O Ninho
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Em meio à queda as duas feras continuavam a lutar entre si. Ataques brutais de ambas as partes, embora fosse claro para qualquer um que observasse de fora, que aquela que havia engolido a menina não possuía habilidade em combate. A fera maior dominava a situação.
A fera menor já não era mais capaz de voar, suas asas haviam sido despedaçadas pelas longas presas de sua adversária. Seu pelo, assim como penas, estava encharcado pelo seu próprio sangue. Aquela luta já havia sido ganha, antes mesmo de começar, embora o suposto prêmio não estivesse no alcance da criatura vencedora.
Vendo que a vitória era sua, já que a primeira criatura já havia perdido a consciência e agora se encontrava em uma queda livre em direção ao chão, a vencedora bateu suas longas asas, se estabilizando em meio ao ar, e partiu pela mesma direção que uma vez havia vindo.
Alguns segundos antes de colidir bruscamente contra o solo, a pequena fera, agarrada a vontade de viver, desperta e reuni energia o bastante para planar – de uma maneira bastante desordenada, pois, uma de suas asas estava completamente destroçada – para diminuir a força do impacto, não causando um dano letal. O impacto contra o solo foi grande, mas não o suficiente para matar.
Em um estado crítico, num equilíbrio tênue entre a vida e a morte, a fera agonizava de dor, gemia e implorava aos céus por alguma ajuda. Tudo em vão. Seu organismo estava em pane total, prestes a parar, mas a vontade de viver era grande. Hora consciente e outras nem tanto.
De repente, como se sua agonia aumentasse, a Fera, lança para fora de seu estomago tudo que havia nele, inclusive a garota. A menina, com exceção dos resíduos estomacais que a cobriam, sequer parecia ter vivenciado em poucas horas uma grande reviravolta em sua vida. Seu corpo estava imóvel, seu rosto sereno, parecia que havia caído em um sono profundo.
Silencio. O único som que poderia ser ouvido era o da respiração ofegante da criatura, que não seguia ritmo algum. A menina permanecia sem se mover, sequer respirava. Por um breve momento parecia que a vida havia se esvaído daquele corpo, que ela descansaria em paz.
No entanto a vontade de viver dela também era forte. Mais um som irrompeu, o do fôlego de vida que a garota tomou para si, preenchendo todo seu corpo com um novo ar. Seus olhos azuis se abriram repentinamente, confusos, tentando se adaptar a escuridão que os cercava. Quando tentou se levantar seu corpo sentiu todas as dores da queda, embora estivesse ‘protegida’ no estomago da fera, ainda assim, ela sentira a colisão contra o solo.
Com certa relutância a garota consegue se colocar de pé. Seus olhos, já acostumados com a iluminação do ambiente e recuperados da inconsciência, registravam tudo o que viam. A profundidade em que estava, onde só era possível ver o brilho da lua sobreposto por um nevoeiro denso. Foi analisando o local a sua volta que a menina avista a fera, ofegante e, agora, desmaiada.
Assustada e confusa a menina recua de costas, na intenção de se afastar da fera, mas seus pés descalços acabam pisando em algo macio, que chama a atenção da garota que com o coração angustiado volta sua atenção para a mesma direção. Atrás de si escombros haviam soterrado algo e a única prova disso era uma mão velha e enrugada que estava para fora.
Ao ver aquela mão imagens dos eventos que se sucederam até aquele momento passaram na cabeça da garota. Ela voltara a vivenciar cada uma das sensações sentidas há poucas horas e toda confusão que podia ter em sua mente havia sido dissipada. Aquela mão... Só podia pertencer ao Ancião. Ela lembrou-se que, embora houvesse tentado, ele não conseguira escapar da área de ruptura e caíra também como os outros.
Olhando mais a sua volta, sob os tetos das construções antigas que estavam ao seu redor, a menina viu os corpos dos demais que haviam participado do ritual de sacrifício. Chegava até mesmo a ser irônico o fato de ela ter sido a única que continuou viva. Estava cercada de mortos, perdida em um local onde sequer era possível ver a saída e em frente à criatura que poucos minutos antes havia a engolido por inteiro.
