— Eu sei.

— Não, não sabe!

— Sei.

— Eu cheguei aqui sem emprego, sem dinheiro e com uma máquina de costura que fazia um barulho horrível.

Elena riu chorando.

— Ainda faz.

— Aquela máquina é vintage.

— Aquela máquina é um risco elétrico.

Alice riu no meio das lágrimas.

Depois chorou ainda mais.

— Quem vai reclamar das minhas linhas na mesa?

— Bella.

— Bella não sabe a diferença entre linha e fio dental.

Do corredor:

— Eu estou ouvindo!

As duas olharam.

Bella estava parada à porta.

Olhos vermelhos.

— Ótimo — Alice respondeu. — Então aprende a costurar.

Bella olhou para a mala.

— É verdade?

Elena soltou Alice.

— É.

— Nós vamos para a Flórida?

— Vamos.

— Eu não quero.

— Eu sei.

— Minha faculdade está aqui.

— Você vai trancar por enquanto.

Bella empalideceu.

— O quê?

— Até organizarmos nossa vida.

— Você não pode fazer isso comigo.

Elena a encarou.

Dessa vez não cedeu.

— Posso.

— Por causa do que aconteceu?

— Também.

— Eu disse que estava arrependida!

— E eu acredito.

— Então por que está me punindo?

— Não estou punindo você.

— Parece!

Elena levantou-se.

— Consequência não é punição, Bella.

A irmã riu com raiva.

— Você está falando igual ao Jacob.

Elena sentiu.

Mas continuou.

— Talvez porque ele estivesse certo sobre algumas coisas.

— Ele expulsou você do restaurante!

— E você ajudou uma mulher a tirar Seth da casa dele.

Bella ficou pálida.

Silêncio.

Elena nunca falara daquela forma.

— Lena...

— Não.

A voz de Elena tremeu.

— Eu passei dezoito anos tentando impedir que você sofresse qualquer consequência. E olha onde nós chegamos.

Bella começou a chorar.

— Eu não sabia que ela usaria aquilo!

— Mas sabia que estava fazendo algo errado.

— Eu precisava do dinheiro.

— Não precisava.

— Você não entende!

— Então me explica.

Bella abriu a boca.

Não conseguiu.

Elena assentiu.

— Exatamente.

Pegou a mala.

— Nós vamos embora depois de amanhã.

— Eu não vou.

Elena olhou para ela.

— Vai.

E, pela primeira vez na vida, Bella percebeu que a irmã não iria salvá-la daquela decisão.


Bella ligou para Irina naquela tarde.

Elena não soube.

Alice também não.

Bella estava sozinha no quarto quando encontrou o número.

Ligou.

Irina atendeu no quarto toque.

— Alô?

— Foi você?

Silêncio.

— Bella?

— Foi você que mandou aquelas fotos para Jacob?

Irina demorou.

— Do que está falando?

— Não se faz de idiota!

— Cuidado com o tom.

— Minha irmã está indo embora!

Irina ficou quieta.

— Elena vai embora?

— Para a Flórida. Por sua causa!

— Minha?

— Jacob descobriu tudo! As fotos, o dinheiro, tudo! Alguém mandou um pendrive para ele e eu sei que foi você!

A voz de Irina mudou.

— Eu não mandei pendrive nenhum.

— Mentirosa!

— Eu paguei pela informação. Não vou fingir que não fiz. Mas não mandei nada para Jacob.

— Então quem mandou?

— Não sei.

— Edward?

Silêncio.

Bella percebeu.

— Foi ele?

— Eu disse que não sei.

— Você destruiu a vida dela!

Irina ficou alguns segundos sem responder.

— Sua irmã fez as escolhas dela.

Bella sentiu raiva.

— Você comprou informação de uma garota de dezoito anos!

— E você aceitou.

A frase atingiu em cheio.

Bella desligou.

Irina permaneceu olhando para o telefone.

Depois pegou a bolsa.


Elena estava sozinha quando a campainha tocou.

Alice havia saído.

Bella estava na faculdade resolvendo documentos.

Elena abriu.

Irina estava do outro lado.

— O que você quer?

— Soube que vai embora.

Elena imediatamente entendeu.

— Bella ligou para você.

— Bastante alterada.

— Ela não deveria ter feito isso.

— Concordamos em alguma coisa.

Elena segurou a porta.

— Se veio comemorar, faça isso longe daqui.

Irina sorriu.

— Não vim comemorar.

— Então veio para quê?

— Ver você.

— Já viu.

Elena começou a fechar a porta.

Irina segurou.

— Jacob não vai perdoar você.

Elena parou.

Irina percebeu que acertara.

— Era isso que queria ouvir?

— Não.

— Então por que veio?

Irina entrou sem convite.

Elena fechou a porta.

— Você realmente acreditou que poderia ficar com ele?

Elena ficou imóvel.

— Não vou discutir Jacob com você.

— Porque dói?

— Porque ele não é um prêmio.

— Para você talvez fosse.

Elena riu sem humor.

— Você não sabe absolutamente nada sobre mim.

— Sei que entrou naquela casa como cozinheira.

Elena endureceu.

— Irina.

— Começou a cuidar de Seth. Depois Jacob começou a olhar para você. Então surgiu um restaurante, sociedade, investimento...

— Cuidado.

— Com o quê?

— Com a próxima coisa que vai dizer.

Irina sorriu friamente.

— Você sonhou alto demais.

Elena ficou em silêncio.

