O Navegante De Tempestades
1 Capítulo 1
O vento batendo nas dunas feria seu rosto. Talvez ele não sentisse, ou até mesmo não se importasse. As costas estavam arqueadas pelo peso do grande saco de sal que trazia dos portos para vender na cidade, que, esbelta, erguia seus majestosos muros na direção oposta ao Grande Mar.
Uriel, mesmo jovem, já era responsável pelo sustento da casa. Sua mãe, Mehrla, já não trabalhava, só ficava em casa a olhar uma pintura de seu pai desde a morte dele, oito anos antes. A situação deles piorava, já que os impostos cobrados pela corte do castelo aumentavam de mês em mês, desproporcional ao dinheiro ganho por Uriel.
Moravam no subúrbio, fora do castelo, onde Uriel podia pagar pela estadia. Antes costumavam morar em uma casa dentro das muralhas com o dinheiro que o pai de Uriel, Urandir, ganhava na guerra como soldado. Depois da trágica batalha de Jhatren, onde o exército de Lorde Kamman do Reino de Vaeghirs (onde Urandir era alistado) foi pego em uma grande emboscada que terminou em chacina para o lado do deste, que morreu em batalha, deixando uma mulher viúva e um pequeno garoto de oito anos.
O subúrbio era uma visão entristecedora. As casas mais “ricas” eram feitas de madeira de pinho, sem ornamentos ou quaisquer detalhes. As mais pobres eram feitas de barro ou até mesmo de palha, com telhados de sapê. Isso é claro, dos que tinham casas. Muitos moravam nas ruas de terra batida, apenas com o firmamento como seu lar. O jeito que se vestiam era simples, com calças e camisas de algodão ou qualquer pano barato que encontrassem nos mercados.
Uriel não tinha o aspecto físico ideal para a sua idade. Era magro, mas tinha os braços fortes devido ao trabalho que realizava, tinha os mesmos cabelos castanhos do pai e os olhos verde-escuro da mãe. Outrora tivera pele branca, agora já queimada pelo sol que batia forte perto do mar.
Durante sua caminhada para a cidade, quase deixou o grande saco de sal cair enquanto admirava o mar.
– Droga de trabalho – murmurou enquanto se esforçava para manter a carga em suas costas.
Embora suas palavras expressassem verdade, se sentiu culpado pelo que disse. Era um milagre ter um trabalho com tão pouca idade. Ele lembrou do desespero de quando o dinheiro da indenização pela morte do pai havia acabado, para então, com apenas 11 anos, ter que procurar o sustento dele próprio e da mãe. Neste dia, os marinheiros das docas apenas ignoraram seus pedidos, mas conforme todos foram sabendo da triste história do garotinho, os homens do pequeno barco Esfinge do Mar haviam disponibilizado um pequeno trabalho para ele, de entregador. Uriel levava as mercadorias já vendidas das docas para o cliente na cidade ou às vezes no subúrbio, onde recebia o pagamento e entregava o dinheiro ao dono do barco, Altair.
Altair não dizia em voz alta, mas era agradecido por ter Uriel como entregador. Esse era um trabalho que por muitas vezes era necessário um acompanhante de confiança para evitar qualquer fraude por parte do entregador, como roubo da mercadoria ou até mesmo do dinheiro ganho. Mas Uriel sempre fora um garoto honesto, sem nunca roubar uma única moeda de ouro. Em gratidão, por vezes Altair mandava para ele alguma pequena iguaria, para variar o cardápio do rapaz, que basicamente se resumia à pão e Fílado, uma bebida popular e barata que é produzida da extração da seiva de uma árvore comum nas terras do reino.
Uriel sempre tinha uma pequena discussão mental quando adentrava pelos portões da cidade. Pensava se era uma bênção ou uma maldição entrar e sair todos os dias do castelo. Nos primeiros minutos, enquanto passava por baixo do imenso portão de ferro da muralha, construída em pedra a mais de um século, olhava para a cidade burguesa e centenas de vezes mais bonita em comparação ao lugar onde atualmente vivia. Movimentada e alegre, com pessoas bem vestidas e na maioria das vezes bem-humoradas, era de extrema nostalgia à pequena parte de sua infância que lembrava ter sido alegre, quando corria pelos mercados junto com os outros garotos de sua idade.
– Vamos ver... – falou em voz baixa enquanto procurava o papel com a localização do cliente.
Graças aos únicos dois anos que passara na escola da cidade, sabia ler e escrever. Sempre fora um menino inteligente, mas depois da morte do pai nunca mais tivera a oportunidade de voltar à escola.
O Cliente era o dono de um pequeno restaurante que ficava perto do mercado, onde por muitas vezes viajantes de caravana iam por lá almoçar. Uriel conhecia bem os caminhos tanto da cidade quanto do subúrbio, portanto não teria problemas em achar o restaurante.
Outra razão pela qual Altair o havia contratado era que o garoto tinha uma melhor aparência do que os outros do subúrbio, e também andava melhor vestido, mesmo que a diferença não fosse assim tão grande. Uriel normalmente usava calças de algodão, sua camiseta era de linho, e usava um pequeno casaco marrom de tecido fino que pertencia ao falecido pai. Se tentasse vender o casaco, conseguiria uma boa quantia em moedas de ouro, talvez o suficiente para passar um mês inteiro sem trabalhar, mas era a única lembrança que tinha do pai, além do retrato. Usava também botas macias de couro, que ajudavam a andar nas ruas de paralelepípedos da cidade.
