O Movimento Revolucionario
3 Vice-Presidente Governamental Frenezzi
Notas iniciais
Três batidas na porta. Era o sinal que o assunto era de extrema urgência.
– Entre – A gripe tinha afetado a minha voz, tornando-a um pouco rouca e fraca.
Um dos Guardas de Elite entrou. Quando um Militar Governamental trabalhava por quinze anos em campo, ele era promovido a Guarda de Elite, um esquadrão especial que protegia as Centrais do Governo. Oficialmente, serviam os seus senhores nas mais diversas áreas. Na prática, serviam como mensageiros ou empregados dos Grandes Oficiais. Suas vestes eram as mesmas que um Militar em Campo,porém,brancas.
– Vice-Presidente Governamental Frenezzi – Ele falou. Tinha no mínimo trinta e cinco anos. Era moreno,alto e forte. Mantinha a cabeça raspada e a barba curta. Uma feia cicatriz ia desde o queixo até o canto do olho esquerdo – Recebemos uma nova mensagem do infiltrado. Peço que cheque sua correspondência.
Aquilo era realmente importante. Levei minha Poltrona Executiva para mais perto do computador, e digitei meu email e a senha. Uma nova mensagem,com o assunto “ Infiltrado” estava em destaque. Cliquei em cima do ícone,e a mensagem se abriu.
Caro Governo
A pequena garota descobriu o esquema,e agora corro um grande risco. Não voltarei a lhe dar notícias. Pelo menos, não por esse preço.
Grato pela compreensão
Respirei fundo,e tossi. A mensagem era de suma importância, e tinha de ser transmitida. Respirei fundo novamente.
– Reúna todos do Grande Conselho na sala de reunião em dez minutos. – Mandei. O assunto devia ser tratado com extrema urgência. – Diga que é o Vice-Presidente que pede.
O Guarda de Elite meneou positivamente a cabeça, e saiu da sala.
Bufei. Minha cabeça doía, um tanto por conta da gripe,e outro tanto por conta das obrigações. Ser Vice-Presidente da Organização que controla o mundo tem ( e muitos ) privilégios, como o salário mirabolante,e também uma sala gigante totalmente equipada com TV,frigobar, prateleiras para livros e as mais altas tecnologias já feitas pelo homem.
Porém,nada daquilo compensava o peso do trabalho. Tinha de trabalhar quatorze horas por dia, sete dias por semana, simplesmente trabalhando. Vida fácil mesmo era a do Presidente. Os integrantes do Grande Conselho ralavam duro para formar as suas propostas de melhoria,e o Presidente só ouvia,e dizia “sim” ou “não”. Ainda sim,tinha o dobro de privilégios que o Vice-Presidente,e o dobro de trabalho.
Eu precisava de uma aspirina. A minha mesa de trabalho era muito grande,e tinha muitas gavetas. Abri cinco até chegar na que tinha o remédio. Pressionei o remédio com o lacre fechado para baixo, e a pílula branca caiu na mesa. Coloquei-a na boca,e peguei uma garrafa d’água que estava na mesa. Abri a tampa,e bebi um gole,engolindo junto o remédio.
Minha cabeça parecia querer explodir,mas eu tinha que trabalhar. Levantei-me, estralei as costas e comecei a andar. Sai da sala com passos rápidos.
As Centrais Governamentais eram todas construídas com a mesma planta,exatamente igual. Era cheia de labirintos de corredores, portas que levavam a diversas áreas, saídas secretas para caso de invasão de forças inimigas,grandes pátios,etc. Quem fosse novato ali, se perdia facilmente. Mas aquela era praticamente minha casa a vinte e sete anos, eu sabia tudo sobre aquele maldito lugar.
Me dirigi até a Sala de Reuniões. Levava uns 3 minutos a pé, mas as Centrais dispunham de carrinhos de golfe, dirigidos por motoristas altamente treinados. Todos os corredores eram largos o suficiente para dois desses passarem lado a lado. Com o carrinho,cheguei em menos de um minuto.
A Sala de Reunião ficava em um local distante dos demais nas Centrais. Sua entrada era uma porta grande, feita de carvalho, no estilo das grandes igrejas antigas,porém, dentro dela,nada ali podia ser considerado como antigo.
