O Mundo de Pocema

18 Capítulo 18: Hora de colocar a boina!


— Pocema, hora de acordar.

— Mãe?

— Vamos tomar café, meu anjo?

Tomei café e fui direto para o banho quentinho, depois coloquei o meu uniforme e fui para frente do espelho para fazer continência à mim mesma.

— Pocema! — Disse meu pai.

— Que foi?

— Você esqueceu de engraxar os seus sapatos.

— É verdade! — Obrigada por me lembrar, papai!

Saí do banheiro e fui engraxar os meus sapatos.

— Daniel, você também esqueceu?

— Sim, pois é.

Depois escovei o meu cabelo e fiz um coque. Em seguida olhei para o relógio, perplexa.

— Ainda está cedo?

— Espera, acordamos mais cedo? — Perguntou o Daniel meio confuso.

— Eu e sua mãe não podemos levar vocês para a escola. Mamãe cuida da Carlota e eu trabalho cedo também.

— Eu entendo. —Disse, chateada....e com preguiça.

Nos despedimos e fomos de metrô.

Uma dica para quem se esforça na vida: Nunca sente no fundo! Sempre há um grupinho bagunceiro. Claro que não sou a mais quieta (talvez a segunda, ou terceira), mas conversar por horas aí não dá!

No recreio eu fui falar com as minhas amigas, mas a Bruna não estava com elas.

— Talvez funcione. — Disse Carol.

— Pocema vai adorar! — Disse Nina.

— O que eu vou adorar? — Olhei de cara feia e batendo o pé no chão. — E cadê a Bruna?

— Foi buscar uma pessoa muito especial! — Nina estava, aparentemente, bem empolgada.

— Olha, obrigada pela ajuda, mas a minha memória vai vir com o tempo. — Não precisam se esforçar tanto. — Já sabia que era algo relacionado a isso.

— Não se preocupe, vai valer a pena! — Carol. Sabia que era isso! — Vamos levá-la logo!

Elas me pegaram pelos braços, uma em cada, e me levaram para um canto sem muito movimento.

Admito que fiquei com muito medo. Pensei em mil maneiras horríveis comigo!

— Onde estão me levando?! Me soltem!

— Calma, é algo bom. Não te preocupes! — Disse Carol estranhamente animada.

Quando chegamos ao local elas me soltaram. Meu coração quase saltou pela boca!

Era aquele menino que "roubou" o meu primeiro beijo! E a Bruna!

— Pocema? — Os olhos dele estavam arregalados como os meus. — Eu estive tão preocupado com você! — Ele estava chorando.

Ele correu me abraçou muito forte. Era muito bom e horrível ao mesmo tempo!

Não posso misturar o real com o imaginário!

— Quem é você? — Disse confusa. — Não gosto de estranhos me abraçando!

Ele desfez o abraço e olhou para mim assustado.

— Você não se lembra de mim?

— Ela também não lembra da gente. — Disse Nina.

Avistei o Daniel parado e perplexo.

— Daniel? — Disse.

— Daniel, quanto tempo! — Eles deram um abraço com tapinhas. Coisa de garotos.

— Pô, demais, Miguel!

— Esse é seu nome? — Perguntei, em choque.

— É sim. Tão bonito quanto Pocema! — Ele sorriu meigamente.

— É, eu acho. — Fiquei tímida de repente, que droga! Ele é tão canalha, e fofo, quanto o outro!

— Por que não voltamos juntos depois da aula?

— Acho verídico!- Disse Bruna, contente.

— Eu não sabia que você existia de fato, Mi-Miguel.

Ele e todo mundo, menos o Daniel, me olharam confusos.

— Depois da aula eu conto meu testemunho e você entenderá!

— Testemunho? Tá certo, então! — Ele me abraçou e eu acabei retribuindo por educação. — Senti sua falta! Juro que não sou um estranho! — Nos soltamos e ele foi embora.

* * *

As aulas não estavam mais tão interessantes. Não culpo os professores, mas há um tesouro nesse mapa que se chama memória!

Finalmente as aulas acabaram e todos fomos de metrô. Eu contei todos os detalhes, até o beijo (pensando bem, eu deveria ter ocultado isso). Espero que o Miguel não fique desconfortável, é tão difícil falar o nome dele!

— Que profundo. — Disse Bruna.

Nina, Carol e Miguel choravam sem fim, enquanto eu segurava forte a mão do Daniel! Não era fácil lembrar da despedida dos meus amigos, mesmo que não fossem reais. Acho que o Daniel sente o mesmo.

— Que história bonita. — Miguel secava as lágrimas e soluçava. — Que bom que as minhas orações fizeram efeito!

— Você acredita em Deus? — Perguntei.

— Mas é claro! — Não sei bem o porque, mas eu gostei de ouvir isso.

— E vocês?

Nina e Carol disseram que eram agnósticas e Bruna atéia.

Nos despedimos e cada um foi para o seu lado.

— Daniel, por que elas não acreditam em Deus?

— Muitas pessoas não acreditam o que não se vê.

— Mas tudo que eu vivi foi real. Eu não mentiria algo tão importante!

— Eu sei, irmã. Talvez seja o primeiro passo para elas. — E, quem sabe, elas não estejam pensando no assunto?

— É, pode ser.

— O final feliz é depois que a gente morre. — Eu olhei para ele meio estranha.

— Depois que morre...céu, inferno...Ah! Você entendeu!

— Sim, eu entendi! Era brincadeira!

Depois de chegarmos em casa, almoçamos. Eu estava com tanta fome que repeti três vezes! Depois fui para o sofá e fiquei conversando com a Ana pelo celular.

Saudades, amiga! — A Ana é realmente muito legal!

Conversamos muito, até a minha mãe nos interromper.

— Pocema, vamos estudar, né?

— Tenho mesmo?

Tem.

Me despedi da Ana e fui para o quarto do Daniel. Deixei algumas coisas lá.

— Pocema? — Daniel estava de joelhos, orando.

— Desculpe interromper a sua conversa com o Jeová. — Não se preocupe, vou pegar meus livros e vou para a sala.

— Obrigado.

Depois de estudar eu pensei em uma coisa:

Química é mais legal do que sociologia.

Fui para o quarto da Carlota e vi uma cena surpreendente:

Carlota estava mamando a mamadeira e chutando o Daniel. O mesmo fez um escudo com os braços. — Vou deixá-los brincando.

Aproveitei que estava sozinha e fui para o quarto conversar com o Jeová.

Contei o meu dia e agradeci por isso. Orei por todos e pedi para lembrar de tudo se for da vontade dEle.

Depois fui ajudar a minha mãe na cozinha.

— Você lava e eu seco e guardo. — Disse mamãe.

— Ok.

O trajeto foi um tanto silencioso.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não, nada.

— Não me esconda, menina. Eu te conheço.

Suspirei.

— A Nina, a Carol e a Bruna me apresentaram uma pessoa.

— Quem é?

— O nome dele é Miguel.

Minha mãe ficou muito contente. Assim, contente mesmo!

— Aquele menino sempre foi um cavalheiro! Gentil que nem a mãe dele! — Você gosta dele?

— Nã-não! Quer dizer, ele não me deixa indiferente. Acho que o odeio.

— Ahn?? Mas vocês namoravam!

— Quê?! — Quase deixei o prato cair. — Como assim? Tu deixou duas crianças namorarem??

— Ok, eu exagerei. — Como eu posso dizer, um amor infantil e inocente! Ele sempre te dava flores do jardim dele.

— Sempre?

— Dos cinco aos treze anos. — Ai, como será que ele tá? Ele deve estar um gato, né, Pocema?

— Ah, eu sei lá, mãe! — Me escondi na louça, brava.

De noite, eu abri a gaveta da mesa de estudos, e peguei o papel dos meus amigos imaginários e cortei o Miguel fora.

— Por que está cortando o Miguel? — Daniel pareceu surpreso.

— Porque o Miguel dos meus sonhos tem um nome. Agora ele já pode sair da minha mente escura. — Joguei o Miguel de papel no lixo.- Ele é real.