O Namorado da Minha Melhor Amiga
37 Capitulo 37 - The Spy
Notas iniciais
Pov’s Annabeth
Se tinha algo da qual eu tinha certeza neste momento, era na minha vontade avassaladora de descabelar cruelmente o crânio de Thalia Grace.
Afinal, qual o problema dela? Em um determinado período de uma hora, ela se esqueceu completamente da minha ambição por saber qualquer coisa sobre um cara chamado Percy Jackson. Portanto, assim que ela disse “Eu o vi” e começou a me puxar escola afora, a imagem do garoto de cabelos negros bagunçados e olhos verde mar invadiu totalmente a minha mente e meu coração começou a bater infinitamente mais forte. Comecei a ficar nervosa.
Eu não estava pronto pra vê-lo. Não agora.
Não. Estava. Pronta.
Enquanto Thalia me puxava, comecei a hesitar. Quando chegamos a área gramada em frente a escola, parei bruscamente, fazendo Thalia parar também. Ela olhou pra mim.
― Annie, porque você parou? ― ela perguntou, já começando a me puxar novamente, desta vez com os dois braços ― Vamos, você precisa vê-lo.
― Não, eu não quero ― falei. Minha voz estava tremida. Eu parecia uma criança com medo do palhaço ― Eu não posso. Não tenho coragem.
Thalia me olhou curiosa.
Qual o problema dela? Será que ela esqueceu de tudo o que aconteceu?
― Calma, Annie ― ela disse compreensiva ― Você vai olhar para a cara dele, e vai dizer tudo o que você pensa sobre ele. Xingue-o se precisar. Conte como foi horrível o que ele fez com você naquela noite, esfregue na cara dele.
Thalia tinha ficado completamente maluca. Tenho certeza de que ela tomou algo que mexeu com o seu cérebro já mexido. Era isso. Só podia ser isso. O que não me deixava animada, claro. Tipo, a única pessoa que sabia de toda a minha situação e que poderia me ajudar, tinha acabado de receber o meu diagnóstico para ir direto ao hospício.
― Thalia, ficou maluca? ― perguntei, embora ainda continuasse super nervosa com toda aquela situação ― Eu não posso falar isso com ele! Ele...
― Vai ficar muito bravo? ― Thalia perguntou, completando o meu pensamento ― Que ele se foda. Essa é a minha intenção. Ele não podia ter feito aquilo com você. Você nunca fez nada com ele!
Era oficial: Thalia tinha perdido a memória de uma hora para a outra. Literalmente.
― Thalia... ― comecei a falar, mas ela não olhava pra mim. Olhava para algum ponto sobre o meu ombro esquerdo.
― Respire fundo e faça carão, porque lá vem ele.
Thalia saiu de perto de mim e eu já ia segui-la. Porem, eu olhei pra trás primeiro. E lá estava ele. Me olhando como se nós tivéssemos saído ontem. Como se ele fosse a pessoa que eu mais amasse no mundo.
Nico era muito cara de pau.
― Annabeth! ― ele exclamou o meu nome ― Como você passou as férias?
Comecei a respirar fundo. Ele não podia estar falando sério. Será que ele esqueceu que me deu um bolo? Minha angustia magicamente se dissipou. Meu coração ainda estava acelerado, porem agora era de raiva.
― Tive ótimas férias, Nico ― falei, mais calma do que achei que seria possível alguém com a minha raiva dizer. Eu tinha certeza de que meu olhar era de puro ódio, mas se Nico percebeu, não disse nada ― Foram os dias em que eu me senti mais feliz por não poder ver o rosto de alguém. E, caso não tenha entendido, eu estou falando exatamente de você.
― Ainda está brava comigo? ― ele se auto indicou ― Annabeth, foi apenas um baile.
― Um baile a qual você me convidou pra ir e qual eu fui. E eu detesto bailes escolares. O mínimo que você deveria ter feito era ter dado uma justificativa convincente do porque não foi. Mas você não fez isso, né? ― perguntei, sarcástica.
