O Mistério da torre de cristal

22 Afundando em águas profundas e escuras


Às escondidas de todos, compareci a consulta médica e fiz os exames e, felizmente, estava tudo bem comigo e com o bebê, mas, a gravidez ainda me parecia algo surreal, era difícil crê que havia uma pessoa crescendo dentro de mim, mesmo vendo as imagens da ultrassonografia.

Ao mesmo tempo, os preparativos da festa de comemoração do meu aniversário de casamento iam muito bem, talvez, fosse ali o momento certo para a revelação, pois não poderia manter segredo por muito mais tempo. E como Verônica me disse, só precisava cuidar dos pequenos detalhes da decoração, pois a equipe da organizadora cuidava de tudo com exímia precisão, isso era muito bom para mim, pois continuava muito sonolenta devido a gravidez, contudo minha libido estava na flor da pele, com isso passavam noites quentes com meu marido, que nem desconfiava da razão da minha dose extra de hormônios. Entretanto, nos meus sonhos, continuava a receber as visitas constantes da silenciosa e iluminada Mariane, que apenas me fitava, quase como uma guardiã, uma espécie de anjo da guarda.

Também com frequência, recebia a visita vespertina de Vanessa, que preenchia a minhas tardes solitárias, com conversas interessantes e alegres, por pouco quase revelei o segredo da minha gravidez a ela, mas achei melhor esperar o momento certo.

— Você precisa vir na nossa festa de casamento, Vanessa. Eu lhe enviarei um convite assim que estiverem prontos.

— Eu não devo, Lívia, me sentiria muito deslocada, não sou uma convidada nesse seu mundo.

— Por que se sentiria deslocada? Lembre-se que era uma recepcionista, quando conheci Victor. Você é minha única amiga aqui.

— Se você insiste...

— Claro que insisto.

Foi nesse minuto, que aconteceu, senti meu estômago se remexer, ficar embrulhado, corri para o lavabo, Vanessa foi atrás de mim, segurou os meus cabelos enquanto eu vomitava intensamente.

——Tudo bem? — ela perguntou, quando terminei. – Quer que eu peça ajuda? Chame um médico?

— Não precisa, foi só uma indisposição, acho que foi algo que comi que não me fez bem. Poderia me dar um tempo sozinha?

— Claro, estarei aqui fora, esperando.

Fui até a pia, lavei a boca e o rosto, olhei-me no espelho estava pálida e abatida, atrás de mim, vi o quadro de Mariane me observando. Não me preocupei, pois o médico já havia me alertado que esses enjoos poderiam ocorrer nos primeiros meses de gravidez, mas minha convidada não sabia desse detalhe.

Ao sair do lavabo, encontrei Vanessa me esperando, como disse.

— Você está bem? – perguntou, aflita.

— Sim, só quero me deitar um pouco.

— Você não quer mesmo que eu chame um médico?

— Não, só preciso dormir um pouco, agora.

— Eu a ajudo a chegar no quarto. — Vanessa insistiu e me acompanhou até o quarto, me ajudou a deitar. – Quer um copo d’água? Seria bom para se hidratar.

— Ali, naquele móvel, tem um frigobar – apontei.

Vanessa foi até lá e voltou com um copo de água que tomei em um único gole, depois desabei no travesseiro e paguei, nem vi quando ela saiu.

Sonhei que estava afundando em águas profundas e escuras, não conseguia respirar, tentava nadar para sair dali, contudo meus braços estavam muito pesados, não me obedeciam, eu sufocava, estava morrendo, lentamente e em silêncio. Então, houve um forte clarão, como se alguém me puxasse para fora, o ar encheu meus pulmões em uma golfada, consegui respirar, começo tossir.

— Lívia! – Ouço a voz de Mariane, muito ao longe. – Lívia! Lívia! – Não é mais a voz dela.

