O Mundo De Joie
1 Da Imaginação
A chuva batia no chão, e eu estava todo molhado. O meu mundo não era grande, mas também não era pequeno, tinha três vilarejos, não tinha mais que cem pessoas.
O mundo parecia tão sem graça, eu pensava, sentado ali no canto do muro, como eu sempre ficava. Nunca gostei de muita bagunça, sempre fiquei largado pensando na vida. Eu estava encolhido, estava bem frio e eu matinha meus braços apertadinhos nas pernas, pra me aquecer. Era mais um dia qualquer, sem muita graça, sem muita cor, eu pensava.
O sol brilhava alto no céu, era um mundo pequeno, então a chuva ia logo, tão logo o sol voltava. Eu levantei os meus olhos para ele, nunca gostei de sol, ele só fazia arder meus olhos, e queimar a pele, ainda bem que sem demora, ele já se retiraria. Eu estava tão distraído olhando para o sol, que quando abaixei os olhos, tomei um susto com uma menina que estava sentada na minha frente. Era Joie.
Todos amavam Joie, acho que era impossível conseguir não amar ela. Ela era pequenininha, e estava sempre sorrindo, tinha um daqueles sorrisos doces que se espalham feito resfriado. Acho que toda alegria sempre é um pouquinho contagiosa. Ela tinha os cabelos loiros que pareciam ter sido todos feitos cuidadosamente, cada fio, tecidos no ouro. Seus olhos eram bem azuis, e pareciam imitar o céu daqueles dias quentes em que você não consegue ficar triste.
– Por que que você está ai jogado no chão menino? — Ela me perguntou, ficando séria rapidamente, e desfazendo o sorriso que sempre levava no rosto, para se preocupar comigo. — Por que você não levanta dai, e vem brincar comigo?
– Eu não posso. É que eu sou... Eu sou, diferente. — Eu respondi, abaixando a minha cabeça, um pouquinho envergonhado. Eu gostava dela.
Ela sentou se sentou e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa para impedir, ela já estava deitada do meu lado. Conseguindo me deixar ainda mais envergonhado.
– Quem se importa se é, não leve a vida tão a sério menino. Você acha que é diferente?... — Perguntou ela, já voltando para o seu sorriso de costume.- Posso te contar um segredo? Mas é um segredo muito secreto, daqueles que não se conta pra ninguém. Posso confiar em você?
– Huum... — Eu não tinha muitos amigos, não tinha muita gente que eu poderia contar esse segredo. — Pode sim. — Disse, e dei um sorrisinho sem jeito para ela.
– Eu não sou daqui, eu vim lá da lua. — Disse ela, com uma cara tão séria, que eu não tive nem como duvidar de que aquilo era verdade. Logo que ela acabou de falar, ela colocou seu dedinho minusculo na frente dos lábios, para me lembrar de que era um segredo. Fiquei surpreso por um instante... Eu sempre gostei da lua.
– E como eram as coisas por lá? — Eu estava fascinado com a ideia de conhecer a lua, sempre imaginava como seriam as coisa na lua. Falar com alguém que veio de lá... Jamais sonhei isso.
– É muito chato. — Disse ela, quebrando todas minhas expectativas em poucas palavras. — É um grande queijo podre, é fedido, e não tem graça. O céu é sempre preto e sem vida. Muito melhor é aqui na terra. Aqui eu brinco o dia inteiro. Tem o mar imenso, a grama verde, a areia branca, o cheirinho de terra molhada, o barulhinho da chuva estalando lá fora, o azul do céu... Lá na lua não tinha nada disso. — A fala dela me assustou. Sempre achei que a lua fosse um lugar diferente... Que fosse melhor do que aqui.
– Olha lá! — Disse ela, apontando para uma estrelinha tímida que morava do lado da lua. — Lá morava um amigo meu. Ele também já esteve aqui na terra uma vez. Eu adoro olhar pro céu. Essas estrelas, todas parecem tão pequenas, só uns pontinhos brancos e brilhosos, mas elas são sempre tão maiores que a gente, e ocupam o céu inteiro. As estrelas sempre me mostram como esse mundo é grande, e como nós somos tão pequenos e sem importância, eu sempre sonho nas estrelas... — Dizia ela, entusiasmada. Ela não parava de falar — Olhe só a lua, parece tão pequena daqui...
