O Mundo Perdido
1 Ciclo
Notas iniciais
Abraços,
Jean C.
Justin observava as gotas da chuva escorrerem solenemente por sua janela. O barulho acolhedor das gotas batendo no telhado lhe proporcionavam uma sensação de conforto. Ele estava deitado de frente para a janela de seu quarto, em um pequeno espaço que sua mãe havia acrescido, pois tinha achado o mesmo “ moderno. “; Justin pouco se importava com modernidade, mesmo que seu estilo de se vestir estivesse dentro dos padrões atuais. No momento ele vestia uma jaqueta colegial preta e branca, com os botões fechados sobre uma blusa gola V branca. Usava calças jeans justas e all stars. Os fones de ouvido estavam pendurados sobre a blusa, enquanto uma faixa de uma música ressoava pelo ar. Seus cabelos estavam desarrumados, mas ainda assim com um estilo preservado. Seus olhos claros estavam com um brilho estranho, com um tom de verde-mar. Sua pele estava pálida e fria devido a geada que se formava lá fora. Justin não sentia frio, pelo contrário, gostava dele.
O vento uivou mais poderoso lá fora. Justin olhou preocupado, porque mais que o vento o acalmasse, aquilo não parecia normal... As árvores balançavam vertiginosamente, enquanto um vento furioso as açoitava, a ponto de algumas terem as copas tocadas no chão. Justin se mexeu desconfortável e por fim decidiu levantar. Seu quarto estava completamente desarrumado, mas isso obviamente não o incomodava. Sorrindo ao pensar na cara de sua mãe, ele saiu do quarto.
A família de Justin não é o que temos como modelo. Seu pai era um homem de meia-idade, com pele morena e olhos escuros. Gostava de jazz clássico e raramente estava em casa, devido a imobiliária da família. A mãe de Justin era uma mulher jovem e bela, porém não muito agradável. Seus cabelos eram cumpridos e estavam quase sempre presos em um coque. Possui-a olhos claros e um belo sorriso, porém raramente o dirigia a alguém. Justin desceu as escadas da casa e passou pela sala, na qual a TV estava ligada em um programa de comédia. Ele pegou o controle e passou distraidamente por alguns canais: noticiário, desenhos animados...
- JUSTIN! – Sua mãe gritou da cozinha, com a voz moderadamente controlada, mais ainda assim com uma fúria injustificável. Justin revirou os olhos e a ignorou por um tempo, o que não era muito prudente.
- Se eu tiver que ir aí, você vai se arrepender garoto!
Justin não teve escolha, a não ser se levantar e ir até a cozinha. Seu relacionamento com sua mãe não era de todo o ruim, mas ultimamente vinha piorando desde que ele tinha feito o ar-condicionado da casa explodir. Não foi de propósito, obviamente. Tal objeto o atraíra demais, como se o ar que saísse dele fosse uma voz o chamando, incitando-o a realizar algo. Quando ele percebeu, o objeto estava pegando fogo e sua mãe gritando.
- Senhora? – Disse ele friamente. Ela o olhou de cima a baixo com olhar de reprovação, como se não pudesse acreditar que tinha carregado tal garoto nove meses na barriga para aguentar frieza.
- Não use esse tom comigo. — Ela cruzou os braços e bateu o pé no chão repetidas vezes, uma mania irritante de pessoas impacientes. — De qualquer modo, preciso que você leve suprimentos para o porão. Enquanto você estava isolado em seu quarto, o noticiário notificou que um furacão está se formando ao norte de Cambridge, e em breve chegará aqui.
Curiosamente, Justin não notou que a Inglaterra sofria pouquíssimo com furacões, e que um evento como esse no outono era algo extremamente incomum. Dando de ombros, ele pegou uma caixa que sua mãe havia separado (que estava muito pesada, por sinal) e caminhou até o porão. Com o pé, abriu a porta e olhou para baixo. O que viu não o surpreendeu de imediato, mas o deixou assustado. A poeira que subia do mesmo estava formando estranhos símbolos no ar. Era como se alguém estivesse desenhando com poeira, traçando delicadas linhas e formando estranhas simbologias. Justin conseguiu identificar apenas um até o fato parar: uma Rosa dos Ventos. Sua animação caiu para entrar no porão, mas o que quer que tenha provocado aqueles símbolos não podia ser pior que sua mãe. Justin desceu os degraus com cuidado e com pouca visão, até encontrar a cordinha da luz e puxá-la.