A começar com a mesa principal. Era uma grande chapa de um material que parecia um espelho, que porém, transmitia hologramas 3D em Alta Definição, que funcionava com comandos manuais e de voz. As cadeiras em que os participantes das reuniões sentavam eram acopladas com um tipo de Smarthphone, que servia de acesso a internet.
As paredes, o chão e o teto eram revestidos por dentro com um isolante acústico. No final da sala, havia um grande telão, com uma câmera e um microfone na parte de cima. O Presidente era muito ocupado, e tinha de viajar muito. Porém,nenhuma decisão podia ser tomada sem ele. Por conta disso, ele usava uma Web Cam quando era solicitado.
Quando cheguei até a sala,três dos sete integrantes do Grande Conselho, salvo é claro, pelo Presidente e eu, estavam lá. Jean Maitorrie, Presidente Geral das Finanças. Mateo Carpozzi, Presidente Geral de Mídia e Emilia Gonzales, Presidente Geral do Controle de Reclamações.
Falei um simples “boa tarde” a todos e tomei o meu lugar, o mais próximo do telão,que representava,tecnicamente,o Presidente. De todas as Centrais Governamentais, aquela era a mais importante. Dela que saia todas as decisões,e local de trabalho do pessoal com os maiores cargos na Hierarquia Governamental.
Aos poucos, foram chegando os Presidentes dos principais setores do Governo Mundial. Alice Brown, Presidente Geral dos Militares Governamentais, Daniel Pires, Presidente Geral da Justiça, Steffon Butwer, Presidente Geral de Água e Luz e Muhammad Hiziya, Presidente Geral da Medicina.
Quando todos chegaram,decidi dar inicio a reunião. Levantei-me e me dirigi até o telão. O telão tinha um único botão,no lado esquerdo. Apertei-o,e a tela tornou-se branca. Isso significava que uma mensagem estava sendo enviada ao Presidente.
Demorou cerca de dois minutos,porém,ele atendeu.
Sua sacola de banha aidética, foi a primeira coisa que eu pensei. Presidente Wood estava claramente pelado. Como a transmissão em vídeo era feita por meio de um celular ou notebook, só era possível ver parte de seu dorso, seu rosto e a vista um pouco atrás de si. O peito nu cheio de pelos estava amostra,e seu rosto suado estava vermelho, e um gemido feminino podia ser ouvido de fundo.
– Meus amigos ! – Sua voz era irritavelmente feliz. Era velho, com pelos sobressaindo nas fossas nasais e nas orelhas. Suas sobrancelhas eram as mais grossas que um dia eu já vi. Seria totalmente careca,se não fosse uns fios de cabelo na frente da cabeça que ele mantia como “lembrança” – O que é de tão grande importância para interromper os meus ... afazeres profissionais ?
A mulher parou de gemer e riu baixinho. O próprio presidente não se aguentou e soltou uma pequena risada. Fechei os olhos,respirei,e sorri.
– Presidente Geral Wood – Falei,com um entusiasmo fingido – Que bom revê-lo. Temo que a ocasião não é tão boa.
Pode até ter parecido antiético esse fingimento, mas o Presidente controlava onze mil Militares treinados rigidamente para matar. Qualquer ofensa para com ele seria punido com morte.
Como ele não falou nada,continuei.
– É uma questão delicada sobre o nosso agente infiltrado no Exército Revolucionário. – Falei, enquanto ele murmurava algo para a sua puta – Ele diz que quer mais recursos para fornecer as informações que necessitamos.
Presidente Wood gargalhou.
– Ora essa, Frenezzi – Ele disse,quase gritando – Você nos arruma um infiltrado extorquidor que nem nos dá informações precisas. As informações desse rapaz já nos custaram a vida de cento e setenta e seis militares.
E aquele assunto aparecia novamente. Até a baleia velha tinha me jogado esse erro na cara. Recebi uma informação pouco precisa do informante, por conta disso,mandei vários homens até a área descrita,e coloquei um rastreador em cada homem. Quando eles achassem o batalhão, era só pressionar um botão na parte frontal do rastreador,que enviaria uma mensagem para os demais.
Porém,não deu certo de uma forma misteriosa,e acarretou na morte desses 176 militares. A explicação eu só vim a receber no meu e-mail pouco antes da reunião.
Trinquei os dentes,engoli o orgulho e disse:
– E peço mil perdões. Mas ele é uma peça importante para a nossa vitória sob os chamados “Revolucionários” – Disse. Minha cabeça começou a latejar ainda mais – Além do que, tudo indica que eles estão indo ao encontro de Gerald.
