O Mistério da torre de cristal
1 Essa era a minha vida
Eu nunca poderia imaginar como minha vida mudaria, naquela quinta-feira, quando atendi o telefone. Se soubesse o que iria acontecer daqui alguns meses, simplesmente, ignoraria o chamado, deixaria tocar, esqueceria e continuaria com estava. No entanto, não tinha a menor ideia do que o futuro me reservava depois daquele telefonema.
Não conseguia acreditar, quando o meu telefone tocou e a pessoa do outro lado me comunicou que a vaga de recepcionista da Rahner engenharia Ltda era minha, achei que fosse um trote, alguma espécie de brincadeira de mal gosto de alguma colega, que sabia que eu sonhava com esse emprego, mas era verdade, soube disso depois de ouvir todas as intrusões e documentação que deveria apresentar para a admissão definitiva. Desliguei o telefone radiante, afinal, seria o meu primeiro emprego de verdade, até então vivia de pequenos trabalhos temporários que me ajudava a sobreviver, como muita dificuldade. Nem sei como fui escolhida, tinha consciência que não era a candidata mais capacitada, nem com melhor aparência.
Lembrei-me do dia da entrevista, eu não sabia o que estava fazendo ali, entrando naquele imponente edifício da matriz da empresa Rahner engenharia Ltda, uma das maiores empresas do país nesse ramo, fundada por uma família importante e tradicional, que há anos a comandava em um trajeto ascendente de sucesso.
Estava ali para fazer uma entrevista para o cargo de recepcionista, era apenas uma vaga e eu nem entendia porque o meu currículo havia sido escolhido entre as finalistas. Estava certa que não tinha nenhuma chance de conseguir esse emprego, mesmo assim, lá fui eu para ao menos tentar como experiência. Usava um vestido e sapatos emprestados pela minha melhor amiga, eu me agarrava em uma pontinha de esperança, porém não queria me iludir, criando falsas expectativas.
Entrei no sofisticada e moderno hall do prédio, procurei a moça bem vestida e maquiada, atrás do balcão, o lugar em que sonhava estar um dia.
— Oi! Meu nome é Lívia Rivera, estou aqui para a entrevista.
— Relações humanas, quinto andar. Bom dia e boa sorte – Ela me deu um sorriso benevolente e um cartão de identificação.
Ao chegar no 5º andar e a porta do elevador se abriu, levei um susto ao ver o grupo de garotas, cerca de umas dez, que como eu, almejavam em trabalhar para aquela eminente empresa, conseguir um pequeno lugar ao sol, talvez, até uma oportunidade de uma ascensão profissional. Escolhi uma das poucas cadeiras vazias, em um canto da sala, onde podia analisar minhas concorrentes com atenção. Algumas eram bem bonitas, outras elegantes com movimentos delicados ou com ar inteligente, eu não seria páreo para elas, então, deveria, somente, me levantar e ir embora, esquecendo toda aquela história, contudo como não tinha nada para fazer, fiquei ali e esperei, pelo menos, queria tentar, pois aquele emprego podia significar a minha chance de voltar para a faculdade de administração, que tive que abandonar depois da morte da minha avó, já que não podia mais pagar. Enquanto isso, mantinha a postura ereta, querendo demonstrar segurança, e treinava mentalmente as respostas para as possíveis perguntas.
Uma a uma, as garotas entravam na sala do RH e saiam. Algumas com cara de espanto, outras satisfeitas, cheias de si, e outras desanimadas, quase chorando, ao mesmo tempo, que eu ficava cada vez mais nervosa.
— Lívia Rivera.
Era eu. Levantei-me e andei o mais ereto que consegui, apesar de minhas pernas estarem um pouco bambas e caminhei até a sala, onde uma mulher de cabelos claros na altura dos ombros e um jeito doce, chamada Alice, me aguardava, fiquei mais calma, ao ver seu sorriso simpático, no entanto, dez minutos depois, estava tão aflita e confusa com as perguntas que ela me fazia, que só queria sair correndo dali e nunca mais voltar.
— Obrigada por ter vindo. Entraremos em contato com a senhorita, caso seja aprovada. Tenha um bom dia.