— Achou mesmo que Jacob Black construiria uma vida com você?

— Saia da minha casa.

— Ele confiou em você e você mentiu.

— SAIA.

— E agora descobriu exatamente onde é o seu lugar.

Elena aproximou-se.

— Quer saber qual é a diferença entre nós duas?

Irina estreitou os olhos.

— Eu sei que errei.

— Que nobre.

— Você ainda acha que tudo que fez foi justificável porque ama Seth.

Irina perdeu parte do sorriso.

Elena continuou:

— Você pagou uma menina de dezoito anos para conseguir vantagem numa disputa de guarda.

— Eu amo meu sobrinho.

— Eu também amo Bella.

— E veja o que ela fez.

— Exatamente.

Irina ficou quieta.

— Amar alguém não transforma tudo que fazemos por essa pessoa em algo certo.

A frase atingiu as duas.

Elena respirou.

— Eu aprendi isso da pior maneira possível.

Irina recuperou a postura.

— Jacob continua não perdoando você.

Elena sentiu a dor.

Mas dessa vez não deixou Irina vê-la.

— Talvez nunca perdoe.

Irina pareceu surpresa.

— E você aceita isso?

— Não tenho escolha.

— Então finalmente entendeu.

Elena abriu a porta.

— Entendi uma coisa.

— Qual?

— Se ele algum dia me perdoar, não será porque você permitiu.

Irina ficou imóvel.

— E, se nunca me perdoar, também não será porque você venceu.

Silêncio.

— Agora saia.

Irina passou por ela.

Antes de cruzar a porta, parou.

— Você realmente o ama.

Elena não respondeu.

Irina olhou para ela.

— Isso torna tudo mais patético.

Elena fechou a porta.

Esperou.

Um segundo.

Dois.

Então encostou as costas na madeira.

E chorou.

Não porque acreditasse em Irina.

Mas porque uma parte dela acreditava que Jacob jamais voltaria.


Rosalie apareceu naquela noite.

Alice abriu a porta.

— Ela está no quarto.

Rosalie entrou sem dizer nada.

Encontrou Elena sentada no chão, cercada por caixas.

— Não.

Elena olhou.

— Vocês combinaram essa palavra?

— Qual?

— “Não.”

Rosalie cruzou os braços.

— Funciona em muitas situações.

— Não nessa.

Rosalie viu as caixas.

— Você vai mesmo.

— Vou.

— E o restaurante?

Elena sorriu tristemente.

— Seu restaurante.

— Nosso.

— Não mais.

— Para mim continua sendo.

Elena abaixou os olhos.

Rosalie sentou-se no chão.

— Eu posso desfazer aquilo.

— Não.

— Posso comprar sua parte de volta quando...

— Rose.

— Eu não quero aquele lugar sem você!

— Você vai fazer ele funcionar.

— Não quero fazer funcionar!

— Vai.

— Como sabe?

Elena sorriu.

— Porque você é insuportavelmente competente.

Rosalie começou a chorar.

— Odeio você.

— Alice disse a mesma coisa.

— Então estamos certas.

Alice apareceu com três taças e uma garrafa.

— Eu ouvi meu nome?

Rosalie enxugou as lágrimas.

— Ela está abandonando a gente.

— Eu sei.

— E você deixou?

Alice entregou uma taça.

— Tente impedir Elena Swan de fazer alguma coisa depois que ela decidiu.

Rosalie pensou.

— Justo.

Elena recebeu a taça.

Alice levantou a sua.

— Aos péssimos homens.

Elena fez uma careta.

— Jacob não é...

As duas gritaram:

— ELENA!

Ela começou a rir.

— Certo! Certo!

Rosalie ergueu a taça.

— Aos homens temporariamente péssimos.

— Melhor.

Alice pensou.

— Às amigas permanentemente maravilhosas.

— Convencida — Elena murmurou.

— E à Flórida — Rosalie acrescentou. — Que devolva você.

Elena perdeu o sorriso.

— Eu não sei se volto.

Alice abaixou a taça.

— Não fala isso.

Elena olhou para as duas mulheres que haviam se tornado sua família.

— Eu amo vocês.

Rosalie começou a chorar outra vez.

— Eu estava indo tão bem.

Alice também.

— Cala a boca.

Elena abraçou as duas.

E, durante alguns minutos, nenhuma delas tentou ser forte.


Partiram dois dias depois.

O porta-malas estava cheio.

Bella ocupava o banco do passageiro.

Elena dirigia.

Alice e Rosalie ficaram na calçada.

Alice chorava abertamente.

Rosalie tentava não chorar e fracassava.

Elena baixou o vidro.

— Vocês estão assustando os vizinhos.

Alice apontou para ela.

— Liga quando parar.

— Ligo.

— Não dirige cansada.

— Não vou.

Rosalie aproximou-se.

— E, se mudar de ideia...

— Rose.

— Eu precisava tentar.

Elena sorriu.

— Cuida do restaurante.

— Cuida de você.

Elena olhou para Alice.

— Você também.

Alice balançou a cabeça.

— Eu devia ir junto.

— Não.

— Eu caberia no porta-malas.

Bella falou:

— Não caberia.

Alice apontou.

— Ninguém pediu sua opinião, Judas.

— Alice!

— Ainda estou trabalhando no perdão.

Bella abaixou os olhos.

Alice imediatamente se arrependeu.

Aproximou-se da janela.

— Ei.

Bella olhou.

