O Motivo
1 O motivo
Notas iniciais
Meus pés balançam suavemente enquanto me encontro na sala. Falaram que seria mais ou menos desse jeito, – assim como é com todo mundo – mas não tem como eu saber, não agora. O telefone tocou algumas vezes, umas três... Ou seriam vinte? Eu não sei.
Este lugar está uma bagunça, é bom mesmo que eu não tenha sido surpreendido por alguma visita desavisada. O apartamento já fedia a mofo, e agora então? Parece carne podre. Mas voltando a falar da desorganização, saiba que nem sempre fora assim, na verdade eu costumava odiar ver algo fora do lugar, mas por algum motivo... Simplesmente não me incomodava mais.
E então nos deparamos com essa cena que é horrível até de imaginar: Garrafas quebradas jogadas pelos cantos, intermináveis potes de remédios tarja-preta vazios por aí, o carpete sujo de bebida e vômito, as paredes lambuzadas e riscadas por substâncias viscosas que eu nem quero lembrar e os móveis em um caos total: Uma televisão quebrada, uma mesa virada, uma cadeira caída. Pois é, parece que alguém andou perdendo a cabeça aqui. E por fim temos o Tobi — o meu cachorro genérico com nome genérico — que já morreu há uma semana e meia, ajudando a dar um toque especial de putrefação ao lar.
Quando eu dei uma boa olhada para ele na última vez, seu rosto contorcido parecia me dizer: “por que você não ligou pra mim?” É verdade, eu nem dei bola. Por falar em ligação acho que o telefone continua vibrando no criado-mudo. Fico me perguntando quem será que quer me ver com uma corda no pescoço agora? E qual será o motivo? Nem importa.
Nunca tem relevância pra ninguém, só para você mesmo. No fim das contas a sociedade é só um bando de incompreendidos querendo sobrepor um a necessidade de compreensão do outro, e quando alguém é cercado de pessoas desse tipo, Bum... Ele acaba aqui, como eu.
Porque ninguém aguenta sofrer pressão o tempo todo, certo? Certo. Mas por quais motivos alguém extrapolaria os limites da sanidade? Não pergunte pra mim, nem para ninguém. Porque essa dúvida tem muitas respostas, cada uma delas singulares, mas no fundo todas iguais. Fruto de uma rotina estressante, uma vida frustrante e uma ausência de sonhos.
A família, o emprego, os amigos, a crença eles são o alicerce de tudo, independente de serem bons ou ruins... Tornam-se base da estabilidade ou da crise geral. Como um lustre que tem amarrado em uma de suas extremidades uma corda bem forte que o faz suportar um peso extra do qual não está acostumado. Se o teto não der o suporte necessário, ele não aguenta e cai. E aqui estou, caído no chão, metaforicamente falando.
A única coisa pra baixo na verdade, é o meu olhar, não canso de ver meus pés – aliás, não tenho muita escolha -. Eu sinto frio na ponta dos dedos. Vai ver porque o dia está acabando, e o calor vai junto, assim como mais um dia ruim. Pergunto-me até quando vou ficar aqui na sala, sabe, às vezes ficamos dias trancados no quarto.
Tocaram o interfone, e sei que o vão fazer de novo, muitas vezes. Quem será que veio me cobrar agora? Querem me ver roxo? Porque eu realmente estaria zangado com essa falta de privacidade. Mas esta noite, não sei, estou indiferente. Nem sinto vontade de sair do lugar... Seria estranho se sentisse na realidade.
Eu queria ter aproveitado pra fazer uma oração antes que eu esquecesse — como sempre acontece — pois bem, esqueci. Agora me encontro abatido demais pra isso, e as minhas mãos estão moles. Eu mal consigo levanta-las, quem dirá mantê-las juntas. Se eu tivesse usado a fé, como um burro usa uma viseira, talvez agora eu não estivesse passando por isso, mas não tenho motivos pra me arrepender, foi isso o que eu escolhi.
Já amanheceu e nem percebi, também, encarando o chão é difícil notar alguma coisa. O interfone teve mais duas hordas de apertões que perduraram por uma meia hora. Os telefonemas? Perdi a conta. Por falar nisso, acho que alguém colocou a conta mensal por debaixo da minha porta. É incrível como ninguém nunca atrasa um dia sequer quando o assunto é cobrança. Aliás, tocando em atraso, isso é algo que deve ter chamado a atenção do meu chefe com certeza. Afinal, ele nunca dá valor às coisas boas que você faz, então quando você comete um deslize, já sabe que vai ter que aturar a criatura quando a ver novamente. É por isso que eu não quero mais olhar pra cara dele, e nem vou. Quem sabe até já tenha chamado outro em meu lugar. Só me questiono se ele ao menos vai saber o “porque” do descompromisso. Qual seria o... Meu motivo.