― Eu tentei te ligar ― agora ele estava indignado ― Centenas de vezes! E você não me atendeu nenhuma delas!
Droga, ele tinha razão. Ele tinha razão, ele tinha razão, ele tinha razão.
Mas não me deixei abalar.
― Do que iria adiantar falar com você depois da festa? Você já não tinha aparecido. Eu já tinha levado um bolo. O baile já havia sido horrível. Não queria ouvir as suas “justificativas convincentes” ― fiz sinal de aspas com os dedos ― sobre o ocorrido. Aliás, eu também não quero ouvi-las agora.
Sai de perto antes que ele pudesse responder.
Após alguns minutos caminhando sozinha para afastar-me o máximo de Nico, comecei a sentir um aperto no coração. Meus olhos começaram a arder. Saí correndo no momento em que sabia que não poderia segurar mais e entrei no primeiro lugar em que sabia que ninguém me ouviria.
Meu maldito instinto me levou diretamente ao armário do zelador onde eu e Percy costumávamos entrar.
Me lembro da ultima vez em que entramos ali. Nós brigamos, pra variar. Mais uma vez havia sido por causa da Rachel. Também me lembro que naquele dia ele descobriu que eu ainda guardava a blusa de frio cinza desde o dia em que Rachel foi para o hospital. Foi constrangedor. Mesmo que cresse que ele já soubesse dos meus sentimentos, eu fiquei com muita vergonha.
E saí correndo.
Eu. Me. Odeio.
Mesmo sabendo que talvez fosse pior ficar ali, não sai de lá. Já estava chorando. Tentei não fazer nenhum barulho, mas deixei escapar algumas fungadas. Minha cabeça estava uma bagunça.
Eu não esperava falar com Nico. Nem estava me lembrando tanto dele, na verdade. Ate aquele momento, ele era o menor dos meus problemas. Agora, eu estava tentando entender como consegui falar com ele daquela maneira. Nunca tinha estado tão nervosa e tão controlada na minha vida.
Parte da minha raiva era pela decepção que tive. Durante todo o meu percurso com Thalia, mesmo hesitando e estando completamente nervosa, minha mente se preparou para ver Percy Jackson na minha frente. Não Nico di Ângelo. Percy Jackson. Havia uma diferença muito explícita ali. Então, quando vi Nico, parte de mim ― uma parte muito grande ― acabou se decepcionando muito.
Anotação mental: dizer a Thalia Grace pra ser mais direta ao começar a se referir as pessoas.
A outra parte da raiva era de Nico por ser Nico, o cara que me deu um bolo no baile de inverno da escola. Minha mente pensava sem meu consentimento que, se Nico tivesse ido a festa, nada disso teria acontecido.
Basicamente, eu teria ficado deprimida boa parte da festa, deprimida por tudo o que tinha passado pela semana e que não queria estar ali. Então Nico me chamaria pra dançar. Eu aceitaria pra não fazer desfeita. Então, eu finalmente começaria a me divertir e isso seguiria durante a noite toda. Jason e Piper ainda seriam rei e rainha do baile. Eu teria me arrependido de ter pensado em não vir. Seria uma das minhas melhores noites em dias. Percy e Rachel estariam bem. Eu e Nico estaríamos bem.
Percy não estaria me odiando neste momento.
Assim que conclui o pensamento, descobri o quanto sou estúpida. O baile poderia ter sido razoável, mas os dias que seguiriam seriam o mesmo tormento. Provavelmente, Rachel e Percy teriam brigado em algum momento das férias, como disse Thalia. Ele viria atrás de mim e eu o recusaria por causa da Rachel. Então ele iria embora no mesmo jeito.
Fim da História.
Conclusão: nada daria certo.
Ponto final.
O engraçado foi que aquilo me fez parar de chorar.
Ainda bem, porque naquele momento alguém entrou na sala de vassouras.
