O Movimento Revolucionario
6 Presidente Governamental Frenezzi
Notas iniciais
Acredito que isso seja um pouco anti-ético, porém, uma sensação radiante me invadia ao ver o caixão do Ex-Presidente Governamental Laurence Wood.
O homem tinha morrido em um resort. Não era de se espantar que ele tivesse batido as botas. Não era mais nenhum mocinho, e bebia todas as noites até cair, bebia pela manhã também para não ficar de ressaca. A ultima comida saudável que ele havia comido era leite materno. E o único tipo de exercício que ele fazia era com prostitutas.
Mesmo assim, ele era um homem poderoso, e com toda essa horda revolucionária crescendo, fizeram três autópsias. No final, constataram que o coração não aguentou o modo de vida.
O funeral foi aberto apenas para os familiares e amigos íntimos. Devia ter algum erro naquela lista, porque eu, sendo a pessoa que mais odiava Laurence Wood em toda a face da terra, fui colocado lá dentro. E mais, as pessoas chegavam e falavam coisas como “Sinto muito”, como se eu precisasse daquilo. Se eles falassem um “Parabéns”, ai sim eu entenderia.
Eu fiquei sentado longe do caixão. Não gostava de ver defuntos, e se em vida eu já odiava ver aquela face de bolacha, em morte eu não queria nem arriscar. O funeral começou pela manhã e foi terminar apenas de noite, e eu fui obrigado a passar todo esse tempo lá.
Mas o mais irônico de tudo aquilo foi que me chamaram para carregar o caixão. Eu me controlei para não rir. Se eu não estivesse virando chefe do mundo naquele momento, tentaria a carreira de ator.
Fazendo a expressão mais abalada do mundo, peguei uma das alças do caixão, e junto com algumas outras pessoas, familiares e amigos, levei o caixão até a sua cova. Ver Presidente Wood sendo depositado ali foi uma das melhores sensações do mundo.
Apodreça ai, seu gordo desgraçado, pensei, com toda a felicidade do mundo.
Eu não temia pelos meus pecados, e nem por Deus. Deus tornou-se um conto de fadas para mim, como Papai Noel e Fada dos Dentes, aos oito anos, quando meus pais morreram em um acidente de avião. Se algum tipo de Deus bondoso realmente existisse, atenderia meus desejos e meus pais hoje estavam comigo. Mas isso não aconteceu.
Depois de toda aquela ladainha, peguei o primeiro avião que pude e voltei para casa. Era uma casa grande, ainda mais para um solteiro como eu. Eu já tinha sido casado, também tinha uma filha, mas fazia bastante tempo que eu não via nenhuma das duas. Agora que eu subiria de cargo, teria mais tempo para a familia. Mas agora eu tinha uma coisa mais importante para fazer. Eu tinha que dormir de verdade, uma coisa que eu não fazia há vinte e sete anos.
Eu acordei dezoito horas depois, por causa do toque do meu celular. Em condições normais, eu ficaria irritado, e de inicio, fiquei. Mas lembrei que Laurence Wood apodrecia de baixo da terra, e fiquei feliz.
– Vice-Presidente Governamental Frenezzi. – Falei.
Uma voz conhecida respondeu do outro lado.
– Em breve Presidente, meu amigo.
Sorri. Aquele era Thulio Pereira, Presidente do Sistema e velho amigo. O Sistema era uma organização governamental que tomava o poder quando o Presidente Governamental deixava o seu posto sem declarar um substituto, como no caso de Wood, que morreu de repente. Na maioria das vezes, era o Vice-Presidente que tomava o poder, porém, O Sistema investigava minuciosamente tal pessoa, e se ela não se encaixar nos padrões pré-estabelecidos por eles, não é promovida.
O Sistema, na verdade, controla o Governo Mundial conforme as suas vontades. Eles só elegem pessoas conhecidas e respeitadas por eles, e que eles sabem que irão cooperar quando preciso. Por sorte, eu era uma dessas pessoas.
– Pois é, Thulio. – Sentei-me na cama e peguei um copo da água que eu deixava do lado da cama. – Quando preciso estar na Central Principal ?
