Notas iniciais
Capítulo extra da tarde. Acessem: https://www.youtube.com/watch?v=t3eza6LvswI

Passava da meia-noite quando Collins e Billy foram embora – Collins estava de carona – Cho então mostrou um antigo livro japonês com gravuras bem realçadas, datado do século passado que pertencera à sua avó:

– Que interessante – caçoou Mark

Cho fez uma careta:

– Isso é uma obra prima, Mark, mas acho que você não sabe oque é isso – Havia alguma rixa entre os dois.

Mark a olhou com amargura, uma expressão que não combinava com ele. Carter decidiu dar sua opinião para acabar com o clima:

– É lindo, Cho. Tem muitas cores...parece que foi pintado à mão e...

– Foi mesmo. Oque você sabe de arte, Carter? – disse num tom meio áspero

– Bem...o suficiente, eu pinto às vezes.

Todos o olharam:

– Você pinta? – interrogou Cho – E sobre oque você pinta?

Carter já estava se arrependendo de ter tocado no assunto, caso fizessem perguntas demais, iria acabar se atrapalhando:

– Nada...tipo, eu sou mais para a arte abstrata...

Cho riu:

– Arte abstrata...sei.

– Nós poderíamos ver essa sua...arte abstrata? – perguntou Maggie.

Carter engoliu em seco:

– Acho melhor não... não é algo que vocês iriam gostar.

– Porque não? – perguntou Cho

Para sua sorte, Mark estava entediado o suficiente para mudar de assunto:

– Parem com esse papo chato sobre arte abstrata, pelo amor de Deus vamos fazer algo mais produtivo!

Seja o que for que fossem fazer, Carter aproveitou a deixa para ir embora:

– Já está na minha hora – disse se levantando

– Eu não vou agora! – reclamou Mark, pois Carter havia vindo com ele.

– Tudo bem, eu vou a pé.

– Eu também vou – disse Becky de repente- pode vir comigo — Carter ficou envergonhado mais aceitou a carona em seu antigo Voyage vermelho.

Carter se sentiu incomodado enquanto dirigiam no silêncio da noite. Queria comentar sobre o carro – que achava mesmo bonito – mas tinha medo que ela achasse que ele estava caçoando:

– Então quer dizer que você pinta – disse ela

Carter olhou pela janela, a escuridão lá fora parecia se dobrar ao redor do carro:

– Pois é.

– Porque tem vergonha de falar disso?

Ele engasgou:

– Ahn...eu não tenho...vergonha, é só que...

Becky o olhou de esguelha:

– Você tem vergonha, mas sabe, isso é bobagem, não precisa ter vergonha de uma coisa dessas.

Carter confirmou com a cabeça:

– Um dia irei querer ver essas suas obras-primas – disse sorridente, o que fez Carter sorrir também. Sobre o painel havia um amontoado de CD’s. Entre eles um lhe chamou atenção: Bob Dylan. Carter sorriu e o pegou:

– Curte Bob Dylan?

– Ahn...mais ou menos – ela sorriu – esse CD era do meu irmão.

– Ele tem bom gosto.

– Tinha... – murmurou Becky. Carter engoliu em seco:

– Sinto muito.

– Não sinta – seus olhos estavam umedecidos, Carter se sentiu culpado – Sabe...você iria gostar dele, ele era um cara legal.

– Acredito que era mesmo...o que aconteceu?

Por um momento terrível, Carter acreditou que ela não iria falar, mas então ela cedeu e disse:

– Foi no ano retrasado...tínhamos acabado de sair do jogo no Yankees, uma vitória bonita...meu irmão estava muito animado. Antes de irmos eu pedi para que comprasse algo para comermos e ele disse pra eu o esperar perto do carro. Havia um grupo de baderneiros que torciam pelo time adversário no momento. Eu não estava lá...eles foram covardes, Carter, cinco contra um. Ele não teve nem chance de revidar... – lágrimas escorriam por seu rosto. Carter ficou calado observando enquanto as primeiras gotas de chuva caiam sobre o para-brisa:

– O que aconteceu com eles?

– Ficaram impunes – disse com ódio na voz – ninguém viu...se ao menos eu estivesse lá...eu não podia... – Becky silenciou-se.

– A culpa não foi sua, não pode pensar assim, se você estivesse lá...talvez não estaria aqui, hoje, falando comigo...

Becky limpou as lágrimas de seu rosto e sorriu:

– Você é um bom amigo, Carter.

Ele apenas sorriu. Uma sensação de culpa, por esconder quem realmente era se apoderava de seu coração. Carter colocou o CD de volta, contudo no momento em que o fez, a manga de seu moletom levantou o suficiente para que Becky visse as cicatrizes em seu pulso direito. Carter sabia que ela as tinha visto, mas ela ignorou, ou melhor, fingiu ignorar. Depois disso só ficaram em silêncio, como se tivessem feito um acordo entre eles.
Quando finalmente chegaram, a chuva estava mais grossa, Carter abriu a porta do carro e saiu, mas antes que pudesse ir para dentro, ouviu Becky o chamando:

– Carter.

– Sim?

Becky abriu um sorriso sincero:

– Obrigada.