― Tem alguém ai? ― era uma voz de um garoto. Reconheci a voz. Ele olhou em volta, até deparar comigo sentada no chão ― Você?
― Oi, Grover ― acenei.
Minha voz estava um pouco embargada, mas eu tentei manter o bom humor e abri um sorriso. Grover era legal, mas era desconhecido. Eu não queria um desconhecido sabendo de minha vida.
Grover abriu um sorriso e entrou. Ele deixou a porta aberta, o que achei gentil de sua parte ― nada de segundas intenções: ótimo ― e sentou-se ao meu lado.
― Foi a mudança de humor mais rápida que eu já vi ― ele brincou ― Podia jurar que havia escutado você chorar dali de fora. Tudo bem que, até então, eu não sabia quem era.
― Estava tão alto assim? ― perguntei.
― Não. ― ele riu ― Mas, tipo, o sinal já bateu e todos estão nas salas que estão milagrosamente silenciosas então, tipo, ouve-se qualquer fungada alheia em armários de vassouras aleatórios pelos corredores. ― ele olhou pra mim.
Eu ri, mas estava constrangida com a situação. O legal é que Grover percebeu isso.
― Ei, relaxa ― ele colocou a mão em meu braço, mas quando percebeu que me assustei, tirou-a rapidamente ― Bem, todos temos o nosso momento de recaída de vez em quando. Somos todos humanos e filhos de Deus.
Meu sorriso foi sincero e quase totalmente alegre.
― Você tem toda razão ― concordei.
Grover apenas riu e não falou mais nada por um tempo. Era, por incrível que pareça, exatamente o que eu estava precisando: alguém que falasse comigo e que não perguntasse o que esta acontecendo, já que eu não podia explicar. No final, foi bom ter um estranho por perto.
Depois de um tempo, ele disse:
― Bem, eu não quero ser chato e nem estraga prazeres, mas, já sendo, eu tenho que voltar para a sala. E você também, creio eu.
Abri um sorriso.
― É verdade, senhor Grover. Vamos os dois cada um para a sua devida sala. E também vamos fingir que nenhum de nós dois estivemos aqui e nem que ambos matamos aula no primeiro dia do novo semestre. Okay?
Ele pareceu entender.
― Pode deixar, madame ― ele erguendo-se em seguida. Então, estendeu a mão pra mim. ― Vamos?
Aceitei. Um calor se estendeu pelo me coração quando percebi que, apesar de tudo, tinha conseguido um novo amigo. Grover me puxou e saímos da sala. Do lado de fora, ele se virou pra mim com seu jeito brincalhão e disse:
― Okay, a partir daqui é cada um por si, moça. Corre para um lado que eu corro para o outro.
Soltei uma gargalhada.
― Meu amigo Léo iria adorar você ― comentei casualmente ― Porque não almoça comigo e com meus amigos amanha? Vou te apresentar a eles.
Por um segundo, Grover pareceu horrorizado com a ideia. Bem, talvez ele fosse muito mais tímido do que aparentava ser.
― Eh... Talvez ― ele falou ― Eu não gosto de almoçar na escola. Geralmente eu saio.
Hum. Grover era fresco.
― Ah, tudo bem. Talvez outro dia então ― comentei.
― É, pode ser ― ele disse, embora aparentasse não estar muito animado com isso.
Okay, eu já entendi o que está acontecendo. De repente, eu comecei a desconfiar de tudo e de todos. Ótimo, que lindo. Tudo isso é fruto da minha imaginação.
Será?
― Bom, te vejo por aí ― ele começou a andar devagar, mas, de repente, parou e coçou o queixo ― Sabe de uma coisa? Ainda não sei o seu nome.
Ri, espantada. Era verdade. Ele se apresentou logo depois de eu falar que não o conhecia e fez uma piada, o que me fez esquecer que eu também deveria me apresentar.
― Meu nome é Annabeth ― falei.