Adentrou na rua em que ficava o local da entrega, com várias casas feitas de madeira ornamentada e telhados alaranjados, com algumas feitas de pedra decorada e com portas grandes de madeira com detalhes esculpidos em volta e nos meios.
O Restaurante ficava no final da rua, que estava ganhando movimento com a chegada do meio da tarde, e ele estava na metade da rua quando avistou um grupo de três garotos com vestes de seda azul adentrarem pelo lado oposto da rua.
– Argh – Lamentou-se Uriel – Garotos da Corte.
Garotos da Corte eram, como o nome já diz, meninos criados dentro do castelo, todos da mais alta classe social, esbanjando luxo e riqueza. Filhos de Lordes, Senhores e Generais, discriminavam qualquer um abaixo deles. Por vezes iam acompanhar os coletores de impostos no subúrbio, e ficavam aos risinhos quando olhavam para os pobres e os mendigos. Alguns também bancavam os valentões, já que não podiam sofrer qualquer tipo de castigo ou repressão das demais pessoas.
Uriel colocou o capuz do casaco, que proporcionava calor mesmo sendo de tecido fino e trabalhado, para tentar passar despercebido por eles.
Mas o que ele fez apenas chamou mais a atenção dos Garotos da Corte.
Por um infeliz acaso, aqueles eram os mesmos que tinham ido junto com os coletores para cobrar os impostos no dia anterior, e haviam visto Uriel e a Mãe impossibilitada quando os Coletores verificaram a casa em busca de qualquer quantia de dinheiro não declarada à Corte.
– Ei, você! Garoto com o sal, pare aí! – Disse o garoto maior, com cabelos louros, olhos azuis e a face cheia de sardas – Tire o capuz.
Uriel obedeceu, e com a mão livre colocou o capuz para trás. Ficou automaticamente nervoso. O garoto à sua esquerda, um pouco mais baixo que os outros dois, com cabelos pretos e olhos castanhos, disse com rispidez:
– O quê pensa que está fazendo na cidade? Sabemos que mora no subúrbio. A cidade não é local de passeio para a sua laia.
– Estou fazendo uma entrega. Vou entregar este saco de sal ao dono deste restaurante – Disse apontando para o estabelecimento à sua frente.
– Vou entregar este saco de sal ao dono deste restaurante, Senhor. Lembre-se que está falando com autoridades da corte. Agora responda corretamente: Qual é o seu nome? E para quem trabalha? – Disse o garoto do meio.
– Meu nome é Uriel, senhor. Trabalho para Altair, dono do barco Esfinge do Mar, senhor.
– Muito bem, Uriel. Aprende rápido. Hmm... Mas que belo casaco você tem aí. Como o conseguiu?
– Era de meu falecido pai, senhor. Morreu em serviço do Lorde Karmman, senhor.
– Ah, conheço Lorde Karmman. Meu querido pai. Como ele morreu?
– Na batalha de Jhatren, senhor. Não sei as condições da morte, senhor.
– Ah, uma pena. Devia ser um bom soldado.
– Obrigado, senhor. – Respondeu Uriel como que pedindo para ser dispensado daquela conversa perigosa.
– Eu acho que esse casaco não é do pai dele. – Disse o garoto da esquerda. Uriel olhou de relance ao maior dos três, que estava à direita do rapaz louro, um sujeito grande de cabelos pretos e olhos castanhos, totalmente calado e sem expressão.
– Mas que acusação grave – Disse o louro – Uriel, tem como provar que este belo casaco é legitimamente seu? Algum papel que comprove sua compra?
– N-não, mas era do meu pai, tenho certeza quanto a isso – Disse Uriel, já desesperado.
– Não tem provas contra a minha acusação – Disse o da esquerda novamente – eu o vi roubando o casaco pela manhã, aqui mesmo perto do mercado. É um ladrão, e deve ser punido.
Uriel mal deve tempo de levantar a mão livre para se proteger do duro golpe do garoto. Apesar de ser baixinho, devia ter treinamento com espadas e coisas do tipo, pois foi jogado ao chão. Por pouco não bateu a cabeça em uma quina de madeira, mas foi salvo graças ao saco de sal.
– Está cometendo um erro, senhor – Disse um velho com uma túnica em farrapos que tinha se juntado à pequena multidão que se formara – Conheço este menino, assim como conheci o pai dele, a quem este casaco pertencia. Ele não é ladrão.
– Quem pensa que é para falar com tamanha audácia contra uma autoridade da corte? – Disse o mesmo garoto que bateu em Uriel – Vai atestar à favor dele?
O velho hesitou. Queria ajudar o garoto do subúrbio, mas com certeza apanharia se continuasse defendendo-o.
– N-não, senhor. – Disse, sentindo vergonha de si mesmo e ao mesmo tempo pena do jovem injustiçado.
O agressor avançou contra Uriel, ainda deitado no chão com alguns pedaços de madeira por cima. Uriel levou mais uma pancada, e mais uma, até ouvir um grito que ecoou por toda a extensão da rua:
– TREVOR!
Viu a expressão de medo no rosto do rapaz que tinha o sangue de Uriel nas mãos.
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