– Hum... Você vivia sozinha lá?
– Não. Os lunáticos são muito divertidos. Mesmo a lua sendo muito chata, eles se divertem bem mais do que aqui. Eles não se preocupam tanto em trabalhar, e trabalhar o tempo inteiro, lá, eles preferem brincar. Que planeta maluco é esse que o trabalho é mais importante que a diversão? A gente trabalha pra ser feliz, mas não é feliz, porque trabalha. Essa gente se preocupa demais em trabalhar, em vencer, e em usar ternos e gravata. Quem disse que perder é ser menor na vida? Parece que daqui ninguém sabe amar aqui... Esse mundo tá de ponta cabeça, tá tudo errado. Como alguém pode preferir trabalhar a brincar? Ficam complicando tudo, se dá pra ser feliz sem ter nada disso...
Ela fazia tantas perguntas, como se tudo fosse uma ideia totalmente absurda. Como ela podia dizer que ficar brincando o dia inteiro, é mais importante que trabalhar...
Mas, pensando melhor, é. Por que que temos que trabalhar tanto? Por que tá tudo assim?
Eu me levantei dando um pulo de onde eu estava sentado, ali, no cantinho do muro, como eu sempre ficava. — Você esta certa! — Eu disse, e nunca estive tão certo de algo em toda minha curta vidinha. — Não tem porquê ficar aqui!... Vamos brincar? — Perguntei.
Na minha crise de euforia, por um momento, eu me esqueci que ela não iria querer brincar comigo. Como eu fui bobo. — É... Me desculpa... — Eu ia falando envergonhado, abaixei a cabeça, e fui me sentando de volta. Nem consegui sentar no chão, ela pegou meu braço, e me reergueu.
– Desculpa nada. — Ela disse, claramente irritada por eu ter dito aquilo. — Você não tem que se desculpar. Vem, vamos brincar!
Ela saiu correndo, segurando o meu braço, fui obrigado a correr junto com ela. Ela parecia ter o habito de me surpreender. Sem ter muita escolha, comecei a correr atrás dela. Nós corremos e corremos, subimos um pequeno morro, no campo verde que ficava perto do rio que cortava o vilarejo. Quando chegamos lá no topo, pudemos ver, por trás do monte, na beira de um rio, uma árvore enorme. No topo da árvore, tinha uma casinha, muito simpática. Não era só mais uma casinha na árvore, era uma casa grande, que ocupava todo o topo da árvore. Era um sonho, uma casa simpática, saía fumaça da chaminé e na varanda da casa, havia uma Coruja bem velhinha sentada em uma cadeira de balanço, balançava, pra frente e pra trás. Parecia que a Coruja estava sempre esperando alguém, uma visita especial, um amigo porque logo que ela nos viu, se levantou e começou a abanar suas asas, gritando:
– Venham crianças, subam. Podem vir aqui. — Dizia ela entusiasmada, como se nós fossemos amigos de muito tempo, que apareceram para um chá. Subimos por uma escada que havia no tronco da árvore, e logo estávamos em uma sala enorme, repleta de livros, mapas, objetos e tudo que se possa imaginar. A Coruja, havia saído da varanda, e, agora, estava sentada em uma poltrona na sala.
– Sentem-se. — Disse ela entusiasmada, apontando para um sofá que estava na frente de sua poltrona. Eu e Joie nos sentamos, Joie parecia segura, mas eu, não sabia o que estava fazendo ali. — O que vocês estão procurando por estas terras crianças?
– Nós queremos ir para o reino secreto de Somniatis, onde reina o Rei Leo. — Disse Joie. Eu não sabia se eu realmente queria isso. Eu ainda tinha um pouco de medo, e não sabia do que Joie estava falando. Dona Coruja se levantou.
