O Mundo De Carter
13 Capítulo 13
Tio Benjamin os visitou naquele natal, e trouxe junto o seu bando. Vanessa era brasileira, nasceu em São Paulo e se mudou para Nova Iorque quando tinha 13 anos, sete anos depois conheceu Benjamin e se casaram. Por sorte, Carter morava longe até alguns meses atrás, o que dificultava a visita deles. Contudo, agora que moravam na mesma cidade, tio Ben fazia questão de visita-los no natal. Os gêmeos eram garotos como Jared McCallister, valentões, baderneiros e que não seguiam regras, mas apesar de tudo, ainda eram três anos mais novos que Carter.
O garoto foi obrigado a lhes fazer companhia na sala de TV, enquanto sua mãe preparava o jantar junto da cunhada. Matt e Bryan não ficavam quietos, sorrisos esnobes apareciam em seus rostos sempre que Carter se movia, como se sua simples existência fosse uma grande piada. Os garotos eram loiros, cheios de sarda e olhos escuros. Idênticos e igualmente irritantes. Carter rezou para que aquela noite fosse agradável e acima de tudo, rápida.
Por volta das dez da noite, a ceia foi posta à mesa. Os gêmeos sentaram de frente para Carter, para seu incômodo. A princípio foi algo animado, compartilharam experiências e lembranças da infância, o jantar também estava muito bom, embora Carter soubesse que noventa por cento dele fora sua mãe que fizera. Seus pais estavam um tanto nervosos, como sempre ficavam quando recebiam visita em casa. Carter só não sabia o verdadeiro motivo, se era o fato da casa não estar tão organizada ou porque seu filho era uma bomba relógio.
Carter percebeu os olhares que Vanessa o lançava, com certeza Benjamin teria comentado com ela a sua situação no ano passado e consequentemente, os gêmeos infernais também deveriam saber. Já devia ser quase onze horas quando finalmente chegaram ao assunto que tanto queriam. Tio Benjamin com todo seu senso crítico foi quem tomou a dianteira:
– E então, Carter, como tem ido...as coisas? – Carter sabia que quando ele dizia “as coisas”, ele queria dizer “Você está louco ou não?”.
– Vão bem – disse com confiança.
– Robert me contou o que aconteceu – disse enquanto enfiava um pedaço de peru na boca – se precisar de ajuda pra arrumar um emprego, posso dar um jeito nisso.
Carter engoliu aquilo com amargura. Era como se ele estivesse dizendo que o fato de Carter ser doente o desvalorizava. Mesmo que isso fosse em parte verdade, não aceitava que um homem como aquele dissesse isso:
– Acho que consigo arrumar sozinho – disse rispidamente
Benjamin nunca levou nada calado:
– Não seja ríspido rapaz, você sabe como é difícil arranjar um emprego em suas condições?
– Já chega, Benjamin – interveio seu pai.
– Robert, você tem de falar algumas verdades para ele, é assim que fazemos com os nossos filhos – disse olhando para Vanessa com orgulho – mostramos a realidade como ela é, a vida não vai se amaciar para você sentar sua bunda nela.
Carter estava de queixo cerrado, pois a raiva que sentia naquele momento era dolorosa e avassaladora:
– Sei como educar meu filho – disse Robert friamente.
Benjamin o encarou, depois olhou para Lauren, que estava calada em seu canto, então limpou a boca com um guardanapo e disse:
– Bem, acho que não somos mais bem-vindos aqui, não é mesmo? – disse se levantando. Carter ficou grato por nenhum de seus pais dizerem nada. Em pouco tempo, Benjamin e sua corja já haviam desaparecido de sua casa. Carter pediu licença:
– Não estou com fome – e subiu para o quarto.
Não demorou muito até que sua mãe batesse em sua porta. Lauren sentou-se ao seu lado na cama, mas não disseram nada. Permaneceram num longo silêncio, como se sua mãe procurasse as palavras certas, então antes de falar ela fez:
– Feliz Natal – em sua mão estendida havia uma caixa. Carter a pegou e abriu delicadamente. Dentro havia um disco de vinil, Greatest Hits, Original de 1975 do Bob Dylan, a primeira compilação:
– Você pode usar a vitrola que era do seu avô...
– Obrigado mãe...é perfeito.
– Carter...sobre o que seu tio disse...
– Eu sei mãe, está tudo bem – Carter observou como a mãe estava com uma aparência cansada. Ela era tão bonita. Cabelos loiros escuros e olhos verdes e apesar da idade, tinha um corpo magro, contudo muitas linhas de expressão apareciam em seu rosto:
– Benjamin não é um homem ruim, Carter, ele só...é frio demais.
– Está tudo bem, eu não ligo.
Sua mãe o olhou com doçura, como fazia quando ele era criança, então envolveu seu rosto com as mãos e beijou sua testa:
– Eu te amo.
Carter fechou os olhos e disse:
– Eu também te amo.
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