O Mistério da torre de cristal
24 A morte me espera pela manhã
Vou para o quarto de hóspede, me aconchego na cama, enroscada em mim mesmo, abraço um travesseiro, mas não consigo dormir, apenas choro, choro muito, por ter sido tão estúpida por me deixar enganar com promessas pérfidas de amor, casamento, família, se pudesse voltar no tempo, porém não posso, ninguém pode, sendo assim, preciso resolver agora, no presente, o que eu devo fazer. Desejo sair daquele apartamento ter meu filho longe, bem distante daquele homem e de toda essa tramoia. Amanhã darei um novo rumo a minha vida.
O cansaço me fez adormecer, sonho sonhos desconexos, com os personagens da minha vida, estou perdida e sem rumo, carregando meu bebê no colo. Acordo lentamente com uma mão suave nos meus cabelos, penso em Mariane, que estou de novo, no limbo, onde ela habita e eu a visito, quando o alcanço entre o sono e a lucidez, então luto para abrir os olhos e encontro Victor ao meu lado, retraio ao seu toque, ele percebe e recolhe a mão.
— Houve um problema na empresa, preciso ir lá resolver, agora. Você ficará bem? Não vou demorar.
— Sim, eu ficarei bem.
— Quer que eu chame alguém para ficar aqui, com você?
— Não precisa.
— Prometa que não tomará nenhuma atitude precipitada até eu voltar – pede com a voz calma.
Concordo com a cabeça.
— Os seguranças estão no hall de entrada e eu pedi que lhe trouxesse seu café da manhã aqui no quarto. Durma um pouco mais.
— Não se preocupe, seu filho e suas ações da empresa estarão seguros — respondi em um tom ácido, percebo a tristeza nos olhos dele, antes de sair.
Tento dormir mais um pouco e não consigo, rolo na cama até decidir me levantar, preciso ir ao banheiro.
Já pronta, ouço o sutil barulho da louças e talheres, o cheiro de café chega as minhas narinas, então eu os sigo, encontro Teresa na cozinha, preparando o meu café da manhã.
— Bom dia, senhora Rahner. Como está?
— Bom dia, Teresa. Estou bem, obrigada.
— Eu estava preparando o seu café, ia levar ao quarto agora. O senhor Rahner deixou instruções para que cuidássemos bem da senhora. Suco?
— Por favor — Reitero com a cabeça.
Ela serve o suco de laranja fresco em um copo e me entrega, tomo um bom gole.
— É bom comer bem, por causa do bebê – ela fala de maneira simpática, me observando. Tomo mais um gole o suco está fresco e delicioso.
— Bebê? Como soube? – Paro, espantada.
— Oh! Desculpe-me, era segredo! – Espantada, ela coloca as mãos na boca, como se seguisse segurar as palavras.
— Bem, não é segredo, mas só contamos para poucas pessoas.
Começo a me sentir estranha, o copo escorrega da minha mão e estilhaça com um pequeno estrondo, molhando meus pés, dou um passo vacilante para trás, as mãos tateando, procuro um lugar para me sentar, mas não consigo, antes de chegar a cadeira, caio no chão. O mundo a minha volta muda de ritmo e forma. As imagens ficam desfocadas e distorcida na minha frente, noto que Teresa não se mexeu, não fez nada para me ajudar, vejo os pés dela darem um passo na minha direção, sem pressa.
— Teresa, por favor, me ajude. Não me sinto muito bem – tento estender a mão para ela, minha voz sai pastosa, com se tivesse bêbada.
Mas, ela só dá outro passo e para bem próximo a mim, espero que me ajude a levantar, estou sem forças, no entanto, em vez disso, se agacha ao meu lado, seus olhos se encontram com o meu, mal consigo ver seu rosto.
— Devia ter sido eu – ela fala em tom frio, não consigo entender as suas palavras, percebendo a minha dúvida continua: — Devia ter sido eu no seu lugar. Eu devia ser a senhora Rahner, devia estar carregando o futuro herdeiro na minha barriga.
— Eu... – Tento falar, não consigo pensar, as palavras não saem.
— Alex havia me prometido. Eu fiz tudo que ele pediu. Fui para cama com aquele canalha, fui seu capacho, me sujeitei a esse emprego servil. Então, quando eu a vi aqui, naquela manhã, percebi que ele havia me traído, arranjando outra mulher, tirado a minha chance de mudar de vida, de ficar rica. Aí, eu pensei se você simplesmente morresse. Eu quase consegui da primeira vez, a sufoquei com o travesseiro, mas seu marido chegou na hora e tive que fugir, consegui me esconder. Esperei outra oportunidade, mas, agora, vou acabar o que eu comecei.
Assim, Teresa me segurou pelo braço, com firmeza, apesar do seu tamanho, era bem forte, me colocando de pé. Estava fraca, mal conseguia ficar de pé, muito menos lutar por minha vida, quando ela me guiava para a varanda.
— A pobre senhora Rahner estava tão deprimida, presa na sua torre de cristal, que se matou – anuncia com um tom de falso pesar.
Era isso, ela iria me jogar lá embaixo, simulando um suicídio e, depois, da discussão de ontem, talvez, Victor acreditasse. Tentei reagir, juntei todas as minhas forças, porém, Teresa havia me dopado com uma dose pequena, para que não lutasse, mas conseguisse me mover.
— Ontem à noite, confrontei Alex, então ele riu na minha cara, disse que você estava grávida, que o plano estava dando certo, que não precisava mais de mim. Ele me descartou como lixo. Eu sabia, ele só ama àquela irmã dele, aquela relação incestuosa.