― Chase? ― Grover perguntou imediatamente.
― Eh... Sim ― estranhei. ― Como...
― Eu já ouvi seu nome por aí ― ele falou, olhando pro lado logo em seguida, como se tivesse dito algo errado.
― Mesmo? Onde?
Ele pensou por um segundo.
― Em uma conversa por aí. Eles disseram que “Annabeth Chase” tinha sido a... Como se fala?... Enfim, falaram que foi você que apresentou o Rei e Rainha do baile de inverno no ano passado. E... ― ele fez uma cara de dúvida ― Você tenha alguma coisa a ver com... A Elsa?
Eu ri. Não sabia que as pessoas tinham gostado da minha apresentação.
― Ah, claro ― falei, com um sorriso, mesmo que a lembrança daquele baile não tenha sido muito boa ― Foi um baile... Marcante pra mim.
Engoli em seco. Grover me observava.
― Eu estou achando que você vai acabar voltando para o armário de vassouras ― Grover abriu um sorriso tímido, mas que foi o suficiente pra me contagiar.
Neguei com a cabeça.
― Não.
― Então está bem ― ele falou, voltando a andar ― Te vejo por aí, Annabeth.
― Tchau.
Andei para o lado contrario da qual Grover estava indo.
***
Mais tarde, na hora da saída, encontrei Thalia conversando com Luke e Silena, perto de uma arvore na frente da escola.
Sem dizer nada, puxei-a de perto deles, que se espantaram imediatamente. Fiz sinal de que estava tudo bem, mesmo não estando tudo bem. É claro que não estava tudo bem.
Thalia parou na minha frente. Sua expressão não dizia muita coisa, era quase inocente, mas mesmo assim eu queria matar ela. Ficamos em silencio por alguns instantes, porque eu queria começar aquela discussão sadia entre amigas de maneira sensata, então eu arrumei minha touca de tricô na cabeça para tampar minhas orelhas. Alguns flocos de neve começaram a cair ao nosso redor quando comecei a falar.
― Thalia, me diz, você quer que eu morra de um ataque cardíaco ou algo do tipo? Se for o caso, você pode continuar agindo do jeito que está agora.
― Am? ― agora ela parecia confusa ― Eu apenas levei você pra ter uma conversa com o cara que te deu um bolo no baile. O meu único objetivo era que você descascasse ele dos pés a cabeça.
― É, mas eu não estava entendendo nada e acabei pensando que você estava falando sobre o Percy e me apavorei ― expliquei ― E você me dizendo tudo aquilo me fez pensar que você estava louca. Você. Não. Sabe. O quanto. Eu. Fiquei. Apavorada.
Thalia não sabia o que dizer.
― Olha, está tudo bem ― eu falei ― Você só me iluminou pra semana inteira. No final, eu tive que falar com o Nico.
Thalia pareceu animada.
― E aí? ― ela falou ― Você acabou com ele?
Dei um suspiro.
― Não do jeito que você imaginou quando me mandou falar com ele, mas eu disse o suficiente para ele entender que eu não quero vê-lo pelos próximos três séculos.
Thalia assentiu satisfeita.
― Isso com certeza já é alguma coisa.
Sorri.
― Um sorriso! ― ela comemorou ― Com certeza um dia na escola vendo aqueles professores monótonos te ajudou a perceber que a vida em casa não é tão ruim.
Sorri novamente.
― Caramba, isso é um recorde digno do Guiness Book ― Thalia deu um pulo em comemoração. Agora eu soltei uma risada. Thalia sorriu comigo e, de repente, meus problemas sumiram. Eu era apenas uma garota normal rindo com minha amiga em um dia de inverno comum.
Até que Rachel apareceu.
― Qual é a graça? ― ela perguntou, seriamente. Olhava pra mim como se me desfiasse a dizer algo errado ― Será que também eu posso rir?