A luz fraquejou, mas por fim acendeu. Diversos objetos inutilizados foram iluminados: móveis velhos, tapetes, roupas, brinquedos. Justin se esquivou de alguns objetos perdidos e depositou a caixa em cima de uma mesa, que ruiu e fez a caixa cair. Enlatados, garrafas d’água, tudo se espalhou. Justin soltou alguns palavrões que tinha visto na TV e ficou olhando a bagunça, se lamentando. Suspirando para controlar a raiva, se agachou e começou a recolher os alimentos. Seu dia estava realmente indo de mal a pior, desde que ele tinha faltado a aula e perdido a oportunidade de falar com Amy... Amy. Lembrar-se dela fez ele sorrir. Lembrar de como seus cabelos lisos e sedosos balançavam enquanto ela andava, seu sorriso perfeito, seus olhos azuis-turquesa com um leve tom arroxeado... Não que ele reparasse nela, é claro. Uma sombra o alertou de que estava ficando tarde. Um brilho alaranjado adentrava pela única janela do porão, iluminando algumas partículas de poeira que voavam pelo ar. Justin terminou de recolher os alimentos e os guardou na caixa, até que o sentiu.
Uma inconfundível presença o chamou a atenção. Era como se o ar o quisesse avisar que algo estava errado no ambiente em que ele estava presente, geralmente nada de bom. Justin se levantou rapidamente, segurando um bastão de mogno que já fora a perna de uma cadeira, a tempo de ver o homem se materializar. O ar tremeluziu como em uma miragem, tomando a forma do que parecia um ser humano. Ele tinha cabelos longos e sedosos, que chegavam até mais ou menos sua cintura e estavam presos em um rabo de cavalo. Sua pele era de uma palidez inumana, quase próxima a um tom leitoso, de modo que diversas veias do rosto estivessem expostas. Usava um antiquado terno cinzento gasto, com botões descascados e com algumas partes rasgadas, além de uma capa negra. O mais perturbador em seu rosto eram os olhos e os dentes: Olhos completamente negros: Sem íris, pupila, ou qualquer outra parte com cor diferenciada; Quando sorriu, seus dentes eram na verdades grandes presas extremamente brancas. Justin rapidamente o associou a um vampiro, e como se lesse seus pensamentos, ele respondeu:
- Não sou um vampiro, garoto tolo. – O homem revirou os olhos e deu um passo a frente. Sua voz era grave, como um narrador de rádio. Justin retesou seus braços, pronto pra usar seu porrete-cadeira. O homem pareceu se divertir com a ideia, mas se limitou a novamente revirar os olhos – Sou muito, muito pior. E ah, é melhor abaixar esse palito de dentes antes que eu use ele para te empalar. — Justin não gostou do tom dele, mas o obedeceu.
- Quem é você? O que está fazendo na minha casa e como se materializou do nada no meio do porão?! – Gritou ele. Ele exalava mais coragem do que tinha, pois não estava muito entusiasmado para enfrentar um homem que se materializou-se do nada e tinha presas.
- Me chama Anorel, e sou um dos Natus Ex Elementis (Nascidos dos Elementos), mais especificamente o filii Era (do latim “ Filho do Ar “). – Justin achou que o homem estivesse louco, falando aquelas palavras como se fizessem todo o sentido. – Porém pra você, um Moderatoris (Controlador) do Vento tão insignificante, não devo satisfações plausíveis.
Antes que Justin pudesse responder e xingar o homem por chamá-lo de moderador (seja lá o que for), o vento rugiu furioso lá fora. Realmente, foi um rugido. Algo pesado atingiu a janela do porão e a trincou, fazendo Justin pular. Anorel sorriu.
- Ah, achei que iria demorar mais... – Ele se virou para Justin. – Por mais que eu ache você digno de pena, existem histórias sobre você... Um moderatoris nascido do fogo, mas que tem outro elemento sobre seu poder... Denominado Justini, o que para você deve ser Justin não? De qualquer forma, você não pode viver.
Justin congelou. Aquele homem queria matá-lo. Ele não esperava realmente uma reação por parte dele, quanto mais uma ameaça de morte. O vento novamente rugiu, com uma fúria incontrolável. Aquele vento... Aquele homem... Tudo estava ligado de alguma forma. Aquele homem exalava uma energia maligna, um ar maligno. Justin simplesmente amava vento, mas o que aquele homem exalava era diferente: maligno, pesado, praticamente poluído. Ele novamente retirou a atenção do vento e se voltou a Justin:
- Como eu dizia, você não pode viver. Não queremos mais problemas do que já tivemos, e muito menos pessoas interferindo em nossos planos futuros... De qualquer forma, espero que aproveite meu presente. Você deve adorar vento. – Com um último sorriso, o homem tremeluziu e desapareceu, no mesmo instante em que o furacão invadia o quintal da casa de Justin, uma massa de destruição que estava arrancando a casa dele do chão.
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