— Faz alguma coisa boa com essa segunda chance.

Bella assentiu.

— Vou tentar.

Alice beijou os dedos e tocou a testa dela.

Depois olhou para Elena.

— Volta para mim.

Elena sentiu os olhos encherem.

— Um dia.

— Promete?

A palavra.

Sempre aquela palavra.

Elena sorriu entre lágrimas.

— Não.

Alice arregalou os olhos.

Elena segurou sua mão.

— Mas vou tentar.

Alice entendeu.

E sorriu.

Elena subiu o vidro.

Ligou o carro.

Partiu.


Durante as primeiras horas, Bella dormiu.

Elena agradeceu.

Precisava do silêncio.

A estrada se estendia diante dela enquanto Nova York ficava cada vez mais distante.

Ela dirigia.

E pensava.

Em Jacob.

Naturalmente.

Tentara não pensar.

Fracassara antes de cruzar o primeiro pedágio.

Lembrou-se da primeira vez que o viu.

Do susto.

Do retrato de Billy.

Você conversava com o retrato do meu pai?

Elena sorriu sozinha.

Depois o sorriso desapareceu.

Lembrou-se da cozinha.

Dos cafés.

Das discussões.

Das passas.

De Seth.

Daquela noite na casa de Jacob.

Eu não quero saber de mais nada triste hoje.

Ela deveria ter contado mesmo assim?

Sim.

A resposta agora era fácil.

Deveria.

Mas, naquela noite, quando vira o homem diante dela quebrado pela segunda derrota, tudo que quisera era dar a ele algumas horas em que nada doesse.

Então o beijara.

Ou ele a beijara.

Os dois.

Já nem importava.

Lembrou-se de fugir.

Do telefonema de Rosalie.

Do restaurante.

Do investimento.

Da dança.

E se ninguém vier amanhã?

Eu venho.

Elena apertou o volante.

— Idiota — sussurrou.

Bella acordou.

— O quê?

— Nada.

— Você chamou alguém de idiota.

— Chamei.

— Jacob?

Elena olhou rapidamente para ela.

— Dorme.

— Então era.

— Isabella.

Bella voltou a encostar a cabeça.

— Você ainda ama ele.

Elena permaneceu olhando para a estrada.

— Amo.

Bella ficou quieta.

— Mesmo depois do que ele disse?

Elena sabia exatamente a que se referia.

— Mesmo.

— Eu não entendo.

— Nem eu.

Silêncio.

— Ele vai perdoar você?

Elena sentiu o peito apertar.

— Não sei.

— Você quer?

Demorou para responder.

— Quero.

— Então por que estamos indo embora?

Elena olhou a estrada.

— Porque querer que alguém perdoe você não significa que pode ficar parada esperando.

Bella virou-se para ela.

— Eu estraguei tudo.

— Não.

— Lena...

— Você fez uma coisa errada.

— Que estragou tudo.

— Não sozinha.

Bella começou a chorar.

— Se eu não tivesse pegado aquele dinheiro...

— Mas pegou.

Bella olhou para ela, surpresa.

Elena respirou.

— E é isso que precisamos aprender.

— O quê?

— Que não adianta passar o resto da vida dizendo “se eu não tivesse”.

A ironia da própria frase quase a fez rir.

Era exatamente o que fizera durante dezoito anos.

Se eu não tivesse pedido o parque.

Se eu não tivesse insistido.

Se eu não tivesse feito birra.

Olhou para Bella.

— Você fez.

A voz ficou suave.

— Eu escondi.

Bella chorou.

— Agora nós vamos viver com o que aconteceu.

— E se Jacob nunca falar com você de novo?

Elena sentiu uma lágrima descer.

— Então eu vou amar ele de longe.

Bella fechou os olhos.

— Isso é horrível.

Elena soltou uma pequena risada.

— É.

— Você poderia mentir.

— Sobre o quê?

— Dizer que vai esquecer.

Elena pensou.

— Estou cansada de mentir.


Horas depois, Bella dormia novamente.

Elena dirigia.

A estrada parecia infinita.

Pensou em Seth.

Aquilo doía de maneira diferente.

Sentiria falta dele.

Do cabelo bagunçado.

Do dinossauro.

Da maneira como corrigia qualquer pessoa que dissesse que tinha cinco anos.

Cinco e meio.

Elena sorriu.

Depois chorou.

— Cuida dele, Jacob — sussurrou.

Sabia que cuidaria.

Pensou então na última vez que vira Jacob.

Não nos beijos.

Não na dança.

Na raiva.

Talvez ainda acredite que seus pais morreram porque você pediu para ir àquele parque.

Elena apertou os dedos no volante.

Durante dois dias, aquelas palavras a destruíram.

Agora, na estrada, começou a olhar para elas de outro modo.

Jacob estava errado em usá-las para feri-la.

Profundamente errado.

Mas talvez houvesse uma verdade escondida sob a crueldade.

Ela ainda acreditava.

Ainda se culpava.

Por uma decisão tomada aos seis anos.

Talvez fosse hora de voltar para a Flórida e finalmente visitar aquela menina.

Não literalmente.

Ela sabia.

A menina não estava mais lá.

Mas talvez precisasse voltar ao lugar onde tudo começara e dizer a si mesma:

Você era uma criança.

Sentiu as lágrimas.

— Você era uma criança — falou em voz alta.

Bella se mexeu, mas não acordou.

Elena repetiu.

— Você era uma criança.