– Ah, claro... Eu posso ajudar vocês, mas, quero que vocês me levem junto, por favor. Olhem para mim, minhas penas já estão ficando brancas, e caindo, já estou velha. Eu já realizei todos os meus sonhos, e agora, não tenho mais nada pra fazer. Por favor, me levem junto. — Como é triste alguém que possa ter realizado todos os seus sonhos... Os sonhos não foram feitos para serem realizados na verdade, mas sim, para serem sonhados. Viver, sem sonhar, não é viver, é só esperar.
– Claro que a gente leva você. — Disse Joie, com uma voz delicada. Agora, a Dona Coruja me parecia frágil, nós não podíamos dizer "não" para ela. A Dona Coruja desceu a escada, logo, estávamos os três em pé, ao pé da árvore.
– Aquele, — Disse a Dona Coruja, apontando para um vulcão que ficava não muito longe da árvore. — É o vulcão Fingi, ele é a entrada para o reino secreto, ele é especial, não aparece sempre, só quando alguém realmente precisa dele. Dentro dele, existe um dragão, que o nome é Timus, o dragão que assombra o vulcão Fingi, ele é muito poderoso, mas nós não podemos ter medo dele, se nós o vencermos, estaremos livres para entrar no reino, nós não podemos matar o dragão, pois sem ele, o vulcão ruiria, mas nós podemos domina-lo.
– Mas como que nós vamos derrotar um dragão? Eu não tenho nenhuma espada, nenhuma arma, nem armadura, eu não posso derrotar um dragão. — Eu estava desesperado. Não devia ter saído de onde eu estava. Estava sentado, tranquilo, como sempre. Agora, por culpa delas, eu iria morrer. Ia enfrentar um dragão, sem sequer ter armas.
– A lenda diz que se nós formos bons o suficiente para entrar no reino, os acasos vão nos ajudar, e tudo vai dar certo. — A gente ia matar um dragão, e a unica coisa que tínhamos para isso, era a sorte... Que ótimo.
Começamos nossa caminhada para o vulcão. A Dona Coruja não parava de falar e ela estava muito entusiasmada com a aventura. Ela andava distraída, quando, de repente, tropeçou em uma pedra, e caiu no chão.
– Aai. — Disse a coruja, caída no chão.
– Ai digo eu, foi você quem me chutou. — Reclamou a Pedra.
– E desde quando pedra fala? — Reclamou a Dona Coruja.
– Desde sempre, e eu não vou ficar quieta só porque você diz que uma pedra não pode falar. Você não sabe, mas eu nasci junto com o mundo e sou muito mais velha do que você pensa, criança. — A Dona Coruja não pareceu gostar do comentário da Pedra. É muito estranho ver alguém chamar a Dona Coruja de criança. Ele era bem mais velha que eu e a Joie juntos.
– O que uma pedra pode saber? Tu não fazes nada, nem sai do lugar. — Reclamava ela.
– Mas eu já vi de tudo. Eu descobri o segredo da felicidade. Nós todos, nascemos para ser tristes, a felicidade é simples. Nós sempre preferimos acreditar no mal, do que no bem. Nossos olhos se abaixam encabulados se vemos um casal abraçados, mas eles ficam fixos em um pessoa machucada. Só usamos nossa criatividade para ofender os outros, e, para agradar, fazemos sempre as mesmas coisas. Ser feliz é fácil, mas ninguém tenta de verdade.
– Dona Pedra, a senhora não quer vir com a gente para o reino secreto? — Perguntou Joie para a velha Pedra.
– Não crianças, podem ir, eu vou ficar aqui mesmo. Ainda há muito que pensar, ainda há muito que sonhar. Muito pra sonhar, muito amor pra se viver ainda. Eu não amo, mas saibam que o amor, é a única coisa que fazem de vocês, humanos. Quem vai ajudar vocês, é o pequeno Diliges, ele sempre sabe o que faz, aparece quando menos se espera, e é sempre ele que faz a diferença, e ele está atrás de você garoto. — Declarou a Pedra, e, em seguida, se despediu. — Que a sorte esteja sempre a seu favor.
Olhei para trás, estava lá o pequeno Diliges. Era belíssimo, mas não parecia muito forte. Eu não entendia como aquele nanico poderia nos ajudar a derrotar Timus. Não estávamos muito longe do vulcão, então, em pouco tempo, já havíamos chegado lá.
