Estávamos muito cansados, minhas pernas doíam, muito provavelmente as dele também, parecia que elas iam explodir, nossos corpos não estavam prontos para esse tipo de estresse e minha cabeça doía demais, já estava insuportável, a gente tinha que parar em algum lugar e descansar, mas ainda não estávamos fora da cidade e haviam muitas casas ali, então entramos em uma ao lado de um pequeno prédio, ainda estava inteira, nenhum sinal de destruição dentro dela, apenas algumas coisas jogadas no chão ou provavelmente fora de seus lugares, havia sido vasculhada, talvez em busca de algo importante, mas, não importava o motivo, pelo menos significava que quem quer que tenha feito aquilo não voltaria tão cedo, talvez nem voltasse.

Não havia ninguém na casa. Andamos por todos os cômodos, não encontramos ninguém, e havia pouca comida ainda comestível na dispensa, grande parte estava aberta aparentemente havia vários dias, mas estávamos com muita fome, então pegamos aquilo que ainda parecia estar bom e levantamos as cadeiras e as mesas que estavam caídas, nos sentamos e comemos, foi um dos poucos momentos de paz que tive durante aquele dia que fiquei lá, sempre houve uma tensão sobre mim que não sumia de maneira alguma, uma tensão física e psicológica, mas aquele momento, ah aquele momento, eu me senti tão melhor, tão mais leve, talvez porque havia finalmente parado em um lugar para descansar de verdade, finalmente parado por um momento de verdade.

Assim que terminamos de comer, saímos da cozinha e subimos uma escada até o andar superior da casa, eu já não sentia minhas pernas, mas continuei andando até entrar em um dos banheiros da casa, eu realmente precisava de um banho, estava todo sujo e suado, meu corpo estava muito dolorido, precisava relaxar um pouco, então o fiz, me lavei durante um longo tempo, já me sentia um pouco melhor ao sair do chuveiro, mas ainda muito cansado. Minhas roupas também estavam sujas e fedendo, não poderia usá-las mais uma vez, felizmente haviam algumas roupas no banheiro, roupas de outra pessoa, me senti um pouco culpado ao vesti-las, mas eu precisava daquilo, joguei as roupas sujas no lixo e peguei um casaco dentro da mochila, ainda havia algumas coisas dentro dela, coisas importantes.

Depois que terminei tudo lá dentro, saí do banheiro e me dirigi à um dos quartos da casa, naquele mesmo andar, onde haviam duas camas, o garoto já estava lá dentro, deitado em uma delas, provavelmente foi ao banheiro que havia dentro do quarto, estava com outras roupas e com o cabelo molhado, olhando para a tela de um celular e com o antebraço sobre a testa, eu me perguntei o que ele estava vendo e por que estava assim, mas preferi não me intrometer; "talvez outra hora" foi o que pensei, coloquei a mochila no chão, ao "pé da cama" onde me deitaria e saí do quarto para apagar todas as luzes, deixando apenas a de um corredor acesa. Ao voltar para o quarto, observei que agora ele estava deitado, coberto, virado para a parede, provavelmente já havia dormido, então apaguei a luz do quarto e fechei as cortinas, ainda era meio-dia, mas estava um pouco frio e não queria que alguém nos visse por ali.

Fiquei por algum tempo olhando as cortinas fechadas, olhando o que estava além dela, ao mesmo tempo que encarava o nada, eu estava muito cansado, mal conseguia me mover, até que comecei a andar e fui até a cama, me sentei em sua borda, deixei meu tênis embaixo da cama, me deitei e fiquei encarando aquele teto escuro com os dedos entrelaçados em minha nuca, não conseguia dormir, algo me mantinha acordado, talvez fosse a dor nas minhas costas, nas minhas pernas ou na minha cabeça, eu me sentia muito pesado, mesmo estando tão cansado eu simplesmente não estava conseguindo dormir, e assim permaneci por um tempo.

Eventualmente, eu acabei dormindo, não me lembro exatamente quando, nem como consegui, mas, apenas apaguei, não me lembro de ter sonhado qualquer coisa aquela noite, talvez porque estava cansado demais ou por algum outro motivo, mas pelo menos já me sentia menos cansado e meu corpo já doía menos, minha cabeça já estava menos pesada, ah como eu precisava daquilo, já me sentia muito melhor para continuar seguindo para algum lugar, eu tinha que ir para algum lugar, só não sabia aonde, mas não me importava em buscar o meu passado, acho que sabia que não vou encontrar nada sobre isso por aqui ou em qualquer outro lugar.