A menção do nome “Gerald” fez os músculos da face de Presidente Wood se endurecerem. Porém, durou poucos segundos, quando a sua puta fez algo que não fora captado pela câmera, e ele riu como uma hiena diabética no circo.
– Meu querido Frenezzi – Ele disse, enquanto a câmera tremia – Você não mexerá nem que seja em um dedo do pé de qualquer Militar sem a aprovação escrita de nossa lindíssima Alice Brown, a Presidente dos Militares. Porém,quanto a história de Gerald, trate-a com extrema urgência. Confio em você,meu amigo Frenezzi, para todas as questões.Cuide disso para mim, tenho que voltar aos meus afazeres.
E com isso,desligou.
Respirei fundo, contei até dez e me virei para os demais.
– Alice,precisarei de trezentos homens seus – Falei,fazendo menção de continuar
– Terá oitenta. – Ela me respondeu,bruscamente. Alice tinha cabelos pretos e olhos azuis,e usava um terno social. Era uma mulher bonita, na faixa dos quarenta, mas a boa maquiagem e algumas cirurgias a deixavam perto dos trinta. Alguns implantes lhe tinham dado a chance de preservar um corpo admirável.
Olhei para ela duramente. O Vice-Presidente estava sendo contestado por uma vaca.
– Eu lhe dei mais de cento e cinquenta homens,e você levou todos para o inferno – Ela disse. Alice já não morria de amores por mim antes desse incidente,depois disso,piorou de vez – Terá oitenta,e presumo que terei que enterrar esses oitenta também. Considere-se com sorte por eu não negar ajuda.
Com apenas oitenta homens, não poderia fazer uma barragem e impedir que o Exercito Revolucionário chegasse até Gerald. Tinha que mostrar para a vaquinha os meus motivos.
– Mesa, mostre-me o Mapa do caminho percorrido pelos Filhos da Revolução baseado nas mensagens do Infiltrado. – Disse em alto e bom som. Imediatamente, um holograma em 3D de um mapa apareceu na tela,com uma linha amarela cortando-o.
– Essa linha aqui – Disse,virando-me para Alice Brown e apontando para a linha amarela – Representa o caminho percorrido por eles. Se você perceber, ela vai sempre para noroeste, nunca muda bruscamente. Mesa,mostre-me a Fabrica de armamentos de Gerald Wonka mais próxima dessa linha.
A dimensão do mapa diminuiu um pouco,e apareceu um ponto vermelho, bem no caminho da linha.
Alice suspirou.
– Bem,pode até ser verdade,mas o que leva a crer que esse tal de Gerald irá fornecer ajuda ? – Ela disse,batendo os dedos em sua coxa.
Me toquei que ela ainda não sabia quem era Gerald. Alice era nova no Grande Conselho, entrara fazia duas semanas, quando uma morte estranha caiu sobre o antigo Presidente Geral dos Militares Governamentais. Mas mesmo assim,era estranho ela não saber.
– Gerald Wonka é o maior fabricante clandestino de Armamentos e munições do Oeste. Ele luta de igual para igual conosco em Poder Militar. Ele tem 4 fabricas espalhadas, todas munidas com mais de 2.500 pessoas cada,e as mais altas tecnologias militares, algumas desconhecidas até por nós.
Alice e nenhum dos demais fez menção de falar,então continuei:
– Mesa,mostre-me os dados de Benjamin Anthony Stroke e Gerald Wonka .
O mapa desapareceu,dando lugar a um tipo de ficha criminal. Os dados dos dois homens apareceram na tela. O de Benjamin estava mais completo,porque ele se encontrava preso na Prisão Governamental de Segurança Máxima Standford,e todos os dados possíveis já tinham sido recolhidos. Porém, a lista de Gerald Wonka continha as informações básicas.
– Alice, leia a idade de ambos, por gentileza. – Pedi. A vaca tinha me envergonhado, agora eu iria envergonha-la.
– Benjamin Anthony Stroke nasceu em 23 de Julho de 1970 e Gerald Wonka em 22 de Setembro de 1970.
Peguei um lenço de papel de meu bolso e limpei o meu nariz, que começava a escorrer.
– Agora, leia em voz alta a cidade em que ambos nasceram. – Pedi.
