Os corredores estavam lotados naquele dia, Carter se sentia como uma criança perdida em um circo. Collins e Mark não paravam de falar um minuto sequer, ficavam alternando de assunto o tempo todo, Carter não conseguia nem mesmo acompanha-los. E ainda tinha o outro garoto, Billy, um garoto gordo e alto com uma barba apontando no queixo. Ele só sabia falar sobre pornografia, garotas e festas nas quais ele queria ir. Carter era um simples ouvinte.
Foi no meio de uma dessas conversas estupendamente interessantes que Carter avistou-a pela primeira vez. Ele não havia a notado até então, embora compartilhassem várias aulas juntos. Seu nome era Becky, era uma garota linda, sem dúvidas, embora não fosse daquelas que se destacassem. Ela tinha uma postura mais reservada e decidida, parecia uma garota madura. Tinha cabelos escuros na altura dos ombros e olhos cinza que se destacavam entre as poucas sardas do seu nariz. Carter a viu pela primeira vez no corredor, quando Mark e Collins a cercaram junto às duas garotas que vinham logo atrás:

– Becky, ficou sabendo que entrei para o time de futebol? – disse Mark num tom brincalhão com um leve tom de flerte.

– Você? O que o treinador Phil tem na cabeça? – Caçoou Becky, fazendo Mark ficar sem graça. Collins acabou-se em gargalhadas:

– Quem é bom, Mark? Quem é bom?

– Eu sou o bom! E vocês vão ver no jogo de sexta! – disse Mark num tom esnobe.

– Se você sair do banco do reserva já é alguma coisa – disse uma das garotas. Essa tinha cabelos loiros trançados e olhos castanhos. Era de baixa estatura e olhava de um modo corriqueiro para Mark. Carter riu em tom baixo da piada e isso acabou chamando atenção das garotas para a presença dele. Ele sentiu-se quente com olhar de Becky sobre ele:

– E quem é ele? – perguntou a loira.

– Esse é o nosso mais novo mosqueteiro, Sir Carter, vindo das terras distantes de Rochester! – disse Billy em tom cordial

– Billy, você é estranho – disse a loira.

– E então, vocês vão ao jogo na sexta, certo? – disse Mark com um olhar animado

– Veremos, senão tiver algo melhor para fazer – disse a outra garota de traços orientais.

– Vamos lá, Cho, vai fazer o quê, ajudar o lar de caridade? – caçoou Mark

– Talvez – disse Cho secamente

– Já está em cima da hora – disse Becky – treine muito capitão Mark — e assim elas desapareceram no corredor em meio a todos os outros alunos.

Quando chegaram ao estádio de Wigg Eagles, Carter se sentiu novamente deslocado. Estava um tanto nervoso devido ao barulho, mas por Deus, havia se lembrado de tomar seu medicamento antes de sair de casa. Era noite e muitos alunos se aglomeravam nas arquibancadas. Carter viu Mark sentado no banco, usava a camisa de reserva. Collins e Billy o guiaram até um banco onde Becky e a garota loira – cujo nome ainda era um mistério – estavam:

– Onde está Cho? – perguntou Billy

– Eu não sei, algo haver com cachorros e babás – disse Becky

– Ela não gosta mesmo de futebol – comentou Collins

– Como eu disse, na reserva – disse a garota loira olhando para Mark ao longe.

– Maggie, você não perdoa mesmo – comentou Billy que olhava de soslaio para o decote da garota.

Carter acabou por sentar ao lado de Becky, seus braços e ombros se encostavam, e isso vergonhosamente o estava deixando “nervoso”. Foram minutos cansativos de jogo e nenhum gol marcado pelo time de Mark. Acabou com uma feia derrota de 3x0. Mark nem sequer saiu do banco. Ao fim do jogo, todos se reuniram de fora do estádio. Billy trazia dois copos de cerveja na mão, um para ele e outro para Collins. Mark estava abatido, mas tentava mascarar isso com um sorriso brincalhão. Carter e outros se amontoaram dentro do velho Corolla de Billy – que na verdade ele teria roubado do pai – Carter sentiu-se numa lata de sardinhas, amassado contra a porta. Collins acabou indo no colo de Mark, para o seu azar. Foram então até uma casa de dois pavimentos onde estava tendo uma festa do time. Carter só não sabia o que eles estavam comemorando.
Quando entrou na casa, Carter pensou que seria o tipo de lugar em que seus pais odiariam que ele estivesse então jurou para si mesmo que ficaria por pouco tempo então chamaria um táxi. Talvez estivesse enganado.