O Oculto Sobre Os Deuses: Alpha 01
3 Capítulo 2
Ao chegar ao topo daquele morro, avistei uma cidade logo após a descida, e me senti muito aliviado, mas mesmo cansado continuei andando. Haviam várias pessoas circulando por onde passei – poderia ter perguntado a elas onde eu encontraria algo para comer? Poderia —, mas eu estava tão apreensivo e inseguro que não disse nada, apenas continuei vagando em busca de algo para comer. Nada mais vinha a minha mente.
A escuridão noturna estava começando a se tornar ainda mais intensa. As ruas que alguns atrás instantes agora estava ficando cada vez mais desertas, em alguns minutos não haviam mais luzes acesas, não se conseguia ver ninguém a qualquer distancia, apenas a luz da lua iluminava as ruas e a cidade, mesmo assim continuei vagando, mas cada rua que entrava minha esperança se esvaía. Não conseguia encontrar nada para comer, apenas sentia o cheiro que saia de algumas das frestas de algumas janelas próximas de onde estava, quase conseguia sentir o gosto, mas não havia nada por ali, então apenas segui andando.
Não era uma noite comum, não, não era, eu sentia o ar pesado, e sentia que algo me observava de longe, as ruas estavam cada vez mais densas, cada vez mais eu me sentia mais pesado, e o vento forte contra os meus ouvidos me deixava desconfortável, sentia algo cada vez mais próximo enquanto ouvia algo sendo metálico sendo arrastado pelo asfalto. O frio começou a correr pelo meu corpo, folhas começaram a se mover perto mim, e comecei a sentir um ar quente sobre o meu pescoço, eu não poderia parar, não poderia.
Até que tudo parou e eu apenas conseguia ver o brilho das estrelas e da lua, conforme dava cada passo, mas minha visão estava começando a ficar inconstante e embaçada, mal conseguia manter os olhos abertos, estava muito cansado, sentia que a qualquer momento eu ia desmoronar, então continuei andando mesmo sem saber onde estava, ou onde iria parar. Até que finalmente me permiti desabar de cansaço e após tudo ficar escuro.
Acordei totalmente desnorteado, eu estava deitado ao pé de uma árvore, não sabia como havia parado ali, porém estava com muita fome, que nem me incomodei em me questionar isso. Eu estava no meio da floresta, sem saber como voltar, sem comida, sem água, eu estava muito fodido – sem querer ser deselegante, mas é a palavra que melhor define como eu estava — e provavelmente morreria ali, se ficasse parado, entretanto eu não cedi à fome que sentia, então me levantei e comecei a andar, e assim continuei por um tempo até avistar algumas árvores diferentes das outras, decidi observa-las melhor e uma delas estava cheia de frutas, maçãs pra ser mais exato, então peguei apenas uma que estava no chão, a comi, adorei o sabor, e naquele momento era toda a comida que eu teria, então subi na árvore e peguei mais algumas que estavam ao meu alcance e coloquei parte em minha mochila, comi algumas, então desci da árvore e voltei a seguir o meu caminho.
Encontrei um pequeno riacho enquanto andava, só então percebi que minha garganta estava seca, muito seca, não me lembrava da última vez que havia bebido água. Me ajoelhei ao “pé” do riacho, bebi um pouco da água que corria por ele, e enchi o cantil que estava preso à mochila. Assim que me levantei, olhei para o meu relógio, eram três horas da tarde, eu só tinha mais algumas horas de Sol, e a noite não seria muito convidativa.
Depois de já ter andado muito, acabei voltando para a cidade onde havia passado, e estava tão cheia e movimentado, quanto estava quando eu havia chegado na noite anterior. Continuei andando até chegar à uma cafeteria, que não estava muito cheia, comprei algo para comer e me sentei em uma cadeira que estava lado de fora, e ali fiquei por um tempo. Enquanto comia, observava as pessoas passando, elas estavam tão apressadas, tão distantes das outras, indo para direções opostas, muitas vezes sem mesmo se importar se esbarravam ou estavam no caminho de alguém, era vazio observar aquilo, mas quando finalmente percebi, já eram seis horas da tarde, e a cidade estava ficando vazia mais uma vez, a cafeteria já havia fechado, tomei um último gole do café amargo que haviam me servido e me levantei.