Tantas informações para serem processadas em tão pouco tempo. O medo por estar no Ninho, um lugar completamente desconhecido. Tão fundo, sem sequer uma luz natural, pois, embora a lua estivesse cheia, sua fraca luz não chegava a iluminar.
A menina sabia que não podia ficar ali parada. A criatura ainda respirava, podia até estar ferida, mas ficar perto daquela fera continuava sendo perigoso. Sem sequer cogitar uma segunda alternativa, a garota parte dali, deixando a criatura para trás.
Relatos sobre o interior do Ninho jamais existiram, logo, para a menina ver tudo aquilo com seus próprios olhos era inédito para qualquer humano. As construções, que agora não passavam de ruínas, eram gigantescas e pareciam inacabadas. Pontes improvisadas, canteiros de madeira, além de diversos materiais velhos de construções suspensos por cabos se escoravam pelas paredes de mármore.
O estilo de construção não era em nenhum aspecto parecido com o do vilarejo em que havia vivido, com suas casas irregulares e feito de barro, além de nenhum tipo de detalhe gravado em suas paredes tortas. Nas paredes do Ninho, por baixo da natureza que dominava o local, era possível ver a riqueza em detalhes. O tamanho das construções também assustava, em algumas sequer era possível ver o final.
O caminho pelo qual ela passava era irregular. Alguns quadriculados do piso de paralelepípedo faltavam ou então se encontravam fora de suas posições originais. Grama crescia entre as frestas.
Depois de certo tempo de caminhada, a luz da manhã começa a aparecer. Trazendo uma iluminação melhor e permitindo enxergar o caminho que percorria. Tivera que passar por alguns canteiros e precipícios, podendo ver que não estava no térreo do Ninho, abaixo de si ainda havia mais construções. O local era humanamente impossível de sequer poder existir, na perspectiva da garota.
O Sol já havia dominado o céu, a luz do grande astro atravessava o denso nevoeiro e iluminava mais fundo que a lua, todavia sua luz ainda não chegava ao final do Ninho. Havia uma área escura, repleta de vultos.
Quando o dia raiou, as criaturas também acordaram. O lugar, que se encontrava em estado de calmaria, mudara completamente. O canto das criaturas podia ser ouvido pela menina, que apenas tentava ignorá-las e prosseguia sua jornada para lugar nenhum. O bater de asas, acima de sua cabeça, ocorrera algumas vezes. O Ninho se mostrava vivo durante o dia.
Assim que os primeiros raios do Sol entraram em contato com a frágil pele da menina, uma ardência começou em todas as áreas expostas e posteriormente até mesmo nas que estavam protegidas pelo seu vestido branco. Sua pele era sensível demais, era comum que bolhas nascessem onde ela tomasse Sol. Quando era pequena, feridas faziam parte do seu dia-a-dia.
A menina começa a acelerar seus passos, em busca de algum abrigo. Mas andar apressadamente em meio a ruínas fora uma decisão arriscada e imprudente. Sem olhar aonde pisava, a garota acabou passando por uma área delicada de um canteiro que cedeu e se desfez. A gravidade puxava-a para baixo e novamente ela se via caindo.
Para a sorte da garota ela acabou caindo em uma área verde. Uma espécie de jardim dentro de uma das construções. Saíra com poucos arranhões e viu-se livre da luz do sol ali. Um lago artificial se encontrava no meio do monumento. Cansada e com sede, a menina se dirige até aquelas águas. Quando chegou encarou a mesma.
— Meu reflexo não aparece na água. É como se eu não existisse.
A água não parecia a mais limpa possível, mas ainda era clara, no entanto ela não via seu reflexo refletido na água e acabou deixando esse fato escapar pela sua boca, criando um eco, que assusta até dona da própria voz.
— Talvez seja porque você está morta – a garota já se encontrava inclinada e pronta para beber daquela água, quando essa voz surgira. De súbito a menina se coloca de pé e procura a origem do som.
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