Quando finalmente me acordei, quase não conseguia enxergar nada, apenas sentia um vento frio e ouvia o barulho das cortinas balançando, até que vi um pequeno feixe de luz passando entre elas, mas ainda estava longe do Nascer-do-Sol e não era a luz da lua que estava entrando no quarto, mas sim uma luz clara até demais, havia alguém fora da casa, aparentemente só um, pois a luz demorava à retornar, uma vez que passava perto da janela, o que quer que fosse, estava rodeando a casa, e sabia que estávamos ali, pois foi passando cada vez mais lentamente pela nossa janela, apontando a luz mais diretamente.

Eu não ia ficar parado esperando, poderíamos acabar morrendo caso eu ficasse só observando, então me levantei com cuidado da cama, acordei o garoto e disse que ele precisava se arrumar rápido e sem fazer barulho, me virei fui até a cama onde dormi e mais uma vez aquele sentimento de culpa desceu sobre mim, era a cama de outra pessoa, mas não tinha tempo para isso, então afastei esses pensamentos, me sentei novamente na borda da cama, coloquei os tênis nos pés e a mochila nas costas.

Ao ver que o garoto já estava pronto, por algum motivo ele estava com uma mochila cinza nas costas, "pelo menos não vai chamar tanta atenção" foi o que eu havia pensado, então me levantei, andei até a porta e a abri, saímos do quarto e fomos andando até o andar debaixo, e fomos em direção à porta da frente, não tinha como sair por outro lugar além dela, não quando sair pelas janelas era uma péssima ideia, já não conseguíamos ver ou mesmo sentir a luz que estava rodeando a casa.

Ao sairmos, a gente deu de frente com um dos hunters que estava atrás de nós desde a noite anterior, ele estava a pelo menos uns dez metros de nós, e, mal deu tempo de piscar e ele já havia avançado tão rapidamente na direção do garoto que já estava a menos de um passo de distância.

— Finalmente te encontrei pequeno rato – ele disse com uma expressão bem sádica no rosto.

Então instantaneamente um pilar de rochas surgiu do chão e o acertou no queixo fazendo-o cair a alguns metros para trás de costas no chão.

— Eu não sou um rato, mas você está parecendo um morto, aí caído no chão, e pra sua informação, eu tenho um nome e é Jenshisu Shokan – disse o garoto com uma expressão calma no rosto.

Enquanto isso eu estava mais impressionado com a velocidade com aquilo tudo tinha acontecido e em como eu tinha conseguido enxergar aquilo claramente do que qualquer outra coisa, mas eu não podia me distrair, pois ele já havia se levantado.

— E de que isso me importa garoto, você pra mim é apenas um rato fugindo da morte inevitável, assim como esse outro verme ao seu lado – ele disse com uma expressão ainda mais sádica e com um pouco de ódio no olhar, e talvez um pouco de divertimento –, pelo menos será divertido com você!

Eu não havia entendido muito bem o que ele queria dizer com aquilo, mas, então surgiu uma espada azul na mão dele e a roupa dele começou a ter um aspecto vermelho e surgiram asas de uma água vermelha nas costas dele, "meu fogo não seria útil contra ele" foi o que veio à minha mente, ao mesmo tempo que uma voz apareceu também, uma voz grave e antiga dizendo para ficar atento e usar a escuridão ao meu favor, então rochas foram lançadas contra o hunter, porém todas interceptadas e cortadas por feixes de água pressurizada que saíram das asas dele, que avançou em nossa direção dizendo:

— Se isso é tudo o que têm, temo que não irá ser tão divertido quanto imaginei. – Então ele gritou – NISTRE!

Uma quantidade incrível de feixes de água vermelha fora disparada contra nós e várias barricadas de pedra foram formadas, mas rapidamente sumiram como se fossem papel, e eu não sabia o que fazer, não tinha como eu parar aquele ataque, e a cada instante que se passava o fim parecia estar mais próximo.