O Monstro De Whitechapel.

1 Vermelho sangue - Prólogo


LONDRES, VERÃO DE 1882.

Em um beco escuro, uma mulher tenta se esconder do frio. Todas as suas noites seguem a mesma rotina, assim que o sol se deita ela sai para as ruas à procura de seu sustento. Já não é mais tão bela quanto costumava ser. Seu sorriso, outrora branco e inocente, hoje em dia não ostenta boa parte dos dentes que deveria ter. Seus cabelos ruivos e suas delicadas sardas no rosto não têm mais o mesmo charme.

Ela vai para as ruas por seus filhos, por seu marido que não pode (ou não quer, sabe-se lá) trabalhar e pela fome que sente todos os dias de manhã. A vida não lhe foi mais severa ou branda do que costumava ser com todas as outras mulheres, mas mesmo assim, às vezes ela sentia-se como a maior vítima do mundo. Tinha o lábio superior inchado, a uma noite ela havia sido vitima de um estupro. Uma prostitua estuprada naquele contexto não interessava a ninguém. Na verdade além dela e belo rapaz bêbado que consumou o ato, mais ninguém sabia do ocorrido.

Há algum tempo vinha dividindo o seu beco com um cão doente, esta noite ele roía feliz a carcaça de um rato morto. Já pensava em ir para casa e se dar o resto da noite de descanso quando viu a silhueta de um homem alto e largo obstruindo a entrada do beco. Passo a passo ele aproximava-se dela. O homem vestia roupas luxuosas, trazia nas mãos uma valise de couro e na cabeça uma cartola.

“O último cliente da noite” pensou ela, “Deus permita que não esteja tão bêbado quanto o anterior”. A sombra da cartola encobria boa parte do rosto do homem deixando perceptível apenas às espessas suíças negras que cultivava.

— Quer um pouco de diversão? Sou a puta mais safada desse bairro. – Não raro ela usava um linguajar chulo para tentar imprimir, sem sucesso, um pouco de sensualidade as suas investidas.

- Vejo que você é uma sofredora. – disse o estranho. Sua voz era pausada e firme. Sua voz grave. Sua postura era educada e respeitosa. – Tanta dor. Seus olhos cantam o seu sofrimento, é uma melodia tão bela.

- Vá embora se você não quiser trepar. Não vou perder meu tempo com você! – respondeu ela rispidamente. Não precisava de ninguém para lembra-la de seu sofrimento, isso era algo que ela não conseguia esquecer.

Ele pousou a valise no chão, a abriu e como se ela não estivesse lá começou a procura por algo. Retirou a mão de dentro da maleta, segurava algo, mas era impossível se dizer o que era. A prostituta estava com medo, tipos estranhos surgiam quase todos os dias e sempre acabavam por machuca-la. Então ele começou a aproximar-se mais dela. A cada passo o temor dela aumentava. Ela correu para um canto e debaixo de uma grande pedra solta ela tirou um punhal. Costumava deixa-lo lá como uma forma de assegurar sua segurança, apesar de que em casos extremos, aquela pequena arma enferrujada não tinha serventia alguma.

- Não se aproxime mais de mim bastardo! – gritou a mulher – Se você continuar irei furar sua barriga até você morrer!

- Não. – respondeu o estranho sem parar de avançar em sua direção.

Quando ele estava próximo o bastante, ela pode ver o seu rosto. Encantador, porém com olhos assustadores. O homem sorriu e afavelmente disse:

- Acalme-se, tudo será muito rápido e limpo.

Cheia de temor ela avançou sobre ele e desferiu um golpe reto em direção ao abdômen. Ele aparou o golpe segurando ela pelo antebraço. Apertou com muita força e ela, indefesa largou a arma. Ele podia sentir o fluxo de sangue dela passando acelerado pelo pulso. Todo o corpo dela tremia nervosamente e isso o enchia de êxtase. Aproximou o seu rosto ao dela como se fosse beijá-la e quando estava a poucos centímetros de sua boca. Disse:

- Sorria minha princesa, toda a sua dor irá desaparecer em instantes. – Com a mão esquerda ele tapou a boca da mulher catatônica. E com o bisturi que trazia na mão direita traçou um corte cirúrgico em sua jugular.

Os olhos dela reviraram, suas pernas fraquejaram e o corpo quase já sem vida caiu no chão de pedras. Delicadamente ele não deixou que ela caísse com muita violência, repouso a cabeça dela no chão e voltou para pegar sua valise. Com uma tesoura cortou toda a roupa dela. Afastou as pernas dela para facilitar o seu trabalho e com um pedaço de giz desenhou traços no corpo dela, um pouco acima da virilha. Sempre com a mesma precisão cirúrgica fez um corte único. Enfiou a mão esquerda e depois de escaramuçar o interior do corpo da pobre mulher retirou-lhe o útero. Suas luvas brancas agora eram rubras como sangue. Trocou o par de luvas e de dentro da valise retirou um pequeno frasco, nele um pigmento vermelho sangue. Tingiu a boca da bela morta como se a preparasse pra uma festa de gala. Findada sua arte, a sinistra figura retornou para as trevas de onde havia saído.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.