Andei em direção à saída da cidade, para voltar ao caminho que antes seguia, porém trevas começaram a cobrir a cidade, e as poucas pessoas que estavam na rua foram despedaçadas lentamente por algo que passava por elas, eu apenas conseguia ver sombras se movendo, e ouvir os barulhos, gritos, ossos quebrando, pedaços caindo continuamente. Então uma garota saiu pela grande nuvem negra, correndo com uma criança em seus braços, um garoto. Estávamos em um campo aberto, sem nada no caminho, apenas a rua e os longos pastos nos separavam daquela escuridão que se aproximava rapidamente da garota.
Um homem surgiu da gigante cortina de sombras que vinham da cidade, não correu atrás da garota, apenas ficou parado, não estava caçando ou algo do tipo, mas sim jogando, brincando com a vida dela. Alguns instantes depois surgiram vários estilhaços negros do chão, que trancaram o caminho da garota, formando uma imensa parede escura, inconstante e afiada, forçando-a a parar, e virar para ele que agora andava lentamente em sua direção com uma longa e fina espada, suja com sangue; em algumas partes dela o sangue já estava seco e até mesmo podre.
Eu me aproximava o mais rápido que podia, mas eles estavam muito longe, e tudo que eu conseguia perceber daquela figura eram o moletom cinza, sujo de sangue, com o capuz sobre a cabeça e as calças rasgadas em meio ao horizonte azul-escuro cheio de estrelas, aquilo realmente estragava a paisagem, já que a jovem ficava tão linda em meio à todo aquele cenário. Me distraí apenas por alguns instantes pensando nisso, e quando percebi a garota havia lançado um pequeno feixe de luz na direção dele, ela estava assustada, mal conseguia usar habilidades direito, mesmo sendo mais velha do que eu, aparentemente, o ele mal se moveu, e a luz foi se apagando até desaparecer no meio do ar, sem acertar nada, nem ninguém.
Ele disparou em sua direção, não conseguia ver o rosto dele, havia uma mascara vermelho cobrindo a face, mas isso de nada importava, em alguns instantes já estava a poucos passos dela, e eu ainda estava um pouco longe dos dois. Um pilar de fogo se formou um pouco à frente dele, mas o homem simplesmente passou como se não houvesse nada ali, não se queimou, apenas continuou avançando, meu fogo era inútil contra ele.
Agora empunhava a espada de uma maneira bem mais agressiva, estava pronto para atacar, apenas mais alguns passos e ele o faria, começava a movimentá-la a deixando com a ponta para baixo, preparando o ataque, mais alguns instantes e estaria acabado, eu não teria feito nada. Ouvi um grunhido grave em reclamação dentro de mim, e então a figura estava parada, incapaz de se mover, seu poder havia falhado, não tinha mais controle do próprio corpo, ele estava em meio as sombras dentro de si mesmo, xingava, reclamava, mas nada pode fazer.
Agora eu controlava toda a escuridão que a poucos momentos fora dele, a parede atrás da garota se despedaçou e desapareceu, e ela se afastou. Não sei bem como, mas eu conseguia ouvir algo dentro dele, pedia para que parasse, dizia que não desejava nada daquilo que aconteceu, que não seria usado para aqueles fins, não mais. Não era o homem que eu ouvia dentro dele, não, não era. Era uma voz feminina, era o alpha dele, estava se recusando a dar seus poderes a ele, que estava gritando por dentro, enfurecido, e eu podia ouvir aquilo, porque de alguma maneira ela me cedeu o próprio poder, para parar com aquilo, ela não aguentava mais.
Lágrimas escorreram em meu rosto assim que dei o comando; várias lanças negras atravessaram o corpo dele, e eu pude ouvir os gritos dela, e então as trevas desaparecendo lentamente, assim como a voz que antes ecoava em minha mente. O corpo e a espada caíram no chão.
A garota que havia se afastado, agora estava parada, apenas me observando de longe, minha mão estava esticada em direção ao corpo, forçando o ar, ela devia ter percebido que havia sido eu, talvez estivesse com medo, não falou nada, nem se moveu, assim como o garoto que agora estava em pé ao lado dela. Não havia nada para a falar, apenas o sentimento de vergonha e de culpa sobre mim. Ali fiquei por longos momentos, encarando o lindo horizonte escuro, cheio de estrelas, decidindo o que faria.
Até que me virei, e voltei a seguir meu caminho, não importava o que tinha acontecido, não importava se era noite, eu apenas tinha que seguir, não importava se eu iria me arrepender depois, eu apenas seguiria.
A noite seria a minha única guia, e as paisagens iluminadas pela luz da lua e das estrelas que ficam no céu eram tão lindas, eu não me importaria se fosse assim durante todo o tempo.
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