Dessa vez, acreditou um pouco.

Foi quando percebeu que o pedal do freio estava estranho.

Franziu a testa.

Pisou levemente.

Nada.

O coração acelerou.

Tentou novamente.

O pedal desceu.

Sem resposta.

— Não.

Endireitou o corpo.

Pisou outra vez.

Nada.

— Não, não, não.

Bella acordou.

— O que foi?

Elena olhou para frente.

O tráfego.

Uma curva adiante.

— Coloca o cinto direito.

— O quê?

— BELLA, COLOCA O CINTO!

Bella imediatamente puxou o cinto.

— O que aconteceu?

Elena pressionou o freio.

Nada.

— O freio.

— O quê?

— Não está funcionando.

Bella empalideceu.

— Lena...

Elena reduziu.

Tentou controlar o carro.

— Fica calma.

— Você está mandando eu ficar calma?!

— BELLA!

O carro ganhou velocidade na descida.

Elena tentou o freio outra vez.

Nada.

— Meu Deus.

— Lena!

— Segura!

Havia um caminhão à frente.

Elena virou o volante.

O carro atravessou a faixa.

Uma buzina.

Gritos.

Bella segurou o painel.

— ELENA!

Elena tentou desviar.

Guard-rail.

Metal.

Vidro.

O mundo girou.

Por um segundo impossível, Elena não estava mais naquela estrada.

Tinha seis anos.

Chovia.

Renée gritava.

Charlie segurava o volante.

O carro girava.

Papai.

Mas agora era ela ao volante.

Agora Bella estava ao lado.

— BELLA!

O impacto veio.

Violento.

Depois outro.

Vidro explodiu.

Metal se dobrou.

O carro girou novamente.

E parou.

Silêncio.

Elena ouviu um som distante.

Talvez fosse uma buzina.

Talvez fosse seu próprio coração.

Tentou respirar.

Dor.

Muita dor.

Virou a cabeça.

— Bella...

Nenhuma resposta.

— Bella.

A irmã estava imóvel.

— Não.

Elena tentou mover o braço.

Não conseguiu.

— Bella.

Sangue.

— Não.

A palavra saiu quase sem voz.

— Não faz isso.

Tentou alcançar a irmã.

Os dedos não chegaram.

— Bella...

Os olhos dela estavam abertos.

Imóveis.

Elena sentiu o mundo desaparecer.

— NÃO!

O grito saiu rasgado.

— BELLA!

Nenhuma resposta.

— Eu estou aqui!

Tentou soltar o cinto.

Não conseguiu.

— Eu estou aqui, meu amor.

Lágrimas misturavam-se ao sangue em seu rosto.

— Olha para mim.

Nada.

— Bella, olha para mim!

Sirene.

Vozes.

Passos.

— Senhora, consegue me ouvir?

— Minha irmã.

— Não se mexa.

— Minha irmã!

— Os paramédicos estão verificando.

— BELLA!

Alguém segurou o rosto de Elena.

— Olhe para mim.

— Eu prometi.

— Senhora...

— Eu prometi cuidar dela.

A visão começou a escurecer.

— Bella...

A última coisa que Elena viu foram os olhos da irmã.

Abertos.

E então não viu mais nada.


*****

Emmett estava sentado diante da mesa de Jacob quando o telefone tocou.

Até aquele instante, a manhã havia sido banal.

Dolorosamente banal.

Jacob tinha três relatórios abertos diante de si, um café já frio ao lado do computador e uma planilha na tela que relia havia quase dez minutos sem absorver uma única linha. Desde que Elena fora embora, descobrira que trabalhar era diferente de conseguir se concentrar. Ele ainda chegava cedo, ainda respondia mensagens, ainda assinava documentos e entrava em reuniões. Para qualquer pessoa que olhasse de fora, Jacob Black continuava exatamente o mesmo.

Mas não estava.

Dormia pouco.

Comia porque Sue praticamente o obrigava.

E havia adquirido o hábito irritante de olhar para o celular sempre que ele vibrava, embora soubesse que Elena não ligaria.

Não depois daquela noite.

Não depois do distrato.

Não depois de tudo.

Emmett dizia alguma coisa sobre um fornecedor quando o próprio telefone começou a tocar.

Ele o retirou do bolso.

— Rosalie.

Jacob não levantou os olhos.

— Atende.

— Achei que você fosse reclamar.

— Por quê?

— Porque estamos trabalhando.

— Você nunca considerou isso impedimento antes.

Emmett sorriu.

— Verdade.

Atendeu.

— Oi, linda.

Jacob voltou os olhos para o relatório.

— Se estiver ligando para reclamar daquele fornecedor de vinhos, eu já disse que...

Emmett parou.

Jacob continuou olhando para a tela.

Não percebeu imediatamente.

— Rose?

Foi a mudança na voz que o fez levantar os olhos.

Emmett não estava mais sorrindo.

— Rosalie, calma.

Jacob franziu a testa.

Do outro lado da linha, mesmo a distância, era possível ouvir alguma coisa.

Uma voz.

Choro.

Jacob largou a caneta.

Emmett levantou-se.

— Eu não estou entendendo. Fala devagar.

Jacob observou o rosto do amigo perder a cor.

Uma sensação estranha percorreu seu corpo.

Ainda não era medo.

Era apenas o reconhecimento de que alguma coisa estava errada.

— O que aconteceu? — perguntou.

Emmett ergueu uma das mãos, pedindo silêncio.

— Quando?

