Se no início Chester avançava confiante do que estava a fazer ali, à medida que ia penetrando cada vez mais fundo naquela nave feita de salas intrincadas e esquisitas, de subidas, descidas, escadas largas, degraus estreitos, tubos, salas e átrios num labirinto que tanto era escuro como colorido, ele começou a julgar que estava num sonho psicadélico. Se antes parecera divertido, o seu bom humor desfazia-se agora em migalhas de apreensão, medo e desconfiança.

— Parece a porra do País das Maravilhas – disse em voz alta. Descobriu que gostou de ouvir a sua própria voz, foi como se tivesse encontrado um paliativo que lhe devolvia parte da serenidade e continuou a dissertação: – Sim, a porra do País das Maravilhas. Daqui a nada encontro-me com a Alice e os seus comprimidos, que a fazem crescer ou encolher… ei, minha, dá-me também uma dessas pastilhas… e vou tropeçar naquele coelho branco louco… e encontrar a lagarta em cima do cogumelo a fumar aquelas merdas e depois peço-lhe uma passa. Vou ficar mocado. Sim, mais mocado do que já estou! Que merda de nave… será que a escotilha do Mike também o levou a um lugar parecido a este? Isto não faz qualquer sentido… parece mais um parque de diversões do que uma nave espacial… Bem, aquela cabina telefónica azul também é uma nave. Isto é uma grande pedra! Uma grande…

Não terminou a sua análise. O chão cedeu numa rampa e Chester rebolou até parar no fim da descida inesperada. Largou a guitarra acústica. Com as pancadas a caixa de ressonância vibrou e soaram algumas notas desafinadas, que foram refletidas pelas paredes num ciclo infinito de som que ia ficando cada vez mais distorcido. Chester levantou os olhos para o teto e viu cabos esticados e entrançados, de uma parede à outra, que oscilavam à medida que o som passava por estes. Eram as cordas de um instrumento musical gigante. Chester olhava pela primeira vez o teto da nave e perguntou-se se a nave não seria esse instrumento musical. Fazia todo o sentido, já que os fungos parasitas viviam do som.

As luzes indiretas aumentavam a sensação de claustrofobia, de que por cima dele se estendia uma rede pronta para o envolver e aprisionar. Levantou-se sem desfitar o teto, preparado para um ataque. Andou com cautela, recuperou a guitarra. As ondas sonoras continuavam a propagar-se, o tom a tornar-se mais grave, a ser opressivo, a esmagar, a fazer as paredes ondular.

Abriu-se uma janela à sua esquerda e Chester saltou com o susto. Clara apareceu a correr e esbarrou contra ele. Caíram os dois, ele voltou a largar a guitarra. Outro acorde fortuito que alimentou os cabos no teto que cantavam, agora, alegremente.

— Clara! O que fazes aqui?

Solícito, Chester estendeu uma mão e ajudou-a a levantar-se.

— Chester! Não sei… não sei por onde estava a ir. O corredor foi-se dividindo noutros pequenos corredores e eu fui andando cada vez mais depressa até desatar a fugir. Tinha a sensação de que vinha alguma coisa atrás de mim, uma gigantesca bolha verde. Um fungo ultradesenvolvido… Que som é este? – E assim que o disse tapou os ouvidos com as mãos.

— Foi a minha guitarra que provocou esta sinfonia desafinada. É o teto. Olha.

Clara olhou para cima, baixando os braços.

— O que são? As cordas de uma guitarra gigante?

— Ou o interior de um piano enorme… não faço a mínima ideia. Não te cruzaste com o Mike?

— Não. Nem vi o Doutor. Estava a tentar regressar à TARDIS, mas acho que me perdi.

— Eu também ando por aqui perdido. Nem sei qual é o caminho certo. Parece… Isto parece-me…

Mordeu os lábios, calando-se. Sentiu um toque quente no braço.

— Parece-te o quê? – pediu Clara e entreolharam-se. – Diz, Chester…

Ele respirou fundo. Confiava nela, sentia-se bem ao lado dela.

— Parece-me uma ilusão. Uma coisa que… que só existe na nossa cabeça. Os nossos medos e as nossas fantasias. A nave está a brincar connosco.

Ela considerou aquela teoria, considerou-a a sério. Fixou Chester durante longos e intermináveis segundos, cogitando nas implicações daquela possibilidade, medindo-a de acordo com a sua própria experiência quando fizera o seu caminho até ter chegado ali. Assentiu.

— Talvez. A TARDIS poderá esclarecer-nos.

— Por que motivo… confiam tanto na cabina telefónica?

— Não é apenas uma cabina telefónica, é uma entidade. É a melhor amiga do Doutor.

Chester sorriu-lhe.

— Pensei que a melhor amiga do Doutor fosses tu.

— Ah… – Clara riu-se e enrolou-se no braço dele. – Também, Chester. Também sou a melhor amiga do Doutor. Mas ele teve… outras companheiras iguais a mim e antes de mim. Continuemos. Não sabemos se estamos longe da TARDIS. E se esta nave representa um enigma para a nossa imaginação, devemos resguardar-nos das suas armadilhas.

— E ainda temos de encontrar uma cura para o Joe.

Começaram a andar juntos. A música desafinada desvanecia-se e desapareceu por completo, sendo substituída por uma quietude fria, quando eles abandonaram aquela sala dos cabos no teto. Regressaram a um corredor anónimo, idêntico ao primeiro corredor que tinham percorrido naquela nave.

— Chama-me Chaz, por favor.

— Hum-hum.

— O Doutor é um mulherengo? Disseste que ele teve outras… companheiras. Mas o velho não tem vergonha?

Ela riu-se outra vez. O riso dela era muito bonito, pensou ele.

— Oh, Chester!... Chaz. Não julgues o Doutor e as suas companheiras não são o que estás a pensar. Fazemos parte… das suas aventuras. É só isso. E o Doutor nem sempre teve esta aparência, sabes? Já o conheci diferente…

— Aventuras… sei.

— Sim, aventuras! Viajar no espaço e no tempo é uma verdadeira aventura! Estou aqui contigo, com o famoso cantor dos Linkin Park, numa nave estacionada algures na Via Láctea, a tentar descobrir como eliminar um fungo alienígena. E depois conto ir ver o vosso espetáculo em Milton Keynes. E isso é o meu passado. Estou a viver este dia de junho de 2008 pela segunda vez.

— Eu também conto ir fazer esse espetáculo – suspirou ele, desalentado.

— Só com o Doutor e a sua cabina telefónica mágica se pode fazer isso. Estar a combater alienígenas e terminar o dia com um concerto de Rock. Isso, meu querido amigo, é uma aventura!

— Vou acreditar no teu otimismo. Porque, neste momento, não me sinto nada otimista… Não me parece que vá haver um concerto de Rock no fim do dia e estou bastante preocupado com o Joe.

— Ele está na TARDIS e a TARDIS cuida dele.

— Está bem…

— Chaz, um pouco mais de fé.

Clara encostou-se ao seu ombro e Chester teve vontade de a abraçar e perder-se nesse momento. Ela era uma mulher pequenina, perfumada, cheia de energia e de autoconfiança, ladina, contundente, interessante, inteligente e bastante bonita. Mais bonita do que ele queria que fosse, mas era facto que os olhos grandes dela o enfeitiçavam e passavam-lhe calor naquele ambiente gelado e mudo.

Sentiu um peso e parou. A Clara puxava-lhe o braço.

— Espera… estás a ver aquilo?

Era uma nova escotilha, hexagonal, com uma moldura metálica dourada.

— Eu não fiz nada com a guitarra – justificou-se ele. – Normalmente é o som que faz aparecer essas portas, mas agora estive quietinho e não fizemos qualquer barulho que provocasse o aparecimento de outra passagem. Estou inocente!

— Acho que a janela já estava ali. Vamos espreitar.

Ela desprendeu-se dele. Teve o bom-senso de ver primeiro através da vidraça e só depois levar a mão ao trinco, mas assim que viu o que se passava do outro lado, largou-o, recuou, cobriu a boca com os dedos, arregalou os olhos e arquejou tomada por um pânico que era tão frio e cortante quanto o ar.

— Oh!...

— O que foi que viste? Porra, estás a assustar-me…

Chester aproximou-se da escotilha. Era uma janela que deixava ver, desde uma posição elevada, um enorme compartimento branco. As paredes estavam cobertas de bastidores com luzes a piscar e havia uma plataforma no meio, com acessos inclinados, que se assemelhava a um centro de controlo. Pela sala cirandavam o que parecia serem saleiros enormes, decorados com esferas, as suas tampas a girar de um lado para o outro, ao mesmo tempo que agitavam apêndices metálicos rígidos.

— Acho que encontrámos a ponte da nave. Aqueles robots estão a proteger o coração da nave… São tão… ridículos! O que te meteu medo?

Clara sussurrou:

— Chaz… são daleks!! São eles que comandam esta nave!

Notas finais
Próximo capítulo: Improvisar e continuar.