Rachel olhava diretamente pra mim. Seus olhos verdes estavam em chamas. Ela parecia querer comprar uma briga comigo ali mesmo. Olhei para Thalia pedindo ajuda.
― Estávamos rindo da incapacidade da Annabeth sorrir durante o primeiro dia de aula de um novo semestre. ― Thalia disse de uma maneira gentil e cuidadosa para Rachel ― Aliás, Dare, acho que deveríamos rir um pouquinho da sua também.
Eu ri de verdade neste momento, mas ao olhar para o rosto de Rachel, meu riso foi sumindo rapidamente até parar. Rachel não tinha achado um pingo de graça.
― É, pois é ― ela disse indiferente ― Annabeth, posso falar com você? Tipo agora? ― ela olhou com desprezo para Thalia ― E em particular ― completou.
Olhei pra Thalia e ela estava vermelha. Se fosse qualquer outra pessoa, até mesmo o Luke, Thalia já teria dado umas boas respostas ofensivas e acabaria com aquilo tudo a mim mesma.
Mas eu também tinha conversado com ela a respeito de Rachel e nossa crise de meio lado ― já que só uma sabia a historia toda ― e pedi pra ela ter paciência. Fico feliz que ela esteja se controlando. Sei o quanto é difícil para ela.
― Está bem ― falei, mas mesmo assim dei um passo em direção a Thalia e a abracei. ― Tchau Thal’s. A gente se vê amanhã.
― Tchau ― ela disse, me soltando logo em seguida e caminhando na direção de Luke, Silena e agora Beckendorf, que tinha chegado depois.
Voltei-me para Rachel. Ela me observava.
― O que foi? ― perguntei casualmente.
― Então agora vocês estão de segredinho? ― ela disse, debochadamente ― Agora estão de fazer a outra rir de maneira idiota? Então é assim? Eu fico mal e você acha outra pessoa pra se divertir?
― Rachel, por favor. Você e eu fazemos isso o tempo todo. Aliás, eu estou falando mais frequentemente com Thalia desde o ano passado. Não foi porque você ficou rabugenta.
― Ah, agora eu sou a rabugenta? Muito lindo, senhorita Chase. Então quando eu voltar a ser uma Rachel normal e divertida, como eu era quando namorava Percy Jackson, eu falo com você. Mas, espere: Percy e eu terminamos e provavelmente eu nunca mais vou vê-lo. Então até nunca mais, Annabeth.
― Ei! ― protestei ― Eu não disse isso. Eu disse que você está rabugenta, mas não informei qual a causa ou o motivo. Pra ser sincera, eu não sei. Você que está dizendo que é pelo seu termino com o Percy, e eu até te entendo, mas também acho, não estou confirmando, que seja ciúmes pela minha amizade com a Thalia, mas seja o que for, Rachel, eu estou aqui com você agora e sou sua amiga ― pus uma mão em cada ombro dela ― Você me entendeu?
Rachel olhou irritada para os lados, sem me encarar. Então, seus olhos começaram a ficar vermelhos e ela começou a chorar ali mesmo, na frente de todo mundo. Eu a abracei, porque eu também comecei a chorar ali e não queria que ela visse. Nós chorávamos pela mesma coisa, mas eu não podia compartilhar nada.
― Escute ― falei, controlando minha voz para a mesma não sair embargada. Fracassei, claro ― Eu estou aqui. Posso ter parecido distante nos últimos dias e posso estar me dedicando a minha velha amizade com Thalia, mas ainda somos amigas. Melhores amigas. Okay?
Eu a senti assentindo. Limpei meus olhos rapidamente e me afastei dela. Suas bochechas estavam ainda mais rosadas por causa do choro e do frio. Ela respirou fundo até parar de chorar e limpou os olhos. Depois, forçou um mini sorriso que me fez sorrir também. Então ela falou:
― Annie, se você soubesse quem é a garota que ficou com o Percy... Você me diria?
Engoli em seco discretamente e esperava que ela não tivesse percebido de jeito nenhum. Até que fui salva por uma buzina.
