O Outro Lado
1 PRÓLOGO
PRÓLOGO
Debruçada nas barras pintadas de vermelho, Molly olhava de forma pensativa para as águas escuras do rio que circulavam a ponte vermelha. Os seus pensamentos a envolviam da mesma forma que as ondulações contornavam a projeção da lua, que se atrevia a adentrar o território delas. E como se tivesse dentro daquele rio escuro, se viu sufocada pelo turbilhão de sugestões que surgiam.
Por um momento, parecia loucura considerar a ideia de acabar com a sua existência. Ela tinha vindo até a ponte para pensar melhor na opção que iria tomar. Mas, daquele ponto de vista, as águas pareciam tão hostis. Principalmente com aqueles que se atreviam a se jogar em seu abraço gélido. Um abraço que muitos haviam recebido.
Naquela hora da noite, a ponte era movimentada. Os motoristas estavam com pressa suficiente. Eles não tinham tempo para se preocuparem com uma garota debruçada sobre as barras de ferros, mesmo que elas fossem o limite da existência de muitas pessoas.
Esse fato incomodou Molly por certo momento. Mas ela percebeu que, assim como ela, existia gente ferida por toda parte. E como sabia que a dor tinha o poder de cegar totalmente as pessoas, a sua irritação foi desaparecendo sutilmente.
Ela suspirou fundo e uma fumaça branca saiu de suas narinas. Molly abraçou o próprio corpo em busca de um conforto caloroso, mas tudo que sentia era suas articulações doerem. O desconforto nos seus ombros implorava para que ela desfizesse aquela ação. Parecia que o mundo inteiro estava em seus ombros.
Mas não está?, ela pensou.
Faróis muito intensos em sua direção retiraram o enfoque dos seus pensamentos. Ela notou que um carro havia parado ao seu lado. Para evitar uma noite desagradável, já estava preparando uma desculpa. Algo sobre esfriar a cabeça sobre as águas da ponte vermelha, e nada mais.
Mas quando percebeu o rosto conhecido que desembarcou do automóvel, todos os seus planos caíram por terra.
Ao perceber um certo par de olhos castanhos observando-a com curiosidade, Molly coçou a sua cabeça com certa timidez. Ela suspirou com pesar, e levou os seus olhos ao chão, fixando em seu coturno negro.
Estava pensando em como admirou por tanto tempo aqueles olhos castanhos. Como a sombra deles havia trazido uma onda massiva de problemas.
— Molly! – o rapaz de melenas loiras sorriu para ela – Que surpresa! O que você está fazendo aqui?
Molly fixou pela primeira vez os olhos naquele sujeito. Uma pontada de incredulidade roeu o seu peito, enquanto reunia palavras para responder aquela pergunta.
Certa de suas palavras, ela buscou disfarçar o choque que sentiu com um sorriso sarcástico.
— É uma grande surpresa te ver por aqui, Benn. Parece que não nos vemos há décadas.
Com um toque de constrangimento, ele formou um sorriso em seus lábios.
— E foi quase uma década, Molly! Quanto tempo se passou... Muita coisa mudou por fora e... – Hesitante, ele coçou os fios loiros – por dentro.
— Oh, que surpresa! Não sabia que pessoas como você podem mudar – ela se permitiu dizer aquilo que estava sentindo por muito tempo.
— Molly, eu...
— Você me causou muita dor, Benn. É muito ousado da sua parte se dirigir a mim depois de tudo que você fez.
— Eu... eu me arrependo muito do que fiz a você, Molly! Eu era um idiota.
— Eu sei, e por isso decidi me afastar de você e te odiar pelo resto da minha vida. Você me expôs para o colégio e o resto do mundo, e a minha vida nunca mais foi a mesma depois daquelas fotos que te mandei.
— Mas... Eu apaguei as fotos do meu celular, de todas as conversas que tive. Eu pedi para que parassem de compartilhar! Ordenei, ameacei e até briguei.
—Mas não apagou a dor dentro de mim, seu idiota – Molly gritou com um ímpeto de fúria.
Irritada, ela virou os calcanhares e começou a andar em direção a outro ponto da ponte vermelha. Com lágrimas em seus olhos, Molly transformou os seus passos em saltos. Correndo em alta velocidade, ela se distanciava do seu antigo conhecido com desespero. O vento gelado tocava-lhe o cabelo rosa, e a blusa amarrada em seu quadril se soltou dele, ficando pelo caminho que era traçado.
