Carter acordou assustado, seu coração batia descontroladamente em seu peito. Estava com frio, tremendo da cabeça aos pés e um terrível torcicolo se apoderava de seu pescoço. Ao olhar ao redor, Carter teve noção da merda que havia feito. Ainda estava naquele quintal, ele se levantou cambaleante e entrou na casa. Ainda havia pessoas ali, espalhadas pelo carpete, deitadas na escada e até Deus sabe onde. Seus amigos o teriam abandonado ali? Carter não os achava em lugar nenhum. Procurou a carteira em seus bolsos e ela havia desaparecido junto com seus cinquenta dólares.
Carter estava se sentindo mal, um tanto tonto, tinha certeza que sua pressão estava baixa. Alguns estudantes estavam acordados e por incrível que pareça, ainda bebiam. Devia se passar das cinco da manhã. Carter sentiu uma tontura pegar-lhe de jeito fazendo-o se segurar na parede. Foi quando os barulhos das sirenes apareceram. De repente todos estavam de pé, correndo e fugindo da melhor forma possível. Carter foi derrubado no chão e não conseguiu se levantar. Quando deu por si, estava sendo içado no ar por dois homens fardados. Apenas quatro estudantes foram levados para a delegacia, todo o resto fugiu, e Carter nem imaginava onde estariam seus “amigos”.
Ele não sabia oque era pior, a carranca na cara de seu pai ou as lágrimas nos olhos desesperados de sua mãe. Em menos de meia hora eles chegaram à delegacia. Já em casa, Carter se atirou no sofá, enquanto ouvia aos berros as reclamações do pai:

– Onde você estava com a cabeça?! Não vê que a gente se preocupa com você?!

Carter se encolheu de cabeça baixa:

– Robert, para! – gritou sua mãe.

– Não! Não podemos ficar passando a mão na cabeça dele, Lauren! Você sabe o quanto ficamos preocupados? Pensei que estivesse morto! – ele berrava.

– Me desculpa tá bom?! – gritou Carter.

– Fique calado enquanto falo com você, moleque! Você sabe muito bem que tudo tem um limite aqui em casa! Sabe muito bem porque nos mudamos pra esse inferno de cidade! Como posso ficar sossegado?! – Robert caminhou na sala alisando a barba de seu queixo – Eu não sei mais o que fazer com você, Carter, eu sinceramente não sei mais como te ajudar! Você não sabe que não pode fazer uma coisa assim? Não sabe que você é... – Robert engoliu a própria língua.

Carter o encarou, seus olhos se desfaziam em lágrimas:

– Louco? – o garoto se levantou – Diga em voz alta, pai! Diga que seu filho é louco!

– Pare com isso, agora! – berrou Robert.

– Diga que sou a droga de um esquizofrênico maluco, diga oque você tem medo! Diga que tem medo! Eu estou ouvindo, droga! – Carter estava ojerizado, sua cabeça inflamava em puro ódio – Diga que tem vergonha deu ser seu filho!

Um tapa forte em seu rosto calou-o de vez. Carter despencou no chão. Lauren gritou e choramingou. Sangue escorria de seu nariz, que Carter limpou com as costas de sua mão. Seu olhar para o pai foi de pura dor e aflição. Robert tremia, passando a mão na testa:

– Me desculpe...eu não queria...

Carter se levantou num supetão e disparou escada a cima. Sua mãe tentou lhe seguir, mas Robert a impediu. Carter bateu a porta com força e se jogou na cama, gritando contra os lençóis. Seu rosto latejava de dor. O garoto se contorceu sobre a cama e virou-se para o teto. As cores giravam ao seu redor, como se estivesse dentro de um caleidoscópio gigante. Sua respiração estava acelerada. De repente Carter se sentiu preso à cama, estava sendo sufocado pelos próprios lençóis. Ele gritava, mas não saía som. Carter esperneou e esmurrou a cama, mas não conseguia se soltar. Lágrimas quentes desciam por seu rosto.

“Você é meu...não lute...ou vou te matar...”

Carter queria gritar por ajuda, mandar aquele demônio embora. Ele estava desesperado, horrorizado. Sentiu garras atolando-se em seus ombros e o demônio lhe sacudia. Ele lhe sacudia como uma boneca de pano. Ele então o abraçou e seus braços eram femininos e aconchegantes. Carter atolou o rosto no colo da mãe, chorando e gritando em desespero. Robert olhava horrorizado da porta:

– Está tudo bem, Carter, está tudo bem...