Entramos no vulcão. Ele era oco por dentro, no centro, o dragão estava deitado, atrás dele, um rio de lava corria. Nós entramos, mal havíamos posto os pés lá dentro, o dragão levantou a cabeça, e nos olhou com seu olhar ameaçador. Eu queria sair correndo, aquele dragão era assustador. Ele era enorme, tinha a cor da noite. Seus olhos eram vermelhos, e pareciam mostrar todos os medos que eu tinha. Ele empinou a cabeça, ainda deitado, e soltou para o teto do vulcão, um mar imenso de fogo, para nos assustar.
– CORAGEM — Berrou Diliges. Foi a primeira vez que eu vi ele falar. Aquilo me ajudou, e, pelo visto, ajudou Joie também. Nós saímos correndo, juntos, e pulamos na cauda do dragão. Ele se ergueu, e começou a balançar a cauda. Era praticamente impossível nos mantermos ali, mas, com força, nós começamos a subir. Já estávamos no torso do dragão. Ele começou a se debater e lutar. A cabeça dele não alcançava ali. Ele começou a aprontar as asas pra voar. Ele iria sair pela abertura do vulcão. Se ele decolasse, seria nosso fim, não conseguiríamos nos manter no dragão, com ele voando.
Eu vi que iriamos morrer. Pensei em pular do dragão, mas... Não, eu não podia deixar Joie sozinha. Foi só agora, quando eu percebi que iria ser o nosso fim, que eu vi como eu gostava dela. Eu olhei para ela, ela olhou pra mim, estendi a minha mão, e ela a segurou.
O dragão bateu asas uma vez, tomou impulso com as patas traseiras. Ele havia saido do chão, ia na direção do céu, Joie apertou com mais força a minha mão... De repente, um puxão nos joga de volta ao chão. Eu não queria pensar em o que seria forte o suficiente para jogar aquele dragão no chão. O dragão caiu, ele estava deitado. Talvez, tivesse quebrado alguma pata. Olhei de canto de olho, era Diliges, ele estava com pelo menos três vezes o tamanho do dragão, e emanava uma luz forte. Eu não conseguia olhar direto para ele. Ele se jogou por cima do Timus, e imobilizou ele.
– RÁPIDO — Eu ouvi Joie gritar. Ela me passou uma espada branca, que eu não sei como ela conseguiu. Talvez fosse algo relacionado a profecia. A espada era perfeita para mim — Vá para a cabeça, e cuide desse dragão. Eu cai em mim, e comecei a escalar o pescoço do dragão. Com ele imobilizado, era fácil. Cheguei na cabeça, me meti por de baixo de uma escama, que ficava bem no centro da cabeça dele, encontrei a pele, e cravei a espada no crânio dele, que, em seguida, caiu ao chão.
A espada emanou uma luz forte, então o chão debaixo de nossos pés desabou. Nós todos estávamos caindo em queda livre, menos o Diliges, que já havia sumido novamente. Caímos em um lago, eu, Joie, e o dragão. Quando tocou na água, o ele começou a evaporar. A água ficou vermelha., e pareceu renovar minhas forças, eu já não estava exausto (matar um dragão, é cansativo). Agora, estávamos só eu e ela. Estávamos no meio de uma floresta, uma floresta maluca, com flores que brilhavam, leões voando, pássaros gigantes, árvores em miniatura, tudo que se possa imaginar. Na nossa frente, estava uma montanha gigantesca, no topo, um castelo colossal.
– Conseguimos. — Ela disse, como se nem ela mesma acreditasse. — Nós conseguimos...
– Sim. Mas, o que nós vamos fazer agora? — Perguntei.
– Vem, vamos para o castelo, o Rei Leo está nos esperando lá, como eu disse. Agora, ele vai nos tratar como filhos dele.
Subimos até o castelo. Ele era lindo. Havia de tudo lá dentro. Centauros, Faunos, Ninfas, Pequenos dragões, comida, frutas das mais diversas. Foi assim, que viramos os filhos do Rei.
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