A música alta preenchia todo o interior da casa, impedindo que Carter ouvisse os próprios pensamentos. Havia estudantes nas escadas, na cozinha, nos corredores e até nos banheiros. Antes que percebesse, Carter já estava sozinho, sem sequer um rosto conhecido por perto. Ele caminhou pelos cômodos, mergulhando em nuvens de fumaça que vinham de todos os lados. Uma garota vomitou em sua frente, por pouco não caiu em seus sapatos. Carter foi então até a cozinha, onde uma pilha de copos cheios de refrigerante e cerveja descansavam sobre a mesa. Carter viu Mark escorrendo suas mãos pelo corpo magrelo de uma garota no canto da cozinha. Constrangido ele pegou um copo do que era achou ser refrigerante e levou aos lábios, mas aquilo era cerveja, o gosto amargo em sua boca o fez depositar o copo sobre a mesa novamente.
Carter se encostou à parede e observou ao redor, perdido, sem saber o que fazer num ambiente desses:

– Você não é de sair muito – disse Becky ao se materializar do seu lado com um copo de cerveja na mão. Ela não perguntava e sim afirmava:

– É...não sou.

– Collins me contou que era de Rochester, porque se mudou para Nova Iorque? – lá estava a pergunta que assombrava Carter. Ele estremeceu por um momento. Os olhos cinza da garota o fitavam com expectativa, Carter não conseguiria mentir, então foi evasivo:

– Problemas na escola.

Ele devia prever que Becky era mais do que isso. Uma clara interrogação formou-se em seu rosto:

– Sei que não é da minha conta, mais eu fiquei curiosa.

– Não, eu...não me importo – mentiu – É só que eu não gosto muito de falar sobre isso.

– Foi expulso ou algo assim?

– Tipo isso.

– Eu também já fui expulsa – ela tomou um longo gole e olhou para Mark que ainda se esfregava na garota magrela – Não quer sair daqui?

Carter quase engasgou. Em sua mente perturbada aquilo poderia ter mil significados, mas ele entendeu com um pouco de esforço o que ela queria dizer:

– Ahn, claro.

Carter a seguiu até a parte traseira da casa, passando por uma porta, caíram no quintal, onde praticamente não havia ninguém. Becky sentou-se nos degraus de madeira e Carter fez o mesmo, foi quando ela tirou algo do bolso. Era um cigarro, mas não dos comuns, provavelmente maconha. Carter não pode evitar ficar sem graça. Ela lhe ofereceu e por um momento ele pensou em recusar, sabia que tinha que ir embora dali o quanto antes, já era tarde e aquilo tudo era uma bomba relógio para ele, mas Carter não podia evitar suas tentações, portanto aceitou. O primeiro trago ele engasgou horrendamente e tossiu. Becky o observou com olhos cerrados:

– O que achou?

– Fumacento – disse Carter fazendo-a rir.

– Depois fica melhor.

Carter sugou a fumaça com força para dentro de seus pulmões e tentou prender a respiração por um tempo, então a soltou vagarosamente pela boca. Uma sensação estranha vinha se apoderando de seu corpo. Uma leveza, um relaxamento. Carter sentiu que sua cabeça era um espécie de balão que sairia flutuando a qualquer momento:

– E então, porque Nova Iorque?

O garoto a olhou, seus olhos ardiam:

– Facilita as coisas pra mim, porque é mais perto do... – só então Carter percebeu o que estava prestes a dizer. Becky ficou o encarando:

– Mais perto do...oque?

– Do trabalho...meu pai, quero dizer, fica mais perto do emprego do meu pai – mentiu.

Becky não pareceu acreditar muito mais parou com as perguntas por um tempo. Apenas o som de seus cigarros se queimando e a fumaça sendo soprado era ouvido. Então Carter resolveu quebrar o silêncio:

– Porque você foi expulsa? – logo que disse isso se arrependeu, pois sabia que ela viria com a mesma pergunta mais tarde.

Becky encarou o cigarro entre os dedos:

– Problemas familiares, como você disse – disse sorrindo – não gosto de falar sobre isso.

Carter sorriu, pois de certa forma isso o aliviava. Becky então se levantou:

– Vou procurar Maggie antes que ela faça alguma besteira, tenha cuidado Sir Carter – e entrou.

Carter ficou ali encarando o nada por um longo tempo, o relaxamento começou a pesar sobre seus olhos. Com o tempo, as coisas pareceram se desacelerar, ele sentiu seu corpo pesado. Carter escorou na mureta ao lado da pequena escada e deixou que aos poucos seus olhos fossem se fechando, até estar encoberto pela mais densa escuridão.