O Olhar
1 O Começo
Durante dois dias no meu colégio, estava acontecendo o Show de Talentos — um projeto que envolve dança, música e cultura. Eu nunca estive tão animada pra participar de algo naquele lugar, já que durante o ano inteiro eu fui rotulada na minha sala como a nerd gostosa. Eu poderia dizer que odiei esse fato, mas adorava o fato dos meninos me olharem diferente, porque quando era pequena eu era um pouco gordinha. Mas o fato de ser chamada de nerd, CDF, santinha me irritava o suficiente para me fazer chorar quando chegava em casa. Era minha chance de mostrar que eu não era tão ingênua assim.
Ninguém sabia que eu existia naquele colégio até me apresentar, sendo a principal no grupo de dança que eu e meu amigo, Rodrigo, formamos durante o meio do ano inteiro. Inclusive, nós ganhamos em primeiro lugar.
Então, tinha um menino chamado Pedro. Ele era um dos mais populares do meu colégio. Todas as meninas da minha sala eram loucas por ele, exceto eu. Sinceramente, eu não via nada demais nele. Mas ele viu alguma coisa em mim. Ele era o tipo de garoto que ficava com todas as meninas e só esse fato me fazia odiá-lo.
Assim que meu grupo terminou de apresentar ele disse exclusivamente para mim:
- Você arrasou! — Com um sorriso no rosto que eu nunca vou esquecer.
Eu era tão imatura, tão boba que apenas isso que ele falou, me fez observá-lo de uma forma diferente. Havia comentários de que ele queria ficar comigo, mas eu nem dei bola. A única coisa que eu sei é que depois da minha apresentação todos passaram a me conhecer. Eu amava aquilo de uma forma imensa, e gostava de ser uma das pessoas populares daquele lugar.
Na festa de encerramento do ano, eu e minhas amigas estávamos nos arrumando e Amanda disse:
- Quem você vai beijar hoje? — De uma forma bem irônica
- Ninguém — Respondi, friamente, mas logo depois disse — Hoje eu só quero dançar.
Fomos para o lugar que estava acontecendo a festa e me lembro que eu odiava o strobo. Saí mil vezes da festa porque aquilo me deixava tonta. Eu estava dançando demais, curtindo demais. Eu amo dançar. Ria com Amanada e Marcela, mas de repente uma mão puxou meu braço e eu quase morri de susto. O strobo atrapalhava ver quem tinha me puxado e eu me lembro que instantaneamente tirei meu braço com força e a pessoa disse:
- Calma, eu não vou te beijar — Reconheci na hora. Era João, o melhor amigo de Pedro. E eu não estava entendendo absolutamente nada. Ele continuou:
- Tenho um amigo que quer ficar com você. Você quer? — Perguntou animado.
- N-não sei, q-quem é? — Gaguejava já tendo a certeza de que era do Pedro que João estava se referindo.
- É ele ali — Me mostrou esperando eu ter alguma reação, mas a primeira coisa que eu fiz foi falar para Amanda e Marcela. Quando eu virei para dar a resposta para João, eu não tive tempo de pensar, de olhar direito, de sentir, de tomar susto. Pedro estava na minha frente e já tinha me puxado para perto dele.
Eu quase desmaiei e senti que o chão sob meu pés tinha caído. O beijo dele tinha sabor de halls vermelho e a boca dele era quente. Eu não sabia que movimento fazer, mas sabia que tinha sido uma das melhores sensações da minha vida. Era como se eu tivesse ido no céu e voltado no instante que ele se afastou de mim. Eu não conseguia pensar direito e depois que ele foi embora, sem dizer absolutamente uma palavra eu saí para pegar o ar que estava faltando.
Me pergunto até hoje como eu me apaixonei por um garoto que apenas me beijou. Sim, foi um dos momentos mais perfeitos, mas eu deveria odiá-lo mais do que antes. Simplesmente aconteceu e quando eu percebi, o colégio todo comentava que eu tinha ficado com ele. Foi maravilhoso até essa parte. Quando as pessoas começam a comentar de você, não se torna algo tão bom. Umas meninas da minha sala passaram a me olhar estranho só por esse fato, e um delas disse que eu só era mais uma que ele beijou.
O ano acabou e eu nunca soube se ele tinha sentido algo por mim, ou se era só eu que tinha sentido demais.
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