Ela passou os olhos nos dois hologramas,e eu vi a sua expressão mudar.
– Folsk City. Ambos nasceram em Folsk City. – Ela disse, sem conseguir esconder a surpresa.
Segurei a risada. A vaca não iria me poder negar alguns militares. Em uma voz forçada, falei:
– Folsk City era uma pequena cidade, que tinha cento e onze habitantes. É muito possível que eles tenham se conhecido,e há uma grande possibilidade de dois garotos da mesma idade em uma pequena cidade terem virado amigos.
Senti uma dor excruciante na cabeça. Pelo jeito, a aspirina não estava funcionando.
– Gerald também tem uma longa ficha criminal conosco, por isso, não gosta muito da gente – Continuei, fungando. – Ele também tem uma afeição a tudo que desagrade o Governo,e acredito que ele não irá rejeitar ajuda ao movimento que seu amigo criou. Agora, se eles encontrarem Gerald,e juntarem forças, a ameaça Revolucionária vai tornar-se grande.
Alice Brown assumiu uma expressão autoritária.
– E porque você precisa de trezentos homens ? – Perguntou ela, arrumando o rabo de cavalo que mantia.
Suspirei. Lidar com gente burra quatorze horas ao dia era estressante. Porém, tinha que manter a formalidade.
– Mesa,mostre-me novamente o Mapa que indica o caminho percorrido pelos Filhos da Revolução baseado nas mensagens do Infiltrado. – O mapa com a linha amarela apareceu novamente – Mostre-me agora a Fabrica de armamentos de Gerald Wonka mais próxima dessa linha.
E novamente, o mapa diminuiu e o ponto vermelho apareceu. Havia uma região que nada havia entre a ponta da linha amarela e a marcação em vermelho. Passei o dedo nela
– Aqui é o caminho que provavelmente será percorrido pelos Filhos da Revolução. Se pudermos colocar uma barragem de homens aqui – Apontei a área — impediremos a chegada deles até Gerald e ao mesmo tempo acabaremos com essa Revolução estúpida. Por isso é que eu preciso de trezentos homens,bem equipados. Além disso,precisarei de dez aviões, para assegurar a morte de todos.
Alice Brown me encarou,e por um momento, achei que ela finalmente tinha adquirido um pouco de esperteza,e ia aceitar minha proposta. Porém,não foi isso que aconteceu.
– Terá cento e vinte e cinco homens e dois aviões – Ela disse, firmemente – Vejo muitas falhas nesse seu plano.
Desta vez, não consegui conter minha raiva.
– Quais falhas, Senhora Brown, quais ? – Perguntei, quase gritando. Cerrei o punho e trinquei os dentes.
Mesmo com a minha irritação,Alice Brown não se abalou.
– Você está se baseando em presunções. Eles não precisam ir necessariamente por esse caminho,e o senhor ainda não tem certeza do tamanho e da força do movimento. Você nem tem certeza se eles estão indo ao encontro de Gerald mesmo. 125 homens e dois aviões, repito, sinta-se sortudo por eu não negar ajuda.
Tentei acalmar os ânimos dentro de mim. Fiz uma promessa silenciosa que, quando a baleia diabética do Presidente Wood morresse, e eu assumisse a Presidência Governamental, eu mesmo iria jogar aquela vaca siliconada de um penhasco. Porém,tinha que expressar ideias diferentes das reais.
– Bem, que assim seja então. Acredito que todos vocês concordam com o meu plano – Perguntei aos demais, que durante toda a reunião ficaram calados.
Todos assentiram, querendo sair logo dali. Concedi o desejo de todos,inclusive o meu.
– Sendo assim,declaro essa Reunião encerrada. – Virei para a Presidente dos Militares Governamentais – Alice,depois farei o documento alegando a sua concordância com o plano. Obrigado.
Ela apenas assentiu,e saiu.
A minha cabeça doía, meu nariz escorria e minha garganta ardia. Sai da Sala de Reunião também,e peguei um carrinho para a minha sala. Cheguei a conclusão que precisava dormir. Cheguei em minha sala,e me tranquei.
Ninguém iria pensar que eu estava dormindo. O sinal de porta trancada é que a pessoa dentro dela estava fazendo algo muito importante. Eu iria fazer algo de grande importância. Eu iria dormir.
Deitei no carpete mesmo. Fechei os olhos, e dormi.
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