— Obrigada – murmurei, dei meia volta e saía dali o mais rápido que minhas pernas permitiram, só quando cheguei do lado de fora do prédio soltei a respiração com força, certa que não teria a mínima chance, então, o que me restava, era só pegar o ônibus e voltar para casa.
Eu morava durante toda a minha vida no 4º andar de um prédio antigo no subúrbio, sem elevador, já estava acostumada a subir as escadas, brincava que nem precisava de academia, pois fazia exercício todos os dias de graça. Atualmente, vivia sozinha, desde que minha avó morreu, há meses atrás, me deixando o apartamento que ela levou a vida toda para comprar. Eu havia perdido minha mãe ainda bebê e meu pai havia saído de casa e desapareceu no mundo, sem nunca mais dar notícias. Assim, sozinha, mal conseguia me sustentar com o salário que eu ganhava com recepcionista de um modesto consultório médico, por isso o emprego na Rahner era a minha chance de melhorar de vida, sair um pouco do sufoco em que vivia.
Ao regressar, entrei no meu apartamento, desanimada, joguei os sapatos para o lado e me atirei no velho sofá, que gemeu, reclamando. Fiquei ali, uns bons minutos, quando a campainha tocou e eu sabia quem era, mesmo sem animo, levantei-me para atender e ela entrou chispando como um raio, minha melhor amiga e vizinha de porta, Monique.
— E aí como foi? – ela indagou, aflita, parando na minha frente.
— Horrível!
— Não pode ter sido tão ruim assim.
— Sim, foi péssimo. A mulher do RH me encheu de perguntas que não sabia responder, acho que esqueci o meu próprio nome. – Eu me atirei no sofá, de novo, como uma boneca de pano, Monique se jogou do meu lado.
— Você não pode desanimar, ainda resta uma esperança.
— Eu sei que não tenho chance nenhuma. Eu vi as outras moças.
— Quer almoçar lá em casa? Minha mãe fez carne assada – Ela quis me animar.
— Não, obrigada. Estou sem fome e tenho que me arrumar para o trabalho.
Monique entendeu, afinal, nós éramos amigas desde crianças, crescemos juntos, brincando nas ruas do bairro. Sua mãe meio que me adotou, quando minha avó morreu no ano passado e eu fiquei sozinha no mundo, pois não tenho nenhum outro parente conhecido.
Logo em seguida, a campainha tocou, outra vez, e eu tinha certeza de quem era, fui atender. Eduardo, irmão de Monique, entrou com a sua calma de sempre.
— Então, como foi? – Eu não disse nada, ele apenas olhou para minha cara, não precisava, nós nos entendíamos pelo olhar. – Tão mal assim. – Sacudi a cabeça confirmando. — Talvez, você esteja sendo muito rigorosa e seja só impressão sua.
— Não, eu tenho certeza, foi muito ruim, a entrevistadora me odiou, mas o que eu estava pensando? Não dava para concorrer com aquelas garotas. Vocês precisavam ver, tinha umas tão bonitas que pareciam artistas.
— Não se menospreze, Lívia. Você é linda e inteligente! – Eduardo era um amor, como o irmão que nunca tive, sempre me incentivando, com suas palavras gentis e eu o admirava muito pela sua inteligência, ouvir essas palavras dele inflava o meu ego, mesmo assim precisava ser realista.
— Mas não como elas. Agora, preciso voltar para a minha realidade, tenho que me arrumar para o trabalho. Ah! E obrigada pelo vestido, Monique.
— De nada, afinal, ele ficou melhor em você do que em mim.
Eles foram embora, eu vesti meu uniforme e fui para o trabalho, uma pequena clínica médica ali mesmo no bairro. Durante o resto da semana, estive tão ocupada, que me esqueci da entrevista, até o meu telefone tocar e se soubesse que aconteceria a seguir, possivelmente, não atendesse, mas eu atendi.
— Senhorita Lívia Rivera, aqui é Alice Muniz do RH da Rahner engenharia Ltda, gostaria de informá-la que você foi escolhida para o cargo de recepcionista da nossa empresa, para admissão imediata. Por favor, compareça na nossa sede na segunda-feira pela manhã, com os seguintes documentos...
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