Olhei na direção do som. Meu pai acenava pra mim apressadamente. Nunca o amei tanto na minha vida por estar tão ocupado.
― É o meu pai e ele está com muita pressa ― falei, começando a andar na direção do carro ― Tenho que ir, Rachel, mas eu te ligo mais tarte, okay?
Rachel não teve chance de responder, porque parti em direção ao carro. Abri a porta no lado do carona e entrei, colocando o meu cinto em seguida. Meu pai sorriu e eu beijei a bochecha dele.
― Como foi o dia? ― perguntou.
― Estressante ― falei ― Mas nada que um chocolate quente da Héstia não resolva. Podemos ir logo?
Meu pai não perdeu tempo. Simplesmente pisou no acelerador.
***
Durante o jantar, minha mãe estava nervosa.
Meus pais haviam passado todo o tempo das férias comigo aqui em casa ― uma coisa bem rara, que só aconteceu quando eu era um bebe e quando e tinha sete anos e comecei a me rebelar. Héstia havia tirado férias, mas eu havia pedido pra ela ficar por aqui se não tinha mais nada pra fazer. Ela concordou, mas a vi saindo algumas vezes durante estas semanas, sem avisar para onde ia. Eu não me importei, é claro. Héstia tinha o direito de viver a sua vida e eu só iria perguntar o que estava acontecendo mais tarde.
Agora Héstia estava de volta ao trabalho e, infelizmente, os meus pais também. Meu pai resolveu dar aulas de história durante a noite em uma escola particular nas redondezas por todo o semestre. Já minha mãe começou a fazer pequenos projetos no seu escritório aqui em casa, mas só isso já a deixava estressada.
Neste jantar em si, ela reclamava de um certo cliente que a havia procurado hoje enquanto eu estava na escola.
― Ele era completamente insuportável, Frederick. ― ela dizia, calmamente, enquanto apertava as têmporas. Seu jantar permanecia em sua frente, quase intocado. ― Mas eu tive que aceitar aquela proposta. Estava muito justa. Ele parecia ansioso pra isso começar logo.
― Bom, isso é ótimo, não? ― meu pai argumentou ― Você mal voltou das férias e já possui um grande projeto.
― É, pode ser ― minha mãe deu de ombros ― Quando ele chegou, eu nem pude reconhece-lo. Não chegava nem perto daquele homem mal cuidado que eu vi em Washington.
Me lembro do dia em que ela contou a história do homem com cara de pescador e da sua mulher completamente culta. Minha mãe parecia muito irritada com a falta de educação do senhor e impressionada com o fato de aquela ser a sua mulher.
― O projeto dele era interessante, mas não muito ambicioso ― minha mãe continuou ― Disse que estava começando a abrir uma franquia em parceria com outra que já existe aqui. É um projeto entre irmãos, eu acho. Não me atentei muito aos detalhes. Já estava trabalhando mentalmente no projeto.
Ah, minha mãe.
Provavelmente, o cara disse que a daria um milhão de dólares por isso, mas não escutou porque já estava trabalhando. Típico.
― Bem, ele esta com muita pressa para começar, mas não mais que eu ― minha mãe prosseguiu ― Amanha cedo irei começar esse projeto e vou tentar acabar em menos de um mês. Quanto mais rápido me livrar da presença deste senhor, mais rápido voltarei a ter paz.
Eu e papai rimos, já que sabíamos que isso não era verdade.
Mais tarde, tratei de ligar pra Rachel. Na entrada, no começo da aula, ela havia dito que ocuparia a minha casa, mas parece que ela se esqueceu. Como eu prometi que ligaria também, disquei seu número em meu celular e me joguei de barriga em minha cama.
No terceiro toque, ela atendeu.
Digo, alguém atendeu pra ela.
― Alo? ― era uma voz feminina.
Fiquei em silencio. Eu conhecia a voz, mas fiquei muito surpresa. Depois de tantos dias, nem havia passado pela minha cabeça que Rachel ainda estava em tratamento.