Pausa.

— Onde?

Jacob levantou-se.

— Emmett.

O amigo não respondeu.

— Qual hospital?

A palavra atingiu Jacob antes de qualquer nome.

Hospital.

Seu coração bateu mais forte.

— Quem está no hospital?

Emmett virou-se.

Os olhos dos dois se encontraram.

E alguma coisa no rosto dele fez Jacob sentir o primeiro golpe verdadeiro de medo.

— Emmett.

Nenhuma resposta.

— Quem?

Emmett engoliu em seco.

— Jacob...

— Quem está no hospital?

Rosalie continuava falando do outro lado.

Emmett fechou os olhos por um instante.

Quando os abriu, olhou diretamente para ele.

— Elena.

Jacob não reagiu.

Não de imediato.

A palavra chegou aos seus ouvidos, mas pareceu não encontrar lugar dentro dele.

— O quê?

— Elena sofreu um acidente.

Jacob continuou olhando para Emmett.

Imóvel.

— Não.

Emmett respirou fundo.

— Ela estava viajando com Bella e...

— Não.

— Jacob...

— Elena não está viajando.

Emmett ficou em silêncio.

Jacob parecia genuinamente confuso.

— Ela está em Nova York.

Foi então que percebeu.

Não sabia onde Elena estava.

Não sabia o que ela fizera nos últimos dois dias.

Não sabia que havia decidido partir.

Porque já não fazia parte da vida dela.

— Para onde ela estava indo?

Emmett apertou o telefone contra o ouvido.

— Rosalie disse que elas estavam voltando para a Flórida.

— Voltando?

— Elena nasceu lá.

Jacob sabia disso.

Em algum lugar da memória, sabia.

Mas nada parecia fazer sentido.

— Quando ela foi embora?

— Hoje.

— Não.

Jacob balançou a cabeça.

— Eu não sabia.

Era uma frase inútil.

Mesmo assim repetiu:

— Eu não sabia.

Emmett deu um passo na direção dele.

— Jacob...

— Que acidente?

— De carro.

E o mundo pareceu inclinar.

Jacob segurou a borda da mesa.

Carro.

A palavra encontrou imediatamente outra memória.

Chuva.

Parque.

Charlie.

Renée.

Elena aos seis anos.

Ele empurrou a lembrança para longe antes que pudesse se formar.

— Ela está bem?

Emmett não respondeu.

Jacob olhou para ele.

— Emmett.

O silêncio permaneceu.

— Ela está bem?

— Eu estou tentando entender.

Jacob estendeu a mão.

— Me dá o telefone.

— Espera.

— Me dá.

Emmett entregou.

Jacob levou o aparelho ao ouvido.

— Rosalie?

Do outro lado, ouviu apenas choro.

— Rosalie.

Nada.

A mão começou a tremer.

— Sou eu.

— Jacob...

A voz dela estava destruída.

Ele fechou os olhos.

— Onde está Elena?

— No hospital.

— Eu sei. Como ela está?

Rosalie soluçou.

— Rose, fala comigo.

Silêncio.

— Ela está acordada?

Outra pausa.

Longa demais.

— Rosalie.

— Não.

Jacob abriu os olhos.

— O quê?

— Ela não está acordada.

— Então acorda ela.

Rosalie chorou ainda mais.

Jacob sequer percebeu o absurdo do que dissera.

— Jacob...

— Chama o médico. Faz alguma coisa.

— Eles estão fazendo.

— Então por que ela não está acordada?

Emmett fechou os olhos.

A voz de Rosalie saiu quase incompreensível:

— Porque ela está em coma.

Jacob ficou completamente imóvel.

Nenhuma expressão.

Nenhuma palavra.

Apenas silêncio.

— Jacob?

Ele continuou com o telefone junto ao ouvido.

— Jacob, você está me ouvindo?

— Coma?

— Sim.

— Não.

Foi tudo o que conseguiu dizer.

Rosalie tentou explicar.

Traumatismo.

Cirurgia.

Estado grave.

Exames.

Observação.

Jacob não absorveu nada.

As palavras passavam por ele sem permanecer.

— Mas ela vai acordar.

Não foi uma pergunta.

Rosalie chorou.

— Eles não sabem ainda.

Jacob franziu a testa.

— Não. Você não entendeu.

A voz estava estranhamente calma.

— Pergunta de novo.

— Jacob...

— Pergunta para o médico quando ela vai acordar.

— Eles não sabem.

— Então pergunta para outro médico.

Emmett aproximou-se.

— Jacob...

Ele afastou a mão do amigo.

— Ela vai acordar.

Ninguém respondeu.

— Ela vai acordar.

Dessa vez havia desespero.

— Ela estava dirigindo?

Rosalie demorou.

— Estava.

Jacob fechou os olhos.

— E Bella?

O silêncio do outro lado mudou.

Até aquele momento, o medo tinha um nome.

Elena.

De repente, Jacob percebeu que havia outro.

— Rose?

Rosalie chorou.

— Onde está Bella?

Nenhuma resposta.

— Ela também está no hospital?

Rosalie tentou falar.

Não conseguiu.

Jacob sentiu um frio subir pela coluna.

— Rosalie.

— Jacob...

— Ela está em cirurgia?

Silêncio.

— Está machucada?

Rosalie soluçou.

— Fala comigo.

— Bella não resistiu.

Jacob ficou olhando para o vazio.

A frase não fez sentido.

— O quê?

— Bella morreu.