A Central Principal era aonde ficava as pessoas que mantinham os maiores cargos na hierarquia governamental. Era exatamente igual fisicamente do que as outras Centrais espalhadas pelo globo, mas era de fato a mais importante. Nenhuma decisão era imposta, seja ela politica, jurídica ou social, sem passar pela Central Principal. Ela se encontrava aonde antes era o território chamado de Espanha.
– Daqui a dois dias, preciso que esteja lá. Você irá assinar os termos e receber a faixa. Então, é só aproveitar a vida de Dono do Mundo.
Aquela frase me deu uma felicidade imensa.
Desliguei, desci e pedi para os empregados me prepararem algo para comer. Depois, de barriga cheia, voltei para o meu quarto e deitei novamente na cama. Aquele seria meu novo escritório.
Por desgosto, eu ainda tinha coisas para acertar. Duas, para ser mais exato. A primeira era fácil. Fiz duas ou três ligações, e estava acertado. Misteriosamente, Alice Brown, Presidente Geral do Militares governamentais, aquela que havia me negado auxilio militar, desapareceu. Foi encontrada apenas três dias depois, com um tiro na testa e boiando na costa da Itália. Obviamente, correram boatos que ela havia enfrentado o Vice-Presidente, e recebido a vingança. Eu não me manifestei.
O segundo levava um pouco mais de trabalho. O nosso infiltrado no Movimento Revolucionário exigia mais dinheiro. Diferentemente do antigo Presidente, eu considerava aquilo como uma verdadeira ameaça ao governo. Com um golpe de extrema sorte, um homem nos contatou, dizendo estar infiltrado no Movimento, e queria dinheiro por informações. Obviamente, dei dinheiro a ele, uma quantia gorda, já que ele corria muito risco por estar em porte de um aparelho tecnológico.
Ele tinha me dado a informação que acarretou na morte de todos aqueles soldados, mas eu não considerei uma falha tão grande. Eles foram incompetentes em não poder lidar com o Exercito Revolucionário, mas a informação chegou perto, e ninguém podia negar isso.
Enviei uma mensagem para o número, perguntando qual a quantia que ele queria. Não esperava uma resposta imediata, porque as vezes o homem demorava semanas para responder. Mas logo que deixei de lado o celular, uma notificação chegou.
Quero quatrocentos mil rubreos depositados na conta A22B74 do Banco Governamental.
Me assustei com o valor. Ele havia pedido vinte e cinco mil da ultima vez. Porém, eu não achei algo tão fora da realidade. Ele já tinha se arriscado antes, e agora com o Movimento em par dos acontecimentos, todo cuidado era pouco. A partir de agora, o preço só iria subir.
Obviamente, o fator de eu me tornar Chefe Mundial dali a dois dias ajudava um pouco a minha situação. A baleia do Wood nunca deixaria eu gastar uma quantia tão grande de dinheiro, e todos os outros setores iriam fazer um alarde. Mas agora eu seria o presidente. Não havia ninguém que mandasse em mim.
Eu só poderia depositar o dinheiro após receber a faixa. Estava ávido para parar logo o Exército Revolucionário e curtir a minha vida como o desgraçado do Wood. Se fosse para eu me embebedar até morrer, que fosse em um resort no Hawaii.
Logo após eu receber a faixa, o dinheiro será depositado. Escrevi, e enviei.
Recebi algumas ligações me parabenizando, milhares de e-mails e o surgimento de bilhões de puxas-saco. Ser presidente era lidar também com falsidade e os aproveitadores.
Passei os dois dias de folga no meu quarto. Quando tinha fome ou sede, chamava os empregados. No quarto, havia um banheiro. A televisão era a maior do mercado. E a cama muito confortável.
Liguei para a minha filha também. Como sempre, ela não quis muito papo. Eu sempre tentava puxar algo assunto, perguntava sobre os estudos, como ela estava, se estava namorando, mas ela sempre dava respostas curtas. Falei que em breve a veria, e desliguei.
Peguei o avião para a Central Principal dois dias depois. Os seguranças me rodearam já no avião. Encontrei-me com Thulio no carro. Era um homem pequeno, gordo e careca. Suava muito, por isso sempre tinha um pano vermelho em mãos. Tinha um bigode e um cavanhaque que alternavam entre branco e preto. Sorriu ao me ver.