Não conseguia falar, nem reagir, enquanto chegávamos a varanda, sabia que iria morrer, era só nos aproximarmos do guarda-peito e ela me empurraria dali, contudo em uma última tentativa desesperada, puxei o meu braço com todo o restante de força que eu tinha e, por um segundo, ela me soltou e cai no chão como uma pedra, esforcei-me para me arrastar, me proteger, mas ela agarrou as minhas pernas, bati minha testa no piso e fiquei mais tonta ainda, a visão completamente embaçada, só enxergada sombras, como se tivesse sob a água. Esperei o desfecho, ela me segurando e me empurrando para o espaço, flutuaria por um breve instante até colidir com o chão.
Naquele momento, ao longe, ouvi gritos. Gritos de terror de uma mulher, gritos de Teresa, pedindo por clemência, suplicando, e barulhos de objetos sendo arrastados e jogados, não tinha ideia do que estava acontecendo, não conseguia pensar, minha cabeça pesava demais, mal conseguia me manter lúcida. Por fim, um longo e apavorante grito, aí veio o completo silêncio, podia ouvir minha respiração, as batidas do meu coração e mais nada, encostei o rosto no piso frio e apaguei.
Nem sei por quanto tempo fiquei ali caída, até perceber alguém movendo o meu corpo, devia estar morta, era como estivesse soterrada, os sons chegavam a mim, sem sentido, me desconecto mais uma vez do mundo.
Acordo lentamente, mal consigo abrir os olhos, levo a mão, a minha testa dolorida, gemo, alguém me impede de prosseguir. Viro a cabeça lentamente e vejo Monique ao meu lado, segurando minha mão com carinho, sua expressão é tensa, junto a ela está meu marido, com ar preocupado.
— Você escapou de uma boa – Monique fala com suavidade, coloco a mão na barriga. – O bebê está bem – responde à pergunta não feita.
— O que aconteceu? – murmurei.
— Falaremos sobre isso depois. Agora, você precisa descansar – Victor determina.
Quero me rebelar, quero entender porque não morri, contudo, meus olhos pesam de modo incontrolável, volto a dormir.
Não sei por quanto tempo estive adormecida, mas ao abrir meus olhos, encontro meu marido sentado na poltrona ao lado da cama, cochilando, reparo como está abatido, com olheiras escuras sob os olhos, a barba despontando.
— Victor! – Eu o chamo mais alto do que consigo, minha voz é quase um sussurro, mesmo assim ele acorda e em um pulo está ao meu lado.
— Como se sente?
— Estranha. Por que não estou morta? — Ele não entende a minha pergunta. – Teresa ia me matar, estava drogada, não conseguia reagir, mas me lembro de ela me puxando até a varanda, querendo simular um suicídio.
— Então, foi isso que aconteceu? Mas, por que ela queria matá-la?
— Porque ela queria ser a nova senhora Rahner, ela era uma das garotas sondadas por Alex para ser sua esposa. Mas, consegui escapar e cai no chão, acho que bati com a cabeça, desmaie, não me lembro de mais nada. Onde está Teresa? Ela conseguiu fugir?
Victor me encarou por algum tempo.
— Teresa está morta.
— Morta? Mas, como?
— Ela caiu da varanda. A polícia estava considerando a hipótese que você a encontrou roubando, pois, várias joias suas e minha foram encontradas na casa dela. Vocês lutaram e ela caiu, mas não estavam entendendo como pode reagir, pois havia uma considerável quantidade de sedativo no seu sangue, o suficiente para atordoá-la, sem que perdesse os sentidos. Sendo assim, acha que ela deve ter escorregado e caído.
— Ou ela se atirou de lá de cima. Talvez, fugindo – pensei alto.
— Fugindo de quê?
— De Mariane.
Ele me encarou abismado, ao certo, cogitando que eu devia estar delirando por achar que fui salva por um fantasma, depois de tudo que aconteceu.
— O importante que vocês estão bem – conclui.
Alguns dias depois, estou de volta a torre de Cristal, pelo menos, por algum tempo, pois não quero mais morar, nem tão pouco, criar meu filho naquele lugar. Minha relação com Victor ainda está estranha, mas concordei em continuarmos morando juntos, com certas restrições, principalmente, quanto a amizade dele com Alex. Por enquanto, meu marido tenta me reconquistar, ele precisa de mim, para manter o controle da sua empresa.
Com certeza, Alex me subestimou quando me escolheu para ser a futura senhora Rahner, achando que por ser suburbana, pobre e sozinha, seria estúpida e facilmente manipulável, mas provei que ele estava muito enganado.
Como estava enganada em relação a Vanessa, pois achei que ela era que queria me ferir. Mas, depois, de tudo que aconteceu, continuamos amigas. Ela não trabalha mais para a senhora Valdez, conseguiu um estágio em um bom escritório de advocacia e está se dando muito bem.
Nunca mais sonhei com meu anjo de guarda, Mariane. Quem sabe, considerou sua missão cumprida, eu a ajudei lhe devolvendo a luz, em troca ela me ajudou salvando a minha vida.
Nesse momento, estou sendo penteada e maquiada, meu lindo vestido de noite está pendurado atrás de mim, minhas belas joias cintilam sobre o aparador, prontos para comemorarmos o nosso primeiro ano de casamento ao lado dos nossos amigos, olho para a cidade iluminada aos meus pés, eu mereço estar aqui.
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