Quero atender ao chamado de Victor, entretanto, meus olhos pesados recusassem a abrir, nenhum som sai da minha boca. Não entendo o que está acontecendo comigo, sinto-me como um pedaço de madeira em uma praia, sendo levado e trazido pelas ondas, sem nenhum controle sobre mim mesma. Por fim, perco a consciência e afundo em um sono profundo, quase como a morte.

Acordo em um quarto diferente, tenho tubos presos ao meu braço, oxigênio no meu nariz, minha boca está seca como papel, abro os olhos com dificuldade, a claridade me incomoda, minha cabeça doe, percebo a presença real de alguém ao meu lado, viro a cabeça bem devagar, vejo meu marido, sentado na poltrona ao lado da cama.

— Victor – minha voz é quase um gemido.

Ele se ergue em um pulo.

— Como você está, Lívia?

— Eu não sei. Onde estou?

— Em um hospital. Cheguei em casa mais cedo e encontrei você desacordada sobre a cama, quase sem respirar.

— E o ... o bebê?

— Parece que está tudo bem com ele. Por que não me contou que estava grávida? – Vitor me interrogou, havia mágoa no seu tom de voz.

— Eu queria fazer uma surpresa. Na festa. O que aconteceu?

— Eles não sabem. O que você fez?

— Hoje, à tarde, não me lembro direito, só que comecei a vomitar, fui para o quarto e eu adormeci e sonhei que estava morrendo sufocada.

— Por favor, querida, não pense mais sobre isso, agora. Apenas descanse.

Fiquei três dias no hospital, mesmo achando que não era necessário. Em casa, enfermeiras reversavam ao meu lado. Porém, o mais estranho foi a presença de seguranças na minha porta. Pressentia conversas sussurradas que paravam a minha chegada. Algo estava sendo escondido de mim.

Victor até tentou cancelar a nossa festa, mas eu insisti, já que estava quase tudo pronto.

Irritada com aquela situação, tomei uma atitude e telefonei para o meu confiável amigo.

— O que está acontecendo, Eduardo?

— Por que você acha que está acontecendo alguma coisa? E que eu saberia algo sobre isso?

— Não me responda uma pergunta com outras, Eduardo. Eu sei que está acontecendo algo de errado, que estão me escondendo.

— Pergunte ao seu marido.

— Eu estou perguntando para você. Sabe que você é a pessoa que mais confio, que acreditou na minha loucura sobre Mariane. Eu amo Monique, mas sabe como ela é.

— Sim, eu sei – pressenti seu sorriso.

— Então, me conte a verdade.

— Acredite em mim. Eu não sei, Lívia. Victor me contatou, pediu que não comentasse nada com você.

— Comentasse o quê, Eduardo? – Estava ficando desesperada com tanta enrolação, ele deve ter pressentindo no tom da minha voz. Vencido, ele deu um longo suspiro

— Victor não me disse nada, mas eu soube por uma pessoa que mora aqui no bairro, que a conhece de vista, sabe que é minha amiga, e trabalha no hospital, em que você ficou internada. Ao que parece havia algum tipo de substância no seu organismo.

— Você está dizendo que alguém tentou me envenenar? – Fiquei assustada.

— Parece que não foi veneno, mas algum tipo de sedativo.

— Deve haver algum engano – insisti.

— Não, alguém dopou você, Lívia.

— Mas com que intuito?

— Não sei.

— A propósito, Eduardo, eu ia contar a novidade para vocês, mas eu estou grávida. — Silêncio. – Eduardo? Você ainda está aí?

— Sim, estou, meus parabéns ao casal.

— Obrigada, mas não conte a Monique, pois ela ficará uma fera, se souber que eu contei para você, primeiro.

— Pode deixar. Até mais, Lívia.

Ele desligou, notei que ele não ficou tão animado com a notícia, talvez, até triste. Sabia que ele não concordava com a minha escolha de vida, mas, o que poderia fazer, dei de ombros.