A camareira bateu à porta, não foi insistente, havia meses que ela não passava aqui. Agora imagino quem irá limpar essa bagunça... Apenas sinto muita pena. De ontem pra cá só piorou. Ninguém trocou os lixos da cozinha e do banheiro. Se eu não faço, ninguém faz é lógico... Eu moro sozinho.
Mas nem sempre fora assim, já tive uma relação duradoura, apesar de não aparentar. E eu era feliz, sem dúvidas. É uma dessas paixões que chegam como amizade, e quando você vê já entrou de cabeça. Foram dias gloriosos e eu me sentia o homem mais feliz do mundo, mas as coisas são mutáveis e o amor não foge a essa regra. Tudo aconteceu de repente, é como se eu tivesse acordado de ímpeto de uma noite em que eu me embriagara de amor. Só que o amor, era como um vinho barato – desses que você compra achando que é chique- e a noite durou quinze anos. Quando vi, meus olhos estavam totalmente acostumados a essa claridade chamada ilusão e eu realmente entendi porque ela estava comigo, finalmente compreendi... O motivo.
Fortes passos na escada seguem pra cá, não que eu esteja esperando alguém, mas eu sabia que não levaria tanto tempo até que dessem a minha falta. Batidas dessincronizadas se fazem presente, ninguém mais sabe bater com delicadeza ultimamente. Ouço uma mulher aos berros, outros timbres a acalmaram. A voz dela era familiar.
Uma pausa e então eu concluo que eles cometerão o ato mais repulsivo em questão de privacidade... Eles irão arrombar a minha porta. Não demorou muito pra que se ouvisse um estrondo e que um barulho de movimentação misturado com som de madeira rangendo ecoasse por todo o andar, é — pensei — eles entraram.
Ela gritou, gritou mais um pouco, gritou muito alto — daquelas vozes estridentes que te dão nos nervos -, mas dessa vez, nenhum deles impediu que ela gritasse. Ei, qual o motivo do choque? Eu sei que o apartamento está uma zona, mas não é como se você estivesse vendo uma assombração, e não estava, era bem real. Ah por falar nisso, a voz era da minha ex-mulher, que coincidência não? Bem quando falávamos dela... Pois é, quem é vivo sempre aparece.
Os homens estão chocados também, mas honrando o machismo que carregam não demonstram a ânsia de vômito que prendem em suas gargantas. Eu me sinto agora como se estivesse nu na frente deles. Envergonhado por estarem vendo o que mantive em segredo por muito tempo. “E o que eles enxergam?” A mesma coisa que eu disse no início: o cheiro de mofo misturado com carne podre, os móveis caotizados, as paredes e o chão parecendo arte de criança, milhares de embalagens espalhadas por aí, a cadeira caída, o Tobi coitado — que olhava pra eles como se não entendesse nada- e a corda no lustre com o peso extra, balançando suavemente seus pés na sala.
Eles chamaram a policia, já ela preferiu chamar o meu nome, insistentemente. Eu até quis responder, mas nem tinha voz pra isso. Ignorei... Como todo mundo fizera comigo até hoje. Simplesmente fechei os meus olhos pra essa situação, aliás, fechei meus olhos pra sempre.
Ah, eles acharam algo organizado no meio de tanta bagunça — eu me esqueci de comentar como de costume –: as minhas ideias no papel. No meio de tanta desorganização e sujeira, a única coisa que mantive limpa e em ordem fora a minha carta, a última coisa que escrevi, antes de fazer o que fiz. É nela que está o meu verdadeiro motivo pra isso tudo. E o que está escrito nela? Você me pergunta.
Acredito que isso seja irrelevante pra você e até pra mim, isto importa apenas para quem ela foi destinada. Porque é assim que as coisas funcionam. Não escrevemos ao léu, escrevemos pra alguém. E cada um escreve de uma forma diferente, para pessoas diferentes, em situações diferentes, por motivos diferentes.
Essa carta é a minha única e verdadeira semelhança com todos que acabaram como eu, com todos que escolheram a solução mais solitária e incompreendida. Um caminho que fora optado devido a uma série de outras incompreensões somadas a uma enorme pressão da qual os lustres não possuem o apoio necessário para aguenta-las. Acredito que meus rodeios nesta breve conversa já te fizeram entender de uma vez por todas que detalhes não são relevantes, a especificação é descartável, e a única coisa que você precisa compreender é que o motivo representa a corda no lustre, o insuportável peso extra, o suicídio das suas esperanças, Aquilo que ninguém mais aguenta.
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