Nada.

Jacob não piscou.

Não respirou.

Não se moveu.

Emmett observou o amigo permanecer completamente imóvel, como se o corpo tivesse esquecido o que deveria fazer.

— Jacob?

O telefone começou a escorregar de seus dedos.

Emmett conseguiu segurá-lo antes que caísse.

Jacob continuou olhando para frente.

— Ela morreu?

A pergunta não era para ninguém.

Emmett colocou o celular sobre a mesa.

— Jacob...

— Bella morreu?

— Sim.

Jacob balançou a cabeça.

Uma vez.

Muito lentamente.

— Não.

Passou alguns segundos em silêncio.

— Não.

Olhou para Emmett.

— Ela tem dezoito anos.

Emmett não respondeu.

— Bella tem dezoito anos.

Era como se a idade pudesse corrigir a informação.

Como se pessoas de dezoito anos não pudessem morrer.

— Eu sei.

— Não, você não está entendendo.

Jacob apontou para o telefone.

— Ela tem dezoito anos.

A voz começou a falhar.

— Ela... ela estava na faculdade.

Emmett sentiu os próprios olhos arderem.

— Eu sei.

Jacob olhou ao redor.

Para a mesa.

Para o computador.

Para os papéis.

Tudo estava exatamente onde estivera cinco minutos antes.

Aquilo parecia obsceno.

O mundo deveria ter mudado.

Alguma coisa deveria ter quebrado.

Mas o café continuava sobre a mesa.

A tela continuava acesa.

Havia carros passando do lado de fora.

Pessoas trabalhando.

E Bella estava morta.

Elena estava em coma.

— Eu preciso...

Jacob parou.

Emmett esperou.

— Eu preciso...

Não sabia o que precisava fazer.

Aquilo era novo.

Jacob sempre sabia.

Quando Rebecca e Salomon sofreram o acidente, ele soubera que precisava ir ao hospital.

Quando morreram, soubera que precisava cuidar de Seth.

Quando Irina entrou com a ação, soubera que precisava de Leah.

Quando havia um problema na empresa, encontrava uma solução.

Sempre existia uma próxima ação.

Agora não havia.

— Onde estão minhas chaves?

Emmett olhou para a mesa.

As chaves estavam diante dele.

— Aqui.

Jacob olhou.

Não as pegou.

— Preciso ir ao hospital.

— Sim.

— Qual hospital?

Emmett disse o nome.

Jacob assentiu.

Dois segundos depois:

— Qual hospital?

Emmett repetiu.

Jacob pegou as chaves.

Elas caíram de sua mão.

Ele olhou para o chão.

Não se abaixou.

Ficou apenas olhando.

Emmett pegou-as.

— Eu vou com você.

— Não.

— Jacob.

— Eu preciso ir.

— Nós vamos.

— Preciso chegar lá.

— Eu vou levar você.

— Eu sei dirigir.

— Eu sei.

— Então me dá a chave.

— Não.

Jacob olhou para ele.

Pela primeira vez, havia alguma coisa quase infantil em sua expressão.

Perdida.

— Por quê?

Emmett engoliu em seco.

— Porque você está em choque.

Jacob pareceu considerar aquilo.

Depois olhou para as próprias mãos.

Tremiam.

— Eu estou bem.

— Não está.

— Preciso estar.

— Não precisa.

A frase o atingiu.

Jacob sentou-se abruptamente.

Não porque quisesse.

As pernas simplesmente deixaram de sustentá-lo.

Emmett ficou diante dele.

— Respira.

Jacob apoiou os cotovelos nos joelhos.

Levou as mãos à cabeça.

— Ela estava indo embora.

Emmett permaneceu quieto.

— Ela estava indo embora de Nova York.

— Sim.

— Por quê?

Emmett sabia.

Não precisava responder.

Jacob também sabia.

— Por minha causa.

— Não.

Jacob levantou a cabeça.

— Ela saiu do restaurante.

— Porque você estava ferido.

— Eu tirei ela de lá.

— Isso não causou o acidente.

— Depois ela foi embora da cidade.

— Você não mandou Elena sair de Nova York.

— Mas ela foi.

— Isso não torna o acidente sua culpa.

Jacob ficou imóvel.

A palavra ecoou.

Culpa.

E, então, veio a lembrança.

Não como pensamento.

Como golpe.

Elena diante dele no restaurante.

Chorando.

Eu tinha seis anos.

A voz dele.

Furiosa.

Cruel.

Talvez ainda acredite que seus pais morreram porque você pediu para ir àquele parque.

Jacob fechou os olhos.

Seu rosto mudou.

Emmett percebeu.

— O que foi?

Jacob não respondeu.

A lembrança continuou.

Eu acredito.

Elena dissera aquilo.

Não gritara.

Não discutira.

Apenas:

Eu acredito.

Jacob levantou-se tão rápido que a cadeira deslizou para trás.

— Não.

Passou a mão pelo rosto.

— Não, não, não...

— Jacob.

Ele começou a andar.

Dois passos.

Voltou.

— Eu disse aquilo para ela.

— O quê?

Jacob olhou para Emmett, mas parecia não enxergá-lo.

— Na última vez que nós brigamos.

A respiração ficou curta.

— Ela me contou sobre o acidente.

— Dos pais?

Jacob assentiu.

— Ela tinha seis anos.

Emmett ficou quieto.

— Pediu para ir a um parque. Estava chovendo. Ela insistiu.