― Annabeth, sou eu, a Srta. Summer ― disse a voz da psicóloga.
Encontrei minha voz.
― Ah... Olá, Srta. Summer ― falei, a voz simpática ― Eh... Quanto tempo. Será que ainda dá tempo para dizer “feliz ano novo”?
A psicóloga riu.
― Ah, claro. ― ela disse ― Para a senhorita também.
Sorri.
― Ah... O que está fazendo com o celular da Rachel, Srta. Summer? ― perguntei.
― Ah! Ela veio para uma seção, e acabou esquecendo. Passamos as ultimas horas juntas conversando e... ― ela fez uma pausa para suspirar ― Rachel está mal, Annabeth. O término com o namorado dela... A fez muito mal.
Suspirei também.
― Eu sei.
― Você sabe onde ele está? Eu gostaria de conversar com ele também. Eles não conversaram depois do termino de acordo com a Rachel, e me parece que ela precisa dessa conversa para esclarecer as coisas. Tenho um receio muito grande de que ela volte a fazer... o que estava fazendo.
― Eu sinto muito, Srta. Summer, mas eu não vejo Percy desde o ano passado, no dia em que terminaram. ― meus olhos arderam só de lembrar ― Não mantemos contato e nem nada, mas eu creio que ele esteja em Washington.
― Certo, então não vai ter jeito. Poderia me avisar de algum dia ele vier fazer alguma visita a Nova York pra te ver ou algo assim? Percebi que vocês também eram amigos.
― Claro ― falei ― Embora eu... Bem, eu tenho certeza de que isso nunca vai acontecer.
― Por quê? ― ela parecia mortalmente curiosa.
― Intuição.
― Hum, certo ― ela mudou de assunto ― E eu também gostaria de vê-la pessoalmente para fazer-lhe umas perguntas. Rachel pode não estar contando tudo e eu quero fazer de tudo para ajuda-la.
― Tudo bem.
― A proposito, Annabeth ― ela falou cuidadosamente ― A senhorita não leu aquela carta que entreguei a você, não é? Ou leu?
Uma bomba de memórias veio na minha cabeça. O dia em que Rachel teve sua primeira seção com a psicóloga, eu ficando sozinha do lado de fora, Percy aparecendo e eu o agradecendo por me ajudar a voltar a falar com Rachel, Thalia aparecendo e nos pegando no flagra, eu os contando sobre as seções de Rachel, a psicóloga vindo falar conosco e a carta. Ela me entregou uma carta. Eu me lembro.
Obviamente, com tudo o que estava acontecendo, eu me esqueci dela totalmente.
― Ah... eu me esqueci totalmente dela. ― confessei.
― Então não sabe do que se trata? ― Srta. Summer perguntou.
― Não.
Escuto uns barulhos do outro lado da linha. Alguém provavelmente deve ter entrado no escritório da Srta. Summer.
― Okay, tenho que ir, Annabeth. ― ela disse, apressadamente ― Foi bom falar com você. E não se esqueça do que combinamos.
― Tudo bem. Até logo, Srta. Summer.
Assim que ela desligou, comecei a procurar a carta. Em toda parte, até na mala que eu trouxe minhas roupas. Nada. Em lugar nenhum. Eu tinha ficado muito curiosa agora e queria saber do que aquilo se tratava.
De repente, parei de procurar. Eu coloquei a carta dobrada dentro da calça que vestia naquele dia. Quando cheguei no apartamento, tirei-a pra tomar um banho e deixei no meu cesto de roupas no quarto. No dia seguinte eu vim embora. Então, provavelmente, minha roupa ficou no meu quarto no apartamento.
Então, amanha a tarde eu teria que fazer uma visitinha.
Pov’s Percy
Eu girava a chave da picape velha de Annabeth em minha mão. Ficava me perguntando se aquele projeto de carro ainda funcionava depois desse tempinho que fiquei fora. Aquela lata velha deveria receber uma manutenção diária sem faltas.