Benn seguiu os seus passos, sendo mais veloz do que ela. Embora tivesse dificuldade em respirar, procurou acelerar a sua corrida até a garota. Empenhando força em suas pernas, ele conseguiu chegar até ela e segurou-lhe o antebraço.
— Molly, me escute!
— Saia de perto de mim, seu... traidor!
— Molly! – ele segurou o rosto dela com as suas mãos, mantendo os olhares conectados – Você precisa me perdoar. Pelo seu bem, pelo meu bem. Eu... imploro, Molly.
— Eu jurei que iria te odiar pelo resto da minha vida – Molly disse com os olhos cheios de lágrimas – Você me traiu! Até hoje as pessoas compartilham aquelas fotos que confiei a você... E... você me traiu.
— Eu sei! Eu... eu... Não posso reverter o passado. Mas preciso muito fazer algo, e necessito do seu perdão, Molly – ele ficou em um estado agitado, fazendo as suas mãos tremerem.
— Você vai fazer mais daquelas viagens ao exterior, não é? Você quer ter paz para viajar, Benn? Quer descansar em algum lugar paradisíaco enquanto sofro as consequências da sua imaturidade? É sério?!
— Não! Você não está entendendo, Molly. Eu preciso que me perdoe. Tenho certeza de que não te encontrei aqui, na ponte, em vão.
— Deixe-me em paz!
— Molly – Benn soltou as mãos de seu rosto e se inclinou diante dela, colocando um joelho após o outro – Eu imploro o seu perdão. É tudo o que preciso nessa vida. Dê uma chance a esse miserável aqui. Por favor, Molly!
Ao visualizar Benn de joelhos, Molly ficou diante do seu sonho mais ambicioso. Ela sempre ansiou por aquele dia. Mas naquele momento percebeu que não era isso que ela precisava. Não, não era. Ela descobriu naquele exato momento que os desejos que tinha em relação a Benn eram apenas caprichos vazios.
Localizando a fonte da sua dor, ela colocou a mão no peito. O seu corpo oscilava para frente e para trás, expressando os soluços que estavam presos. Havia algo entalado em sua garganta, e percebeu que não poderia mais conter.
Um grito, um desabafo incompreensível, um uivo de dor... Independente do termo, ela precisava soltar aquilo.
E foi isso que ela fez.
A sua voz ecoou alto, e atmosfera amplificou aquele som doloroso, mas necessário.
Benn se levantou, e ela foi em sua direção, lançando-se com toda a sua força em seus braços. Ainda contra o seu peito, ela não podia conter as lágrimas que faziam os fios rosas colarem em sua face. Ao ouvir um sussurro “Então, você me perdoa?”, ela balançou a cabeça de forma positiva.
Benn olhou para o céu e sorriu aliviado.
— Era tudo o que precisava ouvir, Molly – ele gentilmente a distanciou de seu peito, e fitou os seus olhos – Isso significa... tudo para mim. Tudo. Você não tem noção – após dizer isso, ele soltou uma gargalhada de alegria.
— Aproveite sua viagem – ela disse em um murmúrio quase incompreensível – Mas por agora... Eu preciso de algo para beber. Minha garganta está seca, tenho a sensação de que vou morrer se não beber algo.
No mesmo instante, Benn lançou as mãos em seu bolso, como quem procurava algo. Movimentando os dedos dentro da fresta de tecido, ele explorava o seu bolso, tentando achar algum dinheiro. Após muito estender os dedos e alcançar o que queria, retirou uma nota.
Com os lábios arqueados em um sorriso, ele ofereceu a nota para Molly.
— Compre uma garrafa de água. Você precisa disso, e eu também.
Molly pegou o dinheiro, mas olhou hesitante para ele.
— Não são duas?
— Nah. Uma só basta. Agora... Agora vá.
Molly começou a andar, mas parou ao ouvir Benn chamá-la novamente. Ela se voltou para ele, e observou a figura alta que estava contra a escuridão. Naquele momento, Benn tinha a sua cabeça inclinada, olhando para o chão.
— Não precisa ter pressa. Tenha o tempo que precisar – ele disse.
Atravessando a fileira de carros, Molly alcançou um barzinho próximo. Ela comprou uma garrafinha de água que bebeu de forma desesperada até a metade. A outra metade era para Benn. Ele provavelmente gostaria de um gole.