– Hoje é o grande dia, Frenezzi. – Falou ele, com aquele sotaque português – Wood não estava nos agradando muito. Espero que você faça o seu trabalho direito. Eu sei que vai.
Não me surpreendi muito. O Sistema tinha matado Laurence Wood, ou ajudado um pouco, porque como eu já disse, ele não era nenhum esportista. Era o modo como O Sistema funcionava. Se não os agrada, não funciona.
Assinei os documentos no caminho mesmo. Dei uma lida rápida, e apenas coloquei o meu nome. Não tinha muito segredos na parte “legal” da coisa. Eu era dono do mundo, minha palavra era lei e toda essa baboseira. Na prática, se eu desagradasse O Sistema, que detinha de mais recursos que a própria organização mundial, eu acabava junto com Laurence Wood.
Conversei normalmente com Thulio. Ele sempre parecia calmo, e me animava de uma forma que eu não sabia explicar. Eu estava ansioso também, uma sentimento que eu não costumava sentir muito. Aquele era um grande dia, o meu grande dia.
Chegamos na Central Principal em duas horas. Ouvi o barulho logo que cheguei. Além de todos os Representantes Nacionais, todos os funcionários da alta hierarquia mundial, além da grande maioria da burguesia estavam lá. Também incluíam jornalistas, fotógrafos e alguns intrusos.
Aquilo era um grande evento. O meu carro foi logo rodeado por seguranças, que foram rodeados de fotógrafos. Eu estava levemente acostumado com aquilo. Quando, em raríssimos momentos, a baleia do Wood dava as caras para fazer algum discurso, sempre tinha essa calorosa recepção. Porém, agora eu era o centro das atenções.
Sai do carro e logo fui envolto de seguranças. Os flashes me cegaram, e o barulho intenso das perguntas gritadas dos jornalistas fizeram minha cabeça clamar por misericórdia. Mas eu estava feliz com aquilo.
Fui arrastado pelos corredores, e levado até um local atrás do palco montado no pátio da Central. Dali, era possível ouvir todo o burburinho da plateia. Uma assessora me sentou em uma banqueta e começou a arrumar meu cabelo e minha roupa. Thulio chegou até mim e colocou um papel em minhas mãos. O discurso. Seria muita inocência e ingenuidade minha achar que eu poderia fazer o meu próprio discurso.
Dei uma rápida lida no papel, enquanto o próprio Thulio entrava no palco e iniciava a apresentação. Fui para o lado do palco. Eu nem ouvia o que ele falava. Provavelmente, soava de nervoso mais do que aquele corpo seboso do Thulio podia produzir dentro de uma sauna. Uma dor aguda de barriga me alastrava.
Thulio gritou meu nome em um momento inesperado. Tomei coragem, respirei fundo pela ultima vez, e entrei no palco. Nunca ouvi tantas palmas dirigidas a mim em toda a minha vida. Sorri e acenei para o publico. Apertei a mão de Thulio como se não tivesse o visto antes, e resisti a imensa vontade de limpar a minha mão cheia de suor na calça.
Tomei o microfone e coloquei o papel em cima da bancada de discurso. Li fingindo a maior naturalidade possível, em meio de frases de efeitos e aclamações do publico. Fazia um frio de cortar a alma, mas eu manti a compostura.
No final, deixei de fora o discurso. Fui até o meio do palco, e falei a coisa que eu guardava desde criança, quando eu decidi que ia servir ao Governo Mundial. Obviamente foi mudando de acordo com o meu aprendizado e amadurecimento, mas o espírito continuava o mesmo.
– A faixa é o meu sonho desde a morte dos meus pais. Foi uma coisa que eu me apeguei no momento mais difícil da minha vida. Recebe-la, mesmo nessas circunstâncias mais complicadas, é uma gratificação enorme. Farei que essa confiança imposta sobre mim não seja em vão. O mundo viverá momentos de prosperidade, isso é uma promessa.
Não sei se foi uma paranoia, mas em meio das palmas e dos flashes, olhei para o céu nublado, e o sol apareceu. Apenas um pouco, mas apareceu. Eu não acredito em sinais, muito menos em algum ser divino, mas aquilo me deu uma sensação incrível.
Eu era o dono do mundo agora.
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