Eu estava jogado no tapete do meu quarto. A cama, após tantos dias em cima dela, já estava ficando desconfortável e eu só a usava para dormir. A colcha era vermelha, as paredes do quarto eram brancas, e a decoração não era nada meu estilo. Escolhi o este quarto do apartamento exatamente por isso. Era grande, confortável e nada familiar. Tudo nos conformes pra não me lembrar de outro certo apartamento em Nova York.
O telefone estava do meu lado. Eu olhava pro teto, me perguntando o que todo mundo estaria fazendo uma hora dessas. Me perguntava se tinha sido legal o primeiro dia do novo semestre. Se mataram a saudade, ou se viram-se durante as férias. Eu não tinha visto e nem falado com nenhum deles.
Jason e outros meninos me ligaram, além de Silena e Piper. Mas eu não atendi nenhuma das ligações, então não sabia o que se passava em Manhattan. Fiquei sabendo por meus pais que a família Dare estava fazendo uma viagem em família de férias a Costa Rica. Rachel deve ter amado tudo aquilo.
Não que eu me importasse, claro. Sinceramente, não me importo mesmo.
E Annabeth... Bem, ela deve estar viva. Na verdade, eu não faço a mínima ideia. Já estava quase pegando o meu telefone e ligando para meu informante para saber o que havia acontecido durante o dia.
Antes disso acontecer, porem, a porta do meu quarto se abriu.
― Percy? ― chamou a voz de Grover. Ele provavelmente não me via por eu estar muito próximo a cama. Quando deu a volta, me encontrou ― Fala sério, cara. Isso é um nível de preguiça muito elevado. O termo médico pra isso é sedentarismo.
― Ah, Grover ― falei, passando a chave de uma mão pra outra e repetindo o movimento ― Será que eu vou me arrepender de ter aceitado sua proposta de vir pra cá conosco?
― Isso pode até acontecer, Jackson, mas você sabe que eu viria pra cá de todo jeito, você deixando ou não ― Grover sentou-se em minha cama bagunçada.
― Não vou esperar que você diga que fez essa mudança toda, literalmente, por mim ― sentei-me, apoiando o corpo em cima dos braços atrás das costas, de frente pra ele ― Você nunca faria uma coisa assim tão romântica.
― Você tem toda a razão, eu jamais faria isso, principalmente sabendo como pode acabar ― ele falou sarcástico e olhei com cara feia pra ele ― Mas ― continuou ― vim parcialmente por você. Vou te ajudar nesse semestre de castigo em Manhattan. Seus pais foram muito cruéis, não é? Todo mundo odiaria um castigo assim.
― Minha vontade neste momento é te socar ― levantei-me do chão, ainda segurando a chave.
― Bem, você pode fazer isso, mas na parede ― Grover disse ― Talvez a violência cure um pouco o seu sedentarismo.
― Porque você não ligou, em, cara? ― perguntei ― Ia ser mais fácil me livrar de você e da sua chatice. Era só desligar o celular.
― Bom, eu achei que seria melhor contar pra você tudo o que aconteceu com seus amigos no primeiro dia de aula pessoalmente. ― ele piscou pra mim.
Isso foi o bastante pra eu pegar a cadeira da escrivaninha do quarto e sentar de frente pra ele. Grover sorriu. Sabia que tinha conseguido minha atenção.
― Pode começar a falar agora ― disse imediatamente, apoiando meu queixo nas mãos, os cotovelos apoiados nos joelhos. A chave estava na minha mão, sendo pressionada em meus lábios.
― Por quem você quer que eu comece?
Ele ria. Tínhamos conversado muito sobre isso e eu já tinha superado. A maior parte, pelo menos. Mas tudo ainda não saía da minha cabeça. Ela não saia da minha cabeça.
― Você sabe por quem ― eu falei.
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