Com a garrafa nas mãos, Molly voltou até o ponto em que estavam. Ao identificar o local através do carro parado de Benn e blusa estendida no chão, constatou que estava na trilha correta.
Mas a imagem que estava diante dos seus olhos fez com que parasse os passos.
Benn sobre as barras de ferro. Braços abertos. Cabelos ao vento. E apenas um impulso foi capaz de fazer o barulho da queda na água acontecer.
Apenas um impulso, apenas um pulo em direção as águas.
Uma ponte, um lugar, um pedido de perdão que se transformou em uma mancha de culpa.
—Por quê, Benn? – ela gritava atônita em meio a pista de carros – Por que fez isso comigo?
Um grupo de carros parou. Todos os faróis voltados para a garota de cabelo rosa. Um coro de buzinas soava no ar.
— Eu não sabia que isso doía tanto!
Um homem barbudo saiu de seu carro vermelho para retirá-la do caminho. Com as suas mãos impulsionando os passos da garota para fora da pista, Molly se recusava a andar. Ela se recusava a sair dali. Benn tinha que voltar! Benn iria voltar... Certo?!
— A senhora está atrapalhando o trânsito! – uma mulher gritou pela janela do seu carro.
— Ei, sua louca! Saia do meio da pista – um jovem com cabelo espetado gritava irritado.
— Isso é tão injusto. Toda essa dor... É injusta – ela dizia enquanto se rendia pelos empurrões do homem barbudo.
E assim, a fileira de carros que estava impaciente seguiu o seu trajeto. Pessoas em seus automóveis completamente anestesiadas e cegas pela correria, pelos seus afazeres. Mas no meio daquelas fileiras de carros, alguém ousou perturbar padrão.
Uma motocicleta de andar vagaroso e motor barulhento esgueirava-se entre carros e motos, andando em direção à Molly.
Beep beep, a buzina bradou em meio aos carros.
Molly lançou um olhar confuso para o cavalheiro em sua motocicleta. Com certa timidez, limpou as lágrimas dos olhos. Nos seus pensamentos tentava adivinhar se aquilo era fruto da sua mente cansada. Ela chacoalhou a cabeça, tentando fazer com que a imagem do cavalheiro desaparecesse, mas ele continuou lá.
Beep, anunciou novamente a buzina.
— Ei, senhorita! – o rapaz a saudou.
— O que você quer de mim? Tudo que tenho aqui não tem valor algum para você. Vá embora, assalte outra pessoa.
— Talvez você não tenha mesmo, senhorita – ele tirou o capacete, revelando um semblante lívido e moreno – Mas estou aqui para dar, e não para retirar – ele ofereceu outro capacete à Molly.
— Não sei se posso confiar em você.
— Isso é algo natural, senhorita. A confiança é sua, e você escolhe quem a receberá – o capacete continuou estendido.
—Tenho feito as piores escolhas possíveis nos últimos dias. O que seria mais essa? – ela aceitou, e segurou o capacete – Você viu o que acabou de acontecer? Meu amigo se suicidou agora, nesses últimos momentos. E você percebeu que ninguém pareceu se importar?
O cavalheiro fez um aceno silencioso com a cabeça.
— Que tipo mundo é esse? O que deu errado? O que há de errado? – ela perguntou, enquanto olhava para o capacete em suas mãos.
O cavalheiro ainda permaneceu em silêncio.
— Será que existe cura para essa infecção? O mundo precisa ter um botão que permitisse recomeçar.
—Você não pode mudar o que aconteceu... Não pode mudar as pessoas, não pode fazer com que elas saiam da cela que estão – ele disse em um tom sensível, com a voz baixa – Mas... – disse olhando fixo nos olhos de Molly — e se você começasse a lutar por você? Quero dizer... O mundo está em feridas, sim. Mas e se a cura começasse dentro de você?
—E onde está essa medicina? Não fale besteira, meu camarada – Molly colocou o capacete e montou na garupa da sua motocicleta, e deu leves tapinhas em seus ombros – Lidere o caminho, cavalheiro. E antes de partirmos, quero dizer que tenho um canivete comigo. Pense duas vezes antes de tentar algo.
O homem limitou-se a sorrir, preparando-se para partir. E assim, sendo desconhecidos um para o outro, andaram em direção à multidão de carros, sendo engolidos pela multidão de faróis reluzentes.
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