Jacob engoliu em seco.

— Eles sofreram o acidente voltando.

Emmett começou a compreender.

— E ela acha que foi culpa dela.

Jacob soltou uma risada quebrada.

— Acha?

Os olhos se encheram.

— Ela passou a vida inteira acreditando nisso.

Emmett não disse nada.

— E eu sabia.

A primeira lágrima caiu.

Jacob não percebeu.

— Eu sabia.

Outra.

— Ela confiou isso em mim.

A voz falhou.

— E quando fiquei com raiva...

Parou.

Não conseguiu terminar.

Emmett aproximou-se.

— Jacob.

— Eu usei contra ela.

— Você estava ferido.

Jacob virou-se violentamente.

— NÃO FAZ ISSO.

Emmett parou.

— Não me dá uma desculpa.

A voz de Jacob tremia.

— Não existe desculpa.

Passou as duas mãos pelo rosto.

— Eu sabia exatamente onde machucar.

Silêncio.

— E machuquei.

Jacob começou a chorar.

Não havia controle.

Não havia tentativa de esconder.

— Eu queria que ela sentisse.

A confissão saiu quase inaudível.

— Eu estava tão... tão...

Não encontrou palavra.

— Seth estava longe. Ela tinha mentido. Eu olhei para ela e queria que ela entendesse o que tinha feito comigo.

Fechou os olhos.

— Então peguei a pior coisa que ela já me contou e usei para ferir ela.

Emmett respirou fundo.

— E agora aconteceu outro acidente.

Jacob levou a mão à boca.

Foi quando realmente entendeu.

Outro carro.

Outra pessoa que Elena amava.

Outra morte.

E Elena ao volante.

— Bella estava do lado dela.

Emmett não respondeu.

Jacob empalideceu ainda mais.

— Ela estava dirigindo.

— Jacob...

— Elena estava dirigindo.

— Sim.

Ele recuou.

Bateu na mesa.

Nem percebeu.

— Não.

Emmett tentou aproximar-se.

— Não.

Jacob levantou a mão.

— Não fala.

Precisava pensar.

Mas pensar era justamente o que não conseguia fazer.

Imagens que nunca vira começaram a surgir.

Elena ao volante.

O impacto.

Bella.

Sangue.

Elena acordada dentro do carro.

Talvez chamando pela irmã.

Talvez vendo Bella morrer.

— Ela viu?

Emmett franziu a testa.

— O quê?

— Bella.

Jacob mal conseguiu dizer o nome.

— Elena viu ela morrer?

— Eu não sei.

— Rosalie sabe?

— Não.

— Pergunta.

Emmett não se moveu.

— Pergunta!

— Jacob, agora isso não...

— EU PRECISO SABER!

A voz quebrou no fim.

Ele levou as mãos à cabeça.

— Porque se ela viu...

Não conseguiu continuar.

Emmett entendeu.

Jacob sentou-se novamente.

Dessa vez curvado.

— Quando ela acordar...

A frase morreu.

Silêncio.

Jacob levantou os olhos.

Havia terror verdadeiro neles.

— Ela vai acordar, não vai?

Emmett sentiu o peito apertar.

— Os médicos estão cuidando dela.

— Não foi o que perguntei.

Emmett não podia prometer.

Jacob percebeu.

A expressão dele desmoronou.

— Meu Deus.

Cobriu o rosto.

— Meu Deus.

Emmett colocou uma mão em seu ombro.

Dessa vez Jacob não afastou.

— Eu não posso perder ela.

Era a primeira vez que dizia.

Não Elena não pode morrer.

Não ela precisa acordar.

Mas:

— Eu não posso perder ela.

Emmett apertou seu ombro.

— Então vamos chegar até ela.

Jacob balançou a cabeça.

— Ela não vai querer me ver.

— Isso importa depois.

— Eu disse aquelas coisas.

— Depois.

— Tirei ela do restaurante.

— Depois.

— Ela foi embora por minha causa.

— Jacob, olha para mim.

Ele não conseguiu.

— Olha para mim.

Jacob finalmente levantou os olhos.

— Agora só existe uma coisa que você pode fazer.

— O quê?

— Ir.

Jacob respirou.

Ir.

Era uma ação.

Finalmente.

Uma coisa concreta.

— Sim.

Levantou-se.

— Vamos.

Deu dois passos.

Parou.

— Seth.

Emmett franziu a testa.

— O que tem Seth?

— Eu preciso...

Jacob olhou ao redor novamente.

Confuso.

— Preciso avisar alguém. Sue. Leah. Paul. Eu...

— Eu cuido disso.

— Não. Eu tenho que...

— Jacob.

Emmett segurou seus ombros.

— Eu cuido.

Jacob olhou para ele.

Demorou alguns segundos para aceitar.

Então assentiu.

— Certo.

Foram em direção à porta.

Jacob parou outra vez.

Olhou para a mesa.

O distrato ainda estava numa pasta próxima ao computador.

Aquele papel.

A assinatura dela.

Elena Swan.

A prova física de que, dois dias antes, ele quisera arrancá-la de uma parte da própria vida.

Jacob caminhou de volta.

Pegou o documento.

Ficou olhando.

— O que está fazendo? — Emmett perguntou.

Jacob passou o polegar pelo nome dela.

— Dois dias atrás eu achei que a pior coisa que podia acontecer era não conseguir confiar nela.

Sua voz estava vazia.

— Achei que precisava tirar Elena da minha vida para conseguir respirar.

Olhou para Emmett.

— Agora eu daria qualquer coisa para voltar para aquela noite.

Emmett não respondeu.

Jacob largou o documento.

— Qualquer coisa.


No elevador, Jacob permaneceu encostado à parede.

Não falava.

Emmett fazia ligações.

Paul.

Sue.

Passagens.

Hospital.

Jacob ouvia palavras soltas sem realmente acompanhá-las.

Então fechou os olhos.

E viu Elena.

Não a Elena chorando no restaurante.

Não a Elena que assinara o distrato.

A Elena da cozinha.

Rindo.

Com farinha no rosto.

Discutindo sobre passas.

Chamando sua casa de ofensiva porque tinha seis banheiros.

Conversando com o retrato de Billy.

Depois outra imagem.

Elena na noite da dança.

E se ninguém vier amanhã?

Eu venho.

Ele tinha prometido presença sem perceber.

E não estivera lá quando ela partira.

Jacob abriu os olhos.

— Emmett.

O amigo interrompeu a ligação.

— O quê?

— E se ela não acordar?

Emmett ficou em silêncio.

Jacob olhou para frente.

— Eu não disse que amava ela.

A voz era quase um sussurro.

— Ela disse.

Emmett ouviu.

— Naquela noite. Quando brigamos. Ela disse que me amava.

Jacob engoliu em seco.

— E eu mandei ela não dizer.

As portas do elevador se abriram.

Ele não saiu.

— Jacob.

— E se essa tiver sido a última conversa?

Emmett sentiu os olhos arderem.

— Não pensa nisso agora.

— Como não?

Jacob finalmente olhou para ele.

— E se a última coisa que Elena souber sobre o que eu sinto por ela for que foi a minha maior decepção?

A voz desapareceu no final.

Emmett não tinha resposta.

Jacob saiu do elevador.

Caminhou alguns passos pelo saguão.

Então parou novamente.

Levou a mão à boca.

— Bella morreu.

Era como se tivesse esquecido por alguns minutos.

E lembrado outra vez.

Emmett ficou ao lado dele.

— Sim.

Jacob fechou os olhos.

— Quando Elena acordar, a irmã dela não vai estar lá.

A lágrima desceu.

— Ela vai perguntar.

Emmett não respondeu.

— Vai acordar e perguntar por Bella.

Jacob respirou com dificuldade.

— Quem vai contar?

Silêncio.

— Como alguém conta uma coisa dessas para ela?

Emmett tocou seu ombro.

— Um passo de cada vez.

Jacob balançou a cabeça.

— Ela vai se culpar.

Agora não havia dúvida na voz.

— Eu conheço Elena. Ela vai acordar, descobrir que Bella morreu enquanto ela dirigia e vai fazer exatamente o que fez aos seis anos.

Emmett permaneceu ao lado dele.

— Vai procurar uma coisa que fez. Uma decisão. Uma curva. Um segundo. Qualquer coisa.

Jacob sentiu o rosto se contrair.

— E vai transformar aquilo numa sentença.

A compreensão era insuportável.

— E eu ensinei para ela que estava certa.

— Não.

Jacob olhou para Emmett.

— Foi isso que fiz.

— Você disse uma coisa cruel numa discussão. Isso não transforma em verdade a culpa que Elena carrega.

— Mas ela acreditava em mim.

Emmett não respondeu.

— Esse é o problema.

Jacob limpou o rosto com a mão.

Inútil.

As lágrimas continuaram.

— Se ela acordar e me odiar, eu aceito.

Emmett ficou em silêncio.

— Se nunca me perdoar, eu aceito.

A voz falhou.

— Se disser que nunca mais quer me ver...

Respirou fundo.

— Eu vou embora.

Então fechou os olhos.

— Mas ela precisa acordar para poder me mandar embora.

Emmett apertou seu ombro.

Jacob permaneceu ali mais alguns segundos.

Depois começou a andar novamente.

Não porque estivesse melhor.

Não estava.

Não porque soubesse o que faria quando chegasse ao hospital.

Não sabia.

Não sabia o que diria.

Não sabia se Elena sobreviveria.

Não sabia como olharia para ela.

Não sabia como suportaria vê-la imóvel.

Não sabia como alguém diria que Bella estava morta.

Pela primeira vez em muitos anos, Jacob Black não tinha um plano.

Tinha apenas medo.

Culpa.

E uma necessidade quase desesperada de chegar até Elena enquanto ainda existia a possibilidade de que ela abrisse os olhos.

Já perto da saída, ele parou uma última vez.

Emmett esperou.

Jacob olhou para ele.

Completamente perdido.

— Eu não sei o que fazer.

Emmett não tentou tranquilizá-lo.

Não disse que tudo ficaria bem.

Apenas respondeu:

— Então fica perto dela até descobrir.

Jacob baixou os olhos.

Aquilo ele conseguia fazer.

Talvez fosse a única coisa.

Saiu do prédio ao lado de Emmett com uma única frase repetindo dentro da cabeça, no ritmo descontrolado do próprio coração.

Acorda.

Acorda.

Acorda, Elena.

E, pela primeira vez, Jacob compreendeu que algumas coisas não podiam ser consertadas com dinheiro, influência, advogados, contratos ou decisões.

Algumas coisas só podiam ser pedidas.

E ele não sabia a quem pedir.

Mesmo assim, pediu.

Em silêncio.

Desesperadamente.

Por favor.

Não leva ela também.