O Mundo de Caio

3 Impossível


Como falei anteriormente, o local onde o nosso protagonista – a quem estamos chamando de Caio – está não é regido pelas mesmas leis do seu mundo, caro leitor. Lembrado isto, vamos continuar, mas antes preciso dizer que Caio ficou tanto tempo observando a sua recém-criação, as estrelas, que adormeceu sobre o banco. Mas, o tempo ainda não existe nesse lugar fantástico. Sendo assim, quando nosso colega acordou, ainda estava noite.

Caio piscou intermitentemente. Ainda estava um pouco embriagado pelos três copos de uísque que tomara. Talvez um quarto fosse necessário para melhorar sua compreensão do mundo – ele riu quando a idéia passou por sua cabeça. Levantou-se, pois estava deitado sobre o banco de madeira. Colocou-se em pé, e ao olhar o que havia sido criado, notou que ainda faltava muito. Não havia criado metade do que imaginava ter em um mundo e de repente, talvez em sua meia embriaguez, se viu como um deus tolo.

—Realmente... – começou em voz alta como se alguém o ouvisse – ainda está tudo escuro. Ainda não criei sol, lua, grama, água... Nada! Como posso ser um deus se ao menos criei o lugar onde habito? E se esses poderes que tenho são reais, como agora eu sei que são, o que estou fazendo ao invés de usá-los?

Então, Caio pediu o quarto copo de uísque. Segurou com sua mão esquerda e bebericou um pouco do líquido, em seguida, olhou para o chão onde pisava. Estava branco, apenas um pouco escuro por causa da noite que ele criara anteriormente. Então, com todas as forças do seu pensamento, Caio desejou que seus pés sentissem a grama abaixo deles. Imediatamente a sensação veio, mas acompanhada da visão de um longo tapete verde se estendendo para todos os lados até onde a sua visão conseguia enxergar. Bebericou mais um pouco, e desejou vê-lo melhor. Foi então que olhou para o céu e um dos pontos brilhantes distantes se aproximou mais dele em uma distância suficiente para o céu ficar azul e iluminar o lugar onde estava. Caio gritou quando isso aconteceu.

—EU SOU UM DEUS AQUI! Que a partir de desses vegetais surjam outros maiores. Eu quero várias árvores aqui!

E assim aconteceu. Do chão começaram a brotar várias árvores em vários pontos, os mesmos para os quais o homem direcionasse o seu olhar. Como não conhecia muitas, o lugar começou a se encher de macieiras, parreiras e laranjeiras. Caio achou melhor parar para não ter que tirá-las do lugar depois. Estava fascinado com o que estava fazendo, mas logo percebeu que estava muito quente. A estrela que puxara para perto estava inundando o lugar com luz. Automaticamente, Caio pensou no ventilador que usava para dormir antes de parar naquele lugar, e foi assim que ele criou o vento. Logo as folhas das árvores estavam balançando e uma brisa suave amenizava o calor que o rapaz sentia.

Maravilhado com tudo aquilo, Caio virou o restante em seu copo de uísque. Então, começou a sentir sede. Precisava de água, e olhou para o céu que em um piscar de olhos se encheu de nuvens. Logo uma chuva forte começou a cair sobre ele, molhando seu terno.

Sim, meus amigos, Caio estava de terno e só havia notado quando este começou a se encharcar com a chuva. Mas posso dizer que ele pouco se importou, pois viu algo mais interessante no mesmo instante. Assim que percebeu o seu terno, olhou para baixo em meio a forte chuva e viu, através de uma poça de água, o reflexo de alguém. Era uma mulher, ou pelo menos parecia ao julgar pelo vestido preto. Ela segurava um guarda-chuva amarelo¹, e pelo reflexo parecia observar o rapaz. Mas sinto dizer que esses segundos em que você leu as últimas palavras que escrevi foram mais rápidos para Caio e a suposta mulher, pois quando ele viu o reflexo, imediatamente olhou na direção do objeto refletido, mas tudo que viu foram árvores, chuva, grama e o céu cinzento.

Caio olhou novamente para a poça, mas não viu mais o reflexo daquela pessoa. Ficou se perguntando, em meio à chuva, quem seria ela. Se ela realmente estava ali ou se era fruto de sua cabeça. Quem seria ela? Deveria buscar por ela? Caio então tentou trazer a pessoa para aquele lugar, ou pelo menos recriar a imagem, e foi o que tentou pelo tempo não contado que se passou.

—MULHER DE GUARDA-CHUVA AMARELO!!! MULHER DESCONHECIDA!!! MULHER DE PRETO!!!

Mas nada pareceu dar certo. Finalmente encontrou algo que era impossível de se fazer. Caio não conseguiu fazer que ela aparecesse novamente ali. Respirou fundo, sentou no chão e ficou pensando em meio a chuva. Será que realmente ele teria poder sobre tudo ali? E ainda havia tanto a se responder, pois nem mesmo lembrava quem era direito.

Em meio aquela chuva, nem preciso dizer o quanto nosso amigo refletiu e tentou buscar informações sobre o seu passado. Mas sabemos que nem sempre as coisas acontecem da mesma forma que queremos, a menos que sejamos um deus. E, infelizmente para você que imaginava essa possibilidade, Caio não é um. Mas descobriremos um pouco mais sobre ele adiante. Por enquanto, reflita também sobre quem ele é e como é possível que algo incontrolável surja em esse mundo aparentemente controlado por Caio.

Notas finais